Mostrar mensagens com a etiqueta ARZ139. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ARZ139. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de junho de 2017

PAS764. Os vidros que denunciavam um acto cobarde

A interminável noite de espera esgotara os nervos dos homens de Jules Carson. Quando a luz do amanhecer surgiu, eles decidiram que tinha chegado o momento de descansar.
— Assim, com a luz do dia, metade de nós chega para vigiar! — exclamou um deles, para Jules.
— Está bem, vão dormir. Mas não todos, pois quero que alguns fiquem de sentinela.
Jules Carson não saíra da entrada da casa. Estava pálido e com sulcos profundos nas pálpebras. Decidiu continuar ali. Sabia que aquelas horas eram, decisivas para ele.
— Se esses imbecis não vierem, procurarei três homens que os substituam, para entrarem por aqui, disparando, e se escapem depois, deixando um rasto bem visível e o cadáver de Margaret. O xerife não é homem para proceder a averiguações, depois do que eu lhe contar... Conheço-o muito bem...
Acabava ele de pensar em Leo Harrys, quando um dos homens que estava de sentinela, gritou do cercado onde se encontrava:
— Vem aí o xerife, patrão!
— Só?
— Sim, só. Deixamo-lo passar?
— Claro que sim, imbecil! — retorquiu, aborrecido.
Arrepelou-se todo de raiva. Estava excecionalmente nervoso. Que diabo quereria aquele intruso?
— Já sei! — disse para consigo. — Vem dizer-me que os presos conseguiram fugir. Sim, com certeza que é isso o que veio cá fazer, este supremo. idiota...
Leo Harrys chegou diante da casa, com ar bem-disposto.
— Adeus, Jules! Já sabes. que esses tipos...?
— Sim, já sei! Não vens cá para que te felicite, pois não, Leo?
O outro encolheu os ombros.
— Bem... as coisas são como são... Eles surpreenderam-me, uma coisa que pode acontecer a qualquer. Suponho que por uns miseráveis dólares não quererás ter um xerife infalível...
Jules sorriu com desprezo.
— Suponho que não. O que é que o trouxe cá?
Mas Leo Harrys em vez de responder, fez-se desentendido e perguntou:
— Onde está Margaret? Sei que costuma madrugar, e preciso falar com ela.
Jules fez-se pálido e o rosto tornou-se apoplético de furor. Foi só um momento, porque ele recobrou imediatamente a calma, mas Leo Harrys teve tempo de ver a sua reação.
— Margaret dorme — respondeu Jules. — Deixa-a em paz, Leo. Não quero que a incomodem, agora.
O xerife desmontou sempre com a mesma calma estereotipada no rosto.
— Lamento, mas ela deve vir comigo à povoação para assinar uns documentos, acerca da queixa contra esse rapaz... aliás, sei que ela não se aborrecerá se eu lhe bater à porta do quarto para a despertar.
Os nervos de Jules Carson, já crispados pela noite de vigilância, deram de si, e o tio de Margaret saltou para a frente do xerife, gritando furioso:
— Não entres! Já te disse que não se pode incomodá-la!
Leo Harrys não fez caso.
— Então, Jules! replicou ele, sempre com o mesmo tom calmo. — Somos velhos amigos, e Margaret não se importará até de que eu entre no seu quarto para a acordar.
Resolutamente, Jules agarrou-o por um braço.
— Não sejas parvo! Já te disse que não podes entrar! Deixa ficar os documentos e eu te os mandarei já assinados!
Então, Leo Harrys cometeu a imprudência de dizer:
— Será que a tens prisioneira, Jules?
O assassino de Howard Carson empalideceu ainda mais e explodiu de raiva. «Sacou» velozmente o «Colt», engatilhando-o ao mesmo tempo que o erguia.
Sem hesitar pôs a arma junto à cara do xerife. Este, surpreendido, ouviu-o dizer:
— Cala-te! Esta casa é minha e não tens direito de entrar nela, sem um mandado judicial! Não é assim que diz a lei?
Harrys manteve-se sereno, respondendo de forma a não elevar a voz:
— Que eu saiba a casa não é tua, Jules. É de Margaret! «Ainda» não é a tua casa...
Acentuou demasiadamente a palavra «ainda». Tanto, que Jules Carson percebeu perfeitamente a sua intenção. Os lábios do miserável tio de Margaret cerraram-se mais, tornando-se uma ténue linha. Estava lívido de raiva e de medo.
— Que estás a insinuar?
Leo Harrys replicou furioso:
— Larga esse revólver, Jules! Cometes um delito grave, ao empunhá-lo contra .mim! Quero ver a tua sobrinha! Falo claro, ou precisas dum tradutor?
O outro hesitou por momentos, mas depois baixou a arma lentamente e guardou-a no cinturão.
— Desculpa, Leo. Estou nervoso e vou dizer-te o que se passa. Minha sobrinha... Acontece que se apaixonou por esse Dale Miller, o dos «mustangs»...
Ante a estranheza do xerife, esclareceu:
— Sim, bem sei que, primeiro, fez com que ele fosse preso... Mas as mulheres são todas loucas. Quando ontem à noite soube que ele fugira da prisão fingiu sentir-se desolada. — Não te engano, Leo, isto é demasiado grave para mim. Ela foi com dois homens procurá-lo, para o ajudar a escapar. E eu não podia dizer-te que Margaret estava tentando auxiliar um fugitivo, como deves compreender. Essa a razão porque comecei por te mentir.
Jules falava com a cabeça baixa, e expunha com dificuldade a versão que inventara. Não tinha um espírito muito brilhante, de forma a poder imaginar dum momento para o outro uma história daquelas, mas o esforço a que era obrigado, fazia-o parecer mais sincero.
Pelo menos, Leo Harrys acreditou nas suas palavras.
— Sabes, neste assunto, há uma enorme confusão! — disse. — O assassino do teu irmão... Ainda não compreendi a razão por que o mataram...
Jules pareceu perceber no tom de voz do xerife que estava a ponto de acreditar no que lhe dissera e reforçou a sua explicação.
—Pois é fácil de compreender, Leo. Ele ia descobrir o esconderijo desses ladrões de cavalos. Porque eles são ladrões de gado. Os «mustangs» foram sempre um bem comum e eles não têm nenhum direito de se apropriar deles e de vendê-los por um preço que rebaixa o preço de todos os outros ganadeiros. Ainda que nenhuma lei o diga, o costume faz lei, xerife!
Convencido, Leo Harrys acenou afirmativamente com a cabeça.
— Sim, é certo — murmurou entredentes. — Não devia ter dado ouvidos a esse homem que...
— De que homem falas?
O outro esquivou-se a dizer.
— Não é nada. De qualquer maneira. também há quem diga que são animais selvagens, que pertencem a quem os apanha, como sucede com todos os outros animais que andam pelas montanhas.
— Não discutamos, agora, tais pormenores, Leo. Estou preocupado por Margaret e creio que mandarei alguns homens buscá-la. Se ela se encontra junto de Dale Miller, correrá perigo! Tu próprio, talvez devesses ir em sua procura.
O xerife disse que ia pensar em tal hipótese e voltou para junto do cavalo. No momento em que punha a mão na sela, e se preparava para montar, ouviu-se um grande estrépito de vidros quebrados.
Leo voltou-se para a casa, enquanto a voz de Margaret, uma voz que o representante da lei tão bem conhecia, gritava:
— Harrys não abale! Tire-me daqui! Ajude-me, Harrys! Meu tio sequestrou-me!
Margaret partira os vidros da janela do seu quarto, com o tacão dum sapato, para poder chamar a atenção do xerife.
Leo Harrys que não era cobarde, soltou uma praga, bradando furioso:
— Jules, tornaste-te louco, maldito embusteiro!
Lançou-se para a entrada da casa, impetuosamente. Demasiado impetuosamente, porque Jules Carson só teve de levantar o braço direito para o agredir violentamente com a coronha do revólver, quando o xerife passava junto dele.
Leo foi cair à entrada da casa, aparatosamente. Jules aproximou-se dele, mantendo-o sob a ameaça da mira do «Colt».
— Imbecil! — rugiu. — Ninguém te pediu para te meteres onde não eras chamado!
Alguns dos homens acercavam-se curiosos. Jules disse que agarrassem no xerife e o metessem dentro de casa.
— Não tenham medo... Um xerife é um homem como outro qualquer. Quase sempre vale menos do que os outros, pois só os imbecis aceitam este trabalho maldito!
Levantaram Leo Harrys. Jules entrou em casa, indicando aos homens que o seguissem.
— Para a adega!
Aquela divisão da casa tinha uma porta muito sólida, e ninguém poderia fugir dali a não ser fazendo-a voar com dinamite.
O xerife foi «delicadamente» atirado pelo ar, chocando contra os húmidos degraus de pedra. Ainda inconsciente, ali ficou imóvel.
Jules Carson, que parecia dominado de urna raiva fria, dirigiu-se para o quarto da sobrinha, seguido pelos seus homens. Margaret recebeu-o com palavras de censura.
— Que fizeste ao xerife ? Como te atreveste... ?
O tio aproximou-se dela enfurecido.
— Eu atrevo-me a tudo, pequena! A tudo!
E para demonstrá-lo, levantou a mão e esbofeteou-a com violência, Margaret só não caiu no solo, porque o próprio tio a segurou por um braço. Voltando-se para os seus homens, Jules bradou:
— Levem-na para a cave...! Não se prendam com delicadezas e deixem-na.
Os homens pareciam hesitar. Apesar do que Jules lhes tinha dito, sentiam bastante respeito pelo xerife.
— Que se passa com vocês, idiotas?
— É por causa do xerife. Compreende não podemos tê-lo preso indefinidamente.
— Descansem, que não o teremos ali indefinidamente...
O sorriso zombeteiro atentou-lhe o cinismo da expressão.
— O dever dum xerife — continuou — é enfrentar os delinquentes. Leo Harrys vai defrontar-se com os bandidos que assassinaram minha sobrinha. E, por desgraça, cairá, também, debaixo do fogo das suas armas, no cumprimento do seu dever. Creio que um inútil como ele, não merecia tantas honras, mas... enfim... vai tê-las! — acrescentou, desdenhosamente.
E enquanto observava como os seus homens levavam a sobrinha, que se mantinha inconsciente, pensava:
— Agora poderei ocupar-me do resto. Não é natural que esse ladrão de gado, o tal rapaz dos «mustangs» apareça por aí. Não deve ser um tipo muito romântico. Certamente, prefere salvar a pele lógico.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

PAS763. Mentes torpes, planos sinistros

Tudo estava calmo no rancho. O tio de Margaret, Jules Carson andava naquela noite a examinar os currais, observando tudo atentamente.
— Já tenho visto tudo isto muita vez... Mas é a primeira ocasião em que o faço, e posso dizer que é meu.
Parara no centro do pátio e sorria. Jules Carson estava envenenado pela ambição. Sempre invejara tudo o que o irmão possuía.
«Eu era mil vezes mais capaz e mais competente do que ele, e tinha de obedecer às suas ordens, e de caminhar na sua peugada! Mas, agora, tudo mudou... Agora, sou eu o dono disto tudo...»
Naquele momento, Margaret ainda vivia! Mas, para o miserável, era como se tudo já tivesse terminado...
A entrada da porta colocara dois dos seus homens, aqueles em quem mais confiava. E foi precisamente um deles que se aproximou de Jules para lhe perguntar:
— Patrão... que pensa fazer com a rapariga? Não podemos conservá-la indefinidamente no seu quarto!
Jules concordou.
— Claro que não. Mas tenho de pensar em qualquer coisa adequada. Talvez fazer com que ela sofra um acidente, aqui, no rancho... Não quero despertar suspeitas... E parece-me tão natural sofrer um acidente no seu próprio rancho!
Os homens sorriam. Os trabalhadores estavam a regressar naquele momento ao barracão, quando um outro homens, a cavalo, chegou ao rancho. Vinha de Alamogordo, onde fora efetuar umas compras.
— Senhor Carson — gritou agitado. — Ouça uma notícia importante; Os três homens que o xerife prendeu, fugiram! Os três! Dale Miller e os outros dois!
O tio de Margaret praguejou, entredentes.
— Esse xerife é um imbecil! Se esses homens cá vêm, pode ser uma enorme complicação...
— Se o fizerem, serão bem-recebidos, patrão!
Jules Carson soltou uma gargalhada.
— Que rica oportunidade! Evidentemente, rapazes! Recebê-los-emos o melhor possível, se vierem até cá! Por que não? E se não vierem, é o mesmo... Diremos que estiveram aqui, que nos atacaram para se vingarem de terem sido presos. Ao fim e ao cabo, minha sobrinha estendeu a esse tal Miller uma armadilha, que ele nunca esperaria! Aqui neste mesmo pátio!
Os seus olhos brilhavam astuciosamente.
— Minha sobrinha é uma rapariga valente! Ela própria dirigirá a defesa... — suspirou. — Que pena! Nem sequer urna rapariga tão bonita como Margaret está livre de receber um tiro! Vão derrubá-la com um balázio, aqui mesmo à porta...
Os três homens contemplavam o chefe com evidente admiração.
— Bem imaginado, patrão... — exclamou um deles.
— É preciso pôr os miolos a funcionar, para aguçar o engenho. Temos de preparar um sistema de vigilância perfeito, para o caso desses tipos virem cá ter. Se assim for, deixá-los-emos chegar até perto de nós, para depois os enchermos de chumbo quente, aqui mesmo no pátio. Depois traremos Margaret para que apareça morta no sítio preciso. Perceberam ?
— Talvez esses tipos estejam longe de Alamogordo, patrão. Os que se escapam dos cárceres costumam fugir muito...
— Nesse caso, o ataque, os disparos e tudo o mais para completar uma perfeita encenação do «espetáculo» será feito por nós... De qualquer maneira, minha sobrinha aparecerá morta nesta porta. Só que, nesta hipótese, os assassinos conseguiram fugir. Será essa a diferença...
Com ar cínico olhou para os malandrins que o escutavam com atenção e finalizou:
— Ouçam bem: olho vivo para que não sejamos surpreendidos! Tratemos das coisas como de ser.
Jules Carson, nervoso, duro e sem escrúpulos, conduziu os homens para o local onde começaria a preparar a emboscada.

terça-feira, 13 de junho de 2017

PAS762. Decepção

Dale Milier chegou ao rancho Carson às primeiras horas da tarde. O jovem vestia o mesmo traje que em Fort Summer. Não levava armas, parecendo um indivíduo inofensivo, na aparência.
Conduziu o cavalo a trote até à casa do rancho. A entrada, encontrava-se Margaret, pálida, mas muito bonita, fixando-o.
Dale desmontou em frente da escadaria e tirou o chapéu,
— Como vê — exclamou risonho —, não faltei ao encontro! Quinta-feira... Sou o único convidado?
Margaret respondeu, lentamente:
— Não. Não é o único, Dale. Olhe para a sua retaguarda. •
Dale Milier voltou-se e olhou, sem deixar de sorrir. Então, viu um grupo de homens que se acercavam. Tinham saído dos outros edifícios perto, e empunhavam revólveres uns, e espingardas, outros. Todos mostravam aspeto de quem é capaz de disparar, à. primeira.
O rapaz observou-os um a um, enquanto se aproximavam. Em seguida perguntou a Margaret:
— Que é isto? Uma brincadeira?
A rapariga, negou com a cabeça, inexplicavelmente agitada.
— Não, não é uma brincadeira, Dale Milier... é uma armadilha! Estes homens são ajudantes do xerife de Alamogordo, vêm para prendê-lo, e estão dispostos a matá-lo, se cair na asneira de resistir.
Dale Milier continuava a olhar para a formosa rapariga.
— Resistir? — replicou com calma. — Não tenho armas, já sabe! — Os seus olhos brilharam. — De modo que, apesar de tudo, continua a pensar que sou um ladrão de gado. Por isso me preparou esta armadilha... Corno é possível que uma rapariga tão bonita, seja capaz de fazer coisas tão feias?
— Xerife! — gritou a jovem, impaciente. — Termine de urna vez com isto! Este homem assassinou meu pai! Prenda-o!
Miller, cuja calma era impressionante, disse a meia voz:
— Nunca vi o seu pai, Margaret! Juro-o...
— É o mesmo! Foi você o causador da sua morte! Meu pai foi assassinado em Pico Gallinas, quando procurava o seu acampamento!
— Nem os meus homens, nem eu, matámos quem quer que fosse em Pico Gallinas! — assegurou Dale, severamente. —2 possível que me odeie por isso, que me tenha preparado uma armadilha, só por uma suspeita, sem o menor fundamento?
O xerife colocou a mão nas costas do rapaz e disse, secamente:
— Está preso por assassínio de Howard Carson! melhor não oferecer resistência! Será submetido a um julgamento legal.
A resposta de Miller foi assombrosamente tranquila:
— Esperemos que seja assim, xerife. Suponho que posso montar o meu cavalo...
— Depois de lhe revistarmos a sela.
Margaret afastara o olhar do jovem. Naquele momento, o seu tio Jules saía de casa, dizendo em tom ameaçador:
— Então, este é o canalha que matou meu irmão? Deveríamos enforcá-lo, agora mesmo!
— Esqueça-se disso, Jules! — avisou o xerife. — Terá um julgamento legal.
Em seguida empurrou o jovem para o cavalo. Margaret voltou as costas, verdadeiramente confundida, e foi nessa posição que escutou a voz de Dale Miller:
— Adeus, menina Carson! A festa não foi muito agradável. Pelo menos para mim...
Margaret segurou-se a uma das colunas do pórtico e não se tirou dali, até que o ruido do trote dos cavalos se afastou.
O tio Jules Carson estava a seu lado, procurando tranquilizá-la.
— Tranquiliza-te, Margaret. Isto está quase a terminar, pequena. Esse homem vai receber o castigo devido. Bem sei que com isso não poderemos devolver a vida a Howard, mas, pelo menos...
— Tio, ele garante que está inocente!
— Que queres que ele diga? É natural que se proclame inocente! Mas nós sabemos que não é!
A sobrinha começou a chorar, O tio observava-a com surpresa.
— Que é isso, menina?
— Não sei... Não sei, tio Jules! Foi uma atitude indigna ter atraído aquele rapaz aqui... Ele nem sequer trazia armas. Pensava que...! E acreditava que eu...!
Jules tomou-a pelos ombros e empurrou-a suavemente para casa.
— Anda, vai para o teu quarto. Deita-te, e descansa um pouco. Eu vou ocupar-me dos vaqueiros. A presença dos homens do xerife alvoroçou isto tudo.
A rapariga foi para o seu quarto e estendeu-se sobre a cama. Durante três horas chorou, sem saber, verdadeiramente, porquê. Por fim tranquilizou-se um pouco mais.
— É preciso que me esqueça de tudo isto! — raciocinou. Estou certa de que fiz o que devia.
Resolvida a distrair-se com o trabalho, verificando as contas do rancho, foi para o escritório. Os livros da escrita não estavam, porém, no seu lugar.
— Meu tio deve tê-los no seu quarto. Com certeza... tenho a impressão de que os levou a noite passada.
Dirigiu-se ao quarto do tio, e entrou. Na verdade, os livros das contas do rancho encontravam-se numa estante, juntamente com livros de outro género, que ela gostava de ler. A rapariga agarrou nalguns, mas, ao fazê-lo, derrubou, sem querer, outros.
Apanhou-os do chão e colocou-os no local anterior. Ao fazê-lo, observou que, escondido por detrás duma fila de livros, havia qualquer coisa envolta num pano.
Margaret era curiosa. Agarrou no embrulho e pô-lo na mesa com cuidado. Ao retirar o pano, ficou a descoberto uma arma, bem ensebada.
— Uma espingarda... — Olhava para a arma, bem aturdida. -n estranha esta espingarda... Deus meu, não é possível!
A jovem empalideceu, cambaleando! Era a espingarda especial, de dois canos, de seu pai! Uma arma que, naquele Estado, só ele possuía! A espingarda de Howard Carson!
— Ele levou-a, quando foi para Pico Gallinas! Ele levou-a...! — repetiu obssessivamente Margaret. — É a sua arma, estou certa disso!
Nervosamente procurou a coronha... efetivamente, lá estavam as iniciais em prata de Howard Carson!
—Deus meu! Quando o seu cavalo o trouxe, já morto, não trazia a espingarda! Isso quer dizer...! Isso quer dizer que...!
Ouviu-se um ruido na porta. Margaret voltou-se, soltando um grito. Seu tio estava ali, olhando-a friamente! E friamente foi o tom de voz em que falou:
— Sim, é uma arma extraordinária... Era das coisas que mais invejava a meu irmão, Margaret...
Entrou no quarto, contemplando fixamente a espingarda que a rapariga colocara sobre a mesa.
— Invejava-lhe mais coisas, é certo! Sobretudo este rancho. Suponho que isso te parecerá monstruoso, não é verdade?
Margaret afastou-se, apoiando-se à parede, assustada. Quase não podia respirar.
— Tu assassinaste meu pai! — acusou ela. — Por isso, tens esta arma! Seguiste-o, quando ele foi à procura dos «mustangs» e mataste-o! Tu é que o mataste!
Jules agarrara na espingarda e examinava-a com ar despreocupado.
— Sim, foi exatamente, assim, pequena. Lamento que o tenhas sabido. Confiava que morresses sem chegar a sabê-lo, Margaret. Porque eu quero o rancho só para mim!, compreendes?
Sim. Ela compreendia, por fim. E era terrível compreender. Mas continuou acusando:
— Foste tu que pagaste ao homem que me atacou em Fort Summer. Queres assassinar-me também? Queres, não é verdade?
Jules sorria; sem deixar de acariciar a arma.
— Sim. Quando me telegrafaste, para que te mandasse o gado, telegrafei eu para um amigo de Fort Summer, que só esperava uma indicação em cifra, que já fora previamente combinada, para te atacar. Era um pobre imbecil, que falhou a tentativa. Todos são imbecis, pequena, como esses teus amigos, esses ratoneiritos, de quem me desfiz, colocando o seu «tesouro» no alforje junto à sela, é...
Margaret começou a correr para o corredor. O tio não tentou retê-la. Continuava sorrindo, sem largar a arma.
A rapariga chegou à entrada da casa. Os soluços quase a afogavam. Após um momento de dúvida, saiu para o pátio, gritando:
— Jim, Bernard, venham cá! Imediatamente! Venham cá!
Corria pelo pátio, desolada, na direção da cavalariça, donde saíam uns homens. Do dormitório saíram outros. Todos a olhavam com surpresa,
— Venham! Depressa! — voltou a gritar a rapariga que se deteve, arquejante. — Têm que me ajudar!
Sobre as tábuas do patamar da entrada ressoaram passos.
— Agarrem-na, rapazes! Já não é preciso dissimular. Tragam-na aqui!
Margaret olhava para os homens que a começavam a cercar, e empalideceu ainda mais.
— Não, não é possível! — gritou de novo. — Ele assassinou meu pai, o vosso patrão! Vocês trabalharam para meu pai! Não podeis obedecer-lhe: é um assassino! Não! Não!
Os homens agarraram-na com força, Jules ordenou: -
— Tragam-na para casa, rapazes! Não é preciso fazer--lhe mal.
Margaret defendia-se. Dava pontapés nos vaqueiros, gritava e chorava. Mas nada podia fazer, nem ninguém podia vir em seu auxílio. Quando se convenceu de que Jules dominava todos os homens do rancho, a jovem deixou de resistir.
Levaram-na para o quarto. A janela tinha fortes grades de ferro, a porta era grossa e, além disso, dois homens ficaram de guarda à porta, de forma a não lhe permitir qualquer veleidade de fuga.
Margaret Carson ficou quieta, de pé, diante da cama. Naquele momento só pensava numa coisa.
Pensava em Dale Miller, a quem havia atraiçoado miseravelmente.
— Ele está inocente...! É preciso que o xerife o saiba. Poderão tentar linchá-lo! Deus meu, tenho que sair daqui!
Recordava o olhar sereno do jovem. Só naquele momento compreendeu que o amava.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ARZ139. O homem dos «Mustangues»

(Coleção Arizona, nº 139)

Um estranho mistério perseguia o negócio de Howard Carson. O seu negócio de venda de cavalos parecia bloqueado pela ação de um caçador de «mustangues» que conseguia chegar aos compradores com preços imbatíveis. Howard dirigiu-se ao local de venda para descobrir quem era aquele estranho vendedor, Dale Miller, a quem ninguém parecia conhecer e foi abatido. Margaret, filha de Howard, decidiu descobrir quem era o assassino do pai e partiu em busca da misteriosa personagem. Veio a encontra-lo e atraiu-o ao seu rancho, mas, aí, monumental deceção tomou conta dela. Afinal, o assassino do pai era alguém muito perto dela e não o vendedor de «mustangues».
Eis um livro muito interessante de Cesar Torre onde até a presença de um declamador de textos de Shakespeare tem um papel determinante na ação.