terça-feira, 30 de abril de 2019

COL005.06 Provocação mortal

O encontro deu-se à porta do hotel. Durking ia a sair distraído, pensando ainda na sua última conversa com Jayne. De repente... Iria jurar que fora o sujeito que se pusera à sua frente. O certo é que tropeçou e quando ia formular uma desculpa, conteve-se ao ouvir:
—Animal! Veja onde põe as patas!
Durking, que estava de mau humor, replicou:
— Oiça... Animal é você. E possivelmente, mais do que você, é o seu pai. Porque não se concebe que uma pessoa normal tenha engendrado uma besta do seu quilate.
A coisa não se podia apresentar mais ao gosto de Benson Rudd. Imaginava que lhe custaria provocar a reação violenta do homem, cujo assassínio lhe fora encomendado por Teddy e afinal a coisa tornava-se fácil. Nada sabia de Durking, senão o que o seu companheiro lhe dissera. Naquela tarde tinha-lho apontado de longe, dizendo-lhe: «Não te fies muito. Sabe manejar uma pistola. Claro que, comparado contigo, não passa de um aprendiz, mas...» Benson tinha-lhe replicado, gabarola: «Conta-o já no número dos mortos. É pena que vá acompanhado agora. Mas é igual. Virá o momento oportuno...» E o momento oportuno acabava de surgir.
Ao ouvir a resposta da sua pretensa vítima, soltou uma espécie de rugido:
—Vou-te desfazer...!

segunda-feira, 29 de abril de 2019

COL005.05 A versão do cínico

Na manhã do dia seguinte, anunciaram-lhe a visita de Teddy. A sua primeira reação foi a de o não receber, pois a história contada por Jayne tinha-lhe calado fundo; mas quando a criada já ia a sair, deteve-a:
—Espere. Diga-lhe que vou já.
Levantou-se da cama. A primeira coisa que fez, foi ver-se ao espelho. Assustou-se perante o sofrimento que o seu rosto revelava.
—Se me visse assim!... Oh, estou horrível!
E apressou-se a retocar a sua maquilhagem meticulosamente. O medo de que a achasse feia, era superior a tudo. Depois, vestindo um roupão, correu à saleta onde Teddy a aguardava. Deteve-se à porta, fitando-o, acusadora. Ele, como se não se apercebesse da dureza daquela expressão, disse sorrindo:
—Bom-dia. Achas bonita esta hora para te levantares? — não obteve resposta e continuou: —Uf! Que gesto! Parece que me queres fulminar! Reconheço que ontem à noite me demorei mais do que o costume. A culpa foi dos negócios. Nunca imaginei que me veria metido tão cedo numa empresa de tal envergadura. Surgiu sem o esperar e não pude desaproveitar. Quando cheguei ao saloon já tu tinhas partido. Senti-o. Julgava que não sairias.

domingo, 28 de abril de 2019

COL005.04 A história de Jayne

Já tinha acabado há um bocado o espetáculo, quando Durking se despediu de Sidney. Atravessou o saloon onde se encontrava ainda muita gente, bebendo e jogando. Sentia-se moralmente cansado. Uma sensação de repugnância, perturbava-lhe o espírito.
Chegado ao hotel, o porteiro anunciou-lhe que, na sala de espera, tinha uma visita. Achou estranho. Aborrecido, foi ver de quem se tratava.
—Jayne!
—Olá, doutor.
—Combinámos em que me trataria pelo meu nome próprio e tem cumprido o combinado. Porque muda agora?
—Fá-lo-ei se, depois de me ouvir, achar que mereço essa deferência. Não quis marcar esta entrevista. Os acontecimentos precipitaram-na e... suponho que não se incomodará em me ouvir. Esta manhã, no cais, disse-lhe que falaríamos um dia, sobre o que tanto o surpreendeu...
—Não, não me importo nada de a ouvir, mas... tem a certeza de que o deve fazer?
—E preciso que o faça!
—Bom. Não a convido para subir ao meu quarto, porque depois do que disse o «cavalheiro» Egan, não me atrevo. Não podemos alimentar a maledicência.
—Estou imunizada contra isso tudo. De qualquer modo, aqui está-se bem.
—Como queira.
Sentou-se.

sábado, 27 de abril de 2019

COL005.03 A hiena ameaça e conspira

Jayne entrou no seu camarim. Embora ainda faltasse um pouco para o seu número, começou a vestir-se. Sentia arrepios precursores da febre e o medo de se deixar cair, fez com que saísse do hotel antes do tempo. Acabou de se pintar e sentou-se.
A porta abriu-se lentamente e Teddy entrou no pequeno quarto. Já não trazia nos lábios o sorriso sedutor que tantos êxitos lhe proporcionava. Trazia-os fortemente cerrados, dando-lhe a todo o rosto uma expressão de dureza. Jayne levantou-se, furiosa:
—Tu! Como te atreves...?
— Cala-te! Doris está perto. Será melhor que não nos oiça.
— Melhor para ti!
— E para ti também.
Fez menção de fechar a porta e Jayne exclamou:
— Deixa-a estar como está!
— Mas...
— Deixa-a ou então chamo alguém para te pôr fora. Está bem — limitou-se a encostá-la.
Depois, cruzando os braços, continuou:
— O nosso encontro de hoje surpreendeu-me tanto como a ti. O mundo é tão grande e acabamos por nos encontrar num lugar e numa circunstância em que significas para mim o maior dos estorvos.
—Não precisas de o dizer.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

COL005.02 A hiena que chega

Estavam à espera, um tanto afastados da multidão. Doris mostrava-se nervosa, desassossegada. Estava prestes a chegar Teddy Egan, o homem dos seus sonhos! Tinha pedido a Jayne que a acompanhasse: «Quero que sejas a primeira pessoa a quem o apresente, para que sejas também a primeira a felicitar-me, quando o vires». E Jayne, embora sabendo que os apaixonados não gostam de companhia, acedeu, resolvida a afastar-se passadas as primeiras efusões.
A impaciência fez com que Doris se levantasse cedo. Acordou a sua amiga e chegaram muito antes da hora a que se aguardava que o barco atracasse. Doris falava sem cessar dos seus projetos para o futuro.
—Casar-nos-emos imediatamente. Teddy deseja-o e eu, tanto ou mais do que ele. Abandonarei o palco e consagrar-me-ei só ao meu marido.
—Não te seduzem os aplausos?
—Agradam-me, não o nego; mas penso que o lar deve ser mais atraente. Viver junto ao homem que se ama, ter filhos... Não gostarias de estar na mesma situação do que eu?
Jayne mordeu os lábios, sustendo um suspiro e respondeu:
—Claro que sim! Pena que o não tivesse feito no momento oportuno!

quinta-feira, 25 de abril de 2019

COL005.01 De como a artista decadente reencontra o sucesso

Nicholas Joy, representante da «Empresa Concessionária do «Paraíso», o saloon mais importante de São Francisco da Califórnia, fez um gesto de mau humor ante a insistência da mulher:
— Não tenho pretensões de espécie alguma. Conformar-me-ei com o que me derem. Posso fazer um número para preencher o vosso programa.
—Já tenho de sobra.
— Mas é possível que o meu agrade. Nada perde em experimentar —o representante tamborilou com os dedos na mesa, mas a artista, simulando não ver aquele gesto de impaciência, continuou: — O trabalho é bom e eu sou uma autêntica profissional. Há alguns anos obtive grandes êxitos neste mesmo saloon.
—Mas isso foi há alguns anos. O tempo não passa em vão—a porta abriu-se dando passagem a Doris Campbell, a «estrela» da casa.
Nicholas Joy, dirigindo-lhe o melhor dos seus sorrisos, disse melífluo:
—Entre, menina, entre.