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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

PAS716. «Pequena Estrela» corre perigo

Em face da insistência dos dois irmãos, Glen decidiu adiar a sua partida por mais dois dias, até estar completamente restabelecido.
O rapaz acedeu para não parecer ingrato, mas estava desejoso de sair dali, porque notara que «Pequena Estrela» se estava a apaixonar por ele, e se o que ele descobrira também fora notado por «Antílope Veloz», não queria nem pensar no que podia acontecer.
O melhor era ir-se embora, e quanto anos. De resto, a beleza, a bondade e os cuidados da jovem e formosa índia não tinham deixado insensível o coração do vaqueiro, e isso podia complicar as coisas de tal maneira que todos tivessem de lamentar que os abutres não o houvessem comido.
Quatro dias depois, Glen despediu-se de «Pena Azul», «Pequena Estrela» e «Antílope Veloz», e tomou o rumo do leste.
Esperou a noite para partir, porque lhe pareceu mais seguro, e o chefe dos «yumas» concordou com ele. Se alguém espiava pelos arredores do acampamento, ser-lhe-ia difícil distinguir quem saía.
Como Glenn não tinha pressa de chegar a nenhum lado, deixou o cavalo caminhar à vontade.
Percorrera três ou quatro milhas, quando um ruído estranho lhe chamou a atenção. Meteu o cavalo entre umas árvores, tirou o «Colt» e esperou com os nervos tensos.
O ruído aproximava-se cada vez mais, até que se tornou tão claro que o jovem não teve dificuldade em descobrir do que se tratava.
Montados nos seus cavalos desferrados, três índios pareciam levar a direção do acampamento dos «yumas». Glen julgou reconhecer num dos peles-vermelhas algo peculiar e seu conhecido, embora de momento não se recordasse exatamente do que se tratava. Depois lembrou-se que aquele índio era um dos «apaches» que tinham ido pedir a «Pena Azul», em nome do feroz Jerónimo, que se juntasse a eles para guerrear contra os brancos, coisa a que o chefe dos «yumas» se negara, com a aprovação de quase todo o seu povo.
Procurando não ser descoberto, seguiu-os, até que os viu chegar à aldeia «yuma». Glen estranhou que não entrassem nela a descoberto, e sim às ocultas, depois de terem escondido os cavalos.
Aquilo não era normal. Os «apaches» vinham dispôs-tos a alguma traição, que procuraria impedir a todo o custo.
Viu-os arrastarem-se cautelosamente, e Glen esteve prestes a disparar, mas depois pensou que seria melhor não o fazer... de momento. Para poder culpar aqueles homens de alguma coisa, tinha de esperar até os surpreender com as mãos na massa.
Arrastou-se com as mesmas cautelas que eles e escondeu-se num lugar de onde podia ver tudo o que ia suceder. Os índios dirigiam-se para a tenda que ele ocupara durante a sua permanência ali. Que procurariam nela?
A pele levantou-se por uma das pontas e um índio desapareceu dentro da tenda. Glen destravou o «Colt» e esperou com impaciência. Poucos minutos depois o índio voltou a sair, trazendo com ele outra pessoa, que, evidentemente, o acompanhava contra vontade.
Teriam sido capazes aqueles «apaches» de raptar «Pena Azul»? Que pretenderiam com isso? Obrigar a tribo «yuma» a pôr-se ao lado deles contra os brancos, ou simplesmente vingarem-se do jovem guerreiro, por lhes ter negado a sua colaboração?
Quem quer que era o prisioneiro, resistia, forcejando com violência, embora em vão. Glen deixou o seu esconderijo e foi-se aproximando com toda a precaução do local onde os «apaches» tinha deixado os cavalos. Devia ajudar quem fosse.
Quando a distância lhe permitiu ver com clareza o que se passava e quem era a pessoa que pretendiam levar, ficou momentaneamente petrificado.
Os «apaches» tinham raptado «Pequena Estrela». Porquê?
Quando os teve perto, Glen apareceu no meio deles empunhando as suas armas.
— Ninguém se mexa — disse sem saber se o entenderiam ou não, embora convencido de que os seus «Colts» eram mais eloquentes do que as suas palavras.
A surpresa apanhou desprevenidos os índios, e isso permitiu a Glen colocar-se ao lado de «Pequena Estrela». Tirou-lhe a mordaça que a impedia de falar e perguntou-lhe:
—Por que te raptaram estes homens? Que pretendiam com isso?
 -- Não sei, mas imagino.
—Porquê?
--- Eu seria um bom refém para obrigarem meu irmão a lutar junto deles.
-- Estes não são os que no outro dia vieram parlamentar com o teu irmão? Os «apaches» de Jerónimo?
-- Um deles é. Os outros nunca os vi.
— Como se atreveram a entrar no teu «tipi», expondo-se a que o teu irmão os descobrisse, ou algum dos outros guerreiros?
— «Pena Azul» e os seus homens não estão no acampamento. Saíram pouco depois de tu partires. Glen pareceu pensar e depois disse:
— Foi simples coincidência ou estes homens vieram porque sabiam que te encontrariam sós?
— Não sei. Eu creio... Cuidado, Glen!
«Pequena Estrela» empurrou o jovem, para evitar que a faca que um dos índios atirara ao descuidado vaqueiro lhes acertasse.
Glen não perdeu tempo a pensar. Disparou contra o seu agressor e matou-o imediatamente. Mas os outros dois não ficaram inativos. Tiraram as facas e dispuseram-se a lutar contra o rosto pálido, que aparecera sem que eles esperassem.
Glen disparou duas vezes mais e depois aproximou-se de «Pequena Estrela» e obrigou-a a refugiar-se atrás de umas rochas.
Quando o jovem quis emendar o erro cometido, já era tarde. Um dos «apaches», precisamente o que Glen conhecia, embora estivesse ferido, conseguiu montar a cavalo e desaparecer na escuridão da noite. Ao princípio, pensou em segui-lo, mas depois desistiu. Os índios do acampamento tinham despertado ao ouvir os tiros e talvez eles fossem mais eficientes na perseguição do fugitivo.
— Creio que te devo a vida, Glen — disse a rapariga. — Esses homens ter-me-iam matado, porque o meu irmão jamais acederia aos seus desejos.
— Nesse caso, sinto-me muito satisfeito, «Pequena Estrela». Recompensei de algum modo o muito que fizeste por mim.
— Agora estamos pagos, Glen. Talvez por não te sentires já em dívida para comigo te seja mais fácil esquecer-me.
— Isso nunca sucederá, «Pequena Estrela». Eu sempre estarei em dívida para contigo. Ainda que te salvasse mil vezes a vida, jamais pagaria o que fizeste por mim.
«Pequena Estrela» pensou que Glen não devia sair nunca do seu lado, mas não disse nada.
Os primeiros homens começaram a chegar e muitas cabeças de mulher espreitaram pelos «tipis». Glen contou-lhes o que acontecera e minutos depois uma dúzia de guerreiros seguiam as pegadas que o «apache» ferido deixara na fuga.
— Bom — disse Glen —, tenho de partir outra vez. Espero que esta lição consiga que esses «apaches» não sejam tão temerários e nunca mais os visitem com as intenções desta noite.
— O meu irmão sentirá não te poder agradecer. Por que não ficas até ao seu regresso?
Os olhos do rapaz cravaram-se nas pupilas da índia e viu nelas qualquer coisa que o fez estremecer. Se ficasse ali naquela noite, tendo «Pequena Estrela» a seu lado, sós os dois...
— Devo ir-me embora disse com esforço. — Já não sucederá nada e não devo retardar a minha partida por mais tempo. Que sejas muito feliz, «Pequena Estrela».
Glen deu meia volta e dirigiu-se para o cavalo. A índia não lhe respondeu. Um nó na garganta impedia-a disso.
Quando Glen já tinha um pé no estribo, disposto a montar, qualquer coisa lhe tocou nas costas, com suavidade. Virou-se devagar e deparou com ela, sedenta, sugestiva, insinuante.
O rapaz apelou para todas as suas forças, certo de que, se não transpusesse aquele momento nunca mais seria senhor de si mesmo. Era muito o que arriscava naquele instante: a sua felicidade e a da «Pequena Estrela»; a de «Antílope Veloz» e talvez a de toda a tribo dos «yumas».
As pupilas femininas ofereciam o que os lábios vermelhos ambicionavam. O peito da rapariga subia e descia, arquejante, incapaz de conter os sentimentos que albergava.
— Por que não ficas, ainda que só seja esta noite?
A pergunta feriu os ouvidos de Glen. Causou-lhe uma dor profunda, atingiu-o com a violência de um vulcão.
— Porque tu serás mais feliz se eu me for embora... mesmo que eu não o seja.
Glen fora sincero nas suas palavras. Deixara falar o seu cavalheirismo, a sua gratidão, a sua nobreza. Não quis ser tão mesquinho como tantos que conhecera e desprezara.
Antes de a voz feminina fazer vibrar as fibras mais sensíveis do seu ser, obrigando-o a esquecer-se de que era um homem para o converter numa besta, montou a cavalo de um salto felino, cravou as esporas nos flancos do animal e saiu dali disparado como uma bala, sem deixar que o tempo permitisse a nenhum dos dois proceder de modo diferente.
Quando «Pequena Estrela» deu por isso, Glen corria entre as sombras da noite, não sabia se à procura de alguma coisa ou fugindo do mesmo que parecia procurar.
Quando «Pequena Estrela» deu por isso, Glen corria entre as sombras da noite, não sabia se à procura de alguma coisa ou fugindo do mesmo que parecia procurar.
Duas lágrimas ardentes rolaram pelas faces da índia, mas, apesar disso, os seus olhos não pareceram tristes. «Pequena Estrela» soubera compreender e agradecia do fundo do coração a valentia e a nobreza do homem que acabava de a salvar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PAS715. Salvo pelos índios

Quando o grupo de índios «yumas» se dispôs a regressar ao seu acampamento, depois de percorrer grande parte das margens do Gila, um deles aproximou do que parecia ser o chefe e disse-lhe na sua língua:
— Passa-se qualquer coisa ali em cima, «Pena Azul» — e apontou na direção contrária à do curso de água.
— Por que dizes isso?
— Vi muitos pássaros carnívoros.
— Por estes lados há muitos.
-- Mas não voam sempre à volta do mesmo sítio.
— Leva-me lá.
O guerreiro índio virou o cavalo e partiu a galope, seguido de «Pena Azul». Oito ou dez minutos depois, os dois peles-vermelhas observavam, do alto de urna colina rochosa, os grandes círculos que os abutres descreviam à volta de qualquer coisa que eles não podiam ver.
— Deve ser algum cão das pradarias o que chama a atenção desses pássaros. Nenhum homem se atreveria a meter-se no deserto, e ainda menos pelo rio.
— Quer que averigue?
— Não, irei eu — disse o chefe «yuma». — Tu fica aqui, para o caso de precisar de ti.
«Pena Azul» fustigou o cavalo e conduziu-o com grande destreza por entre as rochas e matagais até onde o deserto se estendia, amarelo e soalheiro, numa solidão trágica.
Ao longe, qualquer coisa parecia mexer-se. Com a mão em pala sobre os olhos, «Pena Azul» viu que não era nenhum cão das pradarias nem outra espécie semelhante de fera. Era muito maior, do tamanho de um cavalo.
O índio não pensou duas vezes. Destravou a carabina que empunhava e galopou para onde os abutres tinham concentrado a sua atenção.
O voo das aves de rapina era cada vez mais baixo e os círculos mais pequenos, sinal evidente de que se preparavam para o ataque.
«Pena Azul» queria chegar antes dos bicharocos atacarem. Sabia que em qualquer parte onde se encontre um cavalo existe um homem, e com mais forte razão num lugar como aquele, onde, sem a ajuda de tão nobre animal, é impossível chegar.
As aves carnívoras, como se pressentissem que a chegada daquele intruso lhes ia estragar o festim que já tinham como certo, grasnaram com mais intensidade, e algumas, mais ousadas do que as outras, fecharam as asas e lançaram-se como setas num veloz voo picado.
Sem deter o cavalo, certo do que aquilo podia significar se os bicos rijos e curvos dos pássaros entrassem em contacto com as suas vítimas, «Pena Azul» disparou quatro vezes a carabina, com precisão tão matemática, com pontaria tão perfeita, que abateu quatro passarocos.
Os outros, compreendendo que de momento nada podiam fazer, ganharam altura, embora sem deixarem de descrever grandes círculos.
O índio chegou ao local onde um cavalo relinchava assustado e um homem jazia no solo.
Aproximou-se do segundo e verificou que estava ferido. Rasgou-lhe as calças e viu do que se tratava: uma ferida não muito profunda, mas que ainda manava sangue, sobre outro seco e coagulado. Além disso, aquele homem tinha muita febre.
«Pena Azul» quis apanhar o cavalo do desconhecido, mas não o conseguiu. A sede e o calor pareciam tê-lo enlouquecido, e o animal corria de um lado para o outro, embora com evidentes sinais de cansaço.
O «yuma» levantou a cabeça e viu galopar para ele o guerreiro que o avisara. Quando o teve a seu lado, disse-lhe:
— Temos de levar este homem para o nosso acampamento.
— Já viste que é um branco?
— Isso não importa, «Antílope Veloz».
— Eles são maus para os índios.
— Nem todos.
— E quem te diz que este não o seja?
— Quem te diz a ti que o é?
— Um branco pode ocasionar aborrecimentos no acampamento.
— Porquê, meu amigo?
— Se Jerónimo souber, atacar-nos-á.
Não creio que o faça. Além disso, Jerónimo não precisa de saber.
-- Esse endiabrado «apache» sabe tudo.
— Se não dissermos a ninguém, não saberá.
— Vê-lo-ão chegar ao acampamento, «Pena Azul».
— Tapá-lo-emos com qualquer coisa.
— Quando chegarmos à nossa aldeia descobri-lo-ão.
— Alojá-lo-ei na minha tenda. Minha irmã e eu trataremos dele.
— Não o devíamos levar, «Pena Azul».
— Também não o podemos deixar aqui. Os abutres acabariam com ele.
— Isso não é da nossa conta.
— Esqueces que os rostos pálidos nos ajudaram muitas vezes?
— Não me esqueço de nada, mas também sei que por culpa deles têm morrido muitos dos nossos.
— Agora não devemos discutir isso. É melhor levá-lo.
— Não poderás ocultar o teu propósito, «Pena Azul». Os teus guerreiros aproximam-se e terás de lhes dizer o que vais fazer.
O chefe «yuma» virou-se e viu chegar, em verdadeiro tropel, todos os homens da sua tribo que o acompanhavam naquela expedição.
Enquanto não chegaram não disse nada. Nem olhou sequer para Glen. Quando todos o rodearam, disse:
— Este homem morrerá se não o socorrermos. 2 um branco, sem dúvida, mas vocês sabem que os brancos se portaram, algumas vezes, bem connosco.
Ninguém respondeu às palavras do chefe.
— Eu estou disposto a socorrê-lo, mas «Antílope Veloz» diz que não o devemos fazer, com medo de que Jerónimo saiba e exerça represálias contra nós. Que dizem vocês?
Um dos guerreiros, um dos mais velhos, adiantou o seu cavalo e disse:
— O que «Pena Azul» fizer e disser será acatado pelos seus guerreiros. Os «yumas» nunca temeram os «apaches», e por medo não devemos deixar de fazer o que julgamos bom.
Pena Azul passeou a vista por todos os presentes e esperou que algum dissesse qualquer coisa. Vendo que se calavam, aproximou-se do seu cavalo, tirou o cantil e acercou-se de Glen.
Pôs-lhe o recipiente nos lábios e verteu água neles. Glen não tinha consciência de nada.
— É melhor levá-lo para o acampamento. Aqui pouco podemos fazer por ele.
Glen foi deitado num cavalo e o próprio «Pena Azul» seguiu atrás dele, como se lhe dessa escolta.
Alguns índios conseguiram apanhar o cavalo de Glen, e o animal, depois de beber água, ficou mais calmo.
Ao entardecer, a caravana chegou à vista da aldeia índia. Muitas mulheres e crianças saíam a recebê-los, e ao verem que transportavam um ferido, a curiosidade apoderou-se de todos.
«Pena Azul» continuou sem se deter até ao se «tipi», onde ele próprio, sem permitir que ninguém o ajuda$:se, introduziu o 'rosto-pálido.
Estava a deitá-lo num monte de peles de búfalo, quando uma jovem índia, bonita como um amanhecer de Primavera, apareceu.
— Quem é esse homem? Que lhe aconteceu?
— Encontrámo-lo nos confins do deserto. Deve tê-lo atravessado e perdeu as forças nas areias. Além disso, parece que alguém disparou contra ele e o feriu.
— É grave? — perguntou a rapariga.
— Não sei. Parece que perdeu muito sangue e o sol sugou-lhe do corpo toda a água que continha. És capaz de o tratar?
A índia fixou a vista no rosto de Glen Garret. Viu-o pálido, doente, com um terrível aspeto de cansaço.
— Farei tudo o que puder. Primeiro tentarei refrescar-lhe a cabeça.
-- Ajudar-te-ei.
-- Pois sim. Preciso de água fria do arroio.
Enquanto a jovem arranjava uns bocados de pano, colocava um tacho de lata ao lado da cama de Glen e destapava uns frascos que decerto continham unguentos, «Pena Azul» pegou numa vasilha de barro e saiu da tenda para ir buscar a água solicitada.
Quando regressou, a irmã acendera o lume e pusera nele outro recipiente com água, para que fervesse.
— Descobre-lhe a ferida — disse ela. — Tira-lhe esse bocado de calça; será melhor.
— Se preferes, posso tirar-lhas por completo.
— Não. Terias de o mover muito e isso seria pior para ele.
Sem responder, o índio rasgou o tecido e descobriu o quadril de Glen. Aquilo tinha mau aspeto.
— Enquanto lhe trato da ferida — disse a rapariga --, põe-lhe tu compressas de água fria na testa. Isso aliviá-lo-á muito.
Cada um por seu lado, os dois irmãos prestaram a Glen Garret os primeiros socorros, fazendo cada um o que sabia e podia, talvez com mais boa vontade do que acerto.
Mas mesmo assim, ao cabo de meia hora o rapaz tn.119, a ferida limpa, estava bem ligado, o calor da sua 'cabeça diminuíra e, embora em Pouca quantidade, tinham conseguido que algumas gotas de água lhe refrescassem a garganta.
— Bom, agora só nos resta esperar. Que Manitu faça o que falta — disse a jovem índia.
— És demasiado boa, «Pequena Estrela». Se este homem se salvar, a ti deverá a vida.
— E a ti, que o trouxeste, «Pena Azul».
— Esta noite ficarei eu a olhar por ele.
— Não. Como é a primeira noite, ficarei eu.
— Queres que alguma das mulheres te acompanhe?
— Não é preciso. Este infeliz dar-me-á pouco trabalho. Acho que levará uns dias a recuperar os sentidos, se os recuperar.
— Por que dizes isso?
— O que fizemos por ele foi pouco, querido irmão. Um homem que atravessa o deserto, demais a mais ferido, tem de ser muito forte para sobreviver a tal façanha.
— Este homem parece forte, «Pequena Estrela».
— Outros mais fortes do que ele matou o deserto.
— Esperemos então que ele consiga sobreviver.
— E que não nos atraia a cólera de Manitu. A nossa intenção é boa.
«Pena Azul» olhou a «Pequena Estrela» e não disse nada. Pensou que ela também receava que aquele branco no acampamento lhes pudesse trazer complicações, exatamente como «Antílope Veloz» previra.
Mas, enfim, estava ali e já não se podia voltar atrás. De resto, nunca um chefe «yuma» se arrependera de nada e muito menos de salvar um ser humano. Fora assim que o pai de «Pena Azul» ensinara o filho a comportar-se.
— Está a abrir os olhos -- disse «Pequena Estrela», sem poder esconder a sua alegria.
Creio que já podemos cantar vitória -- respondeu o irmão.
— A sua vitalidade salvou-o.
— E os teus cuidados.
— Mas se não fosse forte... E se tu o não tivesses ajudado...
— Também tu fizeste muito por ele.
— Talvez. Mas o importante é ter-se salvo.
Os dois irmãos ficaram silenciosos, a olhar sorridentes e com curiosidade para Glen.
Este também os olhava, com a maior estranheza refletida no rosto moreno. Virou a cabeça para um lado para. o outro e, sem que o espanto o abandonasse, perguntou:
— Onde estou? Que me aconteceu?
Antes de lhe responder, a «Pequena Estrela» olhou para o irmão e depois sorriu ao ferido.
— Não te preocupes — disse-lhe. — Estás entre amigos.
--- Entre amigos? É curioso!
Os dois irmãos entreolharam-se sem compreender e «Pena Azul» disse, com evidente mal-estar:
— Curioso porquê? Não és capaz de considerar como amigos aqueles que te salvaram?
Glen sorriu, um pouco confundido e respondeu:
— Creio que não me expliquei bem. Disse que é curioso porque me lembro perfeitamente que, se cheguei a esta situação, foi precisamente por me culparem de ser índio.
—É mau ser índio? — perguntou «Pequena Estrela».
— Se com isso se consegue estar a teu lado, deve ser o mais maravilhoso do mundo.
A índia sentiu que estas palavras lhe perfuravam a
pele, continuavam a penetrar-lhe na carne e chegavam--lhe violentamente ao coração. Nunca lhe tinham dito nada tão bonito.
— Entre os homens brancos — prosseguiu Glen — não entre todos, felizmente, ser índio não é bom, e vocês devem sabê-lo. Mas se ser índio não é bom, ser «apache» é urna coisa que não tem perdão. A mim confundiram--me com um «apache» e quiseram matar-me. Claro que eu não deixei e tive de me livrar de três inimigos, mas um deles conseguiu disparar e se não tivesse sentido tanto medo, creio que não estaria agora a contar-lhes isto.
— E como foste capaz de te meter no deserto?
— Era a minha única salvação.
— Podias ter morrido.
-- Se não o fizesse, também. Vinte homens atrás de um ferido é muita gente, e ter-me-iam apanhado, por fim, e enforcado. Esperei que o deserto lhes metesse respeito e assim. aconteceu.
— Mas se nós não tivéssemos aparecido...
— Eu teria morrido e agora não me seria dado o prazer de chamar irmãos aos dois.
«Pena Azul» gostava da maneira de falar daquele branco. Acima de tudo, era agradecido, e um homem que o é não pode deixar de. ser nobre, valente e leal.
--- «Pena Azul», chefe dos «yumas», sentir-se-á muito feliz por ter um irmão branco. E «Pequena Estrela» também.
— E eu sou o mais feliz dos três. Agora contraí tal dívida, para com os índios, que daqui em diante me sentirei um pouco índio também e comportar-me-ei como se o fosse.
— As tuas palavras agradam-me muito.
— E a vossa generosidade conquisto-me para sempre. Ainda que toda a gente combatesse os índios, eu defendê-los-ia e lutaria sempre a seu lado.
— Obrigado, irmão — disse «Pena Azul».
Durante toda a conversa, «Pequena Estrela» estivera suspensa das palavras de Glen, e embora o jovem, ao falar, se dirigisse aos dois, a índia não deixara de notar certa intensidade nas suas pupilas negras, quando se cravaram nela.
— Não deves falar tanto — disse-lhe ela. --- Teremos tempo disso quando estiveres completamente bom. Tiveste febre durante estes dias e...
— Estes dias? — admirou-se o jovem. -- Desde quando estou aqui?
— Já passaram cinco poentes — respondeu ela.
— Cinco dias? É possível que durante cinco dias não tenha sequer, sabido que existia?
— Tantos como tu dizes — sorriu «Pena Azul». — Mas já passou tudo e o que lá vai não tem nenhuma importância. Esperamos que breve estejas bom de todo, para saíres da tenda e reunires-te connosco. Celebraremos o teu restabelecimento.
— Obrigado, «Pena Azul». Acho que estão a fazer por mim mais do que mereço. Chamo-me Glen Garret e sou do Norte, do Oregão.
O índio levantou-se e disse, quando chegou à porta:
— «Pena Azul» deseja ao seu irmão Glen que descanse e saiu.
«Pequena Estrela» sentiu-se, de súbito, como se não soubesse que fazer.
- - Eu também me vou embora disse, sem olhar para Glen. -- Deves descansar.
-- Um momento, «Pequena Estrela» — chamou o rapaz, soerguendo-se no leito. — Quem olhou por mim durante todo este tempo? Quem me tratou?
A jovem sentiu que o rubor lhe subia às faces e respondeu com voz fraca:
— Eu, ajudada por meu irmão.
— De noite, também?
— Tinhas febre e precisavas dos nossos cuidados.
— Dei-te muito trabalho?
— O que fiz, fi-lo com prazer.
— Queres aproximar-te, «Pequena Estrela». Peço-to.
A jovem acercou-se da cama e parou diante de Glen.
— Aproxima-te, por favor, e dá-me a tua mão.
Sem que a índia compreendesse o que o doente pretendia, ajoelhou-se junto dele e estendeu-lhe a mão direita.
Glen tomou-a entre as suas e esteve a observá-la durante muito tempo. Depois, disse:
— Quero gravar na memória a recordação desta mão à qual, sem dúvida, devo a vida, «Pequena Estrela». Ela soube fazer por mim o que, decerto, mais ninguém saberia.
Sem que a índia o esperasse, Glen levou a mão feminina aos lábios e beijou-a com unção. A índia retirou-a com violência e pôs-se em pé.
— Não te zangues, «Pequena Estrela». Esse beijo na tua mão leva todo o agradecimento e admiração que tu mereces, do homem que nunca se esquecerá de ti.
Com os olhos brilhantes como o fogo, «Pequena Estrela» saiu da tenda a correr.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

PAS714. O perseguido cai esgotado no deserto

Quando Glen se viu nos arredores da povoação, montou a cavalo e, sem esperar mais, obrigou-o a empreender um galope desenfreado.
Sabia que não tardariam a descobrir o logro e que então o perseguiriam com dupla razão e com mais empenho.
Tinha de se afastar quanto lhe fosse possível, para que não o pudessem capturar.
Durante parte da noite, galopou sem cessar, apenas concedendo ao cavalo os descansos indispensáveis para que o animal não se esgotasse. Quando estivesse longe dos seus inimigos, poderia deter-se e descansar.
A ferida doía-lhe cada vez mais e o sangue cobria-lhe toda a perna das calças.
Não tinha nada com o que se ligar e conter a hemorragia, a qual, embora não fosse muito considerável, era suficiente para temer o pior, se durante toda a noite não a pudesse conter.
Colocou um lenço na ferida e apertou-o com a mão. Aquilo era um remédio momentâneo, mas que carecia da eficácia suficiente e necessária.
Já de madrugada, tirou o lenço todo encharcado de sangue e pôs o que trazia atado ao pescoço.
Ao romper do dia, Glen viu que se encontrava perto do deserto. Devia ser o Gila, assim chamado porque em qualquer lado dele era atravessado pelo rio do mesmo nome.
Glen pensou durante uns minutos e por fim considerou que se continuasse por sítios onde, o pudessem perseguir, mais tarde ou mais cedo cairia nas mãos de quem o perseguisse, mas que, se fosse tão ousado que se arriscasse a escolher o deserto como caminho de fuga, coisas podiam mudar muito.
Os que viessem atrás dele, era lógico supor que também não trariam água, embora se pudessem abastecer dela; mas exporem-se aos perigos de um deserto para capturarem um homem que a nenhum deles fizera mal, era um pormenor que modificava muito o caso.
Num assomo de audácia, Glen julgou ter mais probabilidades de salvação penetrando nas areias amareladas, e não hesitou.
Quando o sol estava bastante alto, divisou a linha negra que avançava em direção a ele, e várias vezes disse para consigo que, afinal, a sua temeridade não lhe ia servir de nada.
O cansaço, a fadiga, a sede e a fome martirizavam--no, mas tudo isso se apagava diante da angústia que a dor da ferida lhe produzia.
E aqueles teimosos perseguidores sem se darem por vencidos. Enquanto os tivesse atrás de si, não se poderia permitir o luxo de descansar.
Era muita a dianteira que lhes levava; mas se pretendesse chegar ao extremo de se apear para tomar um descanso merecido, isso seria mais que suficiente para que caísse nas mãos dos que o perseguiam.
Com a dor martirizante da ferida, com a sede que o cansaço que o ia dominando por completo, Glen Garret seguiu pelo deserto adiante, sem saber já o que queria nem onde se encontrava.
Os seus esforços para se manter em cima do animal eram enormes. Uma voz dentro dele parecia gritar-lhe: «Avante! Avante!» E ele continuava a obedecer àquela ordem, embora na realidade não soubesse o que fazia.
Depois de um espaço de tempo interminável, de tantas horas como uma eternidade, Glen compreendeu que a noite o envolvia, mas não o que o rodeava.
Num esforço supremo, agarrou-se ao pescoço do cavalo. Este estava tão esgotado como ele. Glen foi escorregando pouco a pouco, até cair e ficar de cara virada para o céu límpido e azul, que se estendia até ao infinito. Com as costas coladas à areia ardente, o jovem julgou encontrar-se sobre o fogo do próprio inferno.
Se os homens que perseguiram Glen não foram capazes de o capturar, os abutres que voavam em largos círculos sobre o homem e o cavalo tiveram mais sorte do que eles.
O festim que se lhes oferecia era magnífico e os grasnidos das aves de rapina enchiam o espaço, anunciando o que para eles ia significar o banquete que tinham à vista.
Enquanto Glen permanecia no solo, inerte corno os mortos, e o seu cavalo relinchava e escarvava o chão, como se pressentisse o fim trágico que o esperava, com aqueles bichos repugnantes sobre ele.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ARZ130. O perseguido


(Coleção Arizona, nº130)
 
Glen Garret fugia dos homens brancos e acabou por ser salvo da morte por índios que nem o conheciam. Deparou então com a belíssima «Pequena Estrela» em relação à qual ficou com uma dívida de gratidão.
Regressado ao mundo civilizado, onde veio a ser declarada a sua inocência, veio a ter conhecimento de ataques dos índios chefiados pelo terrível Gerónimo e acabou por reencontrar a sua amiga num forte na companhia de «Antílope Veloz», um «yuma» que aparentava um comportamento estranho. Afinal este índio era um colaborador do chefe índio rebelde e tinha a missão de obter favores de alguns soldados a troco de ouro…
Este é um daqueles livros que daria um excelente filme do Oeste apesar de alguma fragilidade do argumento. A linguagem de Dinahe é, de início, um pouco atabalhoada, mas depois torna-se escorreita e a leitura agradável.