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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

PAS421. Surpresa Fatal

Rod não saiu do rancho logo atrás do velho Farros. Teria sido descaramento demais, pois, à volta dos edifícios, estendiam-se pradarias desarborizadas até duas ou três milhas de distância, excetuando o lado leste onde as colinas chegavam a meia milha de distância da casa principal.
Assim, Rod dirigiu-se diretamente para as primeiras elevações que ficavam a sul, e aí esperou o velho.
Não teve de esperar muito. Apenas cinco minutos. Ao fim desse tempo viu-o chegar a galope pela planície, cortar o outeiro próximo do local onde estava Rod, e descer para o bosque de abetos que se estendia quase até ao limite sul do rancho onde estavam os cercados perto dos quais tudo sucedera.
Rod esperou até que o velho desapareceu entre árvores. Depois, galopou pelas partes altas, ladeou bosque pelo norte e continuou á subir até divisar o final do arvoredo. Dali veria Ben Farros sair de entre as árvores para prosseguir o seu caminho Então, poderia segui-lo a distância, graças à vantagem de se encontrar num plano superior.
Mas decorreram dez minutos e o velho não saiu do bosque. Rod, impaciente, esperou mais cinco minutos. Inútil. Benjamim Farros parecia ter ficado sepultado para sempre sob a ramaria do bosque.
Só havia duas hipóteses: ou tinha sucedido alguma coisa ao velho ou o corpo de Bob Dean estava enterrado no bosque. Isto parecia o mais provável. Assim, não teve outro remédio senão descer do seu posto de observação e introduzir-se entre as árvores seguindo o possível caminho do velho.
Desde o princípio, Rod compreendeu que era inútil seguir rastos. Aquele carreiro através do bosque era utilizado por todos os que se dirigiam para os cercados do sul e a erva estava pisada em todas as direções por cem rastos diferentes.
Assim, preferiu sair do duro caminho e cavalgar pelas bermas cobertas de erva e musgo. Desse modo atenuava o ruído dos cascos do cavalo.
Erguido na sela, atento ao menor ruído ou movimento, Rod percorreu mais de metade do bosque sem achar rasto do velho Farros. Mas já perto do final, ouviu um relincho à sua direita, atrás de umas rochas que chegavam quase à copa das árvores.
Rápido como um felino, Rod saltou em terra e empunhou o revólver, arrastando-se silenciosamente para as rochas. Trepou por elas e, ao chegar ao cume, viu o cavalo que tinha relinchado. Um pouco mais além, sentado no solo e apoiado a um tronco, estava Benjamim Farros. Mas estava completamente de costas para ele, de forma que, do seu ponto de observação, o abeto cobria-lhe todos os centros vitais Apenas lhe via as abas do chapéu e os ombros da jaqueta.
Rod alegrou-se de a coisa ser tão simples. Com todo o cuidado, para não fazer ruído, desceu da rocha e avançou pela erva, de revólver na mão, procurando que o tronco a que o outro se apoiava ficasse sempre entre ambos, para evitar que o velho voltasse a cabeça, o descobrisse antes de tempo.
Quando chegou a dez passos do abeto, Rod saltou bruscamente para o lado e disparou duas vezes sob a sua vítima.
Mas a «vítima», afinal, não passava de uma jaqueta e um chapéu, pendurados numa cruz de pau.
Rod ficou petrificado. Sobretudo quando a voz do velho Farros soou à sua retaguarda:
— Levanta os braços, rapaz!
O terror, a surpresa, a angústia do seu fracasso fizeram com que Rod obedecesse precipitadamente. Estava mortalmente pálido e tremiam-lhe as mãos.
Benjamim Farros saiu de entre- as pedras, dizendo:
— O diabo do Merrick, as partidas que ele gosta de pregar a cada um! Ainda bem que o diabo é velho e sabe muito. A mim já os anos me pesam nos ombros, é o que vale...
— Ben, eu... — tartamudeou o outro.
— Não comeces com desculpas agora — cortou Farros. — Mas não haja dúvida de que tens razão para pedir desculpa. Se não me precato, tinhas-me feito num passador com toda a facilidade. Era o que tu querias, hã?
— Merrick disse-me...
— Sim, eu imagino. Cá me estranhou que ele fosse tão generoso comigo. Mas, claro, deste modo até podia ter-me dado mil dólares. Anda, larga o ‘revólver cruza os braços sobre a cabeça.
— Que vai fazer comigo?
— Eu nada, filho. Estou velho, a morte anda perto e não quero andar a manchar as mãos de sangue A última hora. Há-de ser o xerife a ajustar contas contigo. Para o caso é çomo se me tivesses matado realmente, hã? E ao teu patrão também vou arranjar-lhe a cama. Não que não vou!
Tinha-se aproximado até pôr-se diante de Rod.
— Bom, larga o revólver de uma vez.
O outro deixou-o cair docilmente e Ben Farros agachou-se para o apanhar do chão. Mas então Rod, vendo ali a sua única salvação, esticou a perna e deu-lhe um brutal pontapé na cabeça.
Benjamim Farros soltou um gemido de dor e caiu de costas, disparando o revólver. Não acertou em Rod. Este abaixara-se para agarrar a sua arma em que o não tivera tempo de tocar.
Ergueu-se e disparou sobre Ben Farros que continuava no chão. Atingiu-o no ventre e no peito. O velho estremeceu violentamente mas os ferimentos não o impediram de apertar o gatilho de novo. E, por casualidade, a bala foi atingir Rod entre os olhos.
Matou-o imediatamente.
Ben, gemendo entre os dentes, agarrando-se ao ventre com a mão esquerda, procurou o apoio do abeto mais próximo para se levantar. Mas as pernas falharam-lhe. Sentiu-se estonteado, vazio.
O cavalo não passava de urna sombra informe. O velho tentou dirigir-se para ele, mas não conseguiu. Caiu de bruços sobre a erva. Estava morto.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

PAS420. Testemunha incómoda

O seu pranto de desesperada impotência foi interrompido por leves pancadas na porta do seu quarto.
— Queres dizer que decidiste esquecer tudo, Doris, e que te casas comigo?
 — Quero dizer que não te denunciarei por teres matado Bob. Isso deixa-te tranquilo?
— Sim.
Tentou beijá-la, mas ela repeliu-o com asco.
— Deixa-me agora, Nolan — pediu. — Não é ainda altura para isso. Deixa passar até amanhã, pelo menos.
— Como quiseres.
— Agora tenho de continuar com o almoço.
Merrick estava contente. Sinceramente, não esperava aquela resignação de Doris em tão curto prazo. E compreendeu que era melhor não insistir.
Deixou-a entrar na cozinha e saiu para o alpendre. Rod estava já de volta.
— Encontraste o Ben Farros?
 — Sim. Está nos estábulos. Já lhe disse que não se fosse porque tu querias falar com ele. 
— Continua por aqui.
Afastou-se de Rod e atravessou o pátio de estilo mexicano. O velho Farros esperava-o à porta dos estábulos.
Merrick fê-lo entrar para que ninguém os visse juntos. Quanto menos gente suspeitasse de que guardavam algum segredo, tanto melhor.
— Bem — disse o ganadeiro — Jas Conley seguiu o rasto de Bob até aos cercados, e viu o sangue.
— Hum! — grunhiu o velho, acariciando a barba branca. — É pouca sorte, mas não creio que tenha importância.
— Mas ele agora vai continuar as buscas. E pode dar com o sítio onde enterraste o Dean.
O velho desatou a rir, e afundou ainda mais as desdentadas gengivas.
— Não creio — disse. — Está bem escondido.
Mas Nolan Merrick não estava tranquilo.
— Não me fio — disse. — Convém que alguém esteja lá, de vigia, até que eu consiga tirar-lhe a vontade de andar a meter o nariz nisto.
— Bom, não se perde nada com isso. Eu mesmo posso ficar de guarda ao sítio, para o caso de ele aparecer por lá a farejar.
— Será o melhor — admitiu Merrick. — Não creio que ele possa sair da cidade, mas vale mais prevenir... Toma.
Entregou-lhe umas notas que o velho aceitou muito sorridente.
— Oh, muito obrigado, «mister» Merrick!
— Ganharás muitas mais, se continuares a trabalhar para mim, Ben. Bom, para começar não é mau, hã?
—.Agora vai encarregar-te do que te disse.
— Sim, «mister» Merrick. Assim que deixar isto. pronto
Nolan saiu dos estábulos e foi ter com Rod ao alpendre.
Disse-lhe:
— Segue o velho quando ele sair daqui. Vai postar-se junto de uma tumba. A de Dean.
— Tenho de fazer alguma coisa de especial, patrão?
--- Pouca coisa. Penso que deve ter deixado espaço suficiente para caber outro corpo. Assim só tens de gastar uma bala e tirar um pouco de terra remexida.
— Meto-o lá também?
— Sim. Sabe demais para que eu me sinta tranquilo com ele vivo. Teria de estar sempre a encher-lhe as algibeiras.
— Assim é seguro.
— Ah! E não te esqueças, antes de o enterrar, de lhe tirar os cento e cinquenta dólares que acabo de dar-lhe.
Rod soltou o seu risinho antipático.
— Descanse — disse. — Não me esqueço.
— Depois fica de vigia, num sítio de onde vejas boa parte do rancho. Se Jas Conley conseguir sair de Sakersfield e aparecer por cá, já sabes o que tens que fazer.
— Tentarei arranjar lugar para os três no mesmo buraco — riu-se o cúmplice. — Mesmo que tenha de cavar um pouco mais fundo.
— Então, vamos. Eu fico a vigiar a Doris.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PAS419. Por quem chora Doris

Doris Parker deixou-se cair sobre a cama e rompeu a chorar desconsoladamente. Tudo tinha sido como um sonho, como um sonho terrível de que não havia maneira de despertar.
Ao meio dia, quando estavam a comer em casa, apareceu um vaqueiro do rancho a gritar em frente do alpendre.
- «Miss» Parker! Abra bem os ouvidos que trago uma boa notícia!
Doris levantou-se da mesa e correu até à porta.
— Que notícia é essa que me trazes, James?
O vaqueiro disse:
— Lembra-se daquele potro azeviche que vimos há uma semana junto do Risco Ermitão?
— Então não havia de lembrar-me! Disse-lhes que queria para mim. James riu-se alegremente.
— Bom, pois já é seu. Laçámo-la esta manhã, e tem-no o velho Ben com o rebanho do vale.
— Oh! James! — exclamou ela, com os olhos a brilhar de satisfação. -- Obrigada!
— Mas tenha cuidado com ele. É o potro mais arisco e selvagem que já vi. É preciso domá-lo primeiro antes de montá-lo.
— Doma-lo tu, vaqueiro?
— Sem dúvida! E juro-lhe que o vou deixar tão meigo como uma noiva que eu tive no Kansas. Vai ver. Ela riu-se e disse:
— Quando for à cidade, prometo trazer-te urna prenda, James.
— Bom, agradeço. Mas não gaste muito dinheiro ou o seu pai Sie-me na rua com um pontapé.
— De acordo.
Já não pôde comer. A notícia excitara-a tanto que mal conseguiu manter-se sentada, enquanto os outros acabavam de almoçar. E, em seguida, preparou-se a fim de se dirigir para a remonta que ia vender-se dois dias depois ao Exército.
Nolan Merrick, que tinha comido com eles, dispôs-se a acompanhá-la. Selaram dois cavalos, e dirigiram-se, para a parte sul do vale, onde o velho Benjamim Farros tratava dos cavalos que os vaqueiros iam apartando para a venda.
Meia hora depois chegavam à vedação onde já estavam reunidos mais de trinta cavalos.
Ben Farros estava sentado no alto do cercado, com o velho chapéu atirado para os olhos e a barbicha branca sumida por falta de dentes. Saudou-os com um gesto alegre do braço, mal os viu aparecer.
— Já sabia que vinhas corno um relâmpago! — disse o velho, rindo.
Doris aproximou a montada do cercado e procurou com os olhos ávidos entre a trintena de cavalos que se agitavam nervosos dentro da vedação. Depois perguntou:
— Onde está ele, Ben?
— Ali o tens, pequena.
Era um potro esbelto, de longas crinas e cabeça orgulhosa. O pelo negríssimo brilhava como se estivesse untado de azeite.
— Oh, é magnífico, Ben!
— Sim, é um bonito cavalo -- corroborou Nolan Merrick. --- Mas temo que não o possas montar tão cedo, querida.
Realmente, o potro não parecia muito disposto a deixar-se montar por ninguém. Ia de um lado para o outro do cercado, calculava as suas possibilidades para saltar, erguia-se sobre as patas traseiras e olhava desafiadoramente em roda, em tensa guarda.
— James disse que mo vai domar —assegurou a jovem.
— E com certeza que o faz — assentiu o velho. Mas digo-te que vai ter trabalho, se é que o bicho não lhe parte a cabeça quando for montá-lo.
Nolan Merrick estava a olhar para a colina que limitava o rancho pelo Sul, onde aparecera uma nuvenzinha de pó por entre os zimbros.
— Vocês deixam o gado aproximar-se tanto dos limites? — perguntou ao velho. E apontou para a colina.
Benjamim Farras franziu os olhinhos maliciosos e resmungou qualquer coisa.
— Evidentemente que não, «mister» Merrick! Aposto pescoço em como esse cavaleiro não é dos nossos. Os rapazes estão daquele outro lado que dá para o vale. É ali que andam os cavalos.
— Quem poderá então ser?
— Alguém que vem da povoação e que não conhece bem o caminho, acho eu.
O cavaleiro chegou ao terreno plano e aproximou-se a galope dos cercados. Não o reconheceram enquanto não parou o cavalo junto da vedação. E foi Doris quem primeiro o reconheceu.
— Bob! — gritou. — Bob, nem posso acreditar!
E correu alegremente para ele sem pensar sequer nos que estavam a acompanhá-la. Dean saltou precipitadamente do cavalo e recebeu Doris nos braços. Estreitou-a com força contra o peito.
— Doris, querida...
— Oh, Bob, julguei que nunca mais voltavas!
Nolan Merrick tinha ficado imóvel, rígido, pálido. O seu rosto estava contraído num esgar de raiva e os seus olhos despediam chispas. Bob fitou-o e disse:
-- Olá, Merrick! Não esperavas esta surpresa, hem? Por certo pensavas que, a estas horas, Jas e eu andávamos a vagabundear, mortos de fome, a muitas milhas daqui. Mas bem vês que não é assim.
— Não me interessava nada saber por onde vocês andavam — respondeu Merrick, surdamente. — Mas talvez seja melhor teres vindo.
— Claro que é. Há umas certas coisas que precisam de ser arrumadas. Por exemplo, vou dar-te uma ordem: não voltes à pôr os pés neste rancho enquanto Doris aqui estiver... o que será por pouco tempo. Vou casar com ela amanhã mesmo.
— Oh, Bob! — ruborizou-se ela um pouco assustada.
Merrick franziu as pálpebras como se a luz lhe ferisse a vista.
— Estás convencido disso? — perguntou.
— Ficarei, logo que ela me disser que aceita casar-se comigo. Já não sou um vagabundo miserável que tem de mendigar o pão aos outros, Nolan. Agora tenho dinheiro. Já posso oferecer-lhe uma vida decente a meu lado e quero saber se ela aceita.
Voltou-se para Doris e perguntou:
— Queres casar comigo, Doris?
-- Oh, sim. Quero, Bob! Mas...
— Quê?
— Não quero que falem assim nem que lutem um com o outro. Eu aprecio-te muito, Nolan, mas bem sabes que não estou apaixonada por ti. Sabe-lo muito bem. Sempre amei o Bob. Se aceitei a tua companhia é porque o meu pai quer que eu case contigo. Mas não posso fazê-lo. Não te amo.
Merrick não disse nada. O seu rosto tinha a cor da cera e crispava os punhos de raiva.
Bob deu um passo para ele, firme, e disse, num desafio:
— Agora que já ouviste, Nolan, espero não ter de to recordar. E uma coisa ainda: Penso pôr a claro toda aquela embrulhada que tu arranjaste para me expulsares de Sakersfield. Demonstrarei que me acusaste de ladrão só para evitar que eu me casasse com Doris, e, quando tudo ficar bem claro, mato-te.
Doris deu um salto e abraçou-se freneticamente a Dean. 
— Bob, por favor, não digas isso. Diz-me que não o farás!
— Não. Decidi fazê-lo— replicou ele, teimosamente. —  Assim é melhor que ele se prepare.
— Aceito a tua ameaça, Bob — disse Merrick Mas lembra-te de que eu não vou esperar tanto tempo para matar-te a ti.
— Veremos quem ganha, Nolan. Queres resolver isso agora mesmo?
— Não, por favor! — soluçou Doris.
Merrick pensou um segundo e depois replicou:
— Eu esperarei a ocasião, Bob.
— Muito bem. Quando quiseres. E agora, põe-te andar daqui.
Nolan Merrick hesitou uns segundos. As suas mãos crispavam-se nervosamente, perto da cintura e os olhos calculavam as possibilidades. Mas a atitude firme de Bob Dean oferecia poucas garantias de se sair bem do duelo.
Lentamente, sem dizer nada, o rancheiro deu meia volta e foi até onde deixara atado o cavalo.
Doris separou-se de Bob e acercou-se de Nolan Merrick.
— Oh, Nolan, suplico-te! Não lutem!
— Garanto-te que não vai haver luta disse pondo o pé no estribo e subindo para a cavalo. — as coisas já não se podem modificar.
Pegou nas rédeas e, quando parecia que ia iniciar a marcha, o que fez foi voltar-se corno um raio. Na sua mão direita apareceu um revólver.
Bob estava em frente, alheio a tudo. Quando atentou no perigo, já Merrick tinha apertado o gatilho duas vezes consecutivas.
Dean, assombrado, tropeçou grotescamente e caiu de bruços no chão. Aí ficou, imóvel, contorcido.
Quem reagiu primeiro foi o velho Benjamim Farros. Saltou agilmente a vedação e foi ajoelhar-se junto do caído. Doris, por seu lado, soltou um grito de horror e quis correr também para Bob. Merrick, porém, deteve-a violentamente por um braço.
— Acabou-se! Entendes-me?-
Ela, louca de raiva, esbofeteou-o, deu-lhe pontapés Para soltar-se.
— Assassino! Assassino! — gritava.
— Cala-te!
— Larga-me, assassino!
Merrick que tremia de excitação estendeu a mão e esbofeteou-a furiosamente. Doris caiu no chão. E ali ficou quase sem dar acordo de si, gemendo, feita num novelo.
O rancheiro ficou de pé, junto dela, com o rosto transfigurado.
— Agora escuta isto, Doris. Ninguém saberá nada, ouves?
— Hão-de sabê-lo todos! Hei-de denunciar-te. És um assassino!
Ele agarrou-a pelos cabelos, obrigando-a lar a cabeça.
— Cala-te! Cala-te ou faço contigo fiz com ele.
E voltou a bater-lhe, irritado pelos insultos.
Benjamim Farros aproximou-se deles abanando cabeça.
— Morreu — disse.
Merrick olhou-o com desconfiança.
— E então?
 — Oiça, eu não tenho tanta genica como a Doris —disse Ben. — Sou velho e já vi muitas coisas. Aprendi a pensar com a cabeça, e não com o coração. Bob Dean está morto, e ninguém pode ressuscitá-lo. Nós estamos ainda vivos. Temos que olhar a isso.
— Gosto que pense assim— tranquilizou-se o rancheiro.
Ben Farras acrescentou:
— Dean, ao fim e ao cabo, só vinha trazer discórdias e desgostos a todos. «Mister» Parker não havia de gostar ele o ver aparecer. E o senhor é um homem honrado... apesar de ter tido esta fraqueza. Assim, o melhor é não perder tempo e enterrar este homem. Ninguém precisa de saber.
— Está disposto a ajudar-me, Ben? — perguntou Merrick.
— Com certeza! Afaste-se daqui e leve Doris consigo. Eu me encarrego de lhe arranjar um buraco onde ninguém o encontre.
— Hei-de pagar-lhe bem a sua ajuda.
— Bem sei, «mister» Merrick. E é outra coisa que tenho em conta. Ajudando-o a si, posso tirar proveito. Ajudando Dean, só tiro dores de cabeça. Os mortos, mortos estão.
Doris levantou-se furiosa.
— Você também! Canalhas! Vou denunciar os dois!
— Acalme-se, menina — aconselhou o velho. Lembre-se que deve olhar pela sua felicidade e esta não vai encontrá-la num homem sem dinheiro, nem recebendo a maldição de seu pai.
— Eu encarrego-me dela — disse Merrick. Encerre-o você quanto antes.
— Descanse. Tenho ali a ferramenta.
Doris perdeu por completo a cabeça. Precipitou-se para Merrick disposta a arrebatar-lhe o revólver.
— Vou matá-los aos dois! — gritava. — Como fizeram ao Bob. O rancheiro não teve remédio senão bater-lhe de novo. Desta vez a pancada fê-la perder os sentidos e cair como um saco vazio.
Merrick tomou-a nos braços e subiu para o cavalo, colocando o corpo da jovem à sua frente.
— Vá-se embora quanto antes — apressou o velho. — Os vaqueiros podem voltar de um momento para o outro.
Quando Doris recuperou os sentidos, encontrava-se, na companhia de Nolan, no bosque de abetos que cobria grande parte do rancho. E durante toda a tarde de explicou-lhe bem as coisas.
— Tens dois caminhos a seguir, Doris: casar comigo e calares-te, ou trocar-me as voltas e dar à língua. Se seguires o primeiro caminho, podes chegar a esquecer-te de Bob. Serás feliz comigo... Se não, nem tu nem o teu pai terão ocasião de ver o resultado. Pensa bem nisto.
E Doris começou a ter medo. Um medo horrível. Sobretudo quando se sentiu espiada pelos olhos chispantes de Nolan Merrick, quando sentiu nos rins o cano do revólver... quando compreendeu que, antes de ser capaz de dizer o que queria, ele teria tempo de sobra para matá-la e matar o seu pai.
E não teve coragem para dizer a Jas Conley nem ao xerife o que lhe queimava o coração.
Por isso chorava. Era o seu único alívio; Mas jurou a si própria, mil vezes, que encontraria ensejo para denunciar Merrick. Tinha de vingar Bob.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

PAS418. Passos que abafam outros passos na noite

A noite era plácida e corria uma aragem suave e agradável. Ao longo da rua central via-se o resplendor dos estabelecimentos iluminados, e passavam cavaleiros que iam e vinham animadamente.
Jas ajustou bem a roupa nova, acendeu um charuto havano e caminhou lentamente pelo passeio, a gozar o fresco. Sentia-se jovial, cheio de prazer ao notar que era o alvo das atenções de todos com quem se cruzava. Sobretudo, ao sentir no fundo da algibeira o maço de notas e pensar que podia gastá-las tranquilamente, sem se ralar nada.
Era um sentimento novo, que lhe embriagava os sentidos corno uma garrafa do pior «whisky».
«A Mexicana» era um edifício de adobe, decorado ao estilo espanhol com muitos letreiros de cores vivas na fachada. Ali havia sempre música, bom humor, boa bebida e raparigas alegres que se aplicavam em tornar agradável a estada dos clientes. Sobretudo dos clientes que traziam as algibeiras bem recheadas. E Jas precisava terrivelmente de que lhe tornassem a vida agradável. Precisava de ver os outros fazer tudo para o satisfazer. Jas vivia como num sonho.
Quando estava quase a alcançar a porta, o seu sentido de vigilância, que ainda funcionava 'com a rigidez dos tempos difíceis, disse-lhe que estava a ser seguido.
Foi uma sensação estranha, incómoda, indefinida. Os seus próprios passos sobre o chão de tábuas abafavam as passadas do outro homem.
Bruscamente, Jas deteve-se e deu meia volta, mantendo a mão direita junto da coronha do seu revólver. Efetivamente alguém caminhava atrás dele a dez passos de distância.
Não pôde ver-lhe imediatamente o rosto pois o passeio era mal iluminado. E o outro, ao vê-lo parado e a olhá-lo, hesitou um segundo. Mas logo continuou a andar.
Quando chegou perto de Jas, este pôde ver que se tratava de um tipo curioso. Teria à volta de cinquenta anos e era forte como um toiro. Mas o rosto não correspondia à sua força física. Parecia, pelo contrário, brando e despreocupado. Estava mal barbeado, com as guedelhas a cair-lhe para a frente, sob o sujo e roto penante.
A roupa não era melhor. Mas sorria, e os seus olhos pareceram a Jas os mais trocistas que já vira.
Em vez de se aborrecer com a descarada observação de Jas, o tipo brindou-o com um sorriso e levou dois dedos à aba do chapéu, desbarretando-se, como se saudasse uma dama.
— Boas noites, «mister» Conley — cumprimentou. — Agradável temperatura, não é verdade?
E dispôs-se a seguir o seu caminho.
Jas nunca o tinha visto anteriormente, e sentiu-se incapaz de deixá-lo seguir, sem esclarecer a sua presença e o motivo por que lhe conhecia o nome.
— Espere — disse.
O outro parou, quando já o tinha ultrapassado alguns passos.
— Chamava-me a mim?
— Não creio que haja aqui outra pessoa perto.
Conley pôs-se à frente dele com cara de poucos amigos.
— Que quer? — perguntou-lhe.
E como o outro esboçasse um gesto de divertido assombro, corno a dizer que não queria nada, atalhou:
— Não se faça parvo. Vem a seguir-me.
O desconhecido quase soltou urna gargalhada.
— Porque conhece o meu nome? Foi Merrick quem o mandou?
— Oh, não! Garanto-lhe que não ando a mandado de ninguém. Simples curiosidade pessoal. Fala-se tanto de si na cidade que não pude resistir à tentação de conhecê-lo de perto. Espero que não se importe, hã?
Jas decidiu pôr-se em guarda.
— Os espiões põem-me nervoso avisou. — Se tem alguma ideia, o melhor é pôr as cartas na mesa.
— Garanto-lhe que não. Mas, já que estamos de conversa, aproveito para dizer-lhe uma coisa: chamo-me Lynn Buzby, sou forasteiro em Sakerfield, não tenho amigos por cá e às vezes falo pelos cotovelos de coisas agradáveis, quando alguém sabe soltar-me a língua... Se algum dia se sentir aborrecido e com vontade de conversar, avise-me.
Que quereria insinuar? Saberia Buzby alguma coisa de interesse e pretenderia extrair-lhe dinheiro a troco de informações?
O forasteiro voltou a tirar o esfarrapado chapéu brindou-o com novo sorriso.
— E se me vir por acaso em sítios onde o senhor esteja, não se inquiete. Não ando a espiá-lo. Simples curiosidade, já lhe disse. Boas noites, «mister» Conley. Que se divirta!
Jas deixou-o ir sem tentar detê-lo. Depois entrou no «A Mexicana».

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ARZ072. A hora de morrer



Jas Conlay e Bob Dean regressaram à sua terra, Sakersfield, carregados de ouro e com ideias para começar uma nova vida e humilhar os que antes não tinham tido uma ação correta com eles.
Bob queria recuperar a sua noiva, Doris, e mostrar-lhe que era um homem capaz de construir uma vida digna que ela poderia partilhar. Jas estava mais preocupado em limpar as calúnias de que tinha sido alvo.
Mas as coisas nunca são tão lineares como pensamos e Bob, no encontro com a noiva, acaba por ser atacado a tiro pelo sanguinário Merrick, apaixonado por Doris. Começa aqui a história do generoso Farros que acabou por dar a sua vida pela salvação do jovem Bob incansavelmente procurado por Jas.
O sr. Ryman tem aqui uma boa história com alguns pormenores dignos de transcrição. Será esse o objeto dos próximos posts.