sábado, 19 de outubro de 2013

PAS134. Dádiva de chamas

A uma ordem de Boultby, os negros principiaram a amontoar palha, ramos e folhas secas junto do edifício.
Scott, olhos a quererem saltar da cara e roxo de fúria, gritou:
- Boultby, és um pulha! Não faças isso!...
Mas Boultby fê-lo. A chispa do seu acendedor saltou para o combustível que rodeava a casa. No início, apenas uma pontinha avermelhada na extremidade de um galho ressequido. Depois, a coisa foi aumentando. As chamas apoiaram-se nos troncos das paredes e treparam até ao tecto. Num instante o «Rancho Liberdade» ficou transformado numa fogueira.
Havia outras coisas para fazer. Dali foram para a cabana dos escravos e lançaram-lhe fogo também. Foi Boultby quem ofereceu o fogo. Dirigiu-se ao negro doente e entregou-lhe uma porção de ramos incendiados.
- Toma! Deita-os ali!
O escravo recebeu a dádiva e olhou as labaredas que se erguiam nos troncos. Agora, todos compreendiam que a liberdade era coisa certa. E os ramos longos e esguios, aqueles ramos que serviam para confecionar chibatas, levaram o fogo à cabana.
Não acabaram, porém, o que faltava ainda realizar. Precisavam destruir o trabalho de Scott, aquele tabaco sujo de sangue dos escravos.
E aqueles homens de pele negra e mentalidade infantil esmagaram sob os pés as plantas que haviam semeado a chicote, plantas que eram todo o orgulho de Scott.
(Coleção Pólvora, nº 5)

PAS133. Costas para o látego

Agrupados, silenciosos, os escravos olhavam para eles com uma profunda tristeza. Aquele rancho desconjuntado e solitário recordava-lhes os passado que desejavam esquecer.
Martyns foi até ao pé dos negros e apalpou os músculos de todos, dividindo-os, depois, em dois grupos.
- Não valem um caracol! – comentou. – Agora estes… - e apontou os mais jovens… - Destes faz-se qualquer coisa.
Os negros, fracos e esqueléticos, miravam aquele anão repelente.
- Eh! Todos valem! – exclamou Scott.
Dirigindo-se, em seguida, aos escravos receosos, continuou:
- Homens livres! Corja de idiotas! Vocês já não são escravos do velho O’Neill. Se não gostam da palavra «escravos», juro que não tornarei a fazer uso dela. Chamo-vos aquilo que quiserdes. O nome é o menos… De agora em diante, tereis todos de trabalhar para nós, de manhã À noite! Nada de escravidão… Apenas trabalhadores a seco. É muito mais humano e está de acordo com os tempos que vão correndo. Peter e Martyns já vos dirão o que é preciso fazer. Nem patrões nem escravos… Claro que isto não quer dizer que vocês deixam de estar obrigados a uma cega obediência… Quem se negar a cumprir…
Voltou-se para Martyns:
- Anda, mostra-lhes o que sofrerão caso não trabalhem ou desobedeçam…
Um enorme sorriso esgaçou a bocarra de Martyns. Uma carantonha de pássaro híbrido… Lentamente, retirou de entre a camisa um reluzente cavalo-marinho. E, em vez de falar, achou preferível executar uma demonstração do que sucederia perante casos de rebelião.
O látego rasgou o ar com um silvo e atingiu as costas do negro mais próximo. O escravo deu um salto para o lado e soltou um grito de dor.
(Coleção Pólvora, nº 5)
 

PAS132. Imobilizados pelo medo

Duas intermináveis horas de penoso caminhar através da floresta. Caminho duro porque tinham de vencer o mato e padeciam de fome e sede.
Um outro negro, meio morto de cansaço, deitou-se no chão e para ali ficou. O grupo não parou e Peter teve de riscar da sua lista mais uma cabeça. Que raio de negócio!
- Ainda falta muito?
- Sim… - disse Scott. – Mas o pior não é isso. Escuta!
Escutou com atenção. De novo os cães e os homens de Blackville!
Os escravos, que também tinham ouvido o ladrar dos cães, pararam de correr.
- Voltam!! – exclamou um deles com os olhos esgazeados.
Tornavam a ser o rebanho humano, a manada amedrontada. Sentiam-se irremediavelmente perdidos. Antes que a noite viesse, estariam presos.
A resignação fatalista superou o sonho da liberdade e a maioria dos negros sentou-se no chão.
- Não parem, miseráveis!
Peter não queria perder as cabeças que restavam. Setenta e cinco dólares! Não era grande a quantia mas valia mais que nada.
Ninguém se mexeu. Permaneceram todos quietos, uns sentados, outros de pé, olhar fixo no horizonte. Imobilizava-os o medo coletivo, o terror animal, a condição de escravos. Peter empurrou um dos que se mantinham de pé. O homem deu um passo e tornou a parar. Peter voltou a empurra-lo e ele caiu.
(Coleção Pólvora, nº 5)

ARZ031. Cavalgada do rancor




(Coleção Arizona, nº 31)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

PAS131. Sob as estrelas, a libertação

Dentro da cabana, o medo filtrava o som das vozes e os ruídos. Os escravos pressentiam já a liberdade e preparavam-se para a fuga. Sim. Chegara o momento. Ali estavam os homens do Norte com o ferrador Kastin.
Face colada ao postigo, um dos negros is pondo os seus companheiros ao corrente do que sucedia para além das grades.
Fazer saltar uma fechadura não era tarefa difícil para o gigantesco Peter. A barra de ferro serviu de alavanca e ele quase não teve oportunidade de usar a força bruta que o caraterizava.
A porta ficou aberta de par em par. O rebanho negro saiu amedrontado. Pareciam borregos a deixarem o redil. Empurravam-se uns aos outros na ânsia de serem os primeiros a fugir. Scott contava-os À medida que iam aparecendo. Eram trinta.
Mentalmente, Peter fizera a mesma contagem e raciocinara: «Trinta cabeças a cinco dólares cada uma… vem a dar, precisamente, cento e cinquenta dólares…».
Sim. O negócio parecia correr Às mil maravilhas.
Kastin há muito que sabia quantos eram os pretos que tinham acabado de libertar.
- Estão todos… - declarou.
Podiam abandonar a propriedade do velho O’Neill.
- Bem. Toca a andar… e depressa!
Foi o que fizeram imediatamente, seguidos de perto pelos escravos.
Aqueles trinta homens acobardados representavam para Kastin trinta desgraçados a caminho da liberdade. Na opinião de Peter não passavam de trinta cabeças que valiam, segundo o combinado, cento e cinquenta dólares. Quanto a Scott…
- Párem!
Foi Scott quem deu o alarme. Um cão ladrava nas redondezas. Scott e Peter levaram, instintivamente, as mãos aos coldres.
Enfraquecidos pelas privações, desmoralizados pela miséria que sempre os rodeara, os escravos ficaram aterrorizados diante do gesto dos brancos. Alguns batiam os dentes, outros lamentavam-se em surdina.
O cão voltou a ladrar, mas, desta vez, mais próximo do grupo.
- É O’Neill – disse Kastin. – Vem para cá…
Scott esboçou um sorriso muito estranho.
A silhueta do cão desenhou-se na penumbra da noite.
No céu um esplendor de estrelas…
(Coleção Pólvora, nº 5)

PAS130. Libertar os escravos

- Não te preocupes, Kastin… Vamos deixar o velho O’Neill sem um preto! – garantiu Scott. – E, quando escondermos os escravos num lugar seguro, voltamos para igual trabalhinho.
Kastin, muito jovem, caminhava satisfeito, ao lado de Scott. Peter seguia na retaguarda. Kastin não ocultava o seu contentamento. Ia participar na libertação dos escravos. Sentira toda a vida uma profunda compaixão por aqueles desgraçados que arrastavam uma existência pior que a de muitos animais. Era um fervoroso e convicto antiesclavagista. Conhecera Scott em Blackville, onde morava com sua irmã Teresa, a professora da terra. Isso acontecera já há alguns meses. Falaram dos escravos. Scott perfilhava também as ideias liberais. «Serias capaz de me ajudar a salvar esses infelizes?» - perguntara-lhe. Respondeu que sim. Que estava disposto a arriscar a própria vida numa tão nobre missão. Kastin pertencia ao número dos que tinham lido «A cabana do pai Tomás», mas se não o houvesse feito, pensaria do mesmo modo. Muito antes de comprar esse livro, jurara que, na medida das suas forças, lutaria pela abolição da escravatura. Daí o ter-lhe parecido algo de providencial e maravilhoso, o encontro que tivera com Scott. Nunca mais deixara de trabalhar com afinco no seu projeto.
Falara com os escravos do velho O’Neill, um irlandês desumano e cruel que, por nada deste mundo, abandonava o chicote e os «Colts». «O chicote – dizia ele – é um estimulante para o trabalho dos negros sair perfeito e os «Colts» já me serviram um ror de vezes, para liquidar umas rebeliõezinhas»!
(Coleção Pólvora, nº 5)