quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ARZ140.16 A serpente do deserto fez o que parecia impossível ao homem

No momento em que a avistou, ao dobrar um cotovelo rochoso, avistou também Roland, que saía. Roland ia bem vestido, como sempre, e levava um baú amarrado à garupa do cavalo, atrás da sela.
Viu vir Larsen e compreendeu em seguida do que se tratava. Não perdeu nem um segundo. Pusera pouco antes em liberdade todos os cavalos, para que ninguém o pudesse perseguir. Agora chegava aquele intruso, mas não duraria muito...
Um só disparo bastou para acabar com o animal montado por Larsen. Este caiu pesadamente no chão, enquanto Roland soltava uma gargalhada. A menos de trinta jardas parou e apontou a Larsen, o qual sabia que já não tinha tempo de sacar. E o seu inimigo via-o perfeitamente, porque as primeiras luzes do amanhecer surgiam no horizonte. A segunda gargalhada de Roland ecoou triunfalmente na claridade leitosa.
— Sabes que estás perdido, Larsen... Sabes que não poderás mexer um dedo antes de eu disparar. E como sei ao que vens, dispararei sem hesitar... Mas antes quero dar-te a satisfação de te dizer que tinhas razão... Sim, eu fiz assaltar a diligência e depois arranjei as coisas de modo a ficar com todo o ouro. E tu deste-me uma pequena fortuna, para me ajudares! Se tivesse tempo, oferecer-te-ia uma bonita lápida, boneco, mas não tenho. Antes de passar uma hora atravessarei a fronteira do México, de modo que penso acabar contigo agora mesmo...

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

ARZ140.15 A última fronteira para um xerife

Larsen parou. Teria parado mesmo no ar ao ouvir aquela voz. Porque era a voz do xerife Rocket.
Coberto de pó, com os olhos a brilhar como carvões acesos, a mão crispada a muito pouca distância do revólver, o xerife Rocket olhava-o fixamente a doze passos de distância. Boa distância para matar... ou para morrer.
— Procurei-te por todo o Sudoeste — resmungou o xerife. — Agora, maldito seja o inferno, chegámos os dois ao fim, chegámos à última fronteira. Vamos decidir isto de uma vez para sempre.
Larsen disse, num fio de voz:
— Sim, xerife, de uma vez para sempre.
— O teu revólver está carregado?
— Ainda tem, pelo menos, duas balas xerife. Mas antes de acontecer o inevitável quero que me escute. Todo o condenado à morte tem direito a formular o último pedido.
— Fala, mas sê breve. Juro-te que os meus dedos já tremem ao pensar no gatilho.
— Você não tem autoridade aqui, Rocket. Não procede em nome da lei.
— Bom, e depois? Procedo em nome do meu revólver.
— Contratou pistoleiros para me liquidarem por qualquer preço. Um desses pistoleiros foi até dos que assaltaram a diligência. Descobri-o porque o seu cavalo me trouxe, impelido pela querença, a casa de Roland. E contratar pistoleiros não é legal.
— Eu não falo de legalidades, rapaz; falo de balas.
— Pois ouça-me agora, xerife Rocket. Posto que estamos nesta situação, posto que não tem o direito de me prender, podemos chegar a um acordo. Deixe-me ir a casa de um homem que fica exatamente a duas milhas daqui. Assim que resolver um assunto com ele, terei muito prazer em conversar do nosso caso.
O homem da estrela denegou lentamente com a cabeça, ao mesmo tempo que um sorriso lhe aflorava aos lábios.
— Não há acordo, Larsen.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

ARZ140.14 Um cavalo com uma conduta estranha e salvadora

Larsen parou um momento no meio da rua principal, a olhar com saudade os edifícios da pequena cidade. Jamais teria podido imaginar que um lugarejo tão insignificante como aquele penetrasse tão fundo no seu coração.
Estava numa aldeola perdida nas imediações da fronteira, num sítio ao qual quase não levava nenhum caminho, num recanto situado em parte alguma. E, no entanto, pelo simples facto de Ingrid viver ali, a povoação de Deming adquiria um significado diferente. Era um lugar doce, um sítio bom para viver e morrer.
Mas Larsen não viveria nem morreria ali. Larsen tinha de fugir, teria de fugir sempre, eternamente, enquanto ó xerife Rocket continuasse a persegui-lo com aquele ódio fanático. Estava a cavalo e mal levava provisões que lhe permitissem chegar ao México. Uma vez lá, pensaria no que devia fazer.
A ferida doía-lhe intensamente, mas não tinha febre. Aquela dor devia ser a inevitável consequência dos últimos esforços despendidos. Mais valia não pensar nela.
Mas enquanto Larsen estava mergulhado nestas reflexões, despedindo-se da cidade, alguém decidira que ficasse ali.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ARZ140.13 Ainda há quem entregue o ouro ao bandido

Roland regressou silenciosamente a sua casa, dando uma volta para não ser ouvido, e por fim entrou por uma janela das traseiras. Já colocara debaixo da janela um grosso tapete, para abafar o ruído dos seus passos, e dali entrou silenciosamente num quartinho que lhe servia de arrecadação e no qual havia um armário que Ingrid jamais se atreveria a abrir. Era o armário onde se guardavam as carabinas e as munições, coisas que para nada interessavam à mulher.
Arrumou as carabinas no armário, em cujo fundo havia um buraco muito bem dissimulado pelas caixas de munições. Nesse buraco ia a colocar o baú, mas antes sentiu a tentação irresistível de o abrir.
Queria ver os duzentos mil pesos mexicanos, queria desfrutar a contemplação de uma fortuna que o convertia no homem mais rico da região.
O conteúdo daquele baú permitir-lhe-ia viver no México como um nababo, até que dentro de cinco ou seis anos, esgotado o dinheiro e cansado da mulher que o acompanharia, começasse vida nova.
O pensamento de que aquele dinheiro custara muito sangue e, além disso, se esgotaria um dia, não o preocupou absolutamente nada.
Tinha na sua frente cinco ou mais anos de riqueza e prazer na companhia de urna mulher que lhe transtornava os sentidos. E isso era mais que suficiente para um homem como Roland.

domingo, 27 de outubro de 2019

ARZ140.12 Perseguição Implacável chega a Deming

O homem que avançava penosamente entre os rochedos ouviu o cavalo relinchar segunda vez, o que parecia indicar que farejara à distância a presença de algum outro ser humano.
Pouco antes tinham-se ouvido tiros e a isso se devia o facto de o cavaleiro se ter desviado do seu caminho para se meter por aquele labirinto rochoso. Mas estava convencido de que, quando chegasse, já não encontraria o autor das detonações.
O relincho do cavalo fez-lhe conceber a esperança de que talvez ainda chegasse a tampo. Picou de esporas e obrigou-o a avançar mais depressa na escuridão, embora com risco de que o animal partisse uma pata.
 Pouco depois julgou distinguir um leve clarão entre umas rochas. Ao aproximar-se mais, viu que se tratava de uma fogueira prestes a extinguir-se. Em torno dela descobriu uns vultos que não tardou a verificar serem cadáveres de homens.
O recém-chegado desmontou e, à luz da fogueira, observou os rostos dos mortos. Conhecia-os, conhecia-os muito bem. Eram todos bandidos da fronteira, tipos que cometiam os seus crimes no Sul do Novo México, valendo-se da relativa impunidade que lhes proporcionava o poderem passar com facilidade de um país para o outro.
Eram procurados em vários condados, entre os quais o dele. Porque o homem que acabava de chegar à cena da matança e de desmontar junto da fogueira, não era senão o xerife Rocket. Desta vez vinha só. Nenhum pistoleiro a soldo o quisera seguir para capturar um tipo tão perigoso como Larsen e nenhum voluntário se oferecera também para aquele trabalho. E como Rocket não tinha autoridade para isso na região, tão--pouco pudera formar uma milícia. Mas ele continuava sozinho. Seguiria a pista até à última pegada, até ao fim.
— Até à morte de um dos dois.

sábado, 26 de outubro de 2019

ARZ140.11 Um bando desfeito

A pequena fogueira cobria de leves resplendores os rostos dos bandidos reunidos no acampamento que Roland visitara noites antes. As estrelas recamavam o céu e a quietude era absoluta.
Os cinco homens reunidos ali tinham quase a sensação de se encontrarem numa ilha deserta, no fim do mundo, onde nenhum perigo os poderia ameaçar. E esse excesso de confiança, originado por vários dias, de estada ali sem o menor contratempo, levara-os a não pôr ninguém de guarda à entrada do refúgio.
Agora os rostos de quatro deles estavam voltados com irritação para o homenzinho que imitava o uivo dos coiotes e se entretinha a caçar as serpentes do deserto.
— Já mataste esse bicharoco? Não o terás escondido perto daqui, com risco de se introduzir no acampamento?
— Juro-lhes que...
— Tu e as tuas malditas serpentes acabarão na fogueira! Nunca vi mania mais repugnante do que essa! Podias entreter-te a colecionar mulheres...
— As mulheres são mais traiçoeiras do que as serpentes e ligam-me muito menos importância.