quinta-feira, 15 de junho de 2023

CLF028.09 A vida é uma partida de poker

Os troncos arrastados pelos dois cavalos levantavam à sua passagem uma enorme nuvem de pó.

Brod Nolan enxugou o rosto com o lenço. Tinha sido um dia de rude trabalho. Fora várias vezes à cordilheira à procura de cedros, trazendo-os por «Las Riberas», para evitar o terreno acidentado do desfiladeiro.

Vendo o seu gado a pastar pacificamente, Nolan suspirou aliviado. Agora, a única coisa que desejava era dez horas de sono, sem interrupção. Próximo do carro, cavalgando lado a lado com Nolan,

Green disse:

— Entre as árvores há um cavalo. É o ruão (i) da Hart.

Brod desmontou, chamando repetidamente:

— Hart.

E, de súbito, viu o corpo estendido. Cambaleou, sentindo o peito estalar de dor. E o mundo inteiro deixou de existir para ele. Tinha nos seus braços o cadáver do irmão. Ao contacto daquele corpo frio, apeteceu-lhe morrer.

Era já noite, quando Sol Green, aquecendo café, murmurou:

— Toma o meu revólver, Brod. A espingarda chega-me bem.

Nolan recusou em silêncio. Havia sentado o corpo do irmão contra a roda do carro e rodava entre os dedos uma pequena haste. Disse:

— Uma flauta. Ele sabia fazer flautas assim. Eu, então, chamava-lhes «assobio». Quando éramos rapazes...

Guardou a haste no bolso. Green teve de tossir para disfarçar a emoção.

— Sim, recorda-te dos bons tempos, Brod. Os maus, não. Hart... Hart era pouco expressivo, mas foi sempre bem-intencionado.

Só quando o corpo de Hart se encontrava amarrado ao ruão, é que Brod começou a sair daquele estado de espírito que até então o dominara. Pelas pegadas, tinham sido três os cavaleiros que se encontraram com o irmão. Mas porque teria Hart voltado? Para lutarem outra vez? Para o avisar de qualquer coisa? E porque teria puxado do revólver e disparado? Não atinava com a resposta. Olhou Sol Green.

—Não vens comigo, Sol. Vai ao «Doble Z» e comunica a Carla o que sucedeu. Encontramo-nos amanhã, Sol.

— Mas... tens a certeza de que voltarás amanhã, bom moço?

«Bom moço», pensou. «Era assim que Sol antigamente me chamava... nos momentos críticos...».

— Voltarei... Não tenhas dúvidas.

A meio do caminho, estalou ao longe a tempestade. Um lobo uivou, carregando ainda mais a atmosfera já densa. Pouco a pouco, uma raiva surda foi invadindo Nolan.

Em Cliff Town, as únicas luzes acesas eram as do «Golden». Brod cavalgou até à rua lateral, apeando-se em frente da casa onde vivia o «sheriff». À sua chamada respondeu uma voz sonolenta. Passaram-se alguns minutos, e Elton Graver apareceu ainda meio vestido.

—Estava a pegar no sono, Brod. O que é?...

Reparou nos dois cavalos e de súbito, despertou de todo

— Quem é?

— Hart. Green e eu encontrámo-lo junto do meu carro.

Graver ergueu a manta que cobria o corpo. Depois, deixando-a cair, perguntou:

— Onde está o seu revólver, Brod?

— Não tenho revólver, Elton.

Entrando em casa, Graver disse:

— Vou avisar o doutor para que tome conta de Hart... para o meu escritório e espere por mim.

— Primeiro quero ver Francis Gorvin.

— Vá pra o meu escritório — e a voz do «sheriff» era áspera e autoritária.

Estendeu a Nolan uma chave e afastou-se imediatamente, conduzindo pela arreata os dois animais. Brod entrou no escritório do «sheriff» e esperou cerca de quinze minutos, ao fim dos quais apareceu Elton Graver seguido de Wax Jones.

O «pistoleiro» olhou com receio o jovem e perguntou:

— Para que me trouxe aqui, «sheriff»?

Fechando a porta, Graver anunciou secamente:

—Jones, não me agradam absolutamente nada os tipos da sua índole. Esta noite esteve no «Golden» falar com grande entusiasmo sobre determinado assunto. Tem agora a oportunidade de repetir as intrigas que tem andado por aí a espalhar.

—Bem... eu estava um pouco bebido e... Compreende, não é verdade? O álcool descontrola as pessoas... — murmurou Jones, olhando o solo. — Refere-se à luta entre os dois irmãos?

— Não Refiro-me àquilo que você diz ter visto ontem à noite.

Jones tirou o chapéu, alisou o cabelo, e voltou a colocá-lo na cabeça.

—Bem, pois aí vai. Tal como disse, o senhor MilIer deu-me ordem para vigiar Buffalo Creek. O patrão queria saber o que Nolan fazia no terreno que tinha reclamado. Se não acredita em mim, pergunte a Miller.

— Perguntar-lhe-ei. Continue.

— Procurei um sítio onde pudesse vigiar sem ser visto e, ontem à noite... Sabe, «sheriff», não me agrada manchar a reputação duma dama e, se não se importar, prefiro calar-me.

Graver segurou o «pistoleiro» nela camisa, empurrando-o violentamente contra a parede.

— No «Golden» não era tão discreto, Jones. Repita tudo o que tem andado a dizer.

—Bem... Já que me obriga... Era a senhora Nolan, a esposa de Hart. Juro que a vi...

Brod Nolan saltou para a frente, mas Graver já estava prevenido e cortou-lhe o ímpeto, colocando-lhe uma mão aberta no peito.

—É verdade o que ele diz, Brod? Ela esteve ontem à noite no acampamento?

Brod assentiu. Graver continuou:

— Que se passou depois, Jones?

—O negro localizou-me e disparou sobre mim, mas consegui escapar.

—E já não voltou a ver Hart Nolan?

—Não, até ao momento em que me mostrou o seu cadáver.

O «sheriff» exalou um profundo suspiro. Depois abriu a porta.

— Saia, Jones. Desapareça da cidade. Você e Howard, desapareçam da cidade. Se continua a propagar essa história, nem Ron Miller poderá evitar que eu o ponha fora da comarca. Desapareça.

Wax Jones saiu, exibindo uma expressão de desprezo e rancor. Fechando a porta, o «sheriff» disse:

— Oxalá que toda esta história seja mentira, Brod.

— Também eu desejaria que fosse, Elton. Mas não é o que você pensa...

Dirigindo-se para a sua secretária, Graver observou:

— Nunca permito que os meus sentimentos se interponham com o que a minha consciência julga ser justo. Já mais de uma vez o preveni, Brod. O seu génio é demasiado impulsivo e...

—Mas... Quer dizer que eu matei Hart?

— Se não foi você, quem foi então?

— Não sei. Isso diz-lhe respeito, «sheriff». É seu dever encontrar o assassino.

— Logo que o dia nasça irei falar com Green. Ma se Green é a sua única testemunha, Brod, poucas esperanças lhe restarão. Especialmente, depois de Hart ter recusado os seus préstimos.

Brod passou a mão pelo rosto, tentando afastar cansaço, o pesar e a confusão que se instalara no se cérebro. Na sua voz inexpressiva, Graver prosseguiu:

— Um homem matou uma vez. A segunda é muito mais fácil. É trágico, mas é assim. Resumindo: conte-me porque disparou sobre Hart.

—Já lhe disse que não estava ali. Estava nos montes.

— Conheci-os muito jovens. Carla quase que a nascer. E quando uma mulher como ela, caprichosa de génio vivo, se interpõe entre dois homens como Hart e você... sucede o pior. Neste caso, desgraçadamente, o pior já sucedeu.

— Não lutámos por causa de Carla. Hart tinha plena confiança nela.

— Hart era assim. Mas então, porque é que Hart ameaçou matá-lo?

Olhando-o com firmeza, Brod Nolan engoliu em seco. Os pensamentos de Graver tornavam-se visíveis para ele, com uma nitidez que tocava as raias da loucura. Hart havia casado com a sua noiva. E depois... a sua fama de desordeiro.

— Oiça, «sheriff» ... Eu juro que não lutámos por causa de Carla. Juro-lhe que eu não...

— Pessoalmente posso compreender que você e Hart, apesar de teimosos e demasiado impulsivos, não pensaram matar-se. Mas você, Brod, é um homem que se gaba de que a vida é uma partida de póquer onde é preciso saber-se jogar a pele na ponta de uma bala.

Graver foi até ao chaveiro, acrescentando:

— Ë meu dever prendê-lo, Brod Nolan.

Demasiado exausto para discutir, Nolan seguiu-o. Ao fundo do corredor havia três celas. Graver abriu uma das três. Ao entrar nela, Nolan sentiu todos os músculos do corpo endurecerem. Era a mesma cela que havia ocupado durante o processo da morte de Lloyd Leblanc.

 

(i) N. do T.— Ruão: cavalo de pelo branco e prado, ou de pelo branco com malhas escuras e redondas.

 

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