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terça-feira, 10 de novembro de 2015

PAS553. «Pokerface», o morto-vivo

Não soube quanto tempo se manteve prostrado, mas pareceu-lhe ouvir pessoas andarem à, sua volta.
Foi-as distinguido pouco a pouco e encontrou-se no mesmo estado em que se encontrava agora, absolutamente incapaz de sentir, de compreender o que o cercava. Todas as manifestações de vitalidade estavam suspensas, amortecidas. O coração não acelerava as suas pulsações por motivo algum.
Ouviu algumas vozes considerá-lo como morto por diversas vezes.
E quando, a despeito de tudo isso, conseguiu pôr-se em pé, ele próprio teve a sensação de que se movia como um autómato; que, se praticava actos idênticos aos das outras pessoas, era porque o hábito o levava a isso e não porque a natureza lho impusesse.
Não dormia. Apenas se estendia na cama e ficava sem pensar, mas com a consciência nítida do que se passava à sua volta. Passava dias inteiros sem comer fazia-o naturalmente, levado pelo hábito.
Supondo-o adormecido, ouviu certa ocasião o médico que o examinara, referir-se ao seu caso.
— Não sofre dúvida que tem a morte dentro do corpo — disse ele, explicando o assunto a outras pessoas — mas não é por qualquer forma possível determinar o tempo que vai demorar a agonia. Todo o seu organismo está em completo estado de letargo, uma espécie de paralisia psíquica, como nós, os médicos a classificamos, em consequência do «choque anímico» sofrido.
O médico prosseguiu a conversa. Cristopher ouviu por diversas vezes proferir palavras que não compreendia... «Traumatismo psíquico»... «Hipertensão reversível»... «Espasmo dos vasos cerebrais»... «Estigma de Von Berkman»...
— Morrerá, necessariamente, num prazo relativamente curto, apagando-se pouco a pouco, a não ser que algum fenómeno desconhecido obrigue a sua natureza a reagir, ainda que muito debilmente. Pode afirmar-se que a única coisa que nele se mantém viva é a ideia fixa que o domina: o sentimento da vingança».
 Era a realidade. Cristhoper sentia-se prisioneiro dentro do seu próprio corpo, nessa espantosa situação de permanente pesadelo. A única coisa que vagamente sentia era a repugnante sensação da carne barbaramente retalhada dos entes que mais ardentemente amara.
Levantou-se e saiu do hospital para onde o tinham conduzido. Instintivamente, com o escasso dinheiro que trazia consigo, uma vez que os assassinos o tinham despojado das suas economias, adquiriu dois «Colts» 45.
E começou a alucinante busca do homem a que chamavam Bill. Era um inveterado jogador de cartas, que a partir daquele momento nunca mais saiu das tavolagens. Começaram a chamá-lo «Pokerface» (Cara de Poker) e a temê-lo pela diabólica rapidez com que manejava as armas. Novo México, Arizona, Colorado, Utah. Uma imensa galeria de caras que a morte convertera em máscaras de papelão. E sempre com a ideia fixa de descobrir o tal sempre à espera de que alguém pronunciasse aquele nome.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PAS552. Encontro com a morte

Cravou as esporas nos flancos do cavalo para que acelerasse a marcha e retesou ao mesmo tempo as rédeas para o impedir de avançar. Sentiu um medo terrível.
Por fim via-se a transpor a porta de entrada, enquanto todos os pelos do corpo se eriçavam, ao notar um silêncio anormal e aterrador. Lembrou-se de que talvez não se encontrasse ninguém em casa por qualquer circunstância.
Os seus olhos, porém, atentaram na desordem que reinava por toda a casa, mesa e cadeiras derrubadas e o corpo de sua mulher estendido no meio de toda aquela confusão. Correu para junto dela. Uma grande mancha de sangue alastrava pelo peito e pelas costas.
Ergueu a cabeça, retorceu a boca e abriu os olhos.
— Bill... Chama-se Bill…
Paralisaram-se-lhe os olhos, ficou de boca aberta escorrendo dela uma baba sanguinolenta. Estava morta.
Sentindo-se dominado por um pânico terrível, por urna convulsão que lhe agitava todo o organismo e lhe obscurecia as ideias, fazendo-o tremer violentamente, Melwin Cristopher levantou-se. Procurou os seus filhos e encontrou os seus corpos barbaramente mutilados e desfeitos.
Recrudesceu a sua angústia e o seu mal-estar. O choque fora demasiadamente brutal, espantoso. Dominado pela ideia de que tudo aquilo não passava de um sonho fantástico, com a sensação nítida de que a massa encefálica lhe sala das paredes cranianas, desmaiou.
Quando recuperou a lucidez, o pensamento continuava em pleno vácuo, impossibilitando-o de ajustar as ideias. Continuava, apesar de tudo, a viver a realidade do monstruoso acontecimento, a sentir a impressão viscosa e repugnante do contacto com aqueles corpos destroçados, assassinados com um sadismo terrível.
 

domingo, 8 de novembro de 2015

PAS551. Regresso a casa


... Galopava sobre um terreno de cor vermelha, semeado aqui e além de manchas verdes... Por entre os sicómoros e os sobreiros, deslizava a água fresca de alguns riachos.
Estava de regresso ao seu rancho, onde o aguardavam sua mulher e seus filhos. Não lhe importava a fadiga da jornada, nem as dores que sentia nos braços. Sentiria a carícia refrescante dos lábios de sua esposa, o acolhedor repouso dos seus afagos, a satisfação de ver brincar os seus inocentes filhos.
A risonha visão esfumou-se. A terra tornou-se negra e o seu coração começou a pulsar desordenadamente, repercutindo-se-lhe nas fontes e na garganta. Da casa que ele mesmo tinha construído não saía fumo. Ninguém o esperava à porta da rua.

sábado, 7 de novembro de 2015

POL097. "Pokerface"



(Coleção Pólvora, nº 97)
 
 Esta é a história de Melwin Cristopher, um morto-vivo, um homem reputado em cinco dos Estados do «Far-West» como homem frio e cruel, insensível a qualquer espécie de emoção, pela mão do grande novelista Joseph Tell.
De inicio, um pouco anedótica, vai ganhando em dramatismo até que o autor nos conta a história da figura principal devotada à procura do homem que lhe assassinou a família. Nessa busca acabou por cruzar-se com um banqueiro desonesto e o acaso acabou por o conduzir àquele a quem tanto desejava encontrar. Aqui ficam algumas passagens que retratam o início desta difícil jornada…