quarta-feira, 9 de março de 2022

CLT008.01 Casamento que termina em perseguição ao noivo

A mulher aproximou-se um pouco mais do homem até roçar o seu braço. Os seus olhos fitaram-no de uma forma intensa e profunda, como se quisessem atravessá-lo. 

—Estás mais formosa do que nunca! —disse ele, encostando-se ainda mais. 

O juiz tossiu. Ele estava acostumado a que todos os noivos que iam casar diante dele, trocassem olhares lânguidos e apertassem as mãos furtivamente, mas não a que se pusessem a falar e a dizer ternuras. Isso era contra a seriedade de que devia ser revestido semelhante acto. Era... — como dizer? — pouco protocolar. 

—Devem estar calados, enquanto eu realizo a cerimónia. 

— É que... queremo-nos tanto— disse ele, roçando com os seus lábios o lado direito da testa da jovem. — É tão difícil para nós estarmos juntos e não falar no nosso amor mútuo. 

— Realmente, é difícil — confirmou ela. — Deve perdoar-nos, senhor juiz. 

— Suponho que o senhor também foi jovem — disse o noivo, com um ar irónico. — Embora conte muitos anos, deve recordar-se da sua primeira noiva, com certeza. 

—Durante a minha juventude as coisas eram um pouco mais sérias, no Arizona—resmungou o juiz. —Nesse tempo seria considerado de mau gosto dizer em público palavras lamechas a uma rapariga casadoira. 

—Que dentro de poucos 'momentos será minha mulher—interrompeu o jovem. —Não é verdade, senhor juiz? 

—Pois claro... Não estamos aqui para outra coisa... 

Voltou a pigarrear, passando, à pressa, algumas folhas do livro que tinha nas mãos e depois começou a ler:

«Os deveres que as nossas Leis impõem ao marido são: cuidar de sua esposa, sustentar e olhar por seus filhos e utilizar o revólver em sua defesa, se for necessário. Quanto à esposa, deve obedecer ao marido sempre que isso seja possível, cuidar de tudo quanto a ele disser respeito, se não existir inconveniente nisso, e viver sempre ao pé dele, se não for perigoso. Depois destas observações preliminares, podemos entrar na substância do acto, para o qual nos reunimos aqui  

Ted mordeu os lábios. Sentira os olhos de Anabela fitos em si, com insistência. Então, disse em voz baixa: 

—Hoje é o dia mais feliz da minha vida, graças a ti, meu amor... 

—Eu também sou muito feliz, Ted. 

O xerife, que estava atrás dos noivos, voltou-se para os seus dois ajudantes. 

--Bem, rapazes... Não vamos ficar aqui até que se beijem. Lá para fora... Temos bastante que fazer. 

Com um forte retinir de esporas, saíram do gabinete do juiz. Os onze convidados afastaram-se, deixando a passagem livre. Eram, na sua maior parte, pessoas de idade, as mulheres vestidas como grandes damas e os homens como solenes cavaleiros. 

— Não tendo havido qualquer impedimento para o matrimónio— disse o juiz, rapidamente —dou a cerimónia por lícita e terminada. E declaro-os casados. 

E dirigiram-se para a saída, de mãos dadas. Ted não tirava a mão esquerda do bolso. Os convidados separaram-se pressurosamente em duas filas, deixando o caminho livre. 

—Estás satisfeita, Anabela? És feliz? 

— Muito, Ted! 

—Então, basta de comédias!... 

Tirou, de súbito, da algibeira a mão esquerda; entre cujos dedos apareceu um revólver, com o qual fez um suave movimento de leque. Instintivamente, todos recuaram, à exceção de Anabela: 

—Você é um miserável e um patife, Ted, John, Ralph ou corno diabo se chama... E um cobarde. Nunca uma mulher foi obrigada, sob ameaças, a representar uma comédia tão indigna. 

Nos olhos de Anabela havia um clarão estranho. Os seus dedos, sem que pudesse conter-se, tinham-se enclavinhado. 

—O xerife devia ter adivinhado que você trazia um revólver no bolso disse um dos homens, de colarinhos engomados, que parecia ser o pai da noiva. —Teria gostado de ver matarem-no aqui mesmo. 

—Agradeço a sua boa intenção—disse o jovem, fitando Anabela. — E chamo-me Ted Lambert, como lhes disse. Folgo e alegro-me ter sido seu esposo durante uns minutos, linda pequena. 

Nesse momento, ouviu-se na rua o ruído de passos pesados e o tilintar de esporas. Os homens do xerife aproximavam-se outra vez da repartição judicial, mas apressadamente. 

Ted Lambert teve a impressão de que fora tudo descoberto e de que aquilo era o fim. Com o revólver em punho, escutou. O ruído soava mais perto. 

—Maldita terra de coiotes! 

Anabela, entretanto, fitava-o com uma expressão de triunfo e, ao mesmo tempo de ódio. Era talvez a última vez que via aquele homem vivo. Agora seria capturado e algumas horas depois, pendurado no ramo mais alto de Pedra Branda. 

Com o pensamento, Anabela despediu-se dele, tendo de reconhecer que era um dos homens mais atraentes que tinha visto em toda a sua vida. E pensou, mau grado seu, que nenhuma mulher se ofenderia nem envergonharia de ser casada com ele. Era jovem, garboso e tinha uma expressão harmoniosa na fisionomia, mesmo nesse momento, quando no rosto se refletia um princípio de desespero. 

—O xerife Compton tem muito mau génio, sabe! 

Todos os assistentes avançaram um passo. Iam desarmados e Lambert sabia-o, mas se caíssem sobre ele, ao mesmo tempo, podiam reduzi-lo à impotência. 

Nesse momento angustioso, passou pela sua mente, numa rápida sucessão, a série de acontecimentos que se tinham dado poucos minutos antes, e que o haviam levado a ser declarado esposo de uma mulher tão bela, corno aquela que estava na sua frente. Recordou o belo carro, puxado por uma linda parelha de cavalos e que ele havia feito deter no caminho de Pedra Branda e o jovem, em traje de gala, que ia dentro. 

«Terá de apear-se, amigo. E mudaremos de vestuário...» 

Depois, a sala do Tribunal e o gabinete do juiz, os homens presumidos de grandes senhores de sociedade, as damas altivas que se tinham voltado para vê-lo, e as expressões estúpidas de todos ao verem o cano do seu revólver. 

«O xerife e alguns dos seus gorilas vêm atrás de mim. 

«Vamos celebrar o casamento corno se eu fosse realmente o noivo! E aí daquele que respingar ou fizer um gesto suspeito! Estarei ao pé desse «estojo de porcelana» e não tirarei a mão do revólver. Pensem bem nisto!» 

Anabela cerrava os dentes, ao ouvi-lo chamar--lhe «estojo de porcelana», mas a verdade era que, depois, se tinha comportado como uma rapariga de juízo. 

A sua alma, a sua serenidade, os seus magníficos dotes de comediante tinham contagiado todos os outros. Pouco depois, o juiz e o xerife. Ted pensara que estaria tudo perdido, se os representantes da Lei conhecessem o noivo. Veriam que não era ele e aquilo acabaria numa tragédia. 

Mas nem o juiz nem o xerife, pelo visto, conheciam o feliz mortal que havia de levar Anabela para sempre. Eram novos na localidade. 

O xerife e os seus homens, por respeito aos nubentes e para dissimular um pouco a verdadeira razão da sua chegada, permaneceram uns instantes na sala, como espectadores da cerimónia, saindo pouco depois. E agora, ao que parecia, voltavam... para ajustar contas com alguém. 

—Creio que as aventuras da sua vida chegaram ao seu termo, Ted Lambert — observou Anabela, com acento rancoroso. — Defenda-se agora do xerife e dos seus homens, se pode. 

Lambert teve um sorriso especial: simpático, mas refletindo fadiga. 

— Posso, sim! —respondeu tranquilamente. 

Foi ele mesmo quem abriu a porta. Para isso, havia metido a mão armada no bolso, de modo que o xerife, ao acercar-se dele, não viu nele nada que lhe parecesse estranho. Mas os seus agentes avançavam, atrás dele, em leque, e o seu aspeto não fazia pensar, precisamente, em nada que tivesse qualquer relação com a cerimónia matrimonial. 

— Descobrimos que foi assaltado um carro nos arredores—começou o xerife. — Como vinha dentro dele um homem, e ao que parece o seu vestuário foi trocado... 

—Não perca tempo, xerife!... De quem vem à procura? 

O representante da Lei levou as mãos às coronhas dos seus revólveres. 

—Como se chama você? 

—Ted Lambert. Acusam-me de ladrão de gado e querem pôr-me uma gravata... de corda, ao pescoço. Não é isso, xerife? 

—Isso e mais alguma coisa. Pagam quinhentos dólares pela sua cabeça. 

—Esperemos que o preço suba. 

Com um grito de raiva, o xerife moveu os braços, procurando sacar as armas. Os seus três ajudantes fizeram também o mesmo, preparando-se para a luta. Ted, porém, sem tirar a mão do bolso, fez dois tiros, e as mãos que ele considerava mais perigosas crisparam-se, atravessadas pelas balas. 

—Vamos a ele. Cerquem a casa. 

Lambert fechou a porta, com uma pancada, seca e rápida, confiando em que os pequenos projéteis de revólver não atravessariam completamente as tábuas grossas de que era feita. Com efeito, a granizada de chumbo caiu sobre a madeira da porta, ficando os projéteis cravados nela. Apenas um a atravessou, mas com tão pouca força que caiu no chão. As mulheres chiaram angustiadas, enquanto os homens formavam à roda de Ted uma agressiva muralha, de punhos fechados. 

—Peço-lhes, meus amigos. Deixem-me passar ou, então, depois da boda teremos enterro. 

Ninguém fez caso das suas palavras. Pelo contrário, dois homens fizeram o gesto de atirarem-se a ele. 

Ted disparou para o chão, e as balas cravaram-se junto dos sapatos de verniz dos dois convidados, que saltaram para trás, como se ensaiassem um novo passo de dança. Outras balas retumbaram sobre a porta, enquanto Ted saltava, na direção de uma das janelas, precipitando-se sobre as vidraças, que se escancaravam, fazendo-se os vidros em estilhaços. E Ted caiu na rua, como um novelo. 

Nesse momento, era preciso confiar nas pernas. Levantou-se de um salto, enquanto olhava para o lado esquerdo. Os ajudantes do xerife só podiam aparecer desse lado. Com efeito, um deles espreitou à esquina, para apontar o revólver. Ted disparou e o homem caiu, para o •lado, com a Clavícula atravessada, sem sequer ter tempo de levantar a arma. 

—Está ali! Vai em busca do seu cavalo. 

A voz partira da janela, por onde Ted saltara. Ted deitou a correr, arrancando com a mão toda a abotoadura da camisa e do colarinho, que o afogava. Aquilo impedia-o de respirar. Viu vários homens correrem para os alpendres, em busca das suas armas. 

—Ele dirige-se para fora da localidade. Montem os cavalos. Mas depressa. Da janela, uma voz varonil continuava a indicar a sua situação. Ted compreendeu que se corresse a descoberto, atravessá-lo-iam com alguma bala. 

Atirou-se ao chão junto da base de um dos alpendres. As tábuas tremeram, sob o choque do seu corpo, enquanto algumas balas assobiavam por cima da sua cabeça. O xerife, a uma esquina, disparava com a mão esquerda. Os tiros eram para matar. Apoiando-se apenas num braço, Ted saltou para o alpendre. Dali, numa situação de pouca estabilidade, fez fogo unicamente com o fim de assustar o xerife e obrigá-lo a proteger. Depois de conseguir o seu propósito, Ted examinou então o edifício, junto do qual se encontrava e viu, com espanto, que tinha ido parar próximo da porta da cadeia, ao lado da repartição do xerife. 

--Parece mesmo que já conhecia o caminho! — observou para si, entrincheirando-se atrás de uns sacos. 

Como havia despejado o tambor do seu revólver, era preciso tornar a carregá-lo. Com a maior calma, procurando não se precipitar, tirou algumas balas, de que o bolso direito estava cheio e encheu o tambor da arma. Depois começou a recuar sem abandonar a proteção dos sacos. 

—Agora está perto da cadeia!... Disparem contra a esquina, para ele ficar encurralado. 

A ordem partira de uns alpendres, à direita de Lambert e quem a dera não era nenhum tolo. Ted encaminhava-se em linha recta para o alpendre, contra o qual tinham mandado disparar. Se não mudasse de direção, alcançá-lo-iam. E, o que era pior, não podia mudar de direção.

As balas assobiavam agora com mais frequência e eram melhor dirigidas. 

Ted, que tinha fama de homem frio e tranquilo, começou a sua hora de angústia. Não podia retroceder. Nesse momento, disparavam um rifle contra o recanto, sob o alpendre, do edifício da cadeia. Além disso não podia avançar, porque além dos sacos, esperavam-no o xerife e os seus ajudantes. Quanto a ficar parado, a Ted não agradava a ideia de servir de alvo. 

De repente, os seus olhos repararam na única porta que havia entre ele e os sacos, que a protegiam dos tiros do xerife. Essa porta dava para o abrigo mais inadequado para um homem fugitivo: a prisão. 

Lambert avançou de um salto e, sem se levantar de todo, fez fogo contra a fechadura, que saltou logo, ao segundo tiro. Ted entrou precisamente ali, quando um dos homens que o perseguiam, colocando-se em melhor posição, começava a disparar sobre o alpendre, onde alguns segundos antes, ele estivera. 

«Esses tipos nem Lao menos sabem quem sou —pensou Lambert. —Disparam para fazer o jogo do xerife, sem quererem saber o que é que ele pretende de mim...» 

O cárcere compunha-se simplesmente de um pequeno vestíbulo, onde não havia ninguém, e de duas portas maciças, correspondentes a duas celas. No tecto, havia uma claraboia. Ted reparou imediatamente nela. 

Agarrou num dos pequenos bancos que havia no vestíbulo, junto de uma mesa de madeira, em branco, e colocou-o por baixo da claraboia. Calculou que subindo para ele, não lhe seria difícil-, levantar os vidros e chegar ao telhado. Dispunha-se já a fazer isso, quando alguém começou a bater desesperadamente na parte de dentro da porta da esquerda. 

--- Socorro. Tire-me daqui!... 

Ted Lambert deteve-se, perplexo, e, durante uns segundos ficou imóvel como uma estátua, em cima do banco. A voz que pedia socorro era de mulher. 


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