Mostrar mensagens com a etiqueta BUF071. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BUF071. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

PAS409. Um homem marcado diz adeus

Eram três horas. E quem não dormia a sesta ou a borracheira estava abrigado no fresco interior das casas. Um vento quente como o fogo varria a pulverulenta rua principal, erguendo redemoinhos de pó. Tinham sido retirados os cadáveres que esperavam a hora do enterro na casa do antigo médico. Os enforcados dependurados continuavam. Um ou outro cão vadio caminhava à procura de uma sombra melhor. O armazém encontrava-se com todas as portas e janelas abertas e com muitos géneros espalhados pelo passeio e pela rua. A maior parte tinha sido sequestrada em proveito próprio, no uso do direito do vencedor.
Gordon, o dono da cavalariça, dormitava sentado numa velha cadeira debaixo do alpendre. Estava satisfeito. Os acontecimentos tinham acabado em bem para a cidade e para os seus habitantes honrados e pacíficos, graças à atuação desse homem extraordinário chamado Lee Yancev. Podia ser um proscrito, um foragido… Mas o dono da cavalariça sabia que em Westcliffe nunca lhe faltariam amigos, fizesse daí em diante o que fizesse. O som de uns passos despertou-o. Ficou a olhar a alta figura de aspeto cansado que se acercava e, quando a teve à sua frente, comentou:
— Não faz demasiado calor para andar a passear, senhor Yancey?
Lee concordou. Levava o braço esquerdo ao peito e roupas novas e limpas. O chapéu era também novo. Aquilo, algumas camisas e mudas de roupa constituíam a sua parte na pilhagem. — Faz bastante calor, sim. Gordon reparou então que lhe faltava alguma coisa.
— Que fez da sua estrela, xerife?
— Aqui a tem. Pode devolvê-la ao, presidente da Câmara.
Gordon levantou-se, pegou na insígnia e olhou fixamente para o seu interlocutor.
— Isso significa que nos vai deixar?
— Exatamente. Aqui já fiz o meu trabalho e -tenho de continuar o meu caminho. Quer ajudar-me a selar o cavalo? Gostava de estar longe quando dessem pela minha ausência.
Gordon nada disse e afastou-se para junto do baio. Depois de selado o animal, Lee montou agilmente e estendeu a mão sã ao outro homem.
— Bem, Gordon. Gostei de o ter conhecido.
— Também, eu, Yancey. E se algum dia necessitar de um refúgio seguro, venha a Westcliffe. Deixou aqui amigos.
— Alegro-me. Adeus.
Conduziu o cavalo para a saída e tornou a olhar para o dono da cavalariça.
— Quero pedir-lhe um favor, Gordon. Se vir «miss» Maxwell diga-lhe...
— Creio que será melhor dizer-lhe o, senhor. Aí a tem.
 Lee voltou-se rapidamente, empalidecendo.
Reina Maxwell aproximava-se pelo passeio. Parou quando reparou que ele a tinha visto. E depois recomeçou a andar mais vagarosamente.
Ele tinha ficado rígido sabre a sela. A rapariga chegou a seu lado, pôs-lhe uma das mãos sobre a coxa varonil, erguendo o rosto. Estava muito pálida, tremiam-lhe os lábios e havia nos seus formosos olhos profundidades insondáveis.
Reinou o silêncio durante um longo espaço de tempo. Gordon contemplava interessado a cena. Depois, ela falou:
— Ias-te embora sem me prevenir?
— Sou um proscrito, Reina. Um homem marcado. E a sua voz varonil estava enrouquecida e nervosa.
— Continuas a ser o homem a quem tanto lhe faz morrer como viver?
— Bem sabes que não.
— Aonde vais agora?
— Não sei. A qualquer parte onde... possa acariciar um sonho. Um sonho muito formoso e impossível.
— Esperar-te-ei.
— Não faças isso. Talvez não volte.
— Voltarás. E eu esperarei. Não te esqueças, Lee Yancey. Passe o tempo que passar. E agora vai-te embora.
Ele inclinou-se, pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios. Depois fitou-a no fundo dos olhos. E soube que ela não falara apenas por falar.
Com um profundo suspiro, disse:
— Obrigado, Reina. Acredita que voltarei.
A seguir picou de esporas saindo para a rua. E foi-se perdendo ao longe, enquanto a mulher, de pé e no meio do passeio, o via desaparecer com os olhos marejados de lágrimas.
Gordon fez meia volta e foi coxeando encher o seu velho cachimbo. Era um fatalista. E agora estava firmemente convencido de que não morreria sem ver cavalgar por aquela rua os filhos de Yancey, o proscrito, e de Reina Maxwell, a rainha do West Mountain Valley, a rapariga mais formosa de todo o Colorado do Sul...
 

domingo, 14 de dezembro de 2014

PAS408. Uma presa na cave

— Faça os planos que quiser, Radison. Todos lhe sairão errados, tal como o de utilizar Kane para assassinar meu pai, provocando a catástrofe. Lee Yancey é uma peça demasiado grande para os seus enredos. E há-de matá-lo a si.
Os olhos de Radison tornaram-se mais pequenos e a voz fez-se mais suave:
— Está muita segura a respeito desse Yancey. Não se dará o caso de existir entre os dois algo mais do que um conhecimento recente? Gostava de saber como ele aqui apareceu com as botas de Jim Kane.
As faces de Reina ficaram encarnadas, mas aguentou impávida o olhar do bandido.
— Pergunte-lhe a ele, se é homem — desafiou ela: — Quanto ao que há entre nós dois não é assunto lhe diga respeito.
— É mais um motivo para que eu o mate.
— Só se for pelas costas...
— Os lobos matam-se de qualquer maneira.
A rapariga ia a responder quando se ouviu a voz do pistoleiro que a surpreendera:
— Radison, aí vêm eles.
Os três homens trocaram um olhar sombrio. Radison fez um gesto imperioso com a cabeça e o médico e Fulton subiram depressa a escada. Ao ficarem sós, o dono do armazém encarou com Reina e disse-lhe-lenta e friamente:
— Há seis meses recusaste casar comigo, Reina Maxwell. Pois bem. Só sairás viva daqui se eu entender. Lee Yancey morrerá dentro de pouca tempo e teu pai também. Se perder a partida venho meter-te uma bala no peito antes de eu estoirar com os miolos.
Ela respondeu com um sorriso altivo e desdenhoso:
— És um ser sujo e imundo, Bert Radison. Digno apenas de ser pendurado numa corda.
Ele perdeu as estribeiras, levantou a mão e esbofeteou-a. Depois, deu meia volta sobre, si mesmo e subiu a correr a escada, porque de fora tinham chamado novamente.
Caiu a tampa sobre o alçapão e Reina ficou sozinha apenas com os seus desagradáveis pensamentos. A não se dar um milagre, a sua sorte estava traçada. E o pensamento de que nada podia fazer para o impedir fazia-lhe bulir nas veias o sangue impetuoso. Não temia tanto por ela, mas por seu pai, por seu irmão e por Lee Yancey, o proscrito que, em poucas horas, se tinha apossado do seu coração.
Primeiro subiu a escada e tateou a tampa do alçapão. Nem se moveu. Tornando a descer, pegou na lanterna e pôs-se a inspecionar a cave contendo penosamente os nervos.
Havia montes de mercadorias mas nada que pudesse servir-lhe. Mas... Quase gritou de alegria ao tropeçar com qualquer objeto duro, nada menos nada mais do que uma pesada barra de ferro. Uma boa arma nas mãos de uma mulher forte e decidida...
Voltou para o centro da cave. O seu plano já estava feito. Quando Radison abrisse a tampa do alçapão, ela apagaria a lanterna e aguardaria, escondida nas trevas. Ele não sabia que ela estava armada. Quando se aproximasse suficientemente, poria à prova a dureza do seu crânio.
Entretanto foi sentar-se nos últimos degraus, tentando averiguar o que se passava em cima. Pareceu-lhe ouvir ruído de tiros. Estariam a assaltar o armazém? Era o mais provável. Em tal caso restava uma esperança de o canalha morrer.
Sem saber o que se passava, metida ali dentro, o tempo custava tremendamente a passar. Teria dado meia vida para o saber e tomar parte na luta. Subitamente pensou ouvir passos a aproximarem-se. E seguir um ruído de vozes ininteligíveis, cortado de repente pelo rouco estrondo de muitos tiros, por cima da sua cabeça. Depois um súbito silêncio, embora se escutassem vagos ruídos ao longe. Em seguida um barulho em cima da sua cabeça, na tampa do alçapão.
Rápida como o pensamento, Reina apagou a lanterna que tinha na mão e desceu a escada com a bar na mão direita, pronta para se defender e matar quem quer que fosse.
O alçapão abriu-se. Uma figura varonil recortou-se contra um fundo um pouco mais claro. Ao mesmo tempo tornaram a ouvir-se pela porta aberta os tiros com mais nitidez.
— Está aí, Reina?
Caiu-lhe a barra das mãos. E um segundo mais tarde voava pelas escadas acima, gritando com toda a sua alma:
— Lee Yancey! Sim, estou aqui!
O homem estendeu uma das mãos para a ajudar e recebeu-a nos seus braços quando ela, impulsiva mente, se atirou para ele, beijando-o sem o menor rebuço.

sábado, 13 de dezembro de 2014

PAS407. O homem a quem não interessava morrer ou viver

Os vaqueiros dos ranchos pareciam ter-se congregado no «Gamblers» quando Lee e os ganadeiros passaram para o salão. Mas não havia algazarra. Os mortos tinham sido retirados e os homens bebiam ou falavam em voz normal. Oitenta pares de olhos hostis e curiosos seguiram Lee enquanto se encaminhava para a porta de saída. Colding estava atrás do balcão, pálido e impassível. Os dois homens altos que tinham interferido em defesa de Lee já ali não se encontravam.
Reina foi atrás de Yancey, sem fazer caso do gesto do pai. Ao chegar à porta Lee voltou-se para ela.
— Aonde vai?
— Se sair consigo, não se atrevem a disparar.
— Isso é o que lhe parece. Não quero sobrecarregai a minha consciência com a sua morte. Fique aqui.
Maxwell levantou a voz:
— Bert, Rawhide, Crane, Holly. Vão até à rua e vejam se há novidade.
Os quatro, homens obedeceram em silêncio, olhando de soslaio para Lee. Os outros escutavam atentamente o que se passava.
— Não era necessário, Maxwell — disse Lee dispondo-se para sair. — Se a minha bala me aguarda lá fora, nada há que a detenha. Reina caminhou atrás dele e alcançou-o mesmo à porta, murmurando:
— Quero falar-lhe. Continue a andar.
Ele apertou os lábios e saiu.
Sob as estrelas e o vento que soprava, a rua estava deserta. Estranhamente silenciosa também, embora profusamente iluminada. Os quatro vaqueiros de Maxwell, de revólver em punho, estavam espalhados em várias direções.
Reina saiu e encarou-o.
— Quem o mandou vir? — inquiriu em voz tensa.
Sustentando o olhar, Lee levou dez segundos a responder:
— Bort Radison. Ele, o doutor, Colding e Fulton, o dono da mina Pine Creek formam a sociedade. Mas Radison pensa ficar dono único de tudo. Não diga nada a seu pai. Caso eu não regresse, então, conte-lhe tudo.
À rapariga tremiam-lhe levemente os lábios, a ponto de chorar:
— Tem de voltar, Kane. Quero que volte.
— O meu nome não é Kane. Kane morreu em Oklahoma quando se dirigia para aqui. Eu vesti o fato dele, calcei as botas e vim para aqui, sem saber ao que vinha.
— Matou-o?
— Encontrei-o morto.
— Quem é você, então?
— Chamo-me Yancey. Lee Yancey. Talvez tenha ouvido falar de mim.
— Lee Yancey... de Texas?... — e as palavras saíram quase inaudíveis por entre os lábios feminin6s. — Sim, creio que ouvi falar de si...
— Então já sabe a razão por que me é impossível regressar. Volte para dentro e cale-se por enquanto. É o único favor que lhe peço.
Ela reteve-o por um braço:
— Espere. Continuo a querer que regresse. Por cima do ombro ele procurou o olhar dela.
— Porquê?
— Não gosto que seja um homem a quem tanto lhe faz morrer como viver.
Ele levou outra vez tempo a responder. E falou com um tom de amargura na voz:
— Isso era dantes. Mudei de ideias há algumas horas. Adeus.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

PAS406. Em defesa de uma mulher

Rindo-se fortemente, os dois homens encaminharam-se para o armazém. A sua confiança e sentido de segurança eram evidentes. Nem se tinham incomodado a olhar para Yancey.
Este acabou de enrolar o cigarro e acendeu-o calmamente, dando uma boa fumaça e dirigindo-se para o armazém. Dez metros antes de chegar à porta já ouvia vozes encolerizadas. Era a de Winfield a que se escutava mais facilmente.
— Vocês não passam de uns malditos pistoleiro Mas a mim não conseguem abalar-me.
— Você está a falar muito alto, Winfield, porque tem a sua filha a seu lado. — Era Clem quem falava. — Mas se é homem saia para a rua a fim de resolver esta questão.
— Não trago revólver...
— Isso arranja-se já. Jack, empresta-lhe um dos seus.
— Não vás, pai — atalhou a filha. — Maxwell enviou estes dois matadores para te assassinarem, mas não se sairão com a sua...
Clem atalhou insolentemente:
— Ouça, rapariga. Não me agradam os insultos. Se for preciso dar-lhe uma bofetada para o cobarde do seu pai se portar como um homem, não hesitarei e fazer isso.
— Bandido!
 Soou algo como um choque seco, seguido de um grito angustiado de mulher. Lee estava já junto à porta. Chegou a ela numa passada e bastou-lhe um olhar para se inteirar da situação.
No armazém havia talvez umas vinte pessoas, na sua maioria mulheres. Toda a gente, à exceção de cinco pessoas tinha corrido para a parte de trás e observava a cena com apreensão. Radison, pálido e carrancudo, estava atrás do balcão com as mãos apoiadas no mesmo. Na sua frente e quase de costas para a porta, os três homens de Maxwell enfrentavam Winfield e a filha. O primeiro devia ter recebido um golpe na cabeça, pois estava quase caído sobre o balcão e o sangue corria-lhe pela cara. A jovem aguentava-o de pé, enquanto afrontava, pálida, assustada, mas em atitude reptadora, os agressores. Clem empunhava um revólver com a mão direita, sem dúvida a arma com que tinha agredido Winfield.
No preciso instante em que Lee chegava à porta, o mineiro soltou-se da filha e fez um gesto para se atirar ao seu agressor. A rapariga tentou impedi-lo, mas um dos outros meliantes agarrou-a rudemente, separando-a do pai. E Clem levantou ide novo o revólver com intenção de tornar a bater...
O estalido seco de um tiro fez que todas as testemunhas da cena reparassem na nova personagem. O revólver voou da mão de Ciem para o balcão e de ali caiu no chão, do outro lado. O homem proferiu uma praga e voltou-se rapidamente, segurando a mão entumecida. Também os seus companheiros se voltaram levando a mãos às armas... mas imobilizaram-se, olhando o fumegante cano do comprido revólver que lhes estava a ser apontado e o rosto severo de quem o empunhava.
No meio do súbito silêncio, Lee entrou no armazém e encostou-se à parede, ao lado da porta.
— Na terra de onde sou, insultar e ofender uma mulher é negócio de cobardes. As feições dos três pistoleiros tingiram-se de vermelho. Clem falou por eles.
— Maldito sejas! Quem te mandou meter onde não és chamado?
— Ontem, mal aqui cheguei, assisti a um cobarde assassínio. Dois é já demasiado. Deitem os revólveres para o chão. Depressa!
Os três homens trocaram rápidos olhares. E quanto Clem principiava um gesto que parecia natural o companheiro a quem quase tapava puxou rapidamente do revólver, não para o atirar para o chão, mas para o apontar à barriga de Yancey.
Não teve tempo de apertar o gatilho. Lee disparou e a sua bala destroçou a mão e o pulso do pistoleiro arrebatando-lhe a arma. O homem deu um grito e caiu ao chão, de joelhos, meio desmaiado pela dor.
— Mãos no ar! Depressa!
Clem e o outro não tinham esperado por aquele desfecho. Pálidos, praguejando entre dentes, obedeceram. Lee tornou a falar, desta vez para Winfield que, como os restantes, contemplava aturdido a sua intervenção.
— Reviste-os, Winfield.
No meio de impressionante silêncio, o mineiro obedeceu. Lee avançou então, vagarosamente, e enfrentou-se com Clem. O seu olhar fixou-se no do pistoleiro. Depois, deliberadamente lento, levantou a mão esquerda e esbofeteou-o duas vezes.
O pistoleiro rangeu os dentes e disse um palavrão. A voz fria e cortante ide Lee interrompeu-o.
— És um nojento e cobarde, um assassino de más entranhas. Não me agrada a tua cara. Pega num desses revólveres e salta para a rua. Vou matar-te.
Nenhum dos presentes esperava tal atitude. Clem menos do que ninguém. Passou a língua pelos lábios secas e nos seus olhos apareceu o temor.
-- Não posso mover a mão — resmungou. — O que pretendes é o que se chama um assassínio.
— Winfield não trazia armas quando o insultaste na presença da filha. E acompanhavam-te mais dois. Também o mineiro ferido, esse a quem Macklin liquidou ontem na rua a sangue-frio, não tinha qualquer arma. Agora sou eu que tenho vontade de matar alguém. A ti mesmo. Sai para a rua. Podes manejar a arma com a mão esquerda. Vamos.
O silêncio podia cortar-se faca. Ciem estava branco como a cera e não podia afastar o olhar dos frios olhos do seu implacável inimigo. Era um homem acostumado a jogar a vida entre dois tiros e possuía coragem, mas não era o mesmo lutar em condições de igualdade, ou sabendo-se superior ao adversário, do que fazê-lo assim a sangue-frio, sabendo que estava irremediavelmente perdido.
Tentou procurar ajuda. Mas um dos companheiros estava pronto, com uma das mãos desfeita. E o outro, desarmado como ele, nada podia fazer. Leo agarrou-o pelo colarinho e fê-lo rodar, enviando-o com um empurrão para a porta da rua. Depois seguiu atrás dele. Clem principiou a retroceder de costas, encolhido. Saiu assim para a rua, cheia de sol. O medo de morrer lutava dentro de si com o ódio e o desejo de lutar virilmente. Postado na soleira da porta, Lee viu o que se passava e um sorriso duro entreabriu-lhe os lábios. Lentamente, levantou a arma até à cara do aterrorizado pistoleiro.
— Há uma maneira de falar com os cães danados — disse devagar. — Dá-se-lhes um tiro na cabeça...
Uma mão pequena mas firme tocou-lhe no ombro. E a voz de May Winfield soou, rouca e alterada, aos seus ouvidos:
— Por favor! Seria outro assassínio!
Lee fitou-a. Depois concordou com a cabeça. E encarou de novo com o pistoleiro.
— Isto salva-te, Clem. A diferença entre um homem e um assassino a soldo. Pega no cavalo e não voltes a Westcliffe. Se voltares, traz o revólver engatilhado, mas então não escaparás com vida.
O pistoleiro percebeu que estava salvo e endireitou--se. A humilhação fez-lhe saltar lampejos de ódio aos olhos. Mas o receio não tinha ainda desaparecido por completo.
Os outros dois e o ferido, apoiando-se no que estava são, saíram para a rua, olhando de soslaio para o homem que os vencera. Lá fora, muita gente assistia a tão insólita cena. Winfield, ainda aturdido e carregado com o arsenal apreendido aos pistoleiros, também saiu e preparava-se para falar, mas Lee impediu-o, ordenando:
— É melhor ir buscar as espingardas aos cavalos. Os bandidos podem ter alguma má ideia...
Winfield concordou o dirigiu-se aos cavalos, depois de meter os revólveres nas algibeiras. Jake tinha tirado o lenço ido pescoço e vendava com ele a mão e o pulso do seu abatido companheiro. Clem pôs-se a ajudá-lo silenciosamente.
Quando Winfield regressou com as espingardas, Lee ordenou-lhes:
— E agora, ponham-se a andar.
Os três homens não refilaram e ajudaram o ferido a subir para o cavalo, montaram nos seus e dirigiram--se para o ribeiro. Ao passarem em frente do grupo parado diante do armazém, Jake ameaçou:
— Voltaremos à tua procura, forasteiro.
— Bem. Aqui estarei.
Depois de os homens se afastarem, Winfield e a filha olharam para o seu salvador.
— Você arriscou a vida por nossa causa, Kane — disse Winfield. — Foi um grande gesto mas incompreensível. Ontem...
-- Deixemos isso... Não gosto de assassínios a frio e muita menos que se ofenda uma mulher.
— Tenho de lhe apresentar as minhas desculpas, senhor. — A cara de May Winfield estava corada e os olhos brilhantes. — Pela sua coragem e por ter feito caso do meu pedido. Muito obrigada.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

PAS405. Não mais haverá descanso para quem calçar as botas do morto

— Lamento, amigo, — disse para o cadáver — mas tu já chegaste ao fim do caminho e eu quero prolongar o meu até poder. De modo que vou calçar as tuas botas.
Vestiu depois, uma a uma, todas as peças do vestuário do morto, ajustando o cinturão. E depois vestiu-o com as suas. Assentavam-lhe bastante bem e enganariam o mais desconfiado depois dos abutres completarem a obra. Colocou o cadáver tal e qual o encontrara e passou quase meia hora a apagar cuidadosamente todos os vestígios da sua presença. Depois, foi aos cavalos, desatou-os e montou naquele que pertencia ao desconhecido, deixando o seu em liberdade. O animal estava tão cansado que não ia sair do local encharcado e com erva. Ali o encontrariam os seus perseguidores, a quem calculava levar oito a dez horas de vantagem. Chegariam ao anoitecer e nessa altura já os abutres teriam deixado sem carne a cabeça do morto...
Esporeou o cavalo. Era um baio nervoso, com uma bonita cabeça. Valia a pena conservá-lo.
Pouco depois de se afastar olhou para trás. Os abutres encarniçavam-se já sobre a presa enquanto outros se aproximavam a toda a pressa voando sob o céu azul.
Tinha deixado todos os seus pertences nas algibeiras do fato que vestira ao morto. Inclusivamente o dinheiro, salvo uma centena de dólares. Não se podiam cometer erros com os Rurais. E até ao por do sol, quando acampou na margem do Kiamichi, não se atreveu a revistar as roupas e o equipamento, do falecido.
O homem não era um viajante vulgar. Levava com ele uma excelente provisão de camisas, peúgas e outras peças de roupa interior, devidamente acomodada. Sobre a roupa havia urna bolsa para tabaco de fabrico índio, um livro de mortalhas, uma navalha, um relógio, um lenço, vinte e dois dólares e trinta cêntimos em moedas, um isqueiro e um lápis. Pouca coisa, é claro, que excitasse a curiosidade. O revólver era tão bom como aquele que se tinha visto obrigado a abandonar e a «Winchester», completamente nova, era melhor do que a sua. Tal qual como as botas, o cinto era de fino cabedal avermelhado, sendo as botas providas de altos tacões e de esporas prateadas. As roupas, de excelente fabrico, tinham sido compradas recentemente. Além do cinto com balas via-se também na bagagem uma caixa de munições. A sela, sem dúvida, boa e cómoda. Havia ainda um outro fato, convenientemente dobrada e em estado novo, uma manta de lã e um impermeável amarelo. O cantil, uma frigideira pequena, a cafeteira, a colher e até um garfo, eram novos da mesma forma que o prato. Sem dúvida, o morto era pessoa de bom gosto, cioso das suas comodidades e que se preparara conscienciosamente para aquela viagem interrompida. Quem seria e para onde se dirigia? O território índio não era o lugar indicado para viagens de prazer... 
Ao pegar no fato novo, os seus dedos tocaram em alguma coisa dura. Uma carteira nova, de cabedal avermelhado, que estava no bolso interior do colete. E Lee assobiou ao abri-la e descobrir o seu conteúdo.
Seiscentos e vinte dólares em notas de Banco, novas em folha! E uma carta. Contou primeiramente as notas, tornando a colocá-las na carteira. Olhou depois para o sobrescrito. Estava dirigido ao senhor James Kane, em Nova Orleães e tinha sido reexpedida desta cidade a
Shireveport onde, ao que parecia, o senhor Kane estivera alojado, no hotel «Texas».
Já tinha ume nome. A carta deu-lhe um ponto de destino, outros dois nomes… e pouco mais.
«Senhor James Kane, Estalagem «Os Três Reis» — Nova Orleães.
Caro senhor: 
De acordo com o que combinámos, incluo um cheque passado a seu favor na importância de mil dólares. Uma vez recebido o mesmo, queira pôr-se a caminho imediatamente de forma que possa aqui estar em 4 de Julho. Convém que tome a barco até S. Luís ou Independence, continuando depois a cavalo para se habituar ao seu papel. Já sabe que tem de apresentar-se aqui como um cavaleiro errante. Quando chegar dirija-se primeiro ao «Frenchy Hotel». Depois virá ao meu escritório, como se fosse de passagem. Tenho a dizer-lhe que o nosso comum amigo Fallon teve a pouca sorte de tropeçar há dias com uma bala. Portanto, como o não conheço pessoalmente, dê o seu nome ao chegar. Espero que cumprirá literalmente as minhas instruções a fim de o nosso assunto ficar depressa resolvido satisfatoriamente para ambos. Até o ver em Westcliffe, aceite as cordiais saudações do amigo
Bert Radison»
À luz da pequena fogueira que tinha acendido, Lee releu três vezes a carta. Esteve até à meia-noite a dar voltas a cada, uma das suas frases. Por fim ficou com uma ideia aproximada da questão. O homem chamado Kane tinha recebido mil dólares do autor da carta a fim de se transladar a uma povoação chamada Westcliffe onde, aparentando ser uni vaqueira vagabundo, efetuaria determinada negócio para o qual havia de tomar precauções. Morrera o amigo pessoal que ali tinha e o seu sócio não conhecia Kane pessoalmente. Kane tinha de estar a 4 de Julho em Westcliffe. Como estavam em fins de Maio o homem dispunha de cinco, semanas. Ou seja, que Westcliffe se achava em algum ponto a leste do Mississipi, provavelmente nas Montanhas Rochosas. Kane não estava em Orleães quando recebera a carta mas em ShirevePort. Devia ter recebido ali mesmo o dinheiro e decidido fazer acto contínuo a viagem a cavalo. Dada a rota que escolhera, Westcliffe, devia achar-se a Noroeste, talvez para os lados de Kansas ou Colorado. E Kane não era exatamente um homem do campo, um vaqueiro. Que espécie de homem seria e qual o seu negócio com Radison? Só havia um meio de o saber: ir a Westcliffe.
Ao chegar a este ponto das suas congeminações, Lee Yancey deixou-se ficar a olhar para as brasas quase apagadas. Porque não?... Qualquer sítio era bom e tanto lhe dava um caminho como outro, desde que se afastasse de Texas. Radison tinha pago mil dólares a Kane para este o ajudar em alguma coisa e não devia ser defraudado. Provavelmente, terminado o negócio, haveria mais dinheiro para Kane. E qualquer coisa existia na carta que o fascinava. Qualquer coisa nas entrelinhas que tinha ficado por dizer... 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BUF071. Ratoeira mortal


Coleção Búfalo, nº 70)
 
Lee Yancey era um jovem proscrito, vítima das sequelas da guerra civil e da vingança dos vencedores contra os que apoiaram o Sul. Muito jovem foi desapossado da sua terra e, vingando-se, condenado a pesada pena de prisão. Após ter morto o ladrão dos seus bens, fugiu, praticou vários assaltos e o autor vai encontra-lo a caminho de Westcliff, uma povoação cuja paz assentava sobre um barril de pólvora devido à inimizade entre granadeiros e mineiros explorada por algumas personalidades com menos escrúpulos.
Na sua fuga incessante, Lee depara com um morto portador de uma carta de apresentação naquela cidade e resolve tomar a sua identidade para assim enganar os rurais que o perseguiam. Mas não tardou a perceber que se metera numa ratoeira com todas as caraterísticas para se tornar mortal.
Este livro de Cliff Bradley é um pouco mais maçudo que o habitual neste autor e é com dificuldade que se descobrem algumas passagens dignas de registo. A capa, não assinada, é apresentada como da autoria de Carlos Alberto Santos, mas sugere muito o traço de Longeron… Aliás o livro foi originalmente publicado em Espanha na coleção Seis Tiros da Editorial Toray, com a mesma capa, sendo pouco provável a autoria de capa atrás referido