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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

PAS183. A peste

Espalhou-se o terror. A população corria espavorida fugindo da morte sem se deter a pensar que esta ia agarrada ao calcanhar dos fugitivos.
Filhos que abandonavam os seus pais. Esposas que abandonavam os maridos e vice-versa. Noivas que abandonavam os noivos e estes aquelas. O instinto da conservação anulava os mais sagrados sentimentos.
Não se deu, no entanto um só caso de uma mãe que abandonasse o seu filho.
(Coleção Bisonte, nº 42)

PAS182. A bela atriz

Karin, de beleza delicada e grande sensibilidade artística, amava o teatro com paixão e entregava-se toda ao anseio de que chegasse o dia do seu triunfo definitivo. Enquanto os seus pais viveram foi uma simples espetadora que sonhava interpretar heroínas da cena. Cada vez que Philip Jarrison, seu parente afastado, passava pela cidade À frente da sua companhia, a jovem extasiava-se, sofrendo grandes desgostos ao ouvir os comentários desagradáveis que os seus pais faziam daquele cabeça louca. Ficou órfã; esgotaram-se os recursos económicos, não muito abundantes, o tio Philip, como lhe chamava, acolheu-a com carinho, incorporando-a no elenco.
Quanta diferença existia entre o Teatro que ela imaginava e o que ele era na realidade!...
Mas não desanimava. Tinha fé no êxito e tudo o que não fosse isso para ela não tinha valor.
…
Ao agradecer os apausos, a jovem atriz descobriu Lester e não pôde reprimir um gesto que denotava grata surpresa. A partir daquele instante trabalhou para ele, dedicando-lhe todas as excelências da sua capacidade artística. Tinha ocasiões em que se transfigurava por completo.
O público parecia eletrizado. Nunca tinham visto Karin como naquela tarde.
As frases de uma romanza de amor, cheias de beleza e ternura, desassossegaram o rancheiro. A intérprete cantou-a sem o olhar, mas ele teve a certeza de que lhe era dirigida e uma série de estranhas emoções perturbou-o até ao ponto de esquecer o sítio em que se encontrava.
A voz doce, cálida, da linda rapariguita, era um sussurro acariciador, uma melodia inefável.
Rebentou uma ovação estrondosa. Karin olhou-o então, numa espécie de oferenda sem palavras e vendo-o aplaudir com entusiasmo agradeceu-lhe com um sorriso, enquanto os seus olhos se enchiam de pranto…
(Coleção Bisonte, nº 42)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

PAS181. Juramento de vingança

Contexto da passagem: Ronald Hendric, um rancheiro forte e enérgico, é assassinado pelo seu capataz Tyler Browdale que se dedica ao roubo de gado. O seu corpo foi transportado para casa onde a notícia é dada à mulher. Pouco depois, o filho, Lester, chega a casa e é informado do sucedido.
 
Passou o dia e a noite. De todos os sítios chegavam amigos, cheios de pena e de indignação.
Um rumor mais vivo veio de fora. Destacaram-se vozes:
- Lester! Aqui está Lester!
A mãe pressentiu mais do que ouviu aquelas frases. Levantou-se e, lenta, impressionante, avançou ao encontro do filho. Abraçaram-se frenéticos, sem palavras e assim permaneceram um grande minuto.
- Entra e vê-o.
Sustendo Cláudia, o jovem dirigiu-se à câmara mortuária e deteve-se junto do leito. As suas pupilas brilharam. Os lábios tremiam-lhe ligeiramente. Soltando-se da mãe, inclinou-se sobre Ronald e beijou-o sem ruído, pondo toda a sua alma naqueles beijos.
- Encontrarei Browdale, mais tarde ou mais cedo e morrerá Às minhas mãos!
Rouca, enérgica, Cláudia exclamou:
- Assim o espero! E se caíres sem o ter conseguido eu ocuparei o teu lugar!
(Coleção Bisonte, nº 42)

BIS042. O ás de copas


(Coleção Bisonte, nº 42)
 
Tenho em meu poder certas notas acerca de Martha Jane Canary, “Calamity Jane” como a apelidou o capitão Egan durante um episódio guerreiro contra os índios, apodo que a rapariga aceitou até ao fim dos seus dias. Também sobre “Calamity Jane” se escreveu muito. Todos nós, apaixonados das epopeias do “Far-West”, sabemos que era uma criatura de aspeto varonil, força extraordinária, pontaria maravilhosa, a qual foi admirada entre outros por Bufalo Bill e o incomensurável xerife de Abilene “Wild Bill” Hickock. Sabemos também como desempenhou cargos masculinos, alternando co mineiros, condutores de gado e, mais ainda, resistindo a quantidades fantásticas de álcool…
Nunca lhe saía o revólver do cinturão. As suas relações com “Wild Bill” foram rodeadas de anedotas fortes e…
Bom, se continuo assim vou direito À biografia e não é isso o que realmente pretendo. Muitos o fizeram, inclusivamente ela que também se autobiografou. Isso só seria pouco, mas o cinema fê-la reviver, embora com intérpretes que em nada se lhe pareciam, como Ivone de Carlo, por exemplo.
Isto deve ser motivo para que eu “a deixe tranquila” como me recomendou sobre San Bass o senhor Martinez Pedralva? A mim parece-me forte. E a ti, leitor?
Que o senhor Martinez me perdoe, mas não me resigno a que fiquem sepultados estes dados conseguidos quando menos o esperava. A fantasia também fez das suas claro! A minha imaginação não esgotada ainda, deu a forma de “novela” aos factos, mas a base desta obra é fruto da realidade.
E aqui aguardo pacientemente as linhas que possam dirigir-me outros Martinez.
 
O texto anterior é parte do prefácio de Raf Segrram ao livro “Ás de copas” no qual narra o encontro com «Calamity Jane» de um jovem rancheiro que procurava um indivíduo para vingar a morte cobarde do pai. O jovem rancheiro, num primeiro momento, apaixona-se pelo aspeto de «Calamity» que o passa a apoiar em qualquer contexto.
De acordo com o seu estilo, Segrram traz muitos ingredientes à novela, desde uma companhia de teatro com uma atriz extremamente bela até ao combate a uma peste que vitimou grande parte da povoação denominada Deadwood.
No ambiente assim criado, «Calamity» acaba por ter um papel preponderante na vingança do jovem e no seu encontro com Karin, a bela atriz que acaba por o acompanhar no resto da vida.
A novela é um pouco maçuda, mas vale sobremaneira por esses ingredientes tão avessos são a outros autores.
 
Passagens selecionadas: