quinta-feira, 3 de setembro de 2015

PAS524. O homem que tudo podia comprar

Trajava roupas simples de vaqueiro, que apesar de boas, em qualidade, quase o não distinguia dos outros. No entanto, o cavalo era outra coisa.
Bastava vê-lo, para adivinhar quem era o seu dono. O animal, um soberbo alazão de magnífica estampa, branco, sem uma única mancha, com os arreios cheios de incrustações de ouro e prata. Até nas rédeas e nos estribos, que eram também de ouro.
A sela mexicana, gravada à mão, de couro trabalhado e com incrustações dos mesmos metais preciosos.
Uma joia.
Coisa nunca vista em parte alguma. Tanto assim, que mais de um patusco, duvidara se seria o cavalo o verdadeiro dono dos dólares de Rod Burke, ou este.
Alto, loiro e de olhos cinzentos, frios como um bloco de gelo.
O queixo, quadrado e agressivo. Cintura estreita e ombros largos, pernas compridas, fortes, como duas colunas de granito. A boca, de lábios finos, e um pouco cruéis. Rod Burke sorria poucas vezes.
Os seus negócios, os contratempos da vida, as suas relações com gente da pior ralé, haviam-no tornado sisudo, seco, frio. Diziam que ele era destituído completamente de sentimentos, e que a sua única paixão, era continuar, amontoando dólares.
Mas ninguém, nem sequer os seus inimigos, podiam dizer que ele fosse um cobarde, e muito menos capaz de atirar pelas costas, ou de frente, sem antes dar uma oportunidade ao seu inimigo.
No arção da sela repousava uma carabina «Winchester», com as suas iniciais a ouro.
Trazia dois colts calibre 45, negros, com coronhas de madrepérola.
Era o único luxo que trazia sobre o seu corpo.
Viajava completamente só, e na noite anterior havia acampado perto das pastagens do «Rancho Arizona», agora de sua propriedade.
Nesse instante, sobre a sela do belo alazão, Rod contemplava lá longe, à distância, com um franzir das fartas e loiras pestanas.
Lentamente, servindo-se da mão esquerda, enrolou um cigarro, acendendo-o pelo processo de friccionar a cabeça do fósforo contra as calças, e fez avançar o cavalo.
A bela e imponente contração do rancho, foi-se destacando, cada vez com mais nitidez. Começou a distinguir as reses pastando nas imensas e ricas pastagens, e alguns grupos de cow-boys vigiando as manadas.
Impeliu o animal em direcção a Mayer.
Ted Sinclair, um dos seus homens de confiança, havia-o informado de que o rancho se encontrava em boas mãos, o mesmo não acontecendo com o saloon. Ali, sem dúvida, era necessária a sua presença.
Por isso, e não obstante encontrar-se mais próximo da sua propriedade, que da povoação, Rod preferiu dirigir-se a esta, em primeiro lugar.
Sem pressa, cavalgando a passo, como se não tivesse outra intenção, que não fosse passear sob aquele ardente sol, com expressão dura, como um falcão, e completamente impenetrável.
Repentinamente, o cavalo desviou-se do caminho. Rod apercebeu-se disso, mas nada fez para o corrigir. O animal tinha sede, era isso apenas.
Na realidade, não tardou a embrenhar-se por entre o espesso arvoredo, e não menos espessa vegetação.
A primeira coisa que avistou, foram uns peque-nos sapatos masculinos, quase desfeitos pelo uso, uma blusa que outrora havia sido de alguma cor, e que agora se encontrava esfarrapada, e umas calças de vaqueiro, cheias de remendos e costuras.
Rod olhou em redor, sem conseguir descobrir o dono daqueles objectos, perguntou a si próprio quem seria o intruso, pois se a memória não lhe falhava, esse local pertencia às terras do seu rancho.
Foi então que se apercebeu, que podia dar-se o caso de o encontrar a tomar banho. Aproximou o alazão da água, e, enquanto o animal bebia, esquadrinhou as águas.
Nos primeiros momentos nada viu, pois o banhista encontrava-se sob a líquida superfície. Mas depois sim. Uma formosa cabeleira acaju, uns ombros resplandecentes, morenos e nus.
Por segundos, até se esqueceu de respirar, perante tal beleza selvagem. Depois, sem poder frustrar-se ao influxo daquela maravilhosa visão, continuou olhando.
Mas nada no seu semblante de granito, denunciou o que estava sentindo interiormente, nem o efeito que a deliciosa visão lhe produzia.
Finalmente, a rapariga voltou-se. Até ele, chegou um grito sufocado, e notou, como no mesmo momento ela mergulhou, para reaparecer pouco depois, mais perto, e assomando apenas a cabeça.
 Rod desviou o olhar das águas, tranquilas, quase transparentes.
— Por que não deixa de olhar, e se vai embora com vento fresco, vaqueiro?
Rod não replicou, mas fez rodar o cavalo, e avançou em sentido contrário ao riacho. Porém, não foi muito longe. Ela também não esperava isso, pelo que saiu rapidamente da água.
Muito perto, ele ouviu o ruído da roupa que ela vestia, e esperou. Foi pouco, apenas alguns minutos.
— Volte-se, se quer admirar-me melhor, vaqueiro.
Ele voltou-se. Era jovem e muito bonita. Mas coberta com aquelas míseras roupas masculinas, ninguém, por mais esperto que fosse, poderia adivinhar o que se escondia sob aqueles farrapos. Nem por sombras. Nem pela ideia mais descabida.
— Quem é você?
— E a si que diabo lhe importa? Acaso já lhe perguntei eu, quem era?
Rod franziu uma sobrancelha. –
— Creio que estás nas minhas terras, pequena — disse, enquanto continuava a observá-la, tratando-a por tu. — Que fazes aqui?
— Tomava banho, como viu... demasiado bem — fitou-o abrindo muito os seus grandes e rasgados olhos azuis, enquanto franzia a boca de lábios vermelhos e carnudos. — Então, você é Rod Burke... Mister Rod Burke, não é verdade?
Apesar da pergunta final, era uma afirmação. Rod franziu o sobrolho.
— Realmente, sou Rod Burke. E tu?
— A essa pergunta, já respondi antes. Quanto ao que faço nas suas terras, nada de mal. Costumo vir de vez em quando a este regato. Está sempre solitário. Por outro lado, quem pretende algo de Lina Hendrix?
— Só para isso?
— Não. Há mais algumas coisas. Mas são assuntos que também não são da sua conta, mister Burke.
— Esqueces que estás nas minhas terras?
Olhou-o, de queixo levantado. Mais do que uma mulher incomparável, como o era na verdade, naquele momento parecia um malandrim.
Um desavergonhado e atrevido malandrim.
— Sei isso perfeitamente! Sei quem é você, mister Burke. Um homem como qualquer outro. Uma das pessoas que eu mais odeio no mundo. Um empedernido. Um cacique. Um homem que tudo compra, ou julga poder comprar, com os seus dólares. Enganei-me?
Seguiram-se segundos de silêncio, que se tornaram de tensão. Mas nem por isso ela pareceu assustar-se pela expressão daquele rosto, daqueles frios e implacáveis olhos cinzentos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

COL042. O homem do Wyoming

(Coleção Colorado, nº 42)


"Toda a população de Mayer se encontrava na expectativa. O ambiente era de tensão. Pairava electricidade no ar. Era como se uma tempestade horrível estivesse prestes a desencadear-se sobre a população.
Havia já alguns dias que se comentava, em todas as partes, os prós e os contras de um assunto que parecia ser absurdo, mas que, no entanto, não o era.
Essa questão já havia causado algumas desordens, e, em mais de uma ocasião, os contendores tinham saído para cruzar as armas de fogo. E tudo isto por uma insignificância.
Um homem que viera do longínquo Wyoming, para terras do Arizona. Um homem que, através de terceiros, e sem qualquer pressão, tinha comprado o melhor rancho da região, e o melhor saloon de Mayer."
Assim começa esta narrativa de Joe Mogar num livro em que, no final, quase se pode dizer: "tudo acabou em bem".
Mas foi difícil chegar lá. Imaginem que este melhor rancho da região tinha sido extorquido por um indivíduo sem escrúpulos e que uma filha dos verdadeiros donos, então abatidos sem piedade, ainda residia na povoação. Miseravelmente... porque a partir de então todas as portas se lhe fecharam. Como iria reagir o "homem do Wyoming" a todas estas contrariedades, a todas as mulheres que o lascivo autor lhe lançou ao caminho?
A capa, de autor não identificado, nada tem a ver com o livro, não existindo qualquer passagem de que seja ilustração.
As passagens que selecionámos mostram o desenvolvimento da relação do «Homem do Wyoming» com essa rapariga vestida de farrapos que um dia encontrou a banhar-se num regato nas terras que lhe pertenciam…

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

CLT050. O maldito Ianque

 
(Coleção Colt, nº 50)
 

Este livro baseia-se num facto passado durante a Guerra da Secessão, em que um coronel do exército Sulista contatou com um prisioneiro nortista, médico de formação, que foi enviado para um campo de concentração de prisioneiros em momento em que não abandonou um camarada de armas ferido. O oficial ficou impressionado com a dedicação do prisioneiro e, após a guerra, acabou por lhe oferecer condições para se instalar na sua terra, financiando um hospital para acesso em termos igualitários.

Assim, um dia, Mark Keeping chegou ao Sul para pôr em prática os desejos do oficial, sendo que um deles passava por despojar a sua bela filha. A presença de um ianque naquela região, passados, três anos sobre o conflito, não foi bem vista e, como é de calcular, algumas dificuldades surgiram ao brioso médico.

Este livro de Tex Taylor tem alguma graça, mas a edição terá sido muito descuidada por falta de revisão ou má tradução. Por exemplo, o autor começa a narrativa na terceira pessoa, poucas páginas à frente apresenta algumas linhas na primeira pessoa e depois volta ao tipo de discurso inicial. Passagens há que não se percebem por puro descuido ou falta de palavras…

Quanta à capa já mostrava uma evidente falta de qualidade que nesta altura se apoderou destes livros.