quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BIS164.07 Um rapto na noite

Os olhos salientes de Spencer começaram a pestanejar. Wayland sorriu interiormente. Pensou de si para si que os figos começavam a amadurecer. Mais um toque e magricela seria seu. Ao ver a garrafa vazia fez um sinal ao empregado.
— Traz outra — ordenou.
— Sempre disse que tu eras o meu melhor amigo — disse Spencer sorrindo num tom adulador. — A tua decisão de festejares comigo o teu aniversário agradou--me muito.
Era a segunda garrafa que bebiam e o astuto Spencer ainda não havia dito nada. Não importava. Wayland estava disposto a fazer Spencer falar. Tinha dinheiro suficiente para lhe pagar todo o uísque que conseguisse beber.
— Depressa serei eu a convidar-te, Bob — murmurou Hacker com um sorriso matreiro.
— Vais receber alguma herança?
— É possível — e soltou um riso irónico. — Já sabes que o meu sonho é possuir um «saloon» como este... e creio que o terei muito depressa.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

BIS164.06 Proposta em suspenso

Max Granwley havia escutado, em silêncio, a proposta do negociante de gado. Expeliu uma densa baforada de fumo e disse olhando, fixamente, para Talbott:
— Dar-lhe-ei a minha resposta esta noite, Chill.
O interpelado pestanejou, assombrado. Não contava com aquela resposta. Havia imaginado que Granwley acolheria a sua proposta com demonstrações de alegria. Depois pensou que o ganadeiro pretendia valorizar as suas terras com aquelas evasivas. Uma medida astuta, sem dúvida. E, demonstrar-lhe-ia que também ele não era tolo.
— De acordo — disse, levantando-se —, espero-o esta noite no «saloon» «Duas Estrelas». Não creio que ninguém supere o preço que acabo de oferecer pelas suas terras.
Despediu-se imediatamente do ganadeiro. Este acompanhou-o até ao alpendre. Quando o negociante de gado desapareceu numa curva do caminho, a avantajada figura do capataz do «Círculo M. G.» surgiu junto de Granwley.
— Que queria esse vaidoso, patrão ?
Não sentia muita simpatia por Talbott. Dois anos atrás, havia conhecido Ruth, uma bailarina do «saloon» «Duas Estrelas». Gostara tanto daquela mulher que, inclusivamente, teria casado com ela. Chill Talbott interpusera-se entre eles e tudo fora uma desilusão. A grande idiota ficara deslumbrada pela elegância e pelo dinheiro do negociante e convertera-se em sua amante. Três meses depois, abandonava-a por outra e Ruth, desenganada, deixava Bay Sping. Dal vinha a sua antipatia por Chill Talbott.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

BIS164.05 História de um destroço humano

Haviam entrado separadamente no restaurante do tio de Cinthia. Primeiro, Cole Derry. Minutos depois, Brian Boyds. Cinthia acolheu-os com um sorriso agradável. Sobre o vestido comprido e justo trazia um avental limpo. Ficou desconcertada ao ver que cada um deles se sentava em sua mesa. Contíguas, mas diferentes. Ela julgava que eles eram amigos.
Por duas vezes, tentou entabular conversações com eles. Teve de desistir porque se via solicitada constantemente por outros clientes que quase enchiam o estabelecimento.
Alguém, na noite anterior, lhe dissera o que aqueles dois homens haviam feito a favor do seu irmão. E ficou confusa ao pensar que os havia tratado com a mesma dureza com que tratara os que rodeavam Pat Gloster. Pensou que devia agradecer-lhes. Que ela soubesse, eram as únicas pessoas que não troçavam de seu irmão. E isto era de agradecer.
— Bons dias, Cinthia.
 A jovem, antes de se voltar para a porta, reconheceu a voz de Chill Talbott. O negociante de gado era um dos mais assíduos frequentadores.

domingo, 28 de outubro de 2018

BIS164.04 O tesouro escondido

O olhar astuto e rápido de Chill Talbott pousou-se, perscrutador, no rosto ossudo de Spencer Hacker. Sussurrou ironicamente:
— Bem, já estamos sós. Que coisa é essa tão interessante que tens para me contar a respeito desse forasteiro?
Durante dez minutos, o homem alto esteve a falar ao ouvido do negociante de gado. Os seus olhos brilhavam como os dos gatos na escuridão. Ao terminar, recostou-se na cadeira e olhou para Talbott sorrindo matreiramente.
-- Que te pareceu, Chill ? — perguntou, satisfeito.
— Que bebeste mais que a conta esta tarde, Spencer. Leio-o nos teus olhos.
Spencer Hacker voltou a sorrir, mostrando uns dentes compridos, descarnados, sujos.
— Enganas-te, Chill, apenas bebi meia dúzia de copos. Os necessários para refrescar a boca.
O negociante de gado começou a bater, suavemente, sobre a tampa da mesa sem olhar para o outro. Subitamente, apanhou a garrafa e deitou alguns dedos de bebida no seu copo. Depois, encheu o do seu interlocutor. Disse, mal movendo os lábios:
— Não estarás a fantasiar, Spencer?
— Nunca falei tanto a sério, Chill. Tudo quanto te acabo de contar é certo. Havia esquecido aquilo, mas a presença desse rapaz fez-me recordar o passado. Brian Boyds veio aqui procurar qualquer coisa, e essa coisa não pode ser outra senão...

sábado, 27 de outubro de 2018

BIS164.03 Desconfianças

Durante alguns segundos reinou dentro do «saloon» um silêncio espesso.
O único ruído que o perturbava era o ranger dos gonzos das portas de vaivém que giravam ainda, depois de terem sido empurradas, com força, pelo xerife ao sair com a irmã de Keener. Gloster interrompeu o silêncio com uma gargalhada.
— Estão com sorte, forasteiros — exclamou num tom irónico —; mas não lhes recomendo os ares de Bay Sping, porque se lhes podem tornar nocivos.
Cole Derry sorriu, friamente. Fez um sinal ao empregado que lhe enchera o copo de uísque. Depois voltou-se para Boyds e disse com suavidade:
— Quer tomar alguma coisa, amigo ?
O rosto de Gloster purpureou-se de cólera ao aperceber-se do desprezo a que votavam a sua pessoa. Devia ter muito desenvolvido o orgulho da sua força. Gritou, furioso:
— Será melhor que vão beber para outro sítio porque não gosto de continuar a contemplar as vossas feias figuras.
— Feios, nós ? — respondeu Brian, sarcasticamente. — Pergunte a uma dessas raparigas e elas que nos julguem. De certeza não são da sua opinião.
Indicou meia dúzia de raparigas agrupadas a um canto do balcão. Algumas riram-se. Gloster, ao notá-lo, quis fulminá-las com o olhar.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

BIS164.02 Em defesa de um farrapo humano

Max Granwley havia ultrapassado já o meio século. Tinha o cabelo branco, o nariz semelhante a um gancho, os olhos escuros e penetrantes e um corpo alto e nervoso. Havia ouvido, em silêncio, o relato do seu capataz sobre a captura do jovem que permanecia em frente do ganadeiro com o rosto impassível.
— Hum! — murmurou Granwley meneando a cabeça. — Soa-me muito estranha essa história da medalha.
— Não tenho outra explicação para lhe dar — disse de má vontade e com o olhar fixo no ganadeiro. — E repito-lhe o que disse ao seu capataz: voltarei ao regato para procurar a minha medalha. E uma recordação valiosíssima para mim.
As feições enérgicas do ganadeiro endureceram.
— Se o fizer não respondo pela sua cabeça — disse com firmeza. — Dei ordem aos meus homens para dispararem antes de perguntarem. Não estou disposto a suportar mais roubos de gado.
Brian acabou por encolher os ombros. Estava a ver que, sob a fronte daquele homem, as ideias aderiam com a mesma força com que os líquenes aderem às pedras. Ia custar-lhe bastante convencê-lo de que nunca pensara roubar-lhe nenhuma rês.