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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

PAS659. Quando o ciúme comanda as nossas mãos

Cinco.
Cinco homens a cavalo, trazendo as espingardas nas mãos.
Cinco pistoleiros ao serviço de Tracy.
Lassiter fez uma careta enquanto levava a coronha da espingarda ao ombro.
Em seguida disparou.
Um dos pistoleiros deu um salto sobre a sela, abriu os braços em cruz e caiu pesadamente. O grupo de quatro desagregou-se, afastando-se um dos outros. Lassiter disparou novamente e outro pistoleiro mordeu o pó do solo sem soltar um gemido sequer. Então correu para o local onde estava o seu cavalo, montou de um salto e, rapidamente, galopou na mesma direção que Ethel havia seguido. Três minutos depois, os três pistoleiros que restavam perseguiam-no, mas Lassiter não voltou a disparar contra eles. Necessitava pelo menos de um vivo. Para isso contava com McNamara e com o pessoal que este tinha às suas ordens.
A sua frente, a grande distância, viu galopar Ethel e, muito mais longe, pareceu-lhe distinguir McNamara, a sua ruiva noiva e mais alguns homens que saíam dos diferentes barracões.
Lassiter reduziu o galope do animal ao ver o brilho das armas e ao observar que se dispersavam em todas as direções dispostos, segundo parecia, a cortarem o avanço dos três pistoleiros que não cessavam de disparar contra ele.
Duzentos metros mais longe, com a espingarda na mão, McNamara viu Lassiter sobre a sela, quase estendido sobre o pescoço do cavalo que montava, galopando aos ziguezagues e, no seu coração, agitaram-se sentimentos contraditórios numa dança quase infernal.
Hesitava.
Sabia que podia disparar contra aqueles três homens que perseguiam Lassiter. Sabia que tinha de ser ele a dar a ordem para que os seus homens varressem num instante os inimigos, mas hesitava em o fazer.
Lassiter havia reduzido a marcha do seu cavalo e os três pistoleiros estavam cada vez mais perto dele.
McNamara compreendia a razão pela qual ele o fazia. Sabia que desejava apanhar algum deles vivo e, contudo, não se decidia a dar aquela ordem. Não se decidia a ajudar o amigo. Porquê?
Como resposta à sua pergunta, ouviu à sua direita a voz angustiada de Ella:
— Tex, vão matá-lo! Por favor, querido, tens de os deter.
McNamara voltou o rosto para ela e viu-a intensamente pálida, com as pupilas fora das órbitas e o busto a acusar o choque da respiração entrecortada.
— Tex! Por favor.
Levantou a espingarda quando Lassiter parava o seu cavalo e o voltava para os seus perseguidores. Depois, esporeando o animal, lançou-se contra os três, levando o «Colt» na mão, apoiado contra o arção da sela. Sempre à sua direita, McNamara ouviu-a dizer:
— Se o matarem, Tex, se o matam por tua culpa, juro que te odiarei toda a minha vida.
Depois, como fascinados, viram os longos riscos de fumo e fogo que irrompiam do lado de Lassiter e, quase no mesmo instante, começaram a acontecer coisas com uma rapidez que desconcertou todos.
A partir da direita para a esquerda de Lassiter, dois dos pistoleiros viram-se arrancados da sela, enquanto o terceiro parava o cavalo, fazia-o dar meia volta erguendo-se sobre as patas traseiras e em seguida o esporeava selvaticamente lançando-se num galope demoníaco na direção das pastagens de Elmer Tracy.
Lassiter parou a sua montada. Permaneceu completamente imóvel sobre a sela durante alguns minutos, recortando-se contra o azul do céu de uma forma mortiferamente sinistra e depois voltou-se para o acampamento. Fez então avançar o cavalo a passo até o parar em frente de McNamara, perante a silenciosa expectativa de Ella, Ethel e da não menos silenciosa assistência.
— Devias ter agido, McNamara — disse suavemente. -- Interessava-nos a todos ter um desses tipos vivo.
— Pus-me nervoso. Tu estavas bastante perto, quase na linha de tiro das nossas «Winchester». Não podia fazer outra coi...
Foi então que Ella avançou impetuosamente e o agarrou pela camisa logo que ele desmontou.
— Lass...! Lass, feriram-no? Está bem?
Lassiter esboçou um sorriso, mas este era extremamente duro.
— Estou bem, menina Sherman — replicou friamente. — Não se preocupe comigo.
Lançou um olhar a Ethel e, em seguida, fez o mesmo com McNamara.
— Gostaria de falar contigo, Tex — disse com simplicidade. — Sobre uma ideia que me ocorreu quando vinha para cá.
McNamara olhou-o com uma expressão indefinível, depois voltou-se para os seus homens e exclamou:
— Montem dupla guarda em torno do acampamento — Olhou para Lassiter e acrescentou: — Quando quiseres, Lass.
Este seguiu-o até ao barracão que fazia as vezes de escritório e, quando os dois ficaram sós, frente a frente, Lassiter quebrou o silêncio dizendo: —
Ouve, Tex, a minha ideia é a seguinte...
A conferência entre os dois durou mais de hora e meia, depois do que ambos abandonaram o barracão e se dirigiram para o lugar onde os esperavam as duas mulheres.
Tex despediu-se da sua noiva num tom um tanto frio, estendeu a mão a Ethel e a Lassiter, e em seguida os três empreenderam a caminhada até ao «Silver», fazendo-o no mais completo silêncio.
Já no rancho, pretextando cansaço, Ella foi para o seu quarto e Ethel ficou só com Lassiter. Mas este também não tinha vontade de responder a uma infinidade de perguntas que adivinhava nela e, alegando a mesma razão, dirigiu-se para o seu quarto, para o quarto que lhe fora destinado desde que chegara ao rancho.
Estendido de boca para cima, com o cigarro fumegante entre os lábios, pensava. Em Ella, em Ethel, e, sobretudo, na atitude de McNamara para com ele. Compreendia-o em parte, embora ele tivesse a certeza de não ser capaz de deixar um amigo à mercê dos seus inimigos, e muito menos por causa de uma mulher. Ou estaria enganado, nas suas apreciações?
Quando esta pergunta aflorou à sua mente, Lassiter abandonou o leito sabendo que, naquela altura, se sentia incapaz de conciliar o sono. Portanto saiu para o alpendre a respirar o ar puro e fresco da noite enquanto agora o nome de Elmer Tracy lhe ocupava os pensamentos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

PAS658. Um sorriso inefável de mulher

Ethel ainda dormia quando Lassiter se levantou e começou a vestir-se, olhando-a de passagem, com o formoso cabelo espalhado sobre a almofada e tendo no seu rosto maravilhoso a mesma expressão de criança feliz. Sorriu sem afastar os olhos dela, enquanto afivelava o cinturão-cartucheira e abandonava o quarto e saía para o alpendre.
Quando se encaminhou para o bebedouro dos animais, tal como fazia desde que chegara ao rancho, perguntou a si próprio o que diria St. Loman-pai quando Ethel, conforme haviam combinado os dois, lhe contasse o que havia sucedido.
Pensava também em Ella. Em Ella Sherman e no que ela diria quando se informasse do que se passara.
Começou a lavar-se quando dentro do seu cérebro dançavam as figuras de Ella, Ethel, Tracy e, claro que também, Tex McNamara. Acabava de se lavar quando a primeira chegou ao alpendre, olhou à sua volta e o viu. Um sorriso inefável se desenhou na sua formosa boca. Se Ethel tivesse visto aquele sorriso ainda ficaria mais perplexa que até então estivera.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

PAS657. Acordo nupcial com o pistoleiro

Lassiter abandonou o escritório e dirigiu-se para o alpendre.
Não se foi deitar. Encostado a uma das traves do alpendre, contemplou as estrelas, os arredores, as colinas atrás das quais estava o rancho do seu inimigo, enrolou um cigarro empregando para isso a mão esquerda e acendeu-o enquanto desta vez, duas mulheres, qual delas a mais formosa, dançavam no interior do seu cérebro.
Os seus pensamentos foram interrompidos por Ethel que disse a seu lado:
— Ella é uma rapariga muito bonita, não é verdade, Lass?
Lassiter voltou-se para a olhar, calculando quais seriam as intenções daquela pergunta e, olhando-a de frente.
— Sim, muito. Quase tanto ou mais que você, Ethel — disse, sem notar que, com aquelas palavras ou outras semelhantes havia respondido a Ella quando lhe fizera pergunta parecida em relação a Ethel.
Ato contínuo, como se não desejasse continuar a conversa, Lassiter desencostou-se da trave, desceu os três degraus do alpendre e, lentamente, dirigiu-se para as árvores próximas que circundavam o rancho, trinta e cinco metros para lá da cerca de arame farpado.
Não parou antes de chegar à margem do pequeno regato que por ali passava e então tirou o chapéu e aproximou-se de um tronco grosso, recostando-se contra o mesmo.
Fechou os olhos.
Quando, segundos mais tarde, os abriu, Ethel St. Loman estava parada em frente dele, com os olhos rasgados e grandes fitos no seu rosto, com uma pergunta muda estampada neles e também com uma estranha e misteriosa promessa.
Foi Lassiter quem falou primeiro e fê-lo com uma pergunta:
— Que procura aqui, Ethel?
Durante alguns segundos o rosto formoso de Ethel St. Loman ruborizou-se um tanto, mas depois, olhando-o firmemente, replicou:
— Procuro-te, Lass. Desejo saber se o primeiro homem que me beijou e que não me quer agora...
Ele interrompeu-a com um gesto e, ao responder, tratou-a por tu:
— Agora o quê, Ethel? Se recordo bem, foste tu que desejaste que não se repetisse o que se passou entre nós. Não é assim?
— Sim, mas... — hesitou e Lassiter não a ajudou e por isso ela continuou, desviando os olhos daqueles olhos frios e cinzentos que pareciam esquadrinhar-lhe a alma até aos pontos mais recônditos: — Que há entre ti e essa mulher, Lass?
Lassiter fez um gesto de assombro bem fingido.
— Referes-te a Ella, Ethel? perguntou por sua vez. — Se assim é, confesso-te que não te compreendo.
Ethel deu alguns passos aproximando-se dele e não parou enquanto Lassiter não sentiu o calor do corpo dela junto do seu e o fino e estranho perfume que usava e lhe enervava os sentidos.
— Que razão há para não responderes, Lass? Onde a conheceste? Responde, por favor.
Ele respondeu, mas não da forma que ela esperava:
— Creio que laboras num erro, Ethel. Quem meteu essa ideia debaixo dos teus cabelos louros?
— Ninguém. Eu própria. Basta ver como te trata. A confiança que tem contigo. Basta uma indicação tua para fazer o que tu decides. Tex não vai gostar disso, da mesma forma que eu não gosto. Que há entre ti e ela, Lass?
— Haver? Nada, querida. Creio que são ideias tuas e nada mais. Ella apenas pode sentir por mim, se assim é, uma amizade sincera. Sou amigo do seu noivo e nada mais.
— Não sei se deva acreditar-te ou não, Lass querido. Mas é estranho, muito estranho, que Ella esteja pendente das tuas palavras desde que começas a falar até que terminas. Enfim, Lass, nem eu própria sei o motivo, mas tenho uns ciúmes horríveis da noiva de Tex.
Lassiter sorriu.
— Pois nada tens a recear de momento, Ethel. Não há outra mulher. Mas, mesmo que a houvesse, não esqueças que foste tu a expressar o desejo de que, aquilo que se passou entre nós não se repetisse.
Ethel recuou alguns passos e, durante alguns instantes, ambos se olharam silenciosamente, como se se estudassem, até que ela, com um grito, se lançou nos seus braços.
— Não percebes que minto, que mentia, Lass, amor? Que te amo, que te amo como nunca amei ninguém, visto que tu foste o primeiro homem na minha vida? Oh, Lass, querido! — terminou alguns segundos mais tarde antes de lhe procurar a boca com os seus lábios carinhosos e incitantes.
Ethel apertou-se contra ele com verdadeiro desespero, até que o mundo, e com ele Elmer Tracy, deixou de existir para os dois e só voltaram à realidade quando Lassiter, com um esforço, a afastou dos seus braços, com o busto ofegante e o cabelo e as roupas revoltas.
— Agora sou eu que te peço que deixes as coisas como estão, Ethel.
Ethel abriu os olhos com assombro e, ato contínuo, replicou:
— Deixá-las, Lass, querido...? Nem sonhes com isso, a menos que me digas a verdade.
— E se não o fizer?
O rosto de Ethel St. Loman turbou-se. Depois, as suas palavras lentas, a entoação que lhes deu, abriram brecha no ânimo de Lass Lassiter:
— Ouve, Lass; eu amo-te, sabes? Se assim não fosse, as coisas não teriam acontecido como aconteceram. Agora, apenas quero pedir-te uma coisa: sela o teu cavalo e vamos a Rato. Há lá um juiz que, embora velho, nos pode casar. Um juiz e um hotel onde podemos passar a noite, compreendes? Depois, amanhã, poderemos estar de volta para acompanharmos Ella Sherman até ao lugar onde se encontra Tex.
-- Mas para que é tanta pressa, Ethel?
— E és tu que me fazes essa pergunta, querido?
Lassiter não respondeu de momento. Quando o fez foi com uma pergunta que sobressaltou Ethel:
— E se eu não concordar, querida?
Seguiram-se alguns segundos de angustioso silêncio que Ethel quebrou acentuando cada uma das suas palavras:
— Matá-la-ei, Lass. Se eu averiguar que é por causa dessa mulher, por causa dessa mulher tão formosa, matá-la-ei.
Voltou a reinar um novo silêncio entre os dois, e, desta vez, o encarregado de o quebrar foi Lassiter:
— Não há nenhuma mulher, Ethel, já te disse. Por outro lado também te disse que eu...
— Sei tudo isso, Lass. Sei-o e contudo... Oh, Lass! Eu...
Num repente instintivo correu para os braços dele e escondeu a sua cabeça loura e formosa contra o seu peito.
Acariciando-a, Lass Lassiter pensava em muitas coisas e então cravou os olhos frios nas estrelas longínquas que brilhavam rutilantes no negrume da noite.
Sem a olhar, murmurou suavemente:
— Espero-te junto das cavalariças, Ethel.
Ela levantou os olhos luminosos para ele.
— Lass!
— Vamos, pequena, muda de roupa rapidamente — olhou-a fixamente e acrescentou: — Vai fazer-se como queres, rapariga. Esta noite converter-te-ei em minha esposa.
Sem esperar resposta afastou-se dos seus braços e dirigiu-se para as cavalariças. Ethel foi atrás dele e, junto do cavalo, vendo que a olhava, replicou:
— Não necessito mudar de roupa, Lass. Vamos quando quiseres.
Três minutos mais tarde, levando-a a garupa, Lassiter galopava em direção a Rato.
Mas não ficaram no hotel da povoação, regressaram imediatamente ao rancho onde chegaram quando apenas faltavam umas quatro horas para amanhecer.
Foi Ethel quem o puxou para o andar superior dizendo:
— Lass, querido, desejo mostrar-te uma coisa.
Ele não replicou mas foi com ela.
Ethel parou em frente da porta do seu quarto e abriu-a.
— Entra, Lass — disse, com o semblante um pouco ruborizado —, desejo que vejas isto.
Afastou-se para um lado e Lassiter entrou. Enquanto ela fechava a porta atrás dos dois, ele viu que Ethel havia preparado o quarto para os dois há bastante tempo. Voltou-se para a observar e viu-a com um olhar carregado de promessas sedutoras.
— Ehtel, isto...
— Oh, Lass!... — interrompeu ela. — Sabia que o conseguiria. Sabes...? Eu... amo-te desde o momento em que te vi ferido, às portas da morte, naquela cama e...
Correu para os seus braços, procurando-lhe os lábios com verdadeiro desespero. Talvez pensando naquela outra mulher formosa, de cabelos louros, que o tratava com tanta intimidade.
Lassiter deixou-se abraçar e, minutos mais tarde, o silêncio mais absoluto reinava no quarto nupcial.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

PAS656. Chega a segunda mulher formosa

Antes de começar a beber, Lassiter colocou meio dólar sobre o balcão, depois pegou no copo e bebeu-o voltado para a porta, embebido numa multiplicidade de pensamentos que convertiam a sua cabeça num caos extraordinário.
Assim o surpreendeu a chegada da diligência com os gritos do condutor, as suas pragas e o ruído de ferros velhos e estalidos de madeira que ameaça desconjuntar-se.
Bebeu o resto do uísque de um trago, apertou um pouco mais o cinturão e abandonou o «saloon».
Tal como sempre, havia uma infinidade de curiosos rodeando a velha e ruidosa diligência quando Lassiter atravessou a rua poeirenta e se aproximou colocando-se atrás de todos.
Três homens.
Vaqueiros, e, segundo parecia, tão forasteiros como ele próprio.
Depois saiu a mulher.
Jovem, não devia ter mais de vinte anos, de intensos olhos verdes, alta, de busto pujante e audacioso, cintura estreita e cabelo ruivo, uma pequena boca vermelha de lábios sensuais e húmidos como o orvalho.
Lassiter sorriu, enquanto uma multidão de pensamentos contraditórios o sacudia dos pés à cabeça, fazendo-o estremecer como uma folha varrida pelo furacão.
Não se moveu, vendo como ela voltava a cabeça de um para o outro lado, procurando descobrir Tex McNamara, o seu noivo.
Repentinamente, Ella Sherman viu-o.
Notou corno se sobressaltava e como depois os seus lábios se distendiam num sorriso carinhoso e, com ele nos lábios, com os olhos extremamente brilhantes, começava a avançar para ele seguida pelos olhares fascinados dos homens e curiosos das mulheres.
Lassiter fez-lhe um sinal e quase instantaneamente o rosto dela mudou de expressão como por encanto, tornando-se completamente impassível. Depois parou e olhou para todos os lados.
Lassiter avançou então ao seu encontro.
Parando em frente dela, tirou o chapéu e perguntou:
— A senhora é Ella Sherman, a convidada de «miss» St. Loman ?
Ela lançou-lhe um olhar curioso que, dissimuladamente, o abarcou da cabeça aos pés. Em seguida sorriu e, sem perder o sorriso, replicou com outra pergunta:
— Esse é o meu nome, vaqueiro. E você...?
— Lass Lassiter, do «Silver Rach», menina Sherman. A menina St. Loman mandou-me para a conduzir até ao rancho. Quando quiser poderemos partir.
— E a minha bagagem?
— Na estação da diligência encarregar-se-ão dela até que a venhamos recolher, menina Sherman — replicou Lassiter. — Agora venha comigo. Tentaremos alugar uma carruagem para a levar ao rancho. A menina St. Loman disse que a desculpasse, mas no rancho não há nenhuma que seja cómoda.
A rapariga sorriu.
Ambos muito juntos entraram na estação sob a expectativa geral. Meia hora mais tarde saíram dali e, um pouco mais tarde Lassiter conduzia, levando o seu cavalo amarrado à parte traseira do «sulky» que alugara. Dirigiam-se para o rancho.
Foi a meio da pradaria, fora dos olhares indiscretos dos habitantes da povoação, que ela tomou as rédeas que Lassiter segurava e parou os cavalos.
Ambos voltaram a olhar-se e então, Ella, sem se poder conter, soltou um pequeno grito e lançou-se nos braços de Lassiter, num repente incontível.
— Oh, Lass, querido, como desejei que este momento chegasse!
Depois, durante vários minutos, ambos ficaram estreitamente abraçados, beijando-se e acariciando-se, até que Ella se afastou dos seus braços. Olhando-o fixamente, começou a perguntar:
— Lass! Que significa isso? Que razão há para todo este mistério? Que há de mal em...? Por favor... — fez uma ligeira pausa e acrescentou, vendo que ele não dizia nada: — Disseste a Tex?
Olhou-o, expectante, com os maravilhosos olhos verdes fitos nos seus e o busto agitado violentamente sob o tecido do vestido.
— Ouve, pequena — começou Lassiter. Nem tu nem eu nos conhecemos, compreendes? E o pior para ti é que, para todos os estranhos ao «Silver Rach», também fingirás não conhecer Tex. Compreendido? Tu, para todos, vais ser, no rancho, apenas a convidada da menina Ethel St. Loman. Portanto, querida, terás de aguentar até que tudo isto se solucione.
Não replicou de momento. Olhava-o pensativamente, como tentando assimilar todas e cada uma das suas palavras.
— E Tex, como está, Lass?
— Está bem, rapariga. Tão bem quanto possível.
Houve alguns segundos de silêncio entre os dois e por fim Elia quebrou-o, perguntando uma vez mais:
— E... e Tracy, Lass?
O rosto de Lassiter carregou-se.
— Como sempre, querida — replicou.
Ato contínuo contou-lhe os sucessos mais recentes e em seguida empunhou novamente as rédeas e pôs o «sulky» em marcha, sem deixar de falar, contando-lhe os motivos que tinha para não desejar que alguém soubesse, de momento, quem ela era e muito menos as relações que a ligavam a ele e a McNamara.
Avistavam o rancho quando Ella perguntou uma vez mais:
— Como é Ethel St. Loman?
— É loura, Ella. Loura e tanto ou mais formosa que tu, querida.
— Lass, querido! Fazes-me corar com as tuas galantarias.
Lassiter soltou uma gargalhada e não respondeu.
Segundos mais tarde, Ella encontrava-se a abraçar e a beijar Ethel que a acolheu como se se tratasse de uma sua irmã.
— Vamos — disse quando acabaram as efusões entre as duas. Vamos para dentro. Meu pai deseja conhecer-te.
Ella correspondeu ao tratamento por tu quando perguntou:
— E Tex, sabes se está no rancho?
— Não, Ella. Está junto das margens do Canadian vigiando os trabalhos da represa.
O rosto de Ella obscureceu-se um tanto.
— Quero ir vê-lo — replicou, lançando um olhar acusador a Lassiter que este simulou não ver.
Por isso não respondeu, o mesmo não acontecendo com Ethel que o fez imediatamente:
— Levar-te-emos lá, Ella, mas não hoje, apenas amanhã. E por favor, sê prudente, Suponho que Lass já te disse que ninguém deve saber as relações que te unem a Tex, não é verdade?
— Sim, disse-me, embora não tivesse dito que Tex não estava no rancho. Se assim tivesse acontecido...
— Será melhor, menina Sherman, que faça caso dos conselhos de Ethel.
Ela olhou para Lassiter, inclinou a cabeça e replicou lentamente:
— Seja como quer, Lass.
Sem mais palavra entraram os três no rancho onde os esperava St. Loman e, segundos mais tarde, os quatro encontravam-se sentados no luxuoso escritório, embebidos numa conversa agradável e interessante.
Mas nenhum deles esquecia nem por um momento Elmer Tracy, apesar de não falarem nele.
Por volta da meia-noite Ethel pôs-se em pé e voltou-se para Ella.
— Desculpa, querida — disse —, mas se queres ir ver o teu noivo amanhã, deves deitar-te agora.
Ella sorriu levemente, levantou-se do lugar que ocupava, estendeu a mão a St. Loman e afastou-se atrás de Ethel, enquanto Lassiter ficava a pensar de si para si o que aconteceria no rancho a partir daquele momento e acabava por se levantar e pôr em pé.
— Se não precisa de mim, senhor St. Loman...—começou.
— Não, Lass — replicou o rancheiro interrompendo-o. -- Pode ir deitar-se, se quiser.

domingo, 14 de agosto de 2016

PAS655. O homem do revólver encontra a mulher formosa

Algumas pancadas fortes dadas na porta acordaram-no com um pouco de sobressalto. Lassiter abriu os olhos. O sol inundava o quarto e então saltou da cama como impulsionado por uma mola, para fazer no mesmo instante uma careta de dor.
A verdade é que lhe doía todo o corpo como resultado da luta do dia anterior.
Deu um grito como resposta às pancadas que se continuavam a fazer ouvir e olhou-se no espelho. O seu rosto era qualquer coisa parecida com o mapa do Texas e, sorrindo com ironia, perguntou, de si para si, o que diria Ethel quando o visse.
O velho St. Loman?
O turbilhão de perguntas que se iam formular na sua mente foi interrompido por uma nova pancada na madeira da porta, mas desta vez um pouco mais discreta.
Lassiter fez um gesto de impaciência e abriu para ficar sem respiração perante a figura de Ethel que, junto do umbral, o observava com olhos inquiridores.
Uma Ethel que trazia sobre o seu maravilhoso corpo de sereia uma blusa decotada, sem mangas e as calças de vaqueiro usuais, um pequeno chicote na mão e nada mais.
Uma Ethel que murmurou aproximando-se dele até quase o roçar:
— Sabe que horas são, preguiçoso? Não? Pois passa das onze da manhã.
A resposta de Lass resumiu-se a uma pergunta:
— E Tex?
Ethel sorriu uma vez mais.
— Foi para a represa, Lass.
-- Por que não me chamaram antes?
Ela apontou-lhe para o rosto com um gesto acusador.
— Já viu a sua cara? — perguntou —. Pois por isso mesmo. Além disso, você ainda não está em condições de fazer, por exemplo, o que fez ontem em Rato. V: uma loucura, Lass.
— Então devo permanecer aqui, no interior do «Silver» até que alguém diga por mim o que devo ou não fazer? Não é assim, Ethel?
— Claro que sim! Portanto, por agora, o seu cão de guarda vou ser eu. Lave um pouco o rosto enquanto espero. Depois tratar-lhe-ei do rosto e, ato contínuo, sairemos a dar um passeio.
— Quem disse isso, Ehtel?
— Oh! Ë... uma receita facultativa. Pelo menos julgo que se diz assim. Vamos, Lass, estou à espera e nenhum homem educado faz esperar uma dama.
Lassiter esteve prestes a mandá-la para o diabo ou para qualquer outra parte pior, mas por isso, exatamente por uma questão de educação, não o fez. Limitou-se, pois, a dar meia volta e a desaparecer pela porta que dava acesso ao lugar onde tinha instalada a tina de água para asseio pessoal.
Meia hora mais tarde estava novamente diante dela.
-- Vamos, Lass, sente-se aqui e deixe-me tratá-lo.
Lassiter não respondeu e fez o que ela ordenava.
Sentiu no rosto as mãos de veludo de Ethel e fechou os olhos quando uni violento desejo de a beijar, de a estreitar nos seus braços, o invadiu.
Mas, que direitos tinha para o fazer? Respondeu a si próprio que nenhuns e a partir de então os seus pensamentos começaram a percorrer caminhos nada agradáveis para si mesmo.
Até que Ethel o interrompeu com um comentário:
— Sim, creio que vou ser uma boa guarda para si. Vamo-nos embora, Lass?
Lass anuiu em silêncio e, alguns minutos mais tarde, ambos chegavam às cavalariças.
Lass selou o seu cavalo e a égua dela, ajudou-a a montar, fez o mesmo e, finalmente, puseram-se a caminho na direção das pastagens.
Cavalgando.
Ele pensando em tempos passados. Ela pensando no presente e no futuro e fazendo a si própria uma infinidade de perguntas sobre o sinistro e frio cavaleiro que levava ao lado, completamente silencioso.
Assim, quilómetro após quilómetro, umas vezes em silêncio outras em conversa animada, Ethel mostrou-lhe boa parte do rancho, a maioria das obras de engenharia que McNamara havia efetuado, uma boa parte da represa, sem que encontrassem o engenheiro e depois, a um sinal dela, seguiu-a.
Lassiter cavalgou atrás dela durante mais de cinco quilómetros, a todo o galope, até avistarem um espesso grupo de árvores.
Então Ehtel reduziu um pouco a marcha da sua égua e esperou que Lassiter, que ia atrás, se aproximasse dela.
— Almoçaremos aqui, Lass — disse, indicando as árvores e, logo que ele começou a cavalgar a seu lado, estribo com estribo, acrescentou: — Calculei que demoraríamos bastante tempo e trouxe qualquer coisa para comer.
Lassiter replicou com um sorriso e, quinze minutos depois, desmontou sob as árvores, junto da margem de um regato de águas límpidas e cantantes.
Ajudou-a a desmontar.
Durante alguns segundos teve-a entre os braços, os lábios muito vermelhos perto dos seus, sentindo-a tremer, sentindo o calor morno do seu corpo formoso junto do seu, mas não a beijou.
Limitou-se a colocá-la suavemente sobre a erva e em seguida afastou-se na direção da margem do regato.
Sentou-se à beira da água. Mal o havia feito ouviu a voz dela:
— Cansado, Lass? Voltou o rosto para a olhar. Diabo, como era formosa!
— Não, Ethel — replicou. — Não estou cansado. Apenas esfomeado.
Ela riu alegremente, feliz, segundo parecia, embora Lassiter não a tivesse compreendido muito bem naquela altura, mas sim muito mais tarde.
— Sirvo-o imediatamente, Lass. Depois me dirá que tal sou como cozinheira.
— Foi você quem cozinhou?
Com as mãos afundadas na bolsa da sela de montar, Ethel replicou sem perder o seu sorriso feiticeiro:
— Claro, Lass! Sou a única cozinheira que há no «Silver».
Trazendo dois embrulhos nas mãos, Ethel foi sentar-se a seu lado. Depois, alguns minutos mais tarde, começaram a devorar o que ela trouxera preparado do rancho.
Absurdamente feliz, sem saber ainda a que atribuir aquelas sensações, Ethel falou pelos cotovelos até o almoço terminar. Recolheu então todos os utensílios que trouxera e foi lavá-los na água do regato enquanto Lassiter, com o fino cigarro, que havia enrolado e acendido, entre os dedos, se estendia no chão, de boca para cima, fixando os olhos na folhagem verde das árvores.
Ethel foi sentar-se junto dele poucos minutos depois de terminar o seu trabalho.
Inclinou-se sobre a figura estendida de Lassiter, mostrando-lhe o princípio do colo exuberante e perguntou:
— Que fará quando isto terminar, Lass? Refiro à altura em que Tracy deixar de constituir um perigo para todos.
Lassiter desviou os olhos da rapariga e replicou com eles fitos na distância.
— Sou ave de arribação, Ethel. Portanto, ir-me-ei embora — disse, voltando a olhá-la silenciosamente durante alguns segundos e acrescentando então: — Mas antes, Ethel, farei uma coisa, mesmo que me... custe, um desgosto.
Ela inclinou-se mais sobre ele, como fascinada...
— Que coisa é, Lass?
Lassiter semicerrou os olhos e, durante uns instantes, a sua respiração tornou-se muito mais violenta que o normal.
Quando os abriu, Ethel continuava a olhá-la fixamente, com as pupilas brilhantes e cheias de qualquer coisa difícil de definir, mas extremamente suave.
— De que se trata, Lass? — insistiu.
— Beijá-la, Ethel.
Ela inclinou-se ainda mais.
— Desde quando o deseja, Lass? — perguntou suavemente. — Diga-me. Preciso de o saber.
Lassiter desviou os olhos durante alguns segundos e depois voltou a olhar para ela.
— Desde que me deixou só no meu quarto do rancho, a primeira vez que a vi — replicou com voz rouca. — Desejo-o desde essa altura.
Ethel sorriu.
— Sim, creio que sim, Lass — replicou. — Creio que então o adivinhei.
Inclinou-se ainda mais e os seus lábios vermelhos e sensuais roçaram os de Lassiter. Depois, e de uma forma repentina, este encontrou-se a beijá-la, a abraçá-la, a acariciá-la e a sentir nos seus lábios o fogo dos dela e como devolvia todas e cada uma das suas caricias.
Depois ambos permaneceram unidos num abraço que durou muito, muito tempo.
Mas foi muito mais tarde, quando do regresso, apenas faltavam uns oito quilómetros para chegarem ao «Silver», por entre uma paisagem cheias de árvores, Artemisa, rochas e grandes depressões de terreno, quando Lassiter perguntou, quebrando desse modo o silêncio que reinava entre eles desde há muito tempo:
— Por que fizeste isso, Ethel?
Ela mantinha os olhos fixos na distância quando respondeu:
— Não perguntes, porque não sei, Lass. Pode ser que fosse porque também eu o desejava há muito tempo. E pode ser que... — hesitou durante alguns instantes e finalmente acrescentou: — Pode ser... Pode ser que deseje que, quando te fores embora do «Silver», leves uma boa recordação do rancho.
Lassiter ficou em silêncio durante alguns segundos e em seguida murmurou mais para si próprio que para ela:
— Uma boa recordação... Sim, indubitavelmente, a melhor... Qualquer coisa que nunca teria esperado. Sim, Ethel... eu...
Não pôde terminar a frase, se é que o desejava verdadeiramente. O estampido do tiro de uma espingarda «Winchester» impediu-o. Quase no mesmo instante, o cavalo que montava caía de lado, com a cabeça atravessada de lado a lado enquanto, imediatamente, uma descarga cerrada quebrava em mil pedaços o silêncio que até então havia reinado nos arredores.
Mas quando a égua que Ethel montava caiu crivada de balas, esta já não se encontrava sobre a sela, mas sim por terra, junto de Lassiter, que também se havia libertado do cavalo muito antes que este o prendesse sob o seu corpo.
Depois, alguns segundos mais tarde, um silêncio pesadamente mortal caiu em torno deles, como um funesto presságio do que ia acontecer em seguida.

sábado, 13 de agosto de 2016

ARZ118. Duas mulheres e um revólver

(Coleção Arizona, nº 118)
 
Lassiter é contratado por um engenheiro, Tex Mc Nammara, para se dirigir à povoação Rato no Novo México a partir de Starkeville, no Colorado, usando o seu cavalo e envergando as suas roupas. Perto do seu destino é alvejado e passa vários dias em estado desesperado sob os cuidados da bela Ethel a qual se apaixona por ele, vindo então Tex a compreender o destino que o esperava caso fosse ele a fazer a travessia. É um pouco estranho este ponto de partida de Joe Mogar, estranheza adensada pela maneira como tratou o relacionamento de Lassiter com a noiva de Tex.
Cabe, no entanto, dizer que esta perseguição a alguém cujo vulto se confundia com Tex se devia ao fato de este estar a construir uma represa nas terras de Ethel a qual era invejada pelo malvado Tracy bem como as suas terras.
Lassiter acaba por ser envolvido neste conflito e não deixa de ser magistral o modo como o autor trata o dilema de Tex em momento em que o seu contratado fugia de Tracy. Temendo que o cowboy tivesse um relacionamento com a sua noiva, Emma, Tex hesitou em o defender. Mas afinal Emma era irmã de Lassiter e tudo ficou em paz.
Fica assim justificado o título da novela que retrata luta de duas mulheres (Ethel e Emma) apoiadas no revólver de Lassiter contra o famigerado Tracy, uma luta em que Tex participou de uma forma tímida.