sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

PAS406. Em defesa de uma mulher

Rindo-se fortemente, os dois homens encaminharam-se para o armazém. A sua confiança e sentido de segurança eram evidentes. Nem se tinham incomodado a olhar para Yancey.
Este acabou de enrolar o cigarro e acendeu-o calmamente, dando uma boa fumaça e dirigindo-se para o armazém. Dez metros antes de chegar à porta já ouvia vozes encolerizadas. Era a de Winfield a que se escutava mais facilmente.
— Vocês não passam de uns malditos pistoleiro Mas a mim não conseguem abalar-me.
— Você está a falar muito alto, Winfield, porque tem a sua filha a seu lado. — Era Clem quem falava. — Mas se é homem saia para a rua a fim de resolver esta questão.
— Não trago revólver...
— Isso arranja-se já. Jack, empresta-lhe um dos seus.
— Não vás, pai — atalhou a filha. — Maxwell enviou estes dois matadores para te assassinarem, mas não se sairão com a sua...
Clem atalhou insolentemente:
— Ouça, rapariga. Não me agradam os insultos. Se for preciso dar-lhe uma bofetada para o cobarde do seu pai se portar como um homem, não hesitarei e fazer isso.
— Bandido!
 Soou algo como um choque seco, seguido de um grito angustiado de mulher. Lee estava já junto à porta. Chegou a ela numa passada e bastou-lhe um olhar para se inteirar da situação.
No armazém havia talvez umas vinte pessoas, na sua maioria mulheres. Toda a gente, à exceção de cinco pessoas tinha corrido para a parte de trás e observava a cena com apreensão. Radison, pálido e carrancudo, estava atrás do balcão com as mãos apoiadas no mesmo. Na sua frente e quase de costas para a porta, os três homens de Maxwell enfrentavam Winfield e a filha. O primeiro devia ter recebido um golpe na cabeça, pois estava quase caído sobre o balcão e o sangue corria-lhe pela cara. A jovem aguentava-o de pé, enquanto afrontava, pálida, assustada, mas em atitude reptadora, os agressores. Clem empunhava um revólver com a mão direita, sem dúvida a arma com que tinha agredido Winfield.
No preciso instante em que Lee chegava à porta, o mineiro soltou-se da filha e fez um gesto para se atirar ao seu agressor. A rapariga tentou impedi-lo, mas um dos outros meliantes agarrou-a rudemente, separando-a do pai. E Clem levantou ide novo o revólver com intenção de tornar a bater...
O estalido seco de um tiro fez que todas as testemunhas da cena reparassem na nova personagem. O revólver voou da mão de Ciem para o balcão e de ali caiu no chão, do outro lado. O homem proferiu uma praga e voltou-se rapidamente, segurando a mão entumecida. Também os seus companheiros se voltaram levando a mãos às armas... mas imobilizaram-se, olhando o fumegante cano do comprido revólver que lhes estava a ser apontado e o rosto severo de quem o empunhava.
No meio do súbito silêncio, Lee entrou no armazém e encostou-se à parede, ao lado da porta.
— Na terra de onde sou, insultar e ofender uma mulher é negócio de cobardes. As feições dos três pistoleiros tingiram-se de vermelho. Clem falou por eles.
— Maldito sejas! Quem te mandou meter onde não és chamado?
— Ontem, mal aqui cheguei, assisti a um cobarde assassínio. Dois é já demasiado. Deitem os revólveres para o chão. Depressa!
Os três homens trocaram rápidos olhares. E quanto Clem principiava um gesto que parecia natural o companheiro a quem quase tapava puxou rapidamente do revólver, não para o atirar para o chão, mas para o apontar à barriga de Yancey.
Não teve tempo de apertar o gatilho. Lee disparou e a sua bala destroçou a mão e o pulso do pistoleiro arrebatando-lhe a arma. O homem deu um grito e caiu ao chão, de joelhos, meio desmaiado pela dor.
— Mãos no ar! Depressa!
Clem e o outro não tinham esperado por aquele desfecho. Pálidos, praguejando entre dentes, obedeceram. Lee tornou a falar, desta vez para Winfield que, como os restantes, contemplava aturdido a sua intervenção.
— Reviste-os, Winfield.
No meio de impressionante silêncio, o mineiro obedeceu. Lee avançou então, vagarosamente, e enfrentou-se com Clem. O seu olhar fixou-se no do pistoleiro. Depois, deliberadamente lento, levantou a mão esquerda e esbofeteou-o duas vezes.
O pistoleiro rangeu os dentes e disse um palavrão. A voz fria e cortante ide Lee interrompeu-o.
— És um nojento e cobarde, um assassino de más entranhas. Não me agrada a tua cara. Pega num desses revólveres e salta para a rua. Vou matar-te.
Nenhum dos presentes esperava tal atitude. Clem menos do que ninguém. Passou a língua pelos lábios secas e nos seus olhos apareceu o temor.
-- Não posso mover a mão — resmungou. — O que pretendes é o que se chama um assassínio.
— Winfield não trazia armas quando o insultaste na presença da filha. E acompanhavam-te mais dois. Também o mineiro ferido, esse a quem Macklin liquidou ontem na rua a sangue-frio, não tinha qualquer arma. Agora sou eu que tenho vontade de matar alguém. A ti mesmo. Sai para a rua. Podes manejar a arma com a mão esquerda. Vamos.
O silêncio podia cortar-se faca. Ciem estava branco como a cera e não podia afastar o olhar dos frios olhos do seu implacável inimigo. Era um homem acostumado a jogar a vida entre dois tiros e possuía coragem, mas não era o mesmo lutar em condições de igualdade, ou sabendo-se superior ao adversário, do que fazê-lo assim a sangue-frio, sabendo que estava irremediavelmente perdido.
Tentou procurar ajuda. Mas um dos companheiros estava pronto, com uma das mãos desfeita. E o outro, desarmado como ele, nada podia fazer. Leo agarrou-o pelo colarinho e fê-lo rodar, enviando-o com um empurrão para a porta da rua. Depois seguiu atrás dele. Clem principiou a retroceder de costas, encolhido. Saiu assim para a rua, cheia de sol. O medo de morrer lutava dentro de si com o ódio e o desejo de lutar virilmente. Postado na soleira da porta, Lee viu o que se passava e um sorriso duro entreabriu-lhe os lábios. Lentamente, levantou a arma até à cara do aterrorizado pistoleiro.
— Há uma maneira de falar com os cães danados — disse devagar. — Dá-se-lhes um tiro na cabeça...
Uma mão pequena mas firme tocou-lhe no ombro. E a voz de May Winfield soou, rouca e alterada, aos seus ouvidos:
— Por favor! Seria outro assassínio!
Lee fitou-a. Depois concordou com a cabeça. E encarou de novo com o pistoleiro.
— Isto salva-te, Clem. A diferença entre um homem e um assassino a soldo. Pega no cavalo e não voltes a Westcliffe. Se voltares, traz o revólver engatilhado, mas então não escaparás com vida.
O pistoleiro percebeu que estava salvo e endireitou--se. A humilhação fez-lhe saltar lampejos de ódio aos olhos. Mas o receio não tinha ainda desaparecido por completo.
Os outros dois e o ferido, apoiando-se no que estava são, saíram para a rua, olhando de soslaio para o homem que os vencera. Lá fora, muita gente assistia a tão insólita cena. Winfield, ainda aturdido e carregado com o arsenal apreendido aos pistoleiros, também saiu e preparava-se para falar, mas Lee impediu-o, ordenando:
— É melhor ir buscar as espingardas aos cavalos. Os bandidos podem ter alguma má ideia...
Winfield concordou o dirigiu-se aos cavalos, depois de meter os revólveres nas algibeiras. Jake tinha tirado o lenço ido pescoço e vendava com ele a mão e o pulso do seu abatido companheiro. Clem pôs-se a ajudá-lo silenciosamente.
Quando Winfield regressou com as espingardas, Lee ordenou-lhes:
— E agora, ponham-se a andar.
Os três homens não refilaram e ajudaram o ferido a subir para o cavalo, montaram nos seus e dirigiram--se para o ribeiro. Ao passarem em frente do grupo parado diante do armazém, Jake ameaçou:
— Voltaremos à tua procura, forasteiro.
— Bem. Aqui estarei.
Depois de os homens se afastarem, Winfield e a filha olharam para o seu salvador.
— Você arriscou a vida por nossa causa, Kane — disse Winfield. — Foi um grande gesto mas incompreensível. Ontem...
-- Deixemos isso... Não gosto de assassínios a frio e muita menos que se ofenda uma mulher.
— Tenho de lhe apresentar as minhas desculpas, senhor. — A cara de May Winfield estava corada e os olhos brilhantes. — Pela sua coragem e por ter feito caso do meu pedido. Muito obrigada.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

PAS405. Não mais haverá descanso para quem calçar as botas do morto

— Lamento, amigo, — disse para o cadáver — mas tu já chegaste ao fim do caminho e eu quero prolongar o meu até poder. De modo que vou calçar as tuas botas.
Vestiu depois, uma a uma, todas as peças do vestuário do morto, ajustando o cinturão. E depois vestiu-o com as suas. Assentavam-lhe bastante bem e enganariam o mais desconfiado depois dos abutres completarem a obra. Colocou o cadáver tal e qual o encontrara e passou quase meia hora a apagar cuidadosamente todos os vestígios da sua presença. Depois, foi aos cavalos, desatou-os e montou naquele que pertencia ao desconhecido, deixando o seu em liberdade. O animal estava tão cansado que não ia sair do local encharcado e com erva. Ali o encontrariam os seus perseguidores, a quem calculava levar oito a dez horas de vantagem. Chegariam ao anoitecer e nessa altura já os abutres teriam deixado sem carne a cabeça do morto...
Esporeou o cavalo. Era um baio nervoso, com uma bonita cabeça. Valia a pena conservá-lo.
Pouco depois de se afastar olhou para trás. Os abutres encarniçavam-se já sobre a presa enquanto outros se aproximavam a toda a pressa voando sob o céu azul.
Tinha deixado todos os seus pertences nas algibeiras do fato que vestira ao morto. Inclusivamente o dinheiro, salvo uma centena de dólares. Não se podiam cometer erros com os Rurais. E até ao por do sol, quando acampou na margem do Kiamichi, não se atreveu a revistar as roupas e o equipamento, do falecido.
O homem não era um viajante vulgar. Levava com ele uma excelente provisão de camisas, peúgas e outras peças de roupa interior, devidamente acomodada. Sobre a roupa havia urna bolsa para tabaco de fabrico índio, um livro de mortalhas, uma navalha, um relógio, um lenço, vinte e dois dólares e trinta cêntimos em moedas, um isqueiro e um lápis. Pouca coisa, é claro, que excitasse a curiosidade. O revólver era tão bom como aquele que se tinha visto obrigado a abandonar e a «Winchester», completamente nova, era melhor do que a sua. Tal qual como as botas, o cinto era de fino cabedal avermelhado, sendo as botas providas de altos tacões e de esporas prateadas. As roupas, de excelente fabrico, tinham sido compradas recentemente. Além do cinto com balas via-se também na bagagem uma caixa de munições. A sela, sem dúvida, boa e cómoda. Havia ainda um outro fato, convenientemente dobrada e em estado novo, uma manta de lã e um impermeável amarelo. O cantil, uma frigideira pequena, a cafeteira, a colher e até um garfo, eram novos da mesma forma que o prato. Sem dúvida, o morto era pessoa de bom gosto, cioso das suas comodidades e que se preparara conscienciosamente para aquela viagem interrompida. Quem seria e para onde se dirigia? O território índio não era o lugar indicado para viagens de prazer... 
Ao pegar no fato novo, os seus dedos tocaram em alguma coisa dura. Uma carteira nova, de cabedal avermelhado, que estava no bolso interior do colete. E Lee assobiou ao abri-la e descobrir o seu conteúdo.
Seiscentos e vinte dólares em notas de Banco, novas em folha! E uma carta. Contou primeiramente as notas, tornando a colocá-las na carteira. Olhou depois para o sobrescrito. Estava dirigido ao senhor James Kane, em Nova Orleães e tinha sido reexpedida desta cidade a
Shireveport onde, ao que parecia, o senhor Kane estivera alojado, no hotel «Texas».
Já tinha ume nome. A carta deu-lhe um ponto de destino, outros dois nomes… e pouco mais.
«Senhor James Kane, Estalagem «Os Três Reis» — Nova Orleães.
Caro senhor: 
De acordo com o que combinámos, incluo um cheque passado a seu favor na importância de mil dólares. Uma vez recebido o mesmo, queira pôr-se a caminho imediatamente de forma que possa aqui estar em 4 de Julho. Convém que tome a barco até S. Luís ou Independence, continuando depois a cavalo para se habituar ao seu papel. Já sabe que tem de apresentar-se aqui como um cavaleiro errante. Quando chegar dirija-se primeiro ao «Frenchy Hotel». Depois virá ao meu escritório, como se fosse de passagem. Tenho a dizer-lhe que o nosso comum amigo Fallon teve a pouca sorte de tropeçar há dias com uma bala. Portanto, como o não conheço pessoalmente, dê o seu nome ao chegar. Espero que cumprirá literalmente as minhas instruções a fim de o nosso assunto ficar depressa resolvido satisfatoriamente para ambos. Até o ver em Westcliffe, aceite as cordiais saudações do amigo
Bert Radison»
À luz da pequena fogueira que tinha acendido, Lee releu três vezes a carta. Esteve até à meia-noite a dar voltas a cada, uma das suas frases. Por fim ficou com uma ideia aproximada da questão. O homem chamado Kane tinha recebido mil dólares do autor da carta a fim de se transladar a uma povoação chamada Westcliffe onde, aparentando ser uni vaqueira vagabundo, efetuaria determinada negócio para o qual havia de tomar precauções. Morrera o amigo pessoal que ali tinha e o seu sócio não conhecia Kane pessoalmente. Kane tinha de estar a 4 de Julho em Westcliffe. Como estavam em fins de Maio o homem dispunha de cinco, semanas. Ou seja, que Westcliffe se achava em algum ponto a leste do Mississipi, provavelmente nas Montanhas Rochosas. Kane não estava em Orleães quando recebera a carta mas em ShirevePort. Devia ter recebido ali mesmo o dinheiro e decidido fazer acto contínuo a viagem a cavalo. Dada a rota que escolhera, Westcliffe, devia achar-se a Noroeste, talvez para os lados de Kansas ou Colorado. E Kane não era exatamente um homem do campo, um vaqueiro. Que espécie de homem seria e qual o seu negócio com Radison? Só havia um meio de o saber: ir a Westcliffe.
Ao chegar a este ponto das suas congeminações, Lee Yancey deixou-se ficar a olhar para as brasas quase apagadas. Porque não?... Qualquer sítio era bom e tanto lhe dava um caminho como outro, desde que se afastasse de Texas. Radison tinha pago mil dólares a Kane para este o ajudar em alguma coisa e não devia ser defraudado. Provavelmente, terminado o negócio, haveria mais dinheiro para Kane. E qualquer coisa existia na carta que o fascinava. Qualquer coisa nas entrelinhas que tinha ficado por dizer... 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BUF071. Ratoeira mortal


Coleção Búfalo, nº 70)
 
Lee Yancey era um jovem proscrito, vítima das sequelas da guerra civil e da vingança dos vencedores contra os que apoiaram o Sul. Muito jovem foi desapossado da sua terra e, vingando-se, condenado a pesada pena de prisão. Após ter morto o ladrão dos seus bens, fugiu, praticou vários assaltos e o autor vai encontra-lo a caminho de Westcliff, uma povoação cuja paz assentava sobre um barril de pólvora devido à inimizade entre granadeiros e mineiros explorada por algumas personalidades com menos escrúpulos.
Na sua fuga incessante, Lee depara com um morto portador de uma carta de apresentação naquela cidade e resolve tomar a sua identidade para assim enganar os rurais que o perseguiam. Mas não tardou a perceber que se metera numa ratoeira com todas as caraterísticas para se tornar mortal.
Este livro de Cliff Bradley é um pouco mais maçudo que o habitual neste autor e é com dificuldade que se descobrem algumas passagens dignas de registo. A capa, não assinada, é apresentada como da autoria de Carlos Alberto Santos, mas sugere muito o traço de Longeron… Aliás o livro foi originalmente publicado em Espanha na coleção Seis Tiros da Editorial Toray, com a mesma capa, sendo pouco provável a autoria de capa atrás referido