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terça-feira, 30 de junho de 2015

PAS488. Um tiro na noite escura

— Não sejas criança — sorriu-se Farley. — Eu próprio me sentirei mais tranquilo sabendo-te em lugar seguro.
— É verdade tudo isso que me dizes? — perguntou ela levantando para ele o rosto.
— Nunca falei tanto a sério. Creio que seria muito penoso para mim separar-me de ti — murmurou. — Temos passado momentos difíceis e jamais poderei abandonar-te.
Margarida permaneceu uns instantes silenciosa.
— Importas-te se te perguntar uma coisa? — inquiriu em tom travesso.
— Nunca poderás incomodar-me.
— Neste caso... Existe alguma mulher na tua vida?
— Nenhuma — respondeu Farley, sem titubear.
Então, num repentino impulso, Margarida deitou-lhe os braços ao pescoço.
— Oh! Donald! =exclamou. — Que feliz me torna saber que posso ser a primeira!
Farley ficou imóvel, surpreendido com a repentina reação da rapariga. Mas esta aproximava já o seu rosto e oferecia-lhe os lábios com tão cândida sugestão, que Farley não foi capaz de resistir a provar a doçura do beijo, que estremecia como a gota de orvalho no cálice de uma rosa de fogo.
Durante uns instantes permaneceram estreitamente enlaçados. Depois, como se se apercebesse da sua fraqueza, Farley afrouxou a pressão dos seus braços e Margarida deixou resvalar a cabeça até apoiá-la no peito do americano.
Farley passou a mão por aquele cabelo brilhante e sedoso, acariciando a cabeça de Margarida com um sentimento de profunda veneração e carinho.
— Amo-te — murmurou ela, baixinho. — Nunca pude imaginar que o amor proporcionasse uma felicidade tão grande...
Farley continuava calado. O seu espírito sentia-se igualmente perturbado, mas à doce sensação que o amor de Margarida lhe causava unia-se um sentimento de vergonha e confusão.
De repente, de um ponto situado um pouco acima do rio, partiu o estampido de um tiro, e um grito penetrante rasgou o silêncio da noite.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

PAS487. Margarida em perigo

Não oferecia dúvida alguma de que um grupo de cavaleiros se aproximava. O bater dos cascos num solo pedregoso era bastante percetível para poder duvidar da sua procedência.
Num repente, Farley suspeitou de que o objetivo dos que chegavam era precisamente o local onde ele se abrigara a descansar. Se o encontrassem ali corria um grave risco, quer se tratasse dos partidários de um bando ou do outro.
Saiu do refúgio das árvores e correu para a ladeira da montanha. Os penhascos ofereciam-lhe urna relativa segurança, embora neles estivesse oculto dos olhares dos que atravessavam o vale.
Olhou pela última vez para a casa, mas não viu a rapariga voltar. Pelo menos, a ela nada fariam. Logo que observasse o seu regresso, chamaria a sua atenção para que fosse ter com ele e abandonassem sem mais demoras aquelas paragens.
Ocultou-se atrás de uns pedregulhos e espreitou por uma abertura que ficava entre eles. Pelo lido oposto do vale e exatamente no mesmo lugar que meia hora antes tinha percorrido, uma dúzia de cavaleiros militares acabava de fazer a sua aparição. Passaram a grande velocidade e só refrearam a marcha das montadas quando alcançaram o grupo de acácias. Então, em lugar de se deterem, continuaram em direção à casa.
Farley experimentou uma súbita inquietação. Seguiu o grupo com o olhar e viu-o deter-se diante da cerca. Os soldados desmontaram e penetraram na fazenda.

domingo, 28 de junho de 2015

PAS486. Que fazer quando os amigos nos avisam?

Em qualquer sítio do andar térreo, um relógio de parede fez soar, lentas e sonoras, as doze badaladas da meia-noite. Todos pareciam dormir no rancho. Uma quietude profunda o envolvia.
Farley continuava sem se deitar. Passeava de um para o outro lado no quarto e, a espaços, a sua figura recortava-se no fundo luminoso da janela.
Fumava cigarros atrás de cigarros, pensando no enigma que se encerrava nos muros da casa que se lhe havia oferecido para alojamento. Alguém dela estava relacionado com Os homens que traficavam com as forças rebeldes do mexicano Vélez. Seria a bela e enigmática Guadalupe, a filha mais velha de D. António, ou talvez fosse a doce e sonhadora Alice quem se tinha apoderado do lenço para evitar ser descoberta a sua cumplicidade com os contrabandistas? Tão-pouco cabia excluir o próprio dono da casa ou o mais insignificante dos seus fiéis servidores.
Farley sentia-se intrigado e o sono tinha-lhe fugido da mente atarefada em descobrir a relação que poderia existir entre uns factos aparentemente transcendentes.
Naquele momento algo vibrou na noite calma, e urna pancada seca soou com a violência de um choque de bala.
Farley voltou-se bruscamente. No caixilho da janela aparecia cravada uma flecha. A sua inclinação mostrava que tinha sido disparada de um ponto próximo das cavalariças.
Intrigado, Farley foi até à janela e arrancou a flecha. Os seus olhos descobriram num instante um papel enrolado e atado com um cordel. Desdobrou-o e leu apressadamente as breves linhas que continha:
 
«Amigo Farley:
Farás melhor em seguir o teu caminho e procurares o rastro de Steve Keller. Este é um jogo que pode tornar-se perigoso. Um leal aviso do teu amigo
Sam Pecker».
Pela segunda vez Farley leu a missiva. Depois amarrotou a mensagem e todo o seu corpo tremeu de indignação.
Porque acabava de reconhecer naquelas linhas os traços da escrita do seu antigo companheiro Pecker.

sábado, 27 de junho de 2015

PAS485. O mistério do lenço desaparecido

Foi pouco antes do jantar que Farley conheceu as duas filhas de D. António. Guadalupe, a mais velha, era uma linda mulher, de olhos verdes e cablo muito negro. As suas feições revelavam a ascendência da raça, tendo em conta que D. António tinha contraído matrimónio com uma americana, mas o espírito decidido tinha-o herdado do pai. Alice, pelo contrário, era loira e de olhos azuis. Aparentava um temperamento doce e sonhador, mas Farley cedo se apercebeu de que era tudo precisamente ao contrário. Irritava-se com frequência e disputava até com a irmã. Ambas deram mostra de uma desmedida curiosidade ao saber da presença de Farley na fazenda. Encheram-no de perguntas e desfizeram-se em amabilidades por lhe tornar agradável a sua presença ali.
Farley, observando-as, deixava que uma ideia se infiltrasse no seu cérebro. Seria, acaso, uma das duas irmãs a dona do lenço escarlate que servira de isca para o atrair à cilada, junto ao rio? E ocorreu-lhe a ideia de que mostrando-o e referindo a sua história talvez pudesse descobrir, pelas suas reações, se alguma delas se havia cruzado com ele antes da sua chegada ao rancho.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PAS484. Encontro com um lenço perfumado de mulher

O rio corria preguiçosamente mais à esquerda, por um terreno pantanoso povoado de juncos, através do qual era com dificuldade que se passava, motivo por que Farley tinha escolhido o caminho do interior, mais firme e menos exposto a emboscadas.
À saída do desfiladeiro iniciava-se um pequeno bosque de acácias. Farley deteve-se, olhando para a direita e para a esquerda, para melhor avaliar as possibilidades que os dois caminhos lhe ofereciam.
E foi então, que o seu olhar descobriu algo que o fez franzir o sobrolho. Dos lábios escapou-se um ligeiro assobio de assombro. Depois, obrigou o cavalo a virar para a esquerda, sem pressas.
A umas quinze jardas, no centro da vereda, havia um objeto de cor vermelha. Era um lenço, conforme pôde averiguar quando se aproximou; um lenço de seda que pertenceria, certamente, a uma mulher.
Farley desmontou e aproximou-se do lugar onde parecia estar abandonado aquele objeto. Agachou-para o apanhar e agarrou-o com um incontido sentimento de receio.
Tratava-se, com efeito, de um finíssimo lenço de seda, dos que as mulheres costumam colocar em redor do pescoço e lhes cobre uma parte dos ombros. Era de cor «grenat» e salpicado de uma infinidade de bolas brancas e, ao aproximá-lo do rosto, Farley aspirou um finíssimo perfume de jasmim que parecia desprender-se das suas pregas.
Farley tratou de imaginar a mulher a quem ele pertenceria, mas não teve tempo de o fazer. O seco estampido de um tiro de espingarda quebrou, com o seu aviso de morte, a agradável quietude do ambiente.
 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

BIS082. Rio Grande

 


 
Uma revolução estalou no México e logo, do lado americano, se organizou o tráfico de armas de que os revoltosos careciam. Um guarda rural foi encarregado de deter os responsáveis pelo tráfico e chegou às margens do Rio Grande(1). Uma emboscada pô-lo nas mãos dos revoltosos onde conheceu uma menina, a belíssima Margarita, irmã de um cabecilha destes, que passou a acompanhá-lo num conjunto de peripécias onde a galhardia mexicana se misturou com a traição e a mentira.
R. C. Lindsmall, com doze registos em Portugal entre 1959 e 1965, traz-nos um livro onde o inesperado acontece permanentemente.
A capa, não assinada, mostra o agente rural em fuga para o lado americano sob o olhar de perseguidores mexicanos.