terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PAS710. A mulher que procurava vingança

A aparição súbita do forasteiro, que eliminara Gerard O'Casey's no saloon de John Knight, esfriou, momentaneamente, o ambiente geral.
Aquele homem que dissera chamar-se «Furacão» sentiu-se alvo de todos os olhares, quando caminhou para o balcão.
— Uísque.
Knight não escondeu a sua má vontade em servir um cliente daquele género. Se outro rancor não tivesse, bastava-lhe o facto de ter matado Gerard O'Casey's. Não era porque chorasse por ele, mas O'Casey's era um dos seus melhores fregueses...
Bateu com o copo sobre o balcão na frente do cow-boy e encheu-o de líquido.
O «Furacão» levou-o aos lábios e sorveu o conteúdo de uma só golada.
Na fileira de homens que se juntavam na frente do balcão, avistou o xerife Winston Orwell, de costas para as prateleiras de garrafas, a olhar, distraidamente, para o resto do estabelecimento.
Chamou John Knight e, quando este se dispôs a vir atendê-lo, depois de servir dois ou três clientes, disse-lhe:
— Ponha aí dois copos e diga ao xerife que o convido para uma rodada.
Lia-se a admiração no olhar de Knight, ao ouvir estas palavras. Acabou por assentir com um grunhido que nada significava e afastou-se.
Sem olhar diretamente para o local, o forasteiro viu o xerife desencostar-se do balcão e caminhar na sua direção. Quando este se colocou a seu lado, exclamou:
— Espero que não fique ofendido por lhe ter oferecido um copo de uísque, xerife.
— Pode ser uma habilidade da sua parte para confundir a opinião pública a seu respeito — retorquiu-lhe o agente da Lei. — Você está catalogado como um pistoleiro e a sua presença neste povoado representa, aos olhos de muitos, a morte.
— Não seja desconfiado, xerife. Não tenho jeito para a política e não sou culpado pelo mau conceito que fazem da minha pessoa, só por ter matado O'Casey's.
— Apesar do motivo que o levou a vingar-se dele, Gerard O'Casey's era muito considerado nesta terra. Durante cerca de vinte anos procedeu sempre como um homem de bem. O forasteiro soltou uma risada.
— Conseguiu enganá-los a todos! Há mandatos de captura, amarelecidos pelo tempo, a seu respeito, no fundo das gavetas da maior parte das delegacias policiais do nosso país. Quando o conheci, não se chamava Gerard O'Casey's. Mudou de nome para melhor esconder o seu passado...
— Se é verdade o que me diz, não precisava de ter pegado cm armas contra ele. Bastava denunciá-lo às autoridades.
— Não sou um delator, xerife e esse patife tinha umas contas a ajustar comigo! Durante estes vinte anos, escondeu de todos a sua verdadeira personalidade, alicerçou a sua existência com os produtos de vários roubos, praticados em conjunto com outros homens, os quais eliminou para se assenhorear da totalidade do bolo. Restei eu, porque me encontrava internado num estabelecimento prisional. Acredito que ele estivesse convencido de que o ex-camarada nunca mais o importunaria, apodrecido naquelas celas sufocantes e de mau cheiro, acabando por ser enterrado por piedade. As vezes penso que foi a ideia desta vingança, que não me abandonou um só instante, que me deu ânimo para suportar todas as agruras daquela existência. Quando esse homem me viu na sua frente, o passado caiu sobre ele...
— É isso que vai dizer no tribunal?
O forasteiro abanou energicamente a cabeça.
— Não. Leve estas minhas palavras na conta de um desabafo pessoal. Aos olhos de todos e até da Justiça, Gerard O'Casey's morreu por se ter intrometido com um forasteiro, recém-chegado a Mannpyn, que foi mais veloz no manejo das armas.
O «Furacão» empurrou um dos dois copos na direção de Winston e, pegando no outro, disse:
— À nossa!
Orwell parecia distraído a fazer desenhos com o fundo do copo humedecido, sobre a madeira enegrecida do balcão. Em determinada altura, levantou o olhar para o forasteiro e afirmou:
— Se você morrer, se algum dos seus inimigos tiver a sorte de o liquidar, não terei a mínima pena do sucedido. Fez uma pausa para sorver o conteúdo do copo. — Tenho conhecido várias espécies de miseráveis e você agrupa-se numa delas!
Dir-se-ia que a gargalhada do «Furacão» se ouviu de um extremo ao outro daquela sala.
— Não diga isso, xerife. Repare que o simples facto de me terem solto da prisão significa que me consideram um indivíduo recuperável para a sociedade.
— E é a matar, com os olhos postos numa vingança, que faz a sua recuperação?
Teriam continuado neste duelo de palavras, se uma voz, com timbre feminino, não soasse agrestemente nas suas costas:
— Volta-te com as patas no ar! Ao mais pequeno gesto de rebelião mando-te desta para melhor!
O «Furacão» ficou imobilizado pela surpresa. Ouviu à sua volta as vozes decrescerem de barulho. Sentiu que as suas armas estavam demasiado longe das suas mãos para que as pudesse utilizar com êxito.
Com uma lentidão exagerada, voltou-se.
Noutras circunstâncias, teria achado o caso divertido e apesar da carabina que ela empunhava na sua direção, estava disposto a afirmar que era uma bela mulher.
Usava umas calças pretas enfiadas dentro de umas botas de montar e uma camiseta da mesma cor moldava--lhe o busto.
Leu-lhe nos olhos a determinação inabalável de o matar c ficou embaraçado.
Era uma situação deveras melindrosa e crítica, para um homem de armas como ele, pistoleiro nato, para quem os revólveres não guardavam segredos e os perigos não contavam, o facto de se encontrar na mira de uma carabina empunhada por uma mulher e consciente de sue, se o dedo dela premisse o gatilho, o seu corpo ficaria inesteticamente esburacado.
Como era possível que uma jovem tão bela o olhasse com tamanho rancor e ódio, como se a sua morte fosse o maior bem lançado sobre a terra?
A seu lado, ouviu o xerife sussurrar:
— É a filha de Gerard O'Casey's! — E em voz alta, falou à jovem: — O que pretendes fazer, Elizabeth?
— Vingar a morte de meu pai! — foi a resposta que obteve, num tom que não dava lugar para dúvidas. —Matar esse cobarde que o assassinou!
— Achas que dessa maneira vais remediar alguma coisa? Assisti à morte de teu pai e posso jurar-te que ele foi o primeiro a agarrar nos Colts.
Enquanto falava, o xerife denunciou o movimento de caminhar para a filha do rancheiro, mas esta imobilizou-o com um movimento rápido da carabina, apontando-lhe o cano diretamente ao estômago.
— Não se mova! Matarei o primeiro que tentar impedir a minha vingança. Admiram-me as suas palavras, mister Winston! Será que está do lado de um vadio, de um pistoleiro sem escrúpulos, que aportou a Mannpyn para matar?!
— Há muitas coisas que desconheces, Elizabeth. Se quiseres acompanhar-nos ao meu gabinete, saberás do que se trata.
— Não quero saber das suas palavras, xerife. Jurei sobre a campa de meu pai que ia vingá-lo e cumprirei o prometido.
Elizabeth O'Casey's avançou um passo na direção do forasteiro e este presenciou o movimento da sua mão direita.
Até àquele momento deixara-se ficar calado e quieto, com o cotovelo de um dos braços apoiado sobre o balcão, como se desconhecesse que toda a cena girava à volta de uma pessoa — ele!
A assistência e o próprio dono do saloon, John Knight, gozavam o ocorrido com a maior curiosidade.
O «Furacão» deu em si a pensar que não demoraria muito que o cano daquela arma vomitasse o seu conteúdo mortal e não se admirou por esse pensamento não o perturbar. A sua vida constante de lutas e os anos passados na cadeia tinham feito dele um homem insensível.
Ouviu a seu lado o xerife tornar a falar:
— Não cometas uma tolice, Elizabeth! O que pretendes fazer é um crime! Serás enforcada na praça pública!
— Deixá-lo. Meu pai ficará vingado...
— Não permitirei esse ato louco. Tens de me ouvir para poderes julgar.
O ambiente crescia em nervosismo e a voz de Winston Orwell aumentava em volume.
— Saia da frente, xerife. Tenho o direito de me vingar.
— Não! Terás de atirar primeiro em mim — e o agente da Lei colocou-se, obstinadamente, na frente do forasteiro.
Todos apostariam que desta vez a jovem desistiria do seu intento. Mas tal não aconteceu. Elizabeth levantou a carabina, murmurando com os dentes cerrados:
— Como queira, xerife.
Winston sentiu-se empurrado para o lado pela mão do forasteiro.
— Não prive a moça da sua vingança, xerife. Não mereço o seu sacrifício... — e a voz do «Furacão» era calma e descontraída. A filha de O'Casey's baixou a arma e olhou-o desconfiada.
O forasteiro estendeu o braço e esticou o dedo na sua direção:
— Você está no seu direito, Elizabeth. Se eu estivesse no seu caso também não descansaria enquanto não eliminasse o assassino de meu pai. Aproveite agora!
Um sussurro de pasmo elevou-se dos circunstantes quando o «Furacão», desdenhosamente, se voltou para o balcão, virando as costas à jovem. Tirou uma moeda do bolso e atirou-a na direção de Knight.
— Uísque!
Era uma cartada decisiva a que estava a jogar. O dono do saloon reparou que os seus músculos estavam tensos, à espera, certamente, do chumbo escaldante que lhe rasgaria o corpo.
Bebeu o uísque com o maior sangue-frio e foi nessa altura que tornou a ouvir a voz de Elizabeth:
— Volta-te de frente, cobarde. Quero matar-te com os meus olhos postos nos teus, para gozar com a tua agonia.
O forasteiro sabia que a comédia terminara. Se se voltasse, ela fuzilá-lo-ia, impiedosamente, sem pronunciar mais qualquer palavra.
Era o momento de jogar o seu último triunfo. Se este não resultasse, seria o fim.
Simulando falar para uma outra pessoa que não existia, disse:
— Não quero que apontes essas armas à jovem, Steel. Ela tem todo o direito de acabar comigo.
A artimanha era tão velha como o próprio Oeste. Mas Elizabeth era mulher e caiu no logro.
Voltou-se, instintivamente, à procura do outro adversário e nesse momento ficou sem a arma.
O «Furacão» dera um salto ágil e com um gesto brusco tirara-lhe a carabina da mão.
Vendo-se impotente para cumprir o propósito que a levara àquela sala, duas lágrimas amargas rolaram pelas faces de Elizabeth O'Casey's.
— Parece que é seu dever prender esta jovem por tentativa de assassínio, xerife. Vamos para o seu gabinete — sorriu o pistoleiro, agora na posse da carabina. — Sim, vamos. Precisamos de conversar.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

PAS709. Um «Furacão» chega ao local da ação

Mannpyn era, na época em que decorre este episódio, um povoado progressivo, com as suas casas de tijolo, algumas com um encantador jardim florido a colorir a singeleza da fachada.
Winston Orwell, homem possante e musculoso, que respondia pela manutenção da Lei naquela terra e era dos poucos que ostentavam, suspensos em coldres de couro lavrado, dois enormes 45, encostou-se à porta do seu gabinete e, enquanto fazia, pacientemente, um cigarro ficou a olhar o movimento que se verificava na rua principal.
O rosto redondo do velho armeiro Alfred Wolf, emoldurado por uma farta barbicha branca, abriu-se num sorriso e acenou-lhe, amigavelmente, com a mão. Sentado nos degraus de madeira à porta do seu estabelecimento, Alfred limpava o cano de uma carabina com uma vareta comprida. Wolf amava as armas, tanto quanto os poetas amam as aves.
Mais abaixo, duas portas abertas davam entrada para o armazém de víveres de Guy Standish, onde se vendia de tudo, desde o bom fato para o rancheiro abastado, já feito, até aos arreios para as montadas. Não havia homem mais alegre no povoado que se igualasse a Standish. Nunca aquele rosto se ensombrava por uma tristeza, ou a língua se calava sem um dito chistoso para largar no momento oportuno. Da mesma idade que Wolf, Guy pertencia ao número já restrito dos pioneiros de Mannpyn que, graças ao suor e abnegação destes, se projetava, radiosamente, no futuro.
Seguia-se o hotel de Helena Debenham. Os cento e dois quilos de Helena não impediam que ela fosse a mulher diligente e canseirosa que administrava o seu hotel, providenciando para que nada faltasse aos hóspedes que, temporariamente, se acolhiam no seu teto. O falecimento de Debenham tinha fortalecido o ânimo forte daquela senhora, que fora obrigada a lutar, pessoalmente, pela sua subsistência na vida.
Do outro lado da rua, o saloon de John Knight era ponto obrigatório de reunião para os homens do povoado. Especialmente, aos sábados, o estabelecimento era acanhado para comportar a multidão de vaqueiros, cow-boys e rancheiros, que faziam uma algazarra insuportável. O fim de semana não passava sem que o xerife não fosse chamado a intervir por causa de uma briga e um grupo acabava por ser metido do outro lado das grades, a curtir a bebedeira daquela noite. No dia seguinte, já arrependidos e conscientes, seguiam para os seus trabalhos.
Mais próximo do escritório do agente da Lei, ficava uma filial do Banco. Construído de tijolo e com as jane-las protegidas por gradeamentos de ferro, o edifício garantia a segurança dos valores lá depositados. Christopher Kersh, o gerente, que viera propositadamente da cidade para ocupar aquele cargo e que vivia numa luxuosa residência nos limites do povoado, era, sem dúvida, o homem mais bem vestido do lugar. Sem ser de todo antipático, não se misturava, todavia, com o vulgo.
Winston via-o passar, diariamente, sentado na sua pequena carruagem, tirada por um cavalicoque, que ele próprio conduzia.
O xerife interrompeu as suas congeminações para reparar no forasteiro que acabava de entrar no lugarejo. Montava um cavalo malhado e usava armas. Vestia roupa vulgar de cow-boy, calças escuras e surradas, camisa axadrezada e tapava a cabeça com um chapéu de abas--de-corvo que lhe encobria quase por completo as feições. Apesar de este pormenor, Winston Orwell verificou que ainda era novo, trinta e alguns anos, calculou.
Do outro lado da rua, o armeiro Alfred Wolf parara igualmente o serviço que executava e levantara os olhos para seguir o estranho, até que este desmontou à porta do hotel de Helena Debenham.

domingo, 15 de janeiro de 2017

ARZ126. Um homem chamado "Furacão"


(Coleção Arizona, nº126)


Não se sabe bem porquê, um homem chamado “Furacão” chegou a uma povoação chamada Mannpyn e abateu em duelo um rancheiro, mal este o viu e reconheceu. Ele procurava esse e mais dois homens os quais viviam disfarçados como pessoas honestas depois de, na versão do matador, terem cometido bastos assaltos em que ele também tinha participado e pelos quais tinha cumprido pena de prisão.
John Washington não esclarece os motivos deste ajuste de contas mas tudo leva a crer ter existido uma traição daqueles homens relativamente ao ex-presidiário o qual acaba por se relacionar com a filha do primeiro daqueles homens. Afinal, a rapariga é vítima de roubos por parte de alguns dos seus empregados e vai contar com a sua ajuda para acabar com esses malfeitores.
A novela é agradável de ler mau grado alguma inconsistência no argumento. Onde se nota alguma falha é na caraterização espacial. Washington, um pseudónimo para Joaquim Ferreira Martins, descreve bem, logo de início, o local da ação, mas não a situa geograficamente… sabe-se lá onde é Mannpyn. Por outro lado, os nomes atribuídos aos diversos participantes, por vezes são esquisitíssimos, como é o caso do vaqueiro McCby (alguém consegue pronunciar isto?) e do próprio O’Crosby’s.

sábado, 14 de janeiro de 2017

ARZ125. O filho do salteador


(Coleção Arizona, nº125)

 Tex Membor colaborava com o pai e um conjunto de homens nos assaltos que eles realizavam. Um dia surpreendeu os seus companheiros com uma estranha revelação: ele queria ser um «rural», queria seguir a vida de polícia. Tal caiu como uma bomba no seio da quadrilha que se desfez.
E Tex partiu.
Na sua caminhada para se integrar nos «rurais», Tex relacionou-se com uma família que detinha um rancho onde alguns factos estranhos se passavam. O nosso pretendente a «rural» começou por salvar a vida da jovem Alice de um bando de facínoras e, na sequência da oferta de hospitalidade por parte do pai desta, veio a descobrir que pessoas que viviam no rancho tinham um comportamento pouco saudável.
Conseguiria Tex vir a integrar-se nos «rurais»? Ou o apelo da bela filha do rancheiro seria mais forte? Eis mais um livro de Uriah Malthon que temos a sensação de já ter lido noutra coleção. Vamos a ver se descobrimos qual…
 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

PAS708. O vagabundo amrgurado encontra a bela do cavalo branco

Espicaçou o cavalo e perdeu-se a caminho do lago. Não sabia verdadeiramente a razão pela qual se dirigia para aquele lugar e não para outro qualquer. Não tinha a intenção de tomar banho, como dissera à senhora Allison, nem tão-pouco a sua caminhada poderia classificar--se de simples passeio. De qualquer modo, dirigiu-se para ali e estendeu-se de costas no solo, com os braços cruzados atrás da nuca, à sombra de alguns arbustos, enquanto o animal pastava na margem do lago.
Assim se passou um bom bocado, durante o qual Charles permaneceu pensativo, visivelmente inquieto. Qual seria a causa do seu estado de ânimo? Nem ele mesmo o sabia, embora algo lhe segredasse que podia muito bem respeitar a Tula Charisse e à notícia que seu primo lhe dera quanto aos seus propósitos de se casar com ela.
Como podia ter sucedido aquilo se a própria rapariga lhe garantira não serem as suas relações com o primo as mais cordiais? Howard Charisse afirmara haver-lhe feito uma promessa a troco do seu consentimento, mas Charles Derek não teria confiado em nenhuma espécie de promessas feitas por tal indivíduo. Desde o primeiro instante em que o conhecera, tinha-o na conta de um astuto e imundo réptil, e a anunciada transformação não lhe merecia a menor confiança.
Estava realmente amargurado.
O sol, na distância, lambia já com os seus derradeiros raios os picos das montanhas. Charles Derek olhou nessa direção e não pôde conter um suspiro.
A tarde estava muito bela. A atmosfera, limpa e transparente, cheirava a artemísias e alecrim. As águas do lago haviam-se tingido de um vermelho sanguíneo e nelas refletiam-se as árvores e os arbustos da margem.
Derek nunca imaginara que ela aparecesse num momento daqueles tão propício ao sonho. Fê-lo sobre o seu nervoso cavalo branco e de maneira que ele julgou estar sonhando. Não obstante, não era um fantasma, mas sim uma deliciosa realidade.
Ergueu-se de um salto e aguardou anelante que Tula se aproximasse. No momento de a ver compreendera que o que o seu subconsciente aguardava não era outra coisa que a rapariga.
Ela saudou-o com um movimento do seu chicote e saltou do cavalo. Estava muito corada, belíssima e o seu cabelo ruivo despedia reflexos cobreados ao ser beijado pelos últimos raios do astro-rei.
— Devia-lhe uma explicação e venho dar-lha. Um sexto sentido advertiu-me da possibilidade de o encontrar aqui.
— Talvez fosse esse mesmo sexto sentido que me obrigou a deslocar-me aqui sem qualquer razão aparente retorquiu ele docemente, embriagado com a presença da mulher e o embruxador da tarde agonizante. —Mas não tem de me dar explicação alguma. Você é senhora de agir como melhor lhe parecer.
— É que eu desejava confiar-me a, alguém. Vou-me casar com Howard, sim. Não obstante, não o amo. Pelo menos com esse amor que, em meu entender, se deve ter pelo homem com quem temos de partilhar a nossa vida para sempre.
— Como se justifica, portanto, que o tenha aceitado para marido, Tula?
— Você falou-me de coisas que me encheram de pavor. Depois soube que o culpavam a si da morte de Blucson, bem como a esses pobres madeireiros. Meu primo assegurou que era vítima dos seus próprios amigos, os quais o arrastavam às vezes para coisas que não queria. Desejei pô-lo à prova e prometi-lhe que se ele olvidasse a morte de Blucson, o deixasse a si e aos madeireiros em paz e despedisse a quadrilha de indesejáveis que tinha ao seu serviço, seria sua mulher.
— Não cumprirá a sua palavra, Tula. Vai ter ocasião de o verificar. Portanto, não se case com ele. Um dia poderia despertar para a realidade e chegar à conclusão de que se casara com um monstro. E eu lamentaria que, para me salvar a mim e a mais alguns homens, a quem mal conhece, se tivesse sacrificado. Espere algum tempo... Eu, Tula... eu também lhe quero, nobre e sinceramente. Sentiria muito ser causa da sua infelicidade.
Tula e Charles, inconscientemente, tinham-se aproximado um do outro de tal maneira que a respiração de um bafejava o rosto do outro.
— Vejo que continua a duvidar de Howard... No entanto, até este momento, não tenho nada a reprovar-lhe. Despediu o pessoal e não intentou coisa alguma contra si e esses trabalhadores.
— Ainda não é tarde. Para onde foram Fnrlow e os outros? Charisse falou-lhe do enigma da montanha? Ontem mesmo, durante a noite, ao deixá-la a si, surpreendi seis cavaleiros do seu rancho. Segui-os, mas, de súbito, desapareceram. Não me tinha ainda refeito do meu assombro quando me surpreendeu a aparição de seis homens a cavalo, «que não eram os mesmos» — sublinhou.
Enquanto falavam, a noite caíra por completo. Charles Derek prosseguiu, apontando motivos para que Tula não confiasse demasiadamente no homem com quem aceitara casar-se.
Por fim, esta prometeu-lhe que retardaria o mais possível data desse casamento, e tão distraídos estavam que não se advertiram da presença de Charisse.
Howard, ciumento e desconfiado, havia seguido sua prima a uma prudente distância e arrastara-se depois até se situar a dois passos dos jovens. Ali, com os maxilares contraídos, escutara todas e cada uma das palavras que Tula e Charles haviam pronunciado nos últimos minutos.
 Decorrido um bom bocado, Tula e o ex-«rural» despediram-se com um afetuoso aperto de mão. Ela retomou o caminho do rancho, presa de uma doce angústia e ele perdeu-se, não menos angustiado, na direção de Pecos.
Howard Charisse permaneceu ainda durante algum tempo junto dos arbustos que o tinham ocultado e foi depois em busca do seu cavalo, que deixara escondido entre um grupo de árvores não muito distante. Montou a cavalo e lançou-se a galope rumo ao bosque.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

PAS707. Isto não é comigo!

A gente voltava já do enterro. Salvo os quatro madeireiros sobreviventes, que se haviam demorado um pouco mais junto da cova comum dos seus companheiros, todos pareciam ter pressa em regressar à povoação, onde os sinos da igreja chamavam os fiéis.
Charles passou pela frente daqueles homens e mulheres e conseguiu descobrir ainda a jovem, detida na lomba onde estava encravado o cemitério. As cruzes, sob o sol ainda na sua, curva ascendente, recortavam-se como braços que implorassem clemência.
Esporeou o cavalo naquela direção, mas antes que pudesse ali chegar aconteceu algo de imprevisto que o encheu de confusão. Os quatro serradores haviam-se lançado contra ela.
A rapariga deixou escapar um grito e, apesar da resistência que oferecia, foi arrancada da sela e arrojada por terra, onde os seus atacantes procuraram dominá-la. Mas já Charles Derek se precipitava sobre o grupo.
— Que fazem vocês? — perguntou descavalgando e tratando de libertar a jovem. -- Será que enlouqueceram?
— Isto não é contigo, Derek! — recomendou Bart Shunny, cujo rosto se mostrava apoplético. .
Red Mulford atirou-se sobre Charles e este viu-se obrigado a descarregar os seus punhos no homem que procurava agredi-lo. Alcançou-o em cheio, mas nem por isso se livrou ele próprio de ser maltratado.
O madeireiro era forte como um búfalo e conseguiu derrubá-lo, ante as gargalhadas dos outros.
Charles, quase perdidos os sentidos, levantou-se e investiu contra Lanky Williams. Este, ante a tremenda cabeçada no estômago, retrocedeu com as mãos sobre a parte atingida e a boca aberta na ânsia de reabastecer os pulmões de ar.
Não obstante, a luta depressa acabou. Enquanto Bart Shunny continuava a sujeitar a jovem, Red Mulford e Jimmy Houston caíram sobre Derek. E enquanto um deles o agarrava pelas costas, o outro golpeava-o impiedosamente no rosto até o privar do conhecimento.
-- Selvagens! Selvagens! — gritou a rapariga incrustando o tacão de uma das suas botas na tíbia de Bart Shunny. — Meu primo não tardará em saber disto e podem estar certos de que o pagareis bem caro.
— Seu primo, hem? — replicou Bart, ameaçadoramente. — A esse é que desejaríamos ter agora nas mãos. De qualquer modo, temo-la a si, e isso pode ser uma boa maneira de obrigar essa raposa a sair da sua madriguelra.
A rapariga cessou de forcejar. Os seus rasgados olhos azuis quedaram-se fixos, desmesuradamente abertos, no homem que chamara raposa a seu primo.
Depois, declarou:
— Eu não tenho nada a ver com os assuntos de meu primo. Enganam-se se me julgam cúmplice nessa atrocidade, meu Deus!
Derek removeu-se no solo e escutou a réplica de Bart Shunny às palavras da jovem:
— Deixe Deus tranquilo. Jamais os assassinos e os que com eles convivem invocaram alguém que não fosse o demónio. Você e o seu amigo virão agora à povoação connosco. Entregá-los-emos ao xerife e ele saberá o que tem a fazer.
Tula Charisse olhou aterrada para Derek, que seguia no solo sem tentar levantar-se e ergueu a cabeça.
— Juro-lhes que estão em erro! Nem esse jovem nem eu sabemos nada desses assassínios. No que me diz respeito, só hoje, ao chegar à povoação, e por mera coincidência, soube do que se passara.
Os quatro trabalhadores, pendentes do que a rapariga dizia, esqueceram-se por completo de Charles Derek. Este, entretanto, foi-se recuperando lentamente. De súbito, ergueu-se e, de um salto, apontou os seus revólveres aos desprevenidos madeireiros.
— Para trás! bradou. — Não tentem nenhuma tolice, pois podem sair-se mal. Vamos, soltem essa menina e que se vá em paz. Já a ouviram dizer que está inocente!
Bart Shunny libertou a jovem. Esta, surpreendida ante o novo aspeto tomado pelos acontecimentos, ficou um momento Indecisa, olhando para uns e para outros.
— Vá-se embora, menina Charisse — aconselhou Charles. — Sim, vou... — hesitava Tula. Acho que será o Melhor. Muito obrigado, senhor...
— Já lho tinha dito antes. Chamo-me Charles Derek. A partir de hoje, você tem um amigo em Pecos.
A jovem respondeu:
Obrigada. Não me esquecerei. Tal como estão a pôr-se as coisas, é muito possível que precise da sua amizade.
—Pois não hesite em recorrer a ela. Terei muito prazer em ser-lhe útil.
Tula Charisse montou a cavalo e partiu a galope na direção do rancho de seu primo. Um enorme peso caíra sobre o seu coração. A certeza de que seu primo e quem o servia eram uns criminosos estendeu sobre o seu rosto um véu de intensa tristeza.
— Perdoem-me se intervim em favor dessa rapariga. Conheço desde ontem à noite a versão que circula acerca da morte dos vossos companheiros, mas não podia consentir que vocês cometessem um equívoco de que mais tarde teriam de arrepender-se. Terão de acreditar na minha palavra, visto que sou um homem de honra: essa pequena não sabia nada com respeito a esses assassínios até eu lho dizer há pouco, em frente da igreja, quando o funeral saía. amiga do pastor e este portar-se-ia de maneira diferente se ela fosse o que vocês pretendem.
— Você está a falar demasiado para nos convencer da inocência dessa jovem — cortou Bart. — Ela já aqui não está, pelo que só nos interessa saber quem responde por si?
— Eu mesmo — redarguiu vivamente Charles Derek. Vocês julgaram-me empregado dos Charisse, não é assim? Pois enganam-se. Trabalho na povoação, na oficina da senhora Allison, hospedo-me em casa de Maureen Cooley, com cuja amizade me honro, e sou também amigo do xerife. Intervim nisto por um dever de humanidade, embora também eu tenha as minhas contas pendentes com os homens desse rancho, especialmente com Terry Bucson o Mirky Farlow.
Fez uma pequena pausa e sorriu:
— E, agora que já lhes expliquei tudo, querem seguir à minha frente e olvidar o ocorrido? Aqui têm a minha mão.
—Na nossa situação — decidiu Shunny, de súbito—, será preferível contá-lo entre os amigos que entre os inimigos. Quem dizem vocês?
— De acordo — opinou Mulford, falando por todos.
Charles Derek, que já tinha remetido os revólveres aos coldres, apertou uma por uma as mãos dos madeireiros e regressaram todos juntos a Pecos.