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terça-feira, 15 de março de 2016

PAS601. Assim morre um pistoleiro

Uma chama interior de redenção brilhou nos olhos de Adam Neumann. O arreigado sentimento que ardia no íntimo do seu peito impeliu-o decididamente para a frente, para aparar as balas que vinham já ao seu encontro, saídas do revólver de Brandwist.
Estremeceu, cambaleante, como se, de repente, tivesse tropeçado numa barreira invisível. Uma barreira de chumbo que se lhe cravou em pleno peito.
Mordendo os lábios para suavizar a dor, Neumann apertou o gatilho, possuído de uma raiva infinita, e disparou. Brandwist caiu.
Continuou disparando.
Uma rajada de tiros, em leque, terrivelmente certeiros liquidaram prontamente Thagge, Printex e Worthig que viu ainda vagamente cair, através das névoas que lhe cobriam os olhos.
Quando se deixou cair, primeiro de joelhos e depois de cara para baixo, pôde ainda dirigir um último olhar a Katie Parkington.
— Adam! Adam!
Aquele grito lancinante da jovem foi a última coisa que ouviu. Um grito que, mais do que um clamor de aflição, foi uma prece de amor.
Foi a amorosa súplica de perdão para um homem mau... que o não foi na verdadeira aceção da palavra.

segunda-feira, 14 de março de 2016

PAS600. Cinco homens mal trajados

A rua principal de Valongo estava deserta e adormecida, como abochornada pelo calor.
Um cão vagabundo que fossava num monturo fugiu correndo, de rabo entre as pernas quando o grupo de cavaleiros fez a sua entrada na rua.
Eram cinco homens.
Cinco cavaleiros mal trajados, barbudos, cobertos d pó da longa caminhada... e todos bem armados.
Um estremecimento percorreu os habitantes da cidade que obrigados à sombra dos alpendres ou através das reixas das janelas contemplavam a entrada da estranha comitiva.
Juntamente com aqueles homens cavalgava também a morte...
Sombrios e receosos, os cavaleiros avançavam em fila indiana até ao centro da povoação.
O que capitaneava o grupo, sem dúvida o mais velho de todos, parecia estudar cautelosamente o terreno, enquanto os companheiros se limitavam a cavalgar atrás dele com as mãos próximas das coronhas das armas, detendo-se finalmente, junto do «Casino dos Ganadeiros».
Desmontaram.
Sem quaisquer pressas, os homens amarraram as suas montadas à trave de madeira e, depois de deitarem mais uma olhadela em seu redor, entraram no «saloon» fazendo soar estrondosamente as suas esporas texanas.
Um homenzinho vestido de negro que se encontrava à porta do seu estabelecimento e que servia simultaneamente de barbearia e de agência funerária, disse em voz alta:
— Hum! Está a parecer-me que o dia de hoje me vai dar muito que fazer...

domingo, 13 de março de 2016

PAS599. A «pinhata»

Umas após outras, Adam Neumann e Katie Parkington dançaram ininterruptamente uma série de bailados, ante a estupefação e a expectativa das beldades presentes que, ao seu enorme espanto, aliavam a sua pontinha de inveja.
Formavam, sem dúvida, um bonito par.
Um par a princípio tímido e receoso mas que, à medida que o tempo decorria se foi animando e tornando tão íntimo que o diálogo travado entre os dois dava a impressão de que se tratava de pessoas de grande intimidade.
Chegado o intervalo, o homem que tocava a trompete lançou no espaço uma vibrante harmonia que foi entusiasticamente aplaudida e acompanhada em coro pelos assistentes.
— Oh! É a «pinhata» -- exclamou Katie com o maior entusiasmo.
— A «pinhata»? — replicou Neumann. — Que diabo significa isso, Katie?
A jovem apercebeu-se de que, pela primeira vez, o forasteiro a tratava pelo seu nome. Uma alegria luminosa brilhou nos seus olhos.
— Vai já ver, Adam; é um velho costume nosso. Em determinado momento interrompe-se o baile para que as crianças possam tomar parte no jogo da «pinhata» e...
— E que mais ?...
— Bem, a segunda parte diz respeito aos mais crescidos.
-- Os adultos também brincam com a «pinhata»?
— Ah! Não! Os de maior idade não necessitam de quebrar a panela de barro para ir procurar as suas prendas. Todos os homens as trazem consigo nas algibeiras... para as oferecer às damas com quem dançam.
— Compreendo. Um presente...
Katie fez-se muito vermelha.
— Bem, no seu caso... Como o senhor é forasteiro... Não conhece os usos e costumes da terra e, portanto... não está obrigado a coisa alguma, sabe?
Neumann passou a mão pelo queixo, olhou à sua volta e vendo que todos os cavalheiros brindavam as damas com os seus presentes, exclamou:
— E porque não? Eu também trago comigo uma prenda para si, Katie.
— Está a falar a sério?
— O mais sério possível.
O rosto da jovem iluminou-se.
Com a maior seriedade, Neumann tirou do bolso o estojo que continha o bracelete de brilhantes que ganhara na noite anterior na partida de «poker», e estendeu-o à jovem.
— A verdade é que não se trata de um brinde, Katie — disse ele. — Isto... é pertença sua, não é?
Katie Parkington ficou perturbada ao contemplar a joia. Alternadamente, com a maior surpresa, os seus olhos olhavam ora para a refulgente joia, ora para o grave rosto de Neumann.
— É... o bracelete de minha mãe — disse um tanto confusa. — Como é que isto se encontra em seu poder, senhor Neumann?
Neumann reparou que Katie tinha empregado a palavra «senhor» com uma entoação acentuadamente negativa para as suas nascentes relações.
— Foi alguém que a arriscou numa aposta, durante uma partida de «poker», e eu tive a sorte de a ganhar — retorquiu Neumann, evitando pronunciar o nome de John Parkington.
— Uma aposta de «poker»! Quer dizer que John... Não é possível!...
A voz de Katie baixou de tom, ao mesmo tempo que os seus belos olhos se arrasavam de lágrimas.
Foi apenas um instante.
— Foi meu irmão... foi John quem fez a aposta, não foi ? Desceu ao ponto de se utilizar das joias de minha mãe numa coisa tão baixa como um jogo de cartas!
Neumann sentiu-se impressionado pela profunda dor manifestada pela jovem. Era evidente que esse tal John era um irmão indigno...
— Não se aflija, Katie. Pode restituí-la quando quiser. Compreende?
Katie mordeu os lábios. Estava intensamente pálida.
Mas disse com a maior firmeza:
— Bem haja, senhor Neumann. O senhor não pode avaliar o que isto significa para mim.
Adam Neumann sorriu-se.
— Bem, não tem nada que agradecer-me, Katie — disse ele, pegando-lhe ternamente numa das mãos. — O bracelete é seu; e eu ofereço-lhe em troca de...
Da palidez intensa que mostrava, Katie Parkington passou para um vermelho de fogo.
— Pretende impor-me condições, senhor Neumann? — disse a jovem em tom brusco.
— E porque não? Acabo de descobrir que tem o bracelete em tanta estimação que bem posso arriscar-me a pedir-lhe que...
-- Ah! não! Tome, guarde a «sua» jóia — disse a jovem, interrompendo-o com rudeza.
Urna ligeira tremura de angústia sacudiu a encolerizada voz de Katie, quando acrescentou:
— O senhor não passa de um miserável. Um homem sem escrúpulos. Eu... nunca esperei isto de si. Nunca o esperei. Jamais me convenci que viria a receber um semelhante ultraje da sua parte!
Neumann ficou como pregado no solo, olhando estupefacto para a mulher.
Quando lhe foi possível reagir, murmurou desajeitadamente:
-- Mas... estou vendo que me não compreende, Katie! Eu nunca poderia ofendê-la... ainda que o quisesse.
Katie, porém, não o escutava.
Muito direita, muito digna, a jovem afastava-se rapidamente por entre os pares que ocupavam o salão, em direção a um grupo de pessoas entre as quais se encontrava o velho Stefan Parkington, juntamente com o xerife e outros cavalheiros.

sábado, 12 de março de 2016

PAS598. Convite para dançar

Irresistivelmente atraído pelo buliçoso ambiente, Neumann esqueceu-se, por momentos, do assunto que ali levara e sentindo um frémito de entusiasmo percorre -lhe todo o corpo, e que os seus pés começavam a pular-lhe para a dança, procurou com os olhos uma moça galante para seu par.
Katie Parkington.
Era de presumir que ela estivesse na festa. Encontrava-se ali toda a gente. Nem um único habitante de Valongo ou dos arredores faltaria a uma festa da Câmara,
Katie!
Descobriu-a finalmente rindo num grupo de lindas raparigas, entre as quais a sua deslumbrante beleza sobressaia de forma extraordinária.
Katie Parkington também já o lobrigara a ele.
Para melhor dizer, desde que o forasteiro dera entrada no baile, Katie nem por um momento o perdera de vista. Apesar disso, quando se apercebeu de que Neumann a tinha descoberto e se dirigia ao seu encontro, fez de contas que o não tinha visto e procurou fazer-se desentendida...
Ao chegar junto do grupo das raparigas, Neumann descobriu-se, sorrindo timidamente.
— Muito boas noites — disse ele com um delicado acento de cortesia. — Como passa de saúde a menina Parkington?
Katie voltou-se, entre curiosa e surpreendida.
 — Como vê...
Adam Neumann sentiu-se parvo; estupidamente parvo.
Os olhos de todas as raparigas presentes estavam travados nele e os de Katie Parkington brilhavam com requintada malícia.
— Passo bem, senhor... como disse que é o seu nome ?
A pergunta tornou-o ainda mais nervoso do que já se encontrava.
Por fim, conseguiu dizer:
– Neumann. Adam Neumann.
 — Muito bem, senhor Neumann. Que o trouxe por aqui ?
— Bem... vim... vim apenas pedir desculpas pelo meu procedimento de ontem.
O trabalho que teve para dizer aquilo sem que a língua lie lhe entaramelasse... Só ele é que o sabia.
Katie sorriu-se. Sorriu-se com aquele riso feiticeiro que unicamente as mulheres bonitas sabem dirigir aos homens de quem gostam.
— Não era necessário. Não me apresentou as suas desculpas, ontem mesmo?
— Bem. Pensei... que estivesse ainda aborrecida comigo.
— Aborrecida! Porquê? Não foi o senhor, depois disso, tão amável?
Neumann não respondeu. Limitou-se a olhar imbecil-mente para a jovem como se não a tivesse diante de si.
Katie trocou um olhar com as suas amigas, algumas das quais se riram discretamente.
— Bem sei que fui muito rude e violento mas não me foi possível evitá-lo — sussurrou Neumann, como se estivesse falando consigo mesmo. — Fi-la cair, e...
Katie aproximou-se ainda mais do forasteiro e audaciosamente, colocou-lhe uma das suas delicadas mãos sobre um braço.
— Oiça, senhor Neumann: não será melhor que o senhor se esqueça de tudo isso e trate de se divertir? Não gosta do baile ?
Estava tão próxima dele que se sentiu embriagado com o perfume que dela se evolava.
— Como... como diz?...
— Estava convencida que tinha vindo aqui para se divertir, ou estarei enganada?
Neumann amaldiçoava-se mil vezes pelo seu acanhamento. Era verdadeiramente espantoso o que os olhos de uma mulher bonita podiam fazer a um homem. Ele que nunca vacilara diante de nada... nem diante de ninguém...
Mordeu os lábios. Se ao menos lhe fosse possível dizer «adeus» e escapulir-se para longe daquela endiabradamente lindíssima mulher!...
Não. Não queria ir-se embora. Na verdade estava ansioso para a convidar a dançar; por senti-la entre os seus braços... nem que fosse apenas um instante e dizer--lhe que...
Os seus olhos encontraram-se.
Katie deixou de sorrir. O olhar do forasteiro tornara-se repentinamente firme, sereno e perturbadoramente varonil. Percorreu toda a sua silhueta com os olhos ávidos desde o gracioso chapelinho até à extremidade dos elegantes sapatinhos, de um modo que fez estremecer e bater descompassadamente o pequenino coração da jovem.
— Pelo que vejo, também veio divertir-se, não é verdade, menina Katie?
Katie teve um instante de hesitação.
— Pois vim... Porque pergunta isso?
— É seu hábito andar acompanhada de um grupo de amigas com intriguinhas e bisbilhotices?
— Insolente!!
— Não seria preferível que se entretivessem apenas a dançar e a tornar a festa mais alegre, com esse belo palminho de cara que Deus lhes deu?
Katie olhou para Neumann com infinita surpresa.
— Afinal o senhor é tão grosseiro como qualquer pacóvio da província!
Neumann sorriu-se.
— Que outra coisa esperava de mim?
— Esperava simplesmente que fosse... um homem!
— Perdão! Um momento! Se não se tratasse de quem se trata, acredite que viria a lamentar ter dito o que disse. Como se trata de uma mulher... e, sobretudo, de uma mulher bonita, farei de contas que não ouvi nada...
Amedrontada perante o olhar daquele homem, Katie recuou, refugiando-se entre as suas amigas que, por sua vez, não estavam a achar a conversa divertida. Sentiam-se verdadeiramente desconcertadas pela súbita transformação operada naquele forasteiro que, em escassos segundos, pareceu agigantar-se de forma inverosímil.
Katie, entretanto, tratou de recuperar a serenidade.
— Oiça: se está convencido de que tem muita graça...
Neumann voltou a sorrir-se.
— Não olhe para mim dessa maneira. A única coisa que eu pretendo é que venha dançar comigo.
Katie purpureou-se.
— Como? Quer que eu...
— Sim.
Tentou recuar um passo mas Neumann deteve-a por um braço.
— Não vai dizer-me que não, não é verdade?...
— Mas...
— É verdade que vai dançar comigo, não é ? — disse aquelas palavras de uma forma tão estranha e ao mesmo tempo tão persuasiva...
Levantou rapidamente o braço livre, enlaçou-a pela cintura e atraiu-a a si, cravando os seus olhos ardentes nos olhos dela.
— Vamos?...
Todas as mulheres têm um limite de resistência.
Katie... era mulher.
— S…i…m..
 

sexta-feira, 11 de março de 2016

PAS597. A timidez do moscardo

A noite começava a cair.
Adam Neumann contemplou o céu e o horizonte. Dentro de alguns instantes seria noite cerrada. A noite descia de modo muito estranho no Novo México. Nem um simples crepúsculo. Que diferença das noites do Texas!
Deu um profundo suspiro: Texas!
Bendito Deus! O belo e selvagem espetáculo do pôr-do-sol no Texas!...
As luzes acabavam de ser acesas em toda a cidade.
Músicas para todos os gostos faziam-se ouvir nos pianos de todos os concorridos estabelecimentos que enchiam aquela rua. Apesar de ser ainda bastante cedo, vaqueiros começavam já a divertir-se à grande.
Grande número de homens circulava pelas ruas, dirigindo-se para os «saloons» e casas de jogo.
Estranhando grandemente não ter visto Tommy, o forasteiro encaminhou-se vagarosamente para o «Casino dos Ganadeiros» cujo alpendre, iluminado por grandes lanternas de metal, o tornava inconfundível.
O gerente do hotel informara-o de que a mais importante das casas de jogo de toda a cidade era, sem dúvida, «Casino dos Ganadeiros». Segundo lhe dissera, qualquer pessoa que soubesse manejar as cartas, podia enriquecer facilmente, durante uma noite.
Adam Neumann desceu a rua pelo lado esquerdo. Tocando-lhe com o cotovelo, uma mulher surgida de uma das azinhagas transversais desatou a rir-se para ele.
O forasteiro esboçou um frio sorriso e atravessou a rua, afastando-se da pobre rapariga que se apressou a regressar ao seu cubículo.
Uma escassa dezena de metros o separava agora do «Casino dos Ganadeiros», cujas janelas se encontravam todas abertas. O interior da casa regurgitava de gente. A voz do «croupier» gritava nesse momento:
— Par e vermelho! Façam o seu jogo!
Ao seu lado, junto do passeio e em frente de um armazém contíguo ao casino, estacionava uma elegante carruagem em cuja boleia dormitava um mexicano.
Subitamente, alguém que, sem dúvida, estava com muita pressa, saiu do armazém como um furacão. Adam Neumann mal teve tempo de se aperceber do que se passava. Quando pretendeu consegui-lo, o apressado cliente do armazém chocou com ele com tal violência que o obrigou a recuar um passo, cambaleando.
Ouviu-se um grito no meio de toda aquela confusão e um «oh!», vivo e estridente, seguido do baque surdo de qualquer coisa que caía nas tábuas do passeio.
Neumann, que levara instintivamente a mão à coronha do revólver, apressou-se a retirá-la como envergonhado, ficando-se a olhar para a pessoa que acabar de tropeçar com ele e que jazia agora estatelada no solo, no meio de um amontoado de pacotes, de saquinhos e d urna graciosa e bonita chapeleira.
— Bruto! Selvagem!
Poucas vezes, durante toda a sua vida, ouvira palavra mais agressivas da boca de uma mulher.
E que mulher!
Absorto, completamente aparvalhado com aquela beleza feminina, Neumann quedou-se imóvel, contemplando boquiaberto aquela rapariga encantadora que, a despeito do forte encontrão que lhe dera, se encontrava ali estendida no passeio.
— Não tem olhos nessa cara?... Ao menos podia ter pedido desculpa.
Fora a deliciosa voz da jovem que soltou aqueles desabafos, depois de esperar algum tempo que lhe estendessem a mão.
Adam Neumann franziu as fartas sobrancelhas e olho com a maior firmeza para a jovem, sem arredar um passo nem despregar os lábios.
Que maravilhosa criatura!!
Que feições tão delicadas e atraentes!!
E que olhos!!
Como seria possível descrever aqueles olhos grandes e luminosos que estavam cravados nos seus?
Seria fácil compará-los com dois belos lagos sombreados pela verde folhagem dos abetos; com a cálida serenidade de urna noite primaveril; com... com...
A jovem apenas exclamou:
— Bruto!
Levantou-se sem qualquer auxilio, colocou o pequenino chapéu na cabeça e, depois de sacudir a barra da saia, começou a apanhar apressadamente os volumes espalhados.
Concluída a tarefa, endireitou-se com a maior dignidade e encaminhou-se para a carruagem onde o velho mexicano continuava dormitando.
— Eh, lá! Espere um instante.
Neumann alcançou a jovem numa passada.
Detendo-se bruscamente, mediu o homem de alto a baixo com a maior altivez.
— Olhe que se esquece disto... deste volume... -- balbuciou Neumann, estendendo-lhe a chapeleira.
Descobriu-se um tanto atabalhoadamente, acrescentando com a maior timidez:
— Peço que me perdoe... fui um pouco rude. Eu...
Não lhe foi possível continuar. Fez-se-lhe um autêntico nó na garganta, como se estivesse engasgado com uma noz.
A formosa jovem amenizou a expressão do rosto. Alguma coisa devia ter adivinhado no fundo dos olhos daquele afogueado rosto porque um leve sorriso lhe aflorou aos lábios.
— Até que enfim! Cheguei a convencer-me de que perdera a fala!
Disse aquilo com uma naturalidade tal que a atrapalhação de Neumann subiu de ponto.
Abriu os lábios mas não foi capaz de exteriorizar as palavras que estava dizendo a si próprio. Não pôde fazer mais do que engolir em seco.
— Bem! Se não for demasiado incómodo, cavalheiro, poderia colocar-me esse volume junto dos outros?
Neumann conseguiu desempenhar-se tremulamente da incumbência, balbuciando:
— Há-de perdoar-me aquele estúpido encontrão. Não sei como...
O sorriso da jovem tornou-se mais aberto. Mais cordial e mais condescendente.
— Talvez a culpa tivesse sido toda minha... — e lançando-lhe um olhar que lhe penetrou até ao mais íntimo do coração, subiu agilmente para a carruagem depois de ter colocado os embrulhos na parte de trás.
Dirigindo-se ao cocheiro, disse a jovem quase num sussurro:
— Vês aquele homem?
O mexicano dirigiu a Neumann um olhar agressivo, ao mesmo tempo que lançava mão do velho pistolão que trazia na cinta.
— Acaso lhe faltou ao respeito?
— Nem por sombras. Sabes, porventura, quem ele seja?
O velho cuspiu a bola de tabaco que estava mascando e respondeu:
— Não faço a mínima ideia. Porquê?
— Deve tratar-se de algum forasteiro.
— Ou talvez de um qualquer desses vaqueiros...
— Não tem aspeto disso.
— Talvez seja algum rufião.
— Também não me parece.
— O melhor é não se fiar no aspeto dos homens...
— Ê um homem.., muito gentil.
— Como? Que é que disse? — O velho olhou para a jovem em ar de censura.
A jovem soltou um riso cristalino.
— Pronto, Pancho! Vamos para casa.
— Sim, menina.
Muito tempo depois de a carruagem ter desaparecido, ainda Adam Neumann permanecia imóvel à beira do passeio, virando-se e revirando o chapéu entre as mãos.
Estava como extasiado, hipnotizado pela beleza daquela lindíssima rapariga. Jamais conhecera mulher que se lhe pudesse comparar.
— Chama-se Katie Parkington. A rainha do Vado.
Neumann voltou-se, sobressaltado, ao ouvir pronunciar aquelas palavras junto de si. Era Tommy.
Ah! És tu? Diz-me cá, grande patife, onde diabo é que tens estado metido?
O gaiato sorriu-se, piscando os olhos ironicamente.
— Tenho andado por aí. Nunca me convenci de que pudesse precisar de mim.
Neumann puxou-lhe por uma orelha com toda a força.
— Maroto!
Mas, logo, sorrindo, sussurrou em tom confidencial:
— Sabes, deveras, quem ela é?
— Nem mais nem menos do que a filha de Stefan Parkington. Um homem muito rico a quem pertencem todas as pastagens ao sul do vale e de todos os demais que existem desde aqui até às montanhas. Além desta filha tem também um rapaz, de nome John que anda sempre metido em sarilhos.
— Não há dúvida nenhuma. És um autêntico livro aberto, meu caro Tommy.
— Eu já tinha dito que podia ser-lhe muito útil, senhor Neumann — disse Tommy, sorrindo-se e acrescentando: — Sabe? A menina Katie ainda não tem noivo embora tenha muitos pretendentes.
— É muito natural.
— O pai dela corre com os moscardos para longe. Ainda nenhum lhe pareceu suficientemente bom para ela.
— Faz ele muito bem.
-- Não sei se faz — disse o mancebo. — Uma menina tão linda como ela é, merece ter um belo rapaz para defender as suas cores no «Rodeo»...
— Que queres dizer com isso?
— Quero dizer que é uma pena não ter aparecido até agora quem entre nos concursos a bater-se em defesa de tão linda donzela.
— Como é que isso é possível? Quer dizer: é costume ir um «cow-boy» ao «Rodeo», defender as cores da bandeira de uma senhora?
— Já se vê que é esse o costume. Mas só é permitido fazê-lo ao seu próprio noivo.
— Só assim?
— Bem; também pode ser feito pelo seu pretendente, se ela o aceitar para seu campeão.
— Ah!
Andando e conversando acabaram por chegar à porta do «Casino dos Ganadeiros».
Olhando de través para o seu interlocutor, Tommy, perguntou:
— Pensa solicitar a honra de defender as cores da menina Katie, senhor Neumann?
Iludindo a pergunta formulada, Neumann objetou:
— Nem um pio. Agora vou ali dentro ver se arrisco algum dinheiro ao póquer.
— Pois que seja muito feliz, senhor Neumann.
— Ao jogo?
— As duas coisas, senhor Neumann, às duas coisas...
 

quinta-feira, 10 de março de 2016

ARZ104. A redenção do bandido

 
(Coleção Arizona, nº 104)
 
 
Chegou sózinho à cidade à procura de alguém. Em breve, todos viram que era pessoa muito especial de quem era perigoso ser inimigo. Foi-se afirmando com uma presença cada vez mais forte perante os homens e perante... ela.
Até que um dia...
"Eram cinco homens. Cinco cavaleiros mal trajados, barbudos, cobertos de pó de longa caminhada... e todos bem armados. Um estremecimento percorreu os habitantes da cidade que, abrigados à sombra dos alpendres ou através das reixas(?) das janelas contemplavam a entrada da estranha comitiva. Juntamente com aqueles homens cavalgava também a morte...". - conta S. Max.
O certo é que todos se conheciam. E tiveram a má ideia de atacar aquela que agora representava muito para ele. Não consentiu. Opôs-se de armas na mão e caiu com o corpo varado de balas, mas conseguindo salvar a mulher que amava, redimindo-se assim da sua existência como bandido.
Anthony S. Max, 11 obras registadas em Portugal, traz-nos um livro com os habituais ingredientes do Oeste mas com algumas características diferentes: o bandido que se regenera salvando a mulher dos seus sonhos.
A capa, assinada por um M. Angel para nós desconhecido, mostra um pormenor de tiroteio.