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quinta-feira, 31 de julho de 2014

PAS367. Morreu uma mulher

— Quem o matou? Sabe-se? — perguntou, num sussurro.
— Um tipo novo na cidade. Mas não sei como se chama. A seguir a uma disputa rija, atirou-lhe de frente. Vi muito bem. Este, coitado, foi rápido, mas o outro parecia um demónio!...
 «Parecia um demónio!» — pensou Gizel.
Depois de passarem umas cordas por baixo das três tábuas desceram o cadáver à vala, e Gizel, com as mãos cruzadas sobre o peito, viu-o desaparecer. Os seus olhos, nublados por um halo de tristeza, pareciam tão opacos, como o Céu cor de chumbo. A terra começou a cair na vala, sobre o cadáver.
«Todos os que se atravessam no meu Destino — pensou Gizel, amargamente — acabam assim. Desde o pobre tio Glenn até este homem, passando pela pobre Lisbeth. Um dia acontecer-me-á o mesmo. Algum pistoleiro desfechará o revólver sobre o meu peito, e, nesse momento, todos dirão: Morreu uma mulher. Não dirão «uma senhora» nem a dona do «Gizel Saloon». Mas simplesmente uma mulher».
Depois da inumação, todos se afastaram. Só ela ficou ali. Então, baixando a cabeça, pôs-se a rezar.
(Coleção Colt, nº 3)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

PAS366. Perdoar aos cães vadios do deserto

Burke esporeou o cavalo que empreendeu imediatamente o galope, na direção de umas dunas de areia, enquanto as balas assobiavam à sua volta. Jim Honeyman levantou-se com dificuldade. Quis falar, mas o seu maxilar desarticulado negou-se a obedecer-lhe. Então, segurando-o com a mão esquerda, disse por entre dentes.
— Sigam esse demónio e averiguem a direção que segue.
— A da povoação mineira, como da outra vez. Existe nela uma espécie de reduto, que era o antigo paiol. Sem dúvida, é lá que ele se vai esconder.
— Nesse caso, façam com que ele não chegue lá, Mas se não forem a tempo, cerquem o esconderijo. Procurem bastantes homens. Pagar-lhes-ei bem. Antes da noite de amanhã quero enterrá-lo, em frente da minha porta.
Era meio-dia e um sol ardente abrasava as pedras quando a primeira mensagem chegou ao rancho de Honeyman. Essa mensagem foi uma surda explosão que se ouviu ao longe, reboando lentamente através do espaço. Duas horas depois chegavam sete homens. Vinham suados e fatigados. Dois apresentavam ferimentos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

PAS365. O preço de um gole de água

Enquanto atravessava a planície árida e deserta do Texas, Gizel pensava em Burke e uma profunda amargura enchia o seu coração, ao recordar que se ele queria viver era somente para não desenganar outra mulher. Quando chegou a noite, o seu cavalo já sem forças, estendeu-se no solo.
Nem uma árvore, nem o mais pequeno arbusto se viam no horizonte, liso e seco como uma maldição durante milhas e milhas. Honeyman dizia que aquela terra era, em potência, a melhor do mundo e que seria efetivamente assim que os rios tornassem a encher e houvesse centenas e centenas de braços dispostos a acarretar e plantar as árvores. Os braços já estavam no seu acampamento — pensava Gizel com amargura e a água chegaria no Outono. Mas nessa altura, já ela teria morrido.
Fez calor durante a noite: a terra abrasada devolvia a energia dos raios solares. Gizel estendeu-se ao lado do seu pobre cavalo e apertou a cabeça contra o ventre do animal, ouvindo-o latejar, sob as palpitações do coração, procurando nessa única companhia o valor que lhe faltava.
É incrível o que um simples organismo vivo capaz de sofrer, seja de que classe for, pode acompanhar um homem ou uma mulher, reduzidos aos seus próprios meios ou mergulhados já na desesperação. Gizel sentiu-se alentada pela respiração do pobre animal, que tinha sede, como ela, e acariciou a sua pele áspera para não se sentir tão só na imensidade da noite.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

PAS364. Vendido a uma mulher

Enterrou um pouco mais a pá, para extrair outra porção de terra e depois olhou para os pés de Gizel.
— Sou eu quem o diz.
Continuou a trabalhar em silêncio, sem proferir uma palavra mais. A noite estava quente e o suor empapava-lhe a camisa, colando-a ao busto. Gizel conservava-se imóvel ao pé da sepultura, sem tirar os olhos dele.
Momentos depois de depositar cuidadosamente no fundo da vala, o primeiro cadáver, Burke saltou para fora e foi procurar os outros dois. Decorridos apenas alguns minutos, regressou com eles, enterrando-os. As armas ficaram também no fundo da vala, reservando para si um bom «rifle». Durante essa macabra operação, Gizel não o ajudou, nem lhe dirigiu uma palavra.
Só mais tarde é que Burke, encarando-a nova mente, lhe disse:
— Tens de partir, Gizel.
— Não tenho o menor desejo de voltar para o rancho de Honeyman.
— Nesse caso, faze o que te der na gana. Eu vou dormir aqui.
Dirigindo-se a um dos cavalos, que, de focinho no solo, procurava de comer, libertou-o da sela, \apoderando-se da manta que estava debaixo dela. Sem olhar para Gizel, entrou numa das casas.
— Aqui, estar-se-á bem. Que vais tu fazer?

domingo, 27 de julho de 2014

PAS363. Briga sob a Lua branca do Texas

— ...Honeyman — disse Lisbeth, em voz baixa — Realmente, não me Importa o seu apelido. Só sei que consegui interessá-lo e não hei-de perdê-lo, porque uma estúpida como tu me aconselha o contrário. Alem disso, é interessante e garboso. — e acrescentou em voz baixa, como uma sentença — Tu agora criticas-me e julgas-me uma insensata, mas ainda te hás-de ver em companhia de homens muito piores do que Jim.
Gizel não lhe retorquiu. Já que haviam chegado até ali, já que estavam em poder daqueles traficantes de vidas humanas e ela se inscrevera, como qualquer simples trabalhador, era porque no mundo podia suceder qualquer coisa. Talvez Lisbeth tivesse razão e ela acabasse por acompanhar algum homem pior do que Jim. Como Burke, por exemplo...
Lisbeth deixou-se cair no pequeno colchão, onde costumava dormir e, olhando sua irmã com um ar trocista, disse-lhe:
— Talvez tu, tão puritana, de coração tão limpo, tão mulher do teu carro, visto que aqui não podemos dizer «mulher de sua casa», acabes por ir de joelhos atrás de um tipo como Burke, por exemplo, um pistoleiro profissional, um assassino que fere ou mata quando lhe pagam para isso ou simplesmente quando esta com a gana de brigar. É isso que te acontecerá. E, quando tal suceder, eu serei a mulher mais rica do Texas.

sábado, 26 de julho de 2014

PAS362. Surpresa para uma menina beijoqueira

Lisbeth estremeceu. Não podia afazer-se à ideia de que Jim fosse chicoteado, como um homem que vira uma noite atrás e cuja pele ficou quase reduzida a tiras por ter tentado roubar uma Bíblia.
— Acompanhá-los-ei — disse, por fim, timidamente. — Sempre quero ver como fazem essa tolice.
Gizel foi a primeira a saltar do carro. Seguiram-na o tio Glenn e Lisbeth, que ia de cabeça erguida, numa atitude altiva. Na realidade, parecia uma rainha, apesar do seu pobre vestuário, pois nascera com o dom da majestade. Ela sabia bem isso e não ignorava também que naquela terra havia homens que no futuro dariam a vida só para amá-la.
Dirigiram-se a três grandes edifícios que constituíam o corpo principal do imenso rancho Honeyman.
Junto deles havia um pequeno toldo sob o qual era feita a inscrição dos trabalhadores. Nesse momento estava vazio o que permitia que o empregado se desse ao luxo de estar refastelado, a fumar de cachimbo.
Quase todos os empregados haviam adotado uma atitude de resistência passiva, esperando que, por fim Honeyman mudasse de opinião e lhes permitisse adquirir água e alimentos para reatar a marcha. Mas de todos os modos havia já mais de oitenta pessoas inscritas para trabalhar e tudo fazia concluir que os restantes acabariam por ceder.
O tio Glenn aproximou-se do empregado que, ao ver as duas raparigas, piscou um olho, com um ar satisfeito.
— Quero inscrever-me como trabalhador e começar quanto antes a trabalhar. Chamo-me Glenn Farwell. A minha sobrinha Gizel também quer inscrever-se.
— Como quê? Como bailarina?

CLT003. Morreu uma mulher


(Coleção Colt, nº3)


Quando aquele grupo de pioneiros chegou a Texas atraído pela propaganda acerca de boas terras deparou com uma situação de quase escravidão, pois nada correspondia às expetativas. Tiveram de vender a força de trabalho, pensando juntar algum dinheiro para prosseguir caminho.
Nessa caravana chegaram duas jovens e o seu tio Glenn. Ambas eram muito bonitas e uma delas (Lisbeth) não tardou a chamar a atenção do filho do explorador de todo aquele esquema com o qual se veio a envolver. A outra (Gizel) tudo fez para a não deixar cair nas mãos de gente, mas acabou por ter de fugir tendo tido algum apoio de um pistoleiro que tinha um contrato estranho com outra mulher.
Longe do acampamento de escravos, Gizel decidiu que a mulher antiga tinha morrido e, a partir dali, outra nasceria dedicada a procurar uma vida de sucesso.