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terça-feira, 29 de março de 2016

PAS608. Os avanços da civilização

Lorde Patrick, sem poder pronunciar uma palavra, seguia com emoção os movimentos daquela jovem que ele havia insultado. Pela primeira vez, depois de longos anos, lorde Patrick sentiu as lágrimas a inundarem-lhe o rosto.
Abraçou-se ao filho, seguindo os movimentos da Iuta.
Heddy, seguida, de oito cavaleiros, surgiu como um furacão diante de Leclair, os seus braços moveram-se com extraordinária rapidez e perto de vinte homens caíram crivados de chumbo.
— Essa mulher é um demónio! — gritou o rancheiro gordo.
A luta prosseguiu. Bergson projectou-se contra os guerreiros índios com dez homens. Estrondos violentos cobriram o espaço e perto de trinta guerreiros foram sacudidos das seus cavalos.
— O velho do chapéu de palha é um monstro! — gritou uma mulher magra.
«Lobo Vermelho» deixou escapar uma praga e correu ao encontro de Bergson com os seus guerreiros. Mas Bergson, o terrível Bergson, queria provar àquele mundo de imbecis aquilo que fora. Ergueu-se sobre o cavalo e o seu corpo dobrou-se para a frente, enquanto os seus «Colts» vomitavam morte.
Dezenas de guerreiros rolaram para o solo crivados de chumbo.
«Lobo Vermelho», com um ombro a escorrer sangue, recuou entre os homens que lhe restavam para depois projectar-se para a frente com fúria diabólica.
A multidão paralisada seguia emocionada o terrível duelo de morte.
Heddy continuava a suprimir o bando de Leclair; da sela do seu cavalo, surgiam com rapidez de relâmpago «Colts» carregados que despejava sem interrupção.
Leclair, furioso, procurava defender-se para não ver perecido o seu poder diante da multidão que o adorava.
— Ah! Como me faz falta uma arma — lamentou Roberto.
— Tenho fé de que tudo terminará com a nossa vitória — respondeu lorde Patrick, sem perder de vista a jovem.
«Lobo Vermelho», de lança em riste, parecia um leão entre os seus guerreiros.
Por fim, uma descarga de Bergson atirou-o do cavalo abaixo. Tentou erguer-se mas as forças abandonaram-no e ficou sem, movimento.
Os seus guerreiros, vendo-o, morto, puseram-se em debandada.
Então, Bergson correu a auxiliar Heddy que parecia um fantasma no meio da refrega.
E o duelo prosseguiu cada vez mais sanguinolento. Mas os homens de Heddy, treinados para enfrentar grandes atiradores, não se deixavam abater, apesar de Leclair apresentar um número maior.
Por fim, Leclair e Heddy ficaram frente a frente. Heddy abandonou o cavalo e avançou para o seu terrível adversário. Leclair, que se havia apossado do cavalo de um índio, desmontou também.
O povo mal respirava. Roberto tremia, apesar de ter toda a confiança na sua amada.
Heddy e Leclair fitaram-se com ódio, bem patente. Ambos eram morenos, ambos eram possuidores de olhos negros e cabelos negros, ambos eram portadores daquela expressão selvagem que no momento da luta os tornava parecidos.
— Não desejava que morresses cedo, Leclair — disse Heddy, avançando para ele.
— Estás convencida disso?
— Tenho a certeza, Leclair. Bem te avisámos.
À distância, Bergson estava alheio ao que se passava. Todo o seu espírito se encontrava em. derrubar o bando de Leclair, que continuava a resistir.
— Veremos quem fica.
— Quero ver o caminho de ferro a atravessar Oregon e seguir o seu curso, Leclair. Estou farta de diligências.
Os dois foram avançando um para o outro.. A distância foi encurtando. Correu um segundo. Heddy, firme, tinha o corpo um pouco inclinado. Leclair, lateralmente dobrado para a esquerda. Os seus olhares não se despregavam.
Mais meio segundo e...
Roanpeu um estrondo ensurdecedor. Ouviram-se gritos na multidão. Roberto caiu sem forças nos braços do pai, depois precipitou-se como um louco para o lugar sinistro que o fumo da pólvora encobria.
O fumo foi-se extinguindo, lentamente; viu-se Leclair cambalear e cair nos braços de um homem que havia acorrido naquele instante.
Firme, com expressão de desprezo nos lábios, Heddy guardou os «Colts». Roberto, com louca alegria, tomou-a nos braços.
 O homem que segurava Leclair, quase sem vida, fixou Heddy, com aborrecimento.
— Disse-te que não fizesses fogo contra ele.
— Um bandido tem de ter a sua conta, Bergson.
Bergson sacudiu a cabeça com tristeza.
— É um bandido, mas é teu irmão. Nunca devias ser tu a matá-lo.
Heddy olhou o velho, assombrada.
— Meu irmão?
— Teu irmão, Heddy.
Todos que haviam acorrido, incluindo lorde Patrick, estavam impressionados com o sucedido.
Heddy desfez-se do abraço de Roberto, deu um passo e atirou com os «Colts» ao chão. Depois, perante o olhar comovido de todos abraçou o corpo ensanguentado daquele que era seu irmão e que o trágico destino fizera que viesse sucumbir em suas mãos.
O olhar de Leclair, quase a apagar-se, fixou Heddy, um pouco assombrado.
— Tony — pronunciou Bergson. — Ela é tua irmã. Heddy é tua irmã. Não vês que são parecidos?
Tony, ou Leclair, ergueu o olhar para quem o segurava e falava. Um ligeiro estremecimento sacudiu o seu corpo tingido de sangue e quase a ser entregue aos horrores da sepultura.
— Bergson! Tio Bergson!
— Meu filho — murmurou o velho com lágrimas nos olhos.
Heddy, aquela mulher que havia momentos dera provas de um poder infernal, soluçava como uma criança desprotegida.
— É minha irmã? — interrogou o moribundo,
— É filha de «sir» Gordon, teu pai.
O infeliz fechou os olhos. A cabeça tombou no peito de Heddy e, uma golfada de sangue brotou de três buracos feitos no-peito.
Voltou a reabrir os olhos e deteve-os em Heddy. E sorriu. A seguir uma nuvem de tristeza tingiu o seu rosto:
— Pequei muito — disse a custo. — Tio Bergson, quis fazer alguma coisa de mim, mas eu andava doido pelo «Colt».
Depois voltou a sorrir e o mesmo sorriso foi desaparecendo conforme o rosto empalidecia.
Foi o último sorriso, aquele sorriso belo de Leclair ou Tony Gordon.
De entre a multidão pôde ouvir-se uma voz comovida:
— Leclair morreu.
O corpo moveu-se num último estertor e ficou rígido nos braços de Bergson, Heddy e Roberto.
A glória daquele jovem que se havia erguido com rapidez, afundara-se da mesma maneira. De odiado e adorado, passara a despertar compaixão.
Bergson fez sinal para quatro dos seus homens, para que transportassem o corpo sem vida de Leclair.
Heddy aproximou-se de lorde Patrick.
— Milorde, seu filho pode continuar com o caminho de ferro. Custou a vida de meu irmão o progresso da Civilização em Oregon.
E sem dar tempo de lorde Patrick pronunciar uma palavra, Heddy montou o seu cavalo e afastou-se abrindo caminho entre a multidão que a olhava com respeito e admiração.
Lorde Patrick olhou para o filho que também se mantinha triste. Depois afastaram-se.
No recinto livre, divisavam-se os  dois «Colts» de Heddy, adormecidos no sangue de Leclair, seu irmão, como documento indestrutível' do preço da civilização em Oregon.
O caminho estava livre para lorde Roberto. Podia continuar com o caminho de ferro. Lorde Patrick podia introduzir novos métodos governamentais, baseados na civilização de todos os povos.
«Lobo Vermelho» e Leclair já não existiam.
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

PAS607. Salvos pela filha da escória

Quatro bandidos armados, surgiram no limiar da porta com Leclair à frente.
Lá fora o povo lançava gritos, os mesmos gritos de «Viva Leclair, o libertador».
Leclair, com aspecto imponente do homem que mede a responsabilidade dos seus actos, avançou dois passos e parou.
— Milorde. O povo reclama. a vossa presença.
— Está tudo pronto? — perguntou lorde Patrick, com a mesma autoridade que lhe era conhecida, quando falava para um inferior.
— Tudo pronto, milorde.
Lorde Patrick voltou-se para o filho.
— Vamos, Roberto. Precisamos de mostrar a essa canalha como morre um nobre.
Ao terminar, com a cabeça erguida e expressão de desprezo estampada no rosto altivo, caminhou para a porta precedido pelo filho e pelos bandidos.
O povo, ao vê-los, começou a blasfemar e lançar insultos.  Mulheres desvairadas atiravam-lhes punhados de terra.
Lorde Patrick, sempre de cabeça erguida, passou no meio da turba, cercado por dezenas de bandidos e índios. Uma massa de gente seguia atrás, ora gargalhando ora lançando insultos.,
Roberto correu o olhar pela multidão a ver se distinguia pelo menos a figura do velho Bergson, mas nada viu. Deixou escapar um suspiro enquanto caminhava. Estava tudo perdido, a última esperança que ainda animava a vida daquele jovem afundara-se para sempre. Agora restava-lhe morrer como um nobre, como dizia seu pai.
Foram conduzidos diante das forcas. Lá estavam elas firmes, prontas a mandar as suas almas para a eternidade. Pela primeira vez, Roberto sentiu um ligeiro estremecimento ao encarar aqueles dois instrumentos lúgubres, que pareciam desafiá-los.
Porém, lorde Patrick não perdia a sua serenidade.
Dezenas de bandidos e guerreiros índios rodeavam as forcas para manter o povo em ordem.
Leclair e «Lobo Vermelho», como júris daquele drama, vigiavam a iniciativa.
— Precisam de um padre, milordes? — perguntou Leclair.
— Apressem-se, canalhas! — foi a resposta.
— É de uma coragem extraordinária, milorde — disse Lectair, sem se ofender.
— Sou um descendente de Darnley. Está pronto?
Quatro homens fizeram subir lorde Patrick para cima de um tambor.
— Enforcamo-lo à moda da sua terra — disse Wood, o carrasco.
Mas no momento que ia passar o laço ao pescoço de lorde Patrick, perto de vinte cavaleiros comandados por uma mulher e um velho entraram como um furacão no recinto. Soou uma descarga, o carrasco e seus quatro ajudantes rolaram para o chão.
— Heddy a mulher infernal! — gritou Leclair, assombrado.
Depois projectou-se para a frente como um louco, enquanto a sua voz trovejava:
— Fogo, rapazes!
Heddy e Bergson pareciam dois fantasmas, semeando a morte em todos os lados. Com rapidez extraordinária enquanto as suas mãos se abriam automáticamente semeando a morte, Heddy passou rente a lorde Patrick e a Roberto, descarregando os seus «Colts». Com grande assombro os dois homens viram-se livres das cordas.

domingo, 27 de março de 2016

PAS606. Uma plebeia de nobre atitude

Lorde Patrick ia a dobrar uma esquina a cavalo quando uma figura de mulher montada também a cavalo atravessou uma rua.
Franziu a testa e voltou o cavalo em perseguição mulher. A mulher chegou diante de um «bar» e desmontou. Lorde Patrick também fez o mesmo e entrou. Foi direitinho a ela de testa anuviada e lábios contraídos,
— Ainda bem que a encontro, «miss» Heddy — disse ele sem cumprimentá-la.
A jovem fingiu assombro, depois arrastou uma cadeira e fez sinal a lorde Patrick para que se sentasse.
— Queira sentar-se, milorde.
Lorde Patrick recusou, dizendo:
— Este lugar não é digno de um par da Escócia. É próprio para os meus criados.
A jovem mordeu os lábios, mas dominou-se.
— Em que posso servi-lo, lorde Patrick?
— Em nada. Em coisa alguma. Venho apenas avisá-Ia que não volte a encontrar-se com lorde Roberto Patrick Darnley. Compreende o que quer dizer? Lorde Roberto Patrick Darnley, um senhor da Escócia, um descendente dos reis da Escócia, não pode e não deve apaixonar-se por uma filha da escória.
A jovem corou até à raiz dos seus cabelos negros. Teve um movimento instintivo de revolta e fixou com ódio lorde Patrick.
— Tem mais alguma coisa a dizer-me, lorde Patrick? — perguntou com violenta altivez. 
— Que se afaste de lorde Roberto.
A jovem ergueu-se do assento, fixou lorde Patrick dos pés à cabeça e ripostou:
— Assim o espero, lorde Patrick..
— Também eu.
— Boa tarde, lorde Patrick.
— Passe bem.
A jovem abandonou o «bar», saltou sobre o cavalo e desapareceu. Levava na alma o golpe de um tiro de canhão, mas a sua cabeça conservava-se erguida como a de uma rainha.
Lorde Patrick, aprumado no seu cavalo ficou a olhá-la até perdê-la de vista e não pôde deixar de murmurar:
— Tem uma atitude nobre, a plebeia.
E sorriu. Depois afastou-se.
O dono do «bar» que se havia mostrado humilde diante de lorde Patrick, quando o viu afastar-se, ergueu os punhos e gritou:
— Ah! Ladrão! Os teus dias estão quase terminados! Ainda hei-de ver pendurada numa corda essa cara de jaguar.

sábado, 26 de março de 2016

BIS106. Dança dos "Colts"

(Coleção Bisonte, nº 106)
 
 
 
Um nobre escocês, senhor de razoável fortuna, que reivindicava para si a qualidade de ascendência real, estabeleceu-se no Oregon, onde construiu ume espécie de fortaleza protegida por homens armados a partir da qual realizava os seus negócios e geria os seus projetos. O seu poder era de tal ordem que dominava as próprias autoridades sendo detestado pela população em geral.
O asco do povo ao nobre aumentou quando o filho concluiu o curso de engenharia, regressou à cidade, e o nobre, convencido que era o paladino da civilização, decidiu avançar com um projeto de instalação do caminho de ferro que iria interferir com as explorações dos populares e com o território dos índios.
Desenhou-se a partir daqui particular resistência com dois campos bem definidos. Os populares contrataram uma série de pistoleiros para combater o projeto, conseguindo ainda o apoio dos índios, mas, após um conjunto de peripécias, o autodenominado arauto da civilização conseguiu implementar as suas ideias.
Nesta história, pouco credível mas engraçada, intervém ainda uma jovem com substancial destreza com as armas, que se veio a descobrir ter sangue azul nas veias, a qual foi personagem chave para eliminar o terrível chefe dos pistoleiros.
Dado o interesso do texto aqui deixamos para download a «Dança dos Colts».