domingo, 4 de maio de 2014

PAS299. Coração que bate com inusitada violência

Glória Kane, montada no seu magnífico cavalo negro, partiu a caminho de Dallas. A bela rapariga e o esplêndido animal formavam um bravio conjunto, cheio de cor e harmonia. Glória cavalgava, direita sobre a sela mexicana, com o largo chapéu atirado para trás e os olhos fitos no caminho. A sua mão direita não se afastava muito do coldre do cinturão, talvez numa altura instintiva de defesa e de ataque.
Quando passou em frente ao quartel dos batedores, dirigiu um olhar ansioso para o grupo de homens que conversavam animadamente à porta. Não viu Milton Forrester e continuou o seu caminho para o armazém, desiludida mas disposta a não sair da cidade antes de ter falado com o jovem batedor.

À porta do estabelecimento, uns quantos desocupados deixaram escapar assobios admirativos ao vê-la descer do cavalo e adiantar-se, esbelta e graciosa. Conheciam, evidentemente, a filha de Jim Kane, mas de cada vez que a viam achavam-na mais bonita e fascinante. Glória, sem fazer caso da admiração daqueles a quem considerava autênticos imbecis, entrou no armazém e os seus belos olhos ficaram fitos nas costas de um homem que vestia uma camisa azul-escuro, calças justas e botas altas.
- Bom dia, Milton… - disse ela, com fingido desinteresse, embora o seu coração batesse com inusitada violência. - Dedica-se, agora, à pintura?
O batedor, que tinha na mão uma caixa de aguarelas, voltou-se, sorrindo.
- Olá! É um pequeno presente que quero fazer. Uns livros de contos e esta caixa de tintas. Pensa que isto agradará a um garoto?
- Depende dos gostos que ele tiver. Há alguns que prefeririam um «Colt», ainda que nem ambas as mãos pudessem levantá-lo. Quando você tiver um filho, ele há-de querer armas e um bom cavalo, de preferência a essas coisas. Terá isso no sangue, e nem você nem ele poderão evitá-lo.
- Por Deus, Glória. Julga-me assim tão belicoso? Também me agradam as coisas belas, além das armas e dos cavalos.
- Não o demonstra. Você prefere os «Colts», um bom cavalo, seguir uma pista até descobrir o infeliz a quem persegue… a uma mulher bonita, por exemplo. Não, Milton, você é incapaz de sentir amor por qualquer coisa que não seja o seu dever. Está cego para tudo o mais.
Ela tinha-se encaminhado para uma das extremidades do armazém, e parara jnto à janela que que abria sobre a rua, distante do balcão. Milton Forrester seguiu-a, por um dever de boa educação. Sabia onde a rapariga queria chegar e o assunto desagradava-lhe em absoluto. Teria gostado mais de falar com Glória sobre qualquer outra coisa menos perigosa. Do tempo, por exemplo.
- Engana-se, Glória… - sorriu ele, apesar de tudo. – Não sou insensível a certas belezas… um poente, a neve nos píncaros da serra, uma noite estrelada, a lua a pratear a pradaria, os rios murmurantes, as lagoas calmas,…
- Não seja estúpido… - atalhou ela, irritada. – Que importa agora tudo isso? Não se trata da natureza em geral, mas sim da natureza humana, da minha. Trata-se de mim, Milton. Eu amo-o e você nem sequer repara em mim. Não mereci nunca, da sua boca, uma só palavra de elogio, de carinho… de amor… mesmo que não fosse sincera.
- Que está a dizer, Glória?
Ela bateu com o pé n o chão, impaciente.
- Digo-lhe que você é um cobarde, Milton! – replicou em voz baixa. – Um cobarde com as mulheres. Comigo pelo menos. Sabe que estou a desejar deixar-me beijar, e no entanto não se atreve a fazê-lo. Assim, Milton, como eu a si…
Glória Kane ergueu-se sobre os bicos dos pés e poisou os seus lábios sobre os dele. Surpreendido, Forrester não soube mostrar-se à altura das circunstâncias. Quis balbuciar uma desculpa e Glória, irritada, levantou a mão para lhe bater, mas ele agarrou-lhe o pulso com força.
- Não, Glória, isso não. Não é fácil apanhar-me desprevenido duas vezes…
-Você é… você é… - não acertou com a palavra justa com que quereria exprimir todo o ódio que julgava sentir pelo batedor, naquele momento.
Afastou-se, dirigindo-se para o balcão como uma rainha ofendida. Entregou a lista do que queria e, enquanto esperava que a servissem, Forrester saiu, levando o embrulho das coisas que comprara para o pequeno Jeb.
(Coleção Arizona, nº 68)

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