segunda-feira, 8 de junho de 2015

PAS481. Ouvir um estalido de revólver

Dois dias mais tarde, John Foster despediu-se Mary.
Ela já sabia tudo. Explicara-lhe o plano e as precauções que tinham sido tomadas. O importante era evita que Frankie Gerson fugisse. Para isso, teria de o caçar no seu próprio covil.
John partiu ao amanhecer.
Um homem esperava-o na rua e acompanhou-o até que dobraram a esquina e se perderam da vista de Mary.
Ela ficou em Two Steel's, aguardando o regresso.
Seriam horas angustiosas. Tão angustiosas que não pôde resistir-lhes.
Tentou passear pelo quarto. Sair à rua, comer, ler... Tentou dormir.
Não o conseguiu.
Uma ideia obsessiva mantinha-se sempre na sua cabeça; John marchava ao encontro da morte! John ia em busca da vingança! Recordou aquele ser odioso que dava pelo nome de Frankie Gerson.
Recordou o assassínio do filho que levava nas entranhas. Recordou o que sucedera naquela maldita tarde...
— Não! — gritou, sem poder conter-se.
Saiu, correndo, do quarto e desceu ao «hall» do hotel.
Nervosa, perguntou ao rececionista o horário das diligências e as mudanças que devia fazer para chegar a Springtown.
Quando a si própria perguntou o que ia fazer àquela povoação desconhecida já estava na diligência, transpirando, sentada entre desconhecidos, acompanhada pelas suas recordações, com o ruído do girar das rodas como música de fundo.
Não fixou a paisagem.
Apenas se dava conta do passar do tempo.
Para que ia a Springtown...? E, uma vez ali, que faria?
Não o sabia. Contudo, ao empreender a marcha, não fazia outra coisa que não fosse obedecer a um impulso interior que a atirava para essa cidade desconhecida.
Anoitecia quando entraram em Springtown.
 A povoação era, na realidade, uma vilória formada por uma rua central, cuja única importância consistia em ser o ponto-chave para o embarque de gado, pois era urna das terminais do caminho-de-ferro.
Os arredores de Springtown estavam cheios de currais, a maior parte deles vazios.
A diligência entrou na povoação velozmente. O cocheiro fazia estalar o chicote, como se não bastasse-o ruído da caranguejola para chamar a atenção.
Mary assomou o rosto pelo postigo para observar.
Foi então que sucedeu o imprevisto, o que não podia pensar.
O cocheiro agarrou nas rédeas com todas as forças
No mesmo instante ouviu-se o relinchar dorido de animais e o ruído de vidros que caíam estilhaçados.
Ouviram-se também gritos.
Mary olhou para lá.
Viu um homem que rolava pelo solo, confundido co as sombras, levantando a poeira.
Viu os cavalos que puxavam a diligência erguer as patas no ar.
Viu o cocheiro de pé na boleia, com uma «Winchester entre as mãos.
Viu... Viu demasiadas coisas para se fixar concretamente numa delas: o homem que havia sido projetado por uma janela e rolava pelo chão.
O homem ficou estendido de bruços, tentando erguer-se, apoiando-se com todas as forças, nas mãos...
Abriu-se a porta do «saloon».
No limiar, iluminado pela luz do interior, sem que pudesse distinguir-se-lhe o rosto, apareceu um tipo alto e magro, empunhando um revólver.
Não disparou.
Avançou até ao centro da rua. Fê-lo com lentidão, como se sentisse prazer nos seus próprios movimentos.
E logo, na rua, ressoou uma gargalhada sádica, brutal.
— Ah, ah, ah, ah...! Ah, ah, ah, ah!
Ao rir-se, o homem inclinou-se para a direita e o rosto permaneceu iluminado umas décimas de segundo.
Tempo mais do que suficiente para que Mary o reconhecesse.
Era Frankie Gerson!
E o homem que estava no chão era seu marido, era John Foster!
Mary mordeu os lábios para não gritar.
Mas não pôde evitar um grito de horror quando ouviu o estalido do revólver que Gerson empunhava e viu John saltar pelo ar.
Mary pensou que tudo havia terminado para ela. A vida carecia de valor.
 

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