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Mae pronunciara as últimas palavras com voz cava e os seus lábios contraíram-se num trejeito de amargura.
Sutton não duvidou um instante do esforço feito por Mae para manter a serenidade, no meio daquele desbobinar de recordações tão cruéis.
— Porque não recorreu ao xerife, a pedir-lhe proteção?
— Foi o que eu fiz, mas, o velho Fitzgerald nada pôde fazer. Os acontecimentos foram superiores a ele. Apesar disso foi ele quem protegeu as raparigas e a mim própria, quando abandonámos Atwell Springs. Dirigimo-nos para aqui, para Chalperton, e ficámos alojadas neste mesmo hotel. Dei uma indemnização às raparigas que se foram retirando pouco a pouco e eu mantive-me por aqui, à espera de poder vender o «Taça de Ouro». Mais tarde cheguei a um acordo com o antigo dono deste hotel. Tomou conta do «Taça de Ouro» e recebeu certa quantia em dinheiro, e eu tornei-me proprietária do hotel e do estabelecimento. Vivo aqui, a partir dessa data, onde tenho levado uma vida de relativa tranquilidade.
— Apenas relativa...?
— Sim. Porque não ficou tudo resolvido com a minha saída de Atwell Springs. Lembre-se que aquela povoação e Chalperton estão bastante próximas uma da outra. As notícias sabem-se depressa e seu pai conhece o meu paradeiro.
Mae interrompeu-se. Esteve um instante silenciosa e pensativa como escolhendo as palavras adequadas para continuar.
— Tem vindo por várias vezes a Chalperton e sempre com a mesma cantilena: que me ama e que me deseja para sua esposa. Deus meu! Juro-lhe que não compreendo como foi possível despertar-lhe uma paixão tão violenta, tanto mais que nada fiz para a favorecer.
Sutton lembrava-se, agora, do que ouvira dizer ao xerife: que seu pai vinha algumas vezes a Chalperton. Viu, então, qual era o motivo daquelas viagens que lhe pareciam pouco menos que inexplicáveis.
— Creia, no entanto, que isso não me amedronta —prosseguiu Mae. — Esta povoação não é Atwell Springs.
Tenho um negócio honesto, toda a gente me respeita e a Lei protege-me. Além disso tenho amigos fiéis que não hesitarão, a uma palavra minha, em dar a seu pai o destino que melhor convier.
— Conta Dingo Tracy, entre o número dos seus amigos fiéis?
— Sim e, por acaso, já se enfrentaram uma vez. Foi certo dia em que seu pai se atreveu a incomodar-me na sua presença. Deus meu! Pouco faltou para que se registasse um desenlace fatal. Dingo desarmou-o num ápice e vi jeitos de ele apertar o gatilho. Tive de interpor-me entre os dois e usar de toda a minha autoridade para evitar que disparasse. Seu pai retirou-se envergonhado e furioso, proferindo ameaças contra Dingo Tracy. Sei de boa origem que seu pai jurou matá-lo.
As últimas palavras de Mae provocaram em Sutton um indefinível mal-estar. Foi, pois, com ansiedade e emoção que começou a desfiar as suas ideias: seu pai tinha jurado matar Dingo Tracy, e, naquela mesma tarde, tinham chegado dois pistoleiros a Chalperton, dispostos a eliminá-lo... mas, foram induzidos em erro, porque o retrato era o seu próprio... que devia estar na posse de seu pai! E se este, possuindo um retrato de Dingo Tracy, o tivesse trocado inadvertidamente?... Santo Deus! Que estava ele pensando? Este raciocínio levava-o à convicção de que fora seu pai a pessoa que pagara aos dois assassinos para que o livrassem de Dingo Tracy.
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