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segunda-feira, 26 de junho de 2017

PAS773. Duas mulheres corajosas

Betty foi atrás do companheiro.
Lorna apareceu e dirigiu-se a eles:
— Desculpe-me, Roy, mas quero falar à Betty.
As duas, mulheres afastaram-se, confundindo-se com as demais. Roy estremeceu. Não escutou a frase de Lorna. A sua atenção concentrava-se em Elmer Morrison. Este encontrava-se na companhia de Doone. O guarda-costas, ao cabo de uns minutos, afastou-se do chefe e saiu da sala. Adams seguiu-o com um andar felino. Alcançou-o, quando o homem se preparava para contornar o edifício.
— Doone! — e a sua voz soou como um tiro no silêncio da rua.
O bandido voltou-se rapidamente e os dois homens ficaram a olhar um para o outro...
De repente, Doone lançou-se contra Roy. Este recebeu-o com um tremendo soco no meio do peito, logo seguido de outro na ponta do queixo. Doone ergueu os pés do solo e caiu de barriga para o ar. Sem perda de um segundo, rolou sobre si mesmo e ao levantar-se a sua mão desceu para o cano da bota. A voz seca de Adams deteve--lhe o gesto:
— Quieto, miserável! Quieto ou crivo-te de balázios! Empunhava o revólver que sacara do coldre oculto debaixo do braço.
— Está armado! — exclamou Doone estupefacto.
— Tal como tu, meu sapo! — gritou Adams. — Deita fora a faca, vá! E depressa!
Com um extremo cuidado, Doone obedeceu. Depois, principiou a falar:
— Agora...
— Não me servirei da arma, cão! — disse o forasteiro.
Atirou para longe o revólver e avançou. Doone esperava-o. Roy fez-se descuidado e o punho do inimigo partiu, veloz, em direção ao seu queixo. Roy desviou o golpe com o antebraço direito e empregou o punho esquerdo. Doone recebeu o violento murro em plena boca. Baixou os braços, cuspindo sangue e alguns dentes e ficou paralisado durante uns instantes. Depois, cambaleou e caiu no solo como um fardo.
Roy aproximou-se e contemplou-o longamente. Por fim, Doone começou a mover-se. Parecia incapaz de levantar-se.
Mas, de repente, as mãos que apoiava no chão ergueram-se com a velocidade de um relâmpago. Roy Adams apanhou com a terra nos olhos e ficou momentaneamente cego. O bandido soube tirar partido das circunstâncias Com os dois punhos martelou o rosto do seu rival e, em seguida, atirou-o contra a parede do armazém, com um soco poderoso. Roy Adams foi a terra, encostado ao madeiramento. Doone avançou para ele...
O silêncio da rua viu-se quebrado por dois estampidos. Sem um lamento, sem um grito, o facínora estatelou-se no solo.
Roy levantava-se, precisamente, nesse momento. Conforme pôde limpou os olhos. O que viu, então, deixou-o abismado. Doone, a seus pés, morto e bem morto. Tinha três balas nas costas. Junto dele, o revólver do forasteiro. Roy abaixou-se e recolheu-o. O cano ainda estava quente...
Nessa altura a rua encheu-se de ruídos. O baile havia parado, logo ao primeiro tiro, e as pessoas saíam do armazém. Como punhais, vários olhos cravaram-se no jovem. Este ainda não se refizera da surpresa e continuava com a arma na mão. Morrison foi o primeiro a falar:
— Assassinou Doone! Matou-o pelas costas! Vamos, temos que fazer justiça!
— À forca!
Roy olhou para o homem que tinha gritado. Era um dos rancheiros a quem havia sido apresentado durante o baile. Uma pessoa decente, sob todos os aspetos. Sorriu com ironia.
— Eu não o matei. Isto é uma armadilha!
Mas antes de terminar, verificou que não o acreditavam. Empreendeu a retirada, tentando fugir para trás. Na sua desorientação, nem sequer se lembrava da arma que possuía. Quando deu conta desse facto, era demasiado tarde. Várias mãos, mãos como garras de animal selvagem, caíram-lhe em cima. Viu-se derrubado no meio de maldições. Nunca soube quem exibiu a corda. Quando o levantaram, tinha o rosto ferido e as mãos atadas atrás das costas. A voz do xerife fez-se ouvir:
— Um momento! — gritou. — Este homem...
— Cale-se, xerife!
Foi obrigado a obedecer. Um círculo ameaçador fechara-se em torno dele. Os homens pareciam loucos corno lobos sedentos de sangue. E o mesmo vaqueiro continuou a falar:
— Que vai dizer, xerife? Que ele deve ser julgado? Apanhámo-lo com as mãos na massa! Nós somos a Lei! Creio que a sentença é bem clara!
O juiz Burke também passava um mau bocado. As paixões estavam desencadeadas. É bem sabido que no Oeste ninguém podia, naquela época, matar uma pessoa pelas costas, ainda que esta merecesse mil vezes esse castigo. Um rumor de colmeia elevou-se de todos os lados. A rua estava cheia de gente.
— Enforquemo-lo!
— Traz a corda, Holden!
Estes gritos e outros parecidos soavam de toda a parte.
— Não fui eu! Juro! Faça alguma coisa, xerife!
O representante da Lei não respondeu. Via-se nitidamente que tinha medo. A voz de Adams soara de um modo estranho. Dirigia-se ao xerife mas os seus olhos fitavam Betty que ficara parada à porta do armazém, com um ar inexpressivo. Os seus olhares cruzaram-se. A jovem voltou as costas e entrou lentamente no estabelecimento.
Adams gelou. Nunca a supusera capaz de ver nele um assassino. Precisamente a mulher por quem teria dado a vida, se ela lha pedisse. Recordava como Betty havia correspondido ao beijo...
Os seus pensamentos foram bruscamente interrompidos. Principiavam a empurrá-lo. A pancadaria chovia-lhe nas costas. Meio inconsciente, pareceu aceitar com indiferença a sorte que o esperava. Se Betty... A única coisa que Morrison não conseguiria era vê-lo tremer. Apesar dos socos e dos empurrões, ergueu-se em toda a sua estatura. Havia algo de impressionante naquela atitude. Corno que por bruxedo, deixaram de bater-lhe. Roy deteve-se.
— Oiçam-me! — bradou. — Eu não o matei! Sei que não me acreditam. Sei que me querem enforcar. Avante, pois! Mas não me segurem. Irei sozinho!
Ali, apreciava-se a coragem. Em silêncio, seguiram-no até urna das árvores do largo. De um ramo alto, pendia a corda fatídica. Numa das suas extremidades via-se o nó corrediço. A outra ponta estava atada ao arção da sela de um cavalo.
O que dava pelo nome de Holden, mantinha o laço aberto e sorria. Há muito tempo já que em Ely não se enforcava ninguém e aquilo não deixava de ser um espetáculo.
Muito calmo, Roy Adams deteve-se diante dele. Holden preparou-se para lhe passar a corda em volta do pescoço. O círculo de curiosos fechou-se mais. Roy fitou--os um a um. Por fim, os seus olhos cravaram-se em Morrison, como setas. Ninguém, nem sequer este último, conseguiu aguentar o brilho das suas pupilas. Então, o forasteiro que viera de Current, falou:
— Restam-te setenta e duas horas de vida, Morrison. Não adiantarás nada com a minha morte. Nem com a minha nem com a de «miss» Turner. A tua hora soou! A sua voz era extraordinariamente firme.
Morrison sorriu, mas o seu sorriso não lhe saiu para fora dos dentes. Que queria dizer o homem com aquilo? Furioso, gritou:
— Despacha-te, Holden!
Outros gritos apoiaram-no. Ao que parecia, em Ely tinham pouca memória.
— Pronto!
— Precisas de uma ama-seca?
De novo, os gestos rudes dos homens. Holden ergueu os braços e colocou o laço no pescoço de Roy que não pestanejava, olhando em redor. De súbito, o forasteiro levantou impercetivelmente uma sobrancelha.
«Dinamite» aproximava-se, feroz, mostrando os dentes. Da sua boca, para não variar, pendiam as rédeas quebradas. Adivinhou as intenções do animal. Atacaria as pessoas, dar-se-ia uma debandada geral, mas... ele, Roy Adams, estava amarrado. Não poderia montar. E se o fizesse não lhe serviria de nada. Cravá-lo-iam de balas.
Quando abriu a boca para gritar ao cavalo que se afastasse, o som de um tiro abafou o rumor da multidão. Holden encolheu-se, instintivamente. O seu chapéu fugiu-lhe da cabeça, levado por uma bala certeira. Estabeleceu-se um silêncio pesado e todos se viraram para a retaguarda. Na porta do armazém, encontrava-se novamente Betty. Tinha nas mãos os revólveres do jovem, um dos quais deixava escapar uma ténue espiral de fumo.
Mudos de assombro, os homens, agora, não logravam mover-se.
— Mantenham-se quietos! — gritou Betty com energia. — Liberte-o, Holden! Depressa!
Holden dispôs-se a obedecer. Morrison, então, interveio:
— Cobardes — grunhiu. — É uma mulher! Não disparará! E adiantou-se para o cavalo em cuja sela estava amarrada a corda. A sua intenção era clara. Pretendia espantar o animal.
Mas não chegou onde desejava. Betty premiu o gatilho e soou uma detonação. Elmer Morrison levou as mãos à cabeça, ergueu-se na ponta dos pés e rolou pelo solo como um saco cheio de chumbo.
Sem aguardar novas ordens, Holden obedeceu. A multidão estava como que eletrizada. Ninguém ousava mover-se. Pois se havia sucedido aquilo a Morrison!...
Holden retirou o laço do pescoço de Roy e, com uma faca, cortou a corda que o manietava. Quando se viu livre, Adams caminhou até ao armazém. Cambaleava um pouco. Procurou evitar a linha de tiro de Betty. Esta atirou-lhe um dos revólveres. Apanhou-o no ar e com a arma na mão, a sua expressão mudou como por encanto. O seu ar feroz gelou alguns corações. Voltou-se para a multidão e, de revólver em punho, foi retrocedendo até chegar junto da rapariga.
— Betty... — disse. — Eu...
— Eu sei, Roy. Parta tranquilo — aconselhou. — Saia do vale pelo caminho que o conduziu ao rancho. Quando atingir o cima do monte, volte à direita. A cerca de umas duas milhas há um grupo de árvores. Atrás delas, o mato é espesso. Atravesse-o. Encontrará uma porção de rochas. Perto delas existe uma caverna. Instale-se lá. Irei levar--lhe provisões, logo que possa...
— Dentro de cinco dias, Betty...
— Mas...
— Cinco dias. Antes disso não me encontrará.
Colocou o cinturão, sem deixar de mirar a multidão. A rapariga tão-pouco deixava de visar os grupos, no meio de um silêncio sepulcral. Viram dois homens correr para Morrison. Não tinha morrido, mas um sulco de sangue marcava-lhe a testa e ia até à orelha.
— Necessito de meia hora, Betty — disse, agora em voz alta.
— Uma hora, Roy!
Ergueram os olhos, descurando a vigilância. Lorna Kelly estava encostada ao parapeito da janela e empunhava, com mão firme, uma carabina. Ela não perdeu de vista a multidão, apesar de ter falado.
— Obrigado, Lorna. Não o esquecerei!
Aproximou-se de «Dinamite» e uma vez na sela, cumprimentou as jovens e enfiou o revólver no coldre. Depois, voltou-se, de novo, para os que o observavam e deteve os olhos em Morrison que já tinha uma ligadura a envolver--lhe a cabeça. Amparavam-no os dois homens que o haviam socorrido.
— Morrison — gritou, cheio de fúria — deixo aqui «miss» Turner! Se lhe sucede algo... vou buscar-te nem que seja à tumba! E isso, depois de arrasar e incendiar o povoado!
Outra vez aquela confiança toda! Que andaria a tramar? Nem Betty Turner o sabia, quando o viu esporear o cavalo que se dirigiu, num galope veloz, para a saída da povoação...
Por uns instantes o seu coração deixou de pulsar. A estrada encontrava-se bloqueada. Haviam-na cortado com carroças atravessadas. Ao chegar mais perto, reparou que não tinham desatrelado, dos veículos, os animais. De repente, algo pareceu rebentar diante dele. O clarão do disparo iluminou o vulto de um homem. Um sopro de morte roçou-lhe por uma orelha. Agachou-se e sacou a arma com uma rapidez fulminante. Divisou o mascarado e fez fogo contra ele. A figura negra cambaleou. Roy Adams não se preocupou mais com o atirador. Estava a chegar à linha das galeras. Dirigiu a montada em direção aos animais. A altura das cobertas era excessiva, mesmo para um cavalo como «Dinamite». Talvez por cima das mulas... Falou suavemente ao seu alazão.
— Tens que saltar, «Dinamite». É preciso passar, seja como for!
Sentiu que se retesavam os poderosos músculos do animal e viu-o reduzir, de súbito, a corrida. «Dinamite» baixou os quatro traseiros... Julgou que voava. Foi um salto impressionante e magnífico. Ultrapassou a barreira formada pelos animais atrelados, e continuou num galope frenético. Não parecia ter despendido qualquer esforço. Lá atrás ficavam duas mulheres corajosas.

domingo, 25 de junho de 2017

PAS772. A rapariga mais bonita do baile

 À entrada do baile, Adams entregou as armas. Betty, com um bonito vestido azul que lhe realçava o busto e uma capa a cobrir-lhe os ombros, estava realmente encantadora. Parecia uma bonequinha de porcelana do século XVI. Ficou descansada quando o viu retirar o cinturão.
Roy exibia um adesivo sobre o olho esquerdo. Era uma recordação, o único sinal que restava do brutal combate. Sabia que tinha de entrar desarmado no armazém. Mas, lembrando-se da coronhada que recebera, antes de sair do rancho, enfiou um «Colt» «38» no coldre que usava debaixo do braço. Não gostava de servir de boneco.
Cingindo-a pela cintura, principiou a dançar com a jovem, ao som de uma coisa que parecia música. Mas os seus olhos não olhavam para a rapariga. Pelo contrário, só fixavam as outras mulheres. Betty não pôde fazer mais que registar o facto. Durante uns minutos, conservou-se calada. Depois, indagou:
— Para onde olha com tanta insistência, Roy?
— Observo as raparigas de Ely — respondeu cheio de calma. — São preciosas!
— Muito amável — replicou ela um tanto agastada.
— Não se zangue, Betty. Estou a fazer comparações. Quero saber qual é a mais bonita.
Betty franziu as sobrancelhas.
— E então? — perguntou.
— É você, sem dúvida...
— Senhor Adams, nunca pensei...
Calou-se e dançaram em silêncio pelo espaço de uns minutos. Rodopiando com grande habilidade, Roy levou-a até à porta que dava para o alpendre. Havia algo de estranho nos seus olhos quando parou de dançar. Betty mirou-o, tentou retroceder mas ele segurou-a por um braço. Depois, lentamente, puxou-a para si e beijou-a. Sem saber bem o que fazia, a jovem correspondeu à carícia.
Adams, então, libertou-a. Sem dizer uma palavra, girou sobre os calcanhares, amaldiçoando-se mentalmente. Acabava de acontecer, precisamente, o que ele havia tratado de evitar por todos os meios.

sábado, 24 de junho de 2017

PAS771. Em defesa da jovem Betty

Nessa noite, no escritório do rancho, Roy Adams escrevia aos seus amigos de Current, contando-lhes tudo quanto lhe havia acontecido. Informava-os de que se encontrava numa povoação chamada Ely e ao mesmo tempo fazia-lhes um pedido. Adivinhava, de antemão, a resposta. Betty entrou naquele momento, interrompendo-o. Trazia na mão o chapéu do forasteiro e, no rosto, uma enorme palidez.
— Roy — disse. — Que sucedeu? Que significa este buraco?
— Refere-se ao rasgozinho do chapéu? — perguntou com um ar sério. — É que senti muito calor. Para refrescar a cabeça resolvi fazer esse respiradoiro. Como vê, nada de importante.
— É o cúmulo, Roy! Isto foi produzido por uma bala de carabina...
— Bravo! Não querem ver que me associei com uma rapariga tão esperta como eu?
O rosto da jovem crispou-se. Disse qualquer coisa entre dentes, deu um pontapé numa cadeira e atirou-lhe o chapéu à cara. Depois, furiosa, girou sobre os calcanhares e saiu do aposento. Roy ria à gargalhada...
Nessa manhã, Betty acordou muito cedo. Havia muito barulho lá fora. Vestiu-se rapidamente e pestanejou assombrada. Roy Adams, com o tronco hercúleo nu, partia lenha. Chamou-o. O homem largou o machado e aproximou-se dela.
— Olá, Betty! — exclamou. — Deixo-lhe este trabalho. Tenho hoje muito que fazer na povoação.
E encaminhou-se para um dos barracões onde havia dormido na véspera. Pouco depois, Betty viu-o sair completamente vestido. Acabava de ajustar o cinturão, quando a rapariga lhe intercetou o passo, para lhe dizer numa voz cheia de angústia:
— Pelo amor de Deus, Roy! Deixe os revólveres em casa! Tem inimigos no povoado. Se for desarmado, ninguém se meterá consigo.
Por instantes, Roy vacilou, enquanto a mulher perguntava a si próprio porque é que havia dito aquilo. Em seguida, muito vagarosamente, o moço desapertou o cinturão e entregou-o a Betty.
— Tome-o — disse. -- Talvez seja melhor assim.
E, sem esperar resposta, deu meia volta e dirigiu-se para a cocheira. Daí a pouco saía já montado e, num galope furioso, atravessou o desfiladeiro, a caminho da povoação.
Betty, com uma expressão indefinida a marcar-lhe o rosto, viu-o partir.
Roy apeou-se de um salto à porta do Banco. Entrou resolutamente no edifício e acercou-se de um dos «guichets».
— Desejo ver o diretor — disse.
— Imediatamente, senhor Adams.
Ficou espantado. Pelos vistos, já toda agente o conhecia. O empregado retirou-se, voltando pouco depois. Fez um aceno a Roy e este acompanhou-o. Pararam diante de uma porta e o seu cicerone bateu devagarinho. Uma voz autorizou a entrada e Adams empurrou a porta. Um homem de uns sessenta anos, cabelo encanecido e rosto bondoso, ergueu-se do cadeirão que ocupava e deu-lhe as boas-vindas, em tom cordial.
— Sente-se, senhor Adams. Diga-me o que deseja...
— Venho abrir uma conta-corrente. Quero que fique em nome de Betty Turner, mas não desejo que ela o saiba. Se me acontecer alguma coisa, o senhor contar-lhe-á tudo. A minha última vontade é que ela vá para o Leste, com esse dinheiro, depois de queimar e arrasar a propriedade. Não quero que ninguém tire partido do rancho. Sou sócio dela e creio poder impor a minha vontade, neste particular.
Puseram-se de acordo rapidamente. Roy despediu-se do banqueiro. Instantes depois, encontrava-se diante do escritório do xerife. Entrou com um ar decidido. O representante da Lei estava recostado num cadeirão e com as enormes pernas cruzadas em cima da secretária. Ao ver o visitante, levantou-se de um salto.
— Seja bem-vindo! — exclamou. — Sente-se, por favor. Fez uma pausa e acrescentou: — Que o traz por cá?
Roy atirou o chapéu para cima da secretária.
— Isto — respondeu com secura.
O xerife pegou no «Stetson» e passou um dedo pelo buraco da copa. A sua expressão tornou-se grave.
— Carabinas! — exclamou. — Como foi?
Roy contou o que se passara e no fim, perguntou:
— Diga-me, xerife, nunca fizeram uma batida na zona do desfiladeiro?
— Uma única vez, quando da morte do senhor Turner. Estive no local onde o senhor parou. Pregaram-me um tiro neste ombro — disse, apontando a omoplata esquerda. — E, logo a seguir, deram cabo do meu cavalo.
— Sem embargo — respondeu Adams — podemos fazer qualquer coisa. Rodear a montanha, tentar descobrir o refúgio... Deve situar-se, com certeza, perto da nascente do rio que banha as terras de «miss» Turner.
— É difícil, senhor Adams. Devo dizer-lhe que se não tenho feito nada é porque me encontro sem a ajuda de ninguém. Que pode fazer um homem sozinho?
Adams não retorquiu. Quando falou, o xerife ficou abismado.
— Onde posso comprar um bom cavalo? Um animal que seja dócil?
— Um cavalo ou... Eu posso vender-lhe uma égua. Venha. Vou mostrar-lha...
Levou-o às traseiras da casa. Numa espécie de estrebaria construída de madeiros toscos, havia umas quantas montadas. O olhar entendido de Adams pousou numa égua de fina estampa, branca como um floco de neve.
— É esta, xerife? Quanto quer por ela?
— Duzentos dólares.
— Está bem.
Despediu-se do representante da Lei. Voltaria mais tarde para tomar posse do animal. Os seus passos encaminharam-no, agora, para o armazém. Uma rapariga loira, de olhos azuis e rosto simpático, saiu detrás do balcão, quando o viu entrar. Estendendo--lhe a mão, a jovem saudou-o:
— Seja bem-vindo a minha casa, senhor Adams.
— Parece saber mais a meu respeito do que eu acerca da senhora — replicou o forasteiro.
— É natural! Quem não conhece em Fly o homem que desafiou Morrison e a sua quadrilha? Sou amiga íntima de Betty. Permito-lhe que me trate por Lorna. Que deseja?
— Pois eu... — tartamudeou como um rapazinho apanhado em falta. — Quero... um par de ves... vestidos e um tra... traje de mon... montar. São para «miss» Betty. Escolha-os a senhora. Do melhor que possua. E nesse mesmo instante pensou no absurdo de tudo aquilo. A sua visita ao Banco, os vestidos para ela...
Que se estaria a passar? Mas se apenas a conhecia há setenta e duas horas! Seria que andava a enamorar-se de Betty Turner?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

PAS770. Um demónio chamado «Dinamite»

Depois de percorrer uma grande distância, fixou o olhar nas montanhas que se desenhavam no horizonte. Dirigiu a montada para lá. Queria escalar aqueles picos. Do alto, tentaria descobrir algo relacionado com o tal bando de ladrões de gado.
À medida que ia avançando, sentia-se esmagado pela magnífica grandeza da paisagem. Tudo aquilo não se comparava com o que havia imaginado. O monte mais próximo era uma imensa mole de granito e basalto, cheia de sulcos profundos e de grutas que formavam um vasto labirinto. Rochas e mais rochas, aqui e ali. Foi obrigado a reconhecer que um homem instalado ali nas alturas, com uma carabina nas mãos, tornaria o local inexpugnável. Poderia cobrir, sem perigo para ele, quase todo o terreno plano por onde agora cavalgava.
Se os ladrões de gado tinham a sua guarida numa das fragas que principiava a distinguir, ser-lhe-ia impossível desalojá-los dali.
E, não obstante...
Sim, era isso! No seu rosto duro, surgiu a claridade de um sorriso. Um plano começava a nascer-lhe na mente.
Deteve o cavalo. O rio, no sopé do monte, formava uma espécie de lagoa. Diante de Roy, uma queda de água com cerca de cento e cinquenta pés de altura. A água, ao evaporar-se por efeito dos raios solares, mudava continuamente de cor, oferecendo um espetáculo impressionante e maravilhoso. Roy apeou-se da montada e retirou da bolsa da sela o pequeno embrulho que Betty lhe tinha dado. Deixou o cavalo à solta e preparou-se para almoçar. Para tal, sentou-se no solo. Uma vez saciado, ergueu-se e dirigiu-se ao animal:
— Bem, «Dinamite», creio que...
Calou-se bruscamente. O terrível garanhão levantava a cabeça e fixava os olhos assassinos na sua pessoa. Depois, mostrando os dentes e relinchando, correu para Roy. Adams saltou uma praga surda e abrigou-se por detrás de uma árvore, empunhando o «Colt».
— Maldito selvagem! Olha que te prego um tiro, embora contra vontade! Está quieto, tinhoso!
O animal estacou. Empertigou ainda mais a cabeça e soltou um sonoro relincho. Acto contínuo, voltou-se de costas, atirou um par de coices para o ar e, subitamente acalmado, continuou a mordiscar a erva como se nada tivesse ocorrido.
Adams inclinou o «Stetson» para a testa e coçou a nuca com um ar perplexo.
— Diabos! — exclamou. — Dir-se-ia que troça de mim!
O seu olhar agudo cravou-se na cascata. Resolveu aproximar-se dela. Queria encontrar um caminho que o levasse até à nascente. Por fim, deixou para trás a vegetação luxuriante da margem e os seus pés principiaram a pisar calhaus e areia. Quase de repente descobriu o que
procurava, uma senda estreita que serpenteava por entre as rochas, elevando-se mais e mais.
Decidiu segui-la a pé. Naquele caminho de cabras o cavalo não lhe serviria de nada.
Mal havia posto o pé em terra quando teve de dar um salto fantástico, de cabeça, para um montão de pedras, em busca de proteção. Alguém, munido de uma potente carabina, acabava de lhe arrancar, com uma bala, o chapéu da cabeça. Amaldiçoou-se por não ter previsto o atentado. Agora só contava com os seus revólveres. Uma pobre defesa contra um bom atirador de carabina. Espiou por entre os penhascos, sem nada ver. Com as armas em riste, ergueu aos poucos a cabeça. Os minutos foram decorrendo, carregados de angústia. Francamente, não compreendia aquilo. A não ser que se tratasse de um aviso., .
Subitamente, um ruído à retaguarda sobressaltou-o. Voltou-se como uma áspide, pronto disparar.
Um sorriso desenhou-se-lhe nos lábios. A menos de dez jardas, o seu cavalo fitava as alturas. Roy não ligou importância ao facto. Não tardou, porém, que o animal soltasse um relincho. Depois, a erva atraiu, de novo, as suas atenções. Adams abandonou o refúgio, colocando o chapéu. Saltou para a montada e, lentamente, empreendeu o regresso.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

PAS769. Uma nova ordem no rancho

Manhã bem alta, Adams levantou-se de entre o arvoredo onde havia passado a noite e dirigiu-se para a casa da fazenda. Os seus olhos foram esquadrinhando a paisagem até se deterem, por fim, na figura da mulher que, de mangas arregaçadas acima do cotovelo, deixando ver os braços bonitos e bem torneados, lavava roupa junto do poço. Muito admirado, chamou-a:
— «Miss» Turner!
Ela voltou-se ao mesmo tempo que sorria. Deixou o que estava a fazer e foi ao encontro do jovem.
— Bons dias, madrugador! — saudou-o, trocista. Depois, a sério, perguntou: — Deseja alguma coisa?
— Que faz com tanta roupa?
— Isto — replicou, apontando o poço. — É roupa de gente do povoado. Eu tinha que viver de algo, não acha?
— Bem, «miss» Turner, isso acabou. Termine o trabalho. A partir de hoje, tratará apenas da lida da casa. Quando estiver aborrecida por lhe sobrar tempo... Sente-se! Eu tratarei do resto.
Os lindos olhos verdes da rapariga miraram-no, agradecidos. Sem saber porquê, Betty sentiu um rubor a tingir-lhe as faces.
— Quer que o acompanhe às pastagens?
— Irei só. Creio que tem aqui mais que fazer...
— Como queira. E muito obrigado por tudo, senhor Adams.
— Chamo-me Roy. Nada de cerimónias. Não estou habituado, Sou apenas um simples trabalhador com um pouco de sorte...
— De acordo, Roy — disse ela com um sorriso, fitando-o bem nos olhos. — Farei o que me pede, mas com uma condição. Tem que tratar-me pelo meu primeiro nome: Betty. Somos sócios, não é assim?
Desta vez foi ele quem sorriu, ao mesmo tempo que perguntava:
— Aprecia a equitação, Betty?
— Muitíssimo! Quando meu pai ainda vivia, andar a cavalo era uma das minhas predileções.
— Então, venha comigo. Dar-lhe-ei umas lições...
Intrigada, a rapariga seguiu-o até à cocheira. Com espanto verificou que Adams tomava precauções para entrar no recinto. Para o observar melhor, Betty espreitou lá para dentro. Roy entrou e aproximou-se do cavalo, cautelosamente. O animal levantou a cabeça, saltando um relincho estridente. Em seguida, exibiu os dentes, no vão intento de morder o dono. Vendo que não o conseguia, principiou a escoucinhar a torto e a direito. A cocheira não tardaria a ficar em estilhas. Roy praguejava. Como o cavalo não desistia, apanhou do chão um pedaço de pau e ameaçou quebrá-lo na garupa daquele verdadeiro demónio.
— Maldito sejas! Qualquer dia prego-te um tiro! Quieto, sarnento!
Por fim, o animal ficou tranquilo. Já sem precauções, o jovem colocou-lhe a sela e montou-o, dentro da estrebaria.
— Afaste-se da porta, Betty! Agora segue-se a segunda parte! — gritou para a jovem que o mirava com uma expressão assustada.
Fez pressão com os joelhos no tronco daquele demónio que se pôs em marcha, a passo. Nada sucedeu enquanto o enorme garanhão não se encontrou a umas trinta jardas da casa. Aí, pareceu transformar-se num furacão. Deu, de repente, um salto fantástico e quando voltou a contactar com o solo, quedou-se imóvel, durante uns segundos.
Roy teve a sensação de que lhe haviam quebrado a espinha. O animal, percebendo que não havia derrubado da sela o seu dono, começou a empregar toda a sorte de truques. Saltos de carneiro, curvetas, corridas de um lado para o outro, num campo restrito, paragens de chofre, tudo para atirar com o cavaleiro por cima das orelhas.
Após uns dez minutos de luta selvagem, o cavalo ficou quieto, com a boca cheia de espuma. Roy fê-lo caminhar em direção a Betty e o animal deixou-se conduzir docilmente.
— Que lhe pareceu? — perguntou ao chegar perto dela.
— É um demónio! Diga-me, Roy: ele reage sempre assim quando o monta?
— Sempre. Agora tenho que ir. Quero dar uma vista de olhos a isto. Arranje-me uma merenda, pois voltarei tarde. Tenciono percorrer tudo. Irei, também, até ao desfiladeiro...
— Por favor, Roy, não vá! Matá-lo-ão logo que o vejam!
— Dê-me o que lhe peço e não se preocupe. Sei defender-me sozinho.
A jovem entrou em casa e ao cabo de uns instantes regressou com um embrulho que entregou a Roy. Este fê-lo desaparecer na bolsa da sela, despediu-se com um aceno de mão e partiu seguindo pelo caminho que o havia trazido ao rancho.
Betty viu-o afastar-se. Uma sombra de preocupação estampou-se no seu lindo rosto. Permaneceu imóvel, a observar o cavaleiro, até que a nuvem de pó levantada pelas patas do cavalo, se perdeu no horizonte.
Ficou muito surpreendida, ao reparar que dizia baixinho:
— Deus queira que tudo «te» corra bem, Roy. Depois... depois não creio que te deixe partir...
As suas faces tingiram-se de carmim, enquanto murmurava:
— O que é que se está a passar, Betty?
Mergulhada num mar de confusões, dirigiu-se lentamente para o poço.
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

BIS131. Trio perigoso

 
 
(Coleção Bisonte, nº 131)


Roy Adams era uma espécie de vagabundo que procurava um local para se estabelecer, levando consigo algum dinheiro. Perto de uma povoação chamada Ely, soube que uma jovem, Betty Turner, educada no Este, era perseguida pelo famigerado Elmer Morrison que lhe pretendia ficar com as terras depois de assassinar a família. Roy resolve combater o poderoso bandido, chegando a pedir auxílio aos seus antigos companheiros em Current.
«Trio perigoso» é um livro bem ao estilo de Joe Mogar, com uma construção um pouco confusa, mas com enorme graça na relação do herói com o seu cavalo que nos merece algumas passagens.