sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

IV. Contacto com fazendeiro e emboscada

O comboio do Norte abrandou o seu resfolegar, ao entrar nas agulhas e, pouco depois, detinha-se na estação, onde um grande letreiro indicava Elkhorn.
Os viajantes que se apeavam ali podiam escolher entre a variedade de carruagens de aluguer com destino a diversas localidades.
O advogado Market havia pedido telegraficamente que à chegada do comboio estivessem preparados dois cavalos. E o agente comercial da firma «Dalton & Dalton» esperava Market para lhe mostrar os dois soberbos animais, que Taylor julgou capazes de resistirem à mais longa caminhada, através dos piores terrenos. Também pensou em que, para um homem de leis, amante das comodidades, o californiano mantinha-se a cavalo com a facilidade de um cavaleiro consumado.
Market só esticou as rédeas quando o animal chegou junto de uma cerca, por detrás da qual havia um barracão onde se lia a indicação seguinte:
MINAS DALTON
— Aqui começa o ramal que segue, sem interrupção, vinte e duas milhas para Leste, quase em recta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

III. Escolha difícil: Contrato ou prisão

Na vasta enxovia, semelhante a uma jaula, Bart Taylor apalpou a cabeça, que estava toda enrolada em ligaduras. Depois, verificou que lhe faltavam duas coisas: o chapéu e a navalha. Por fim, levantou-se.
Em sete enxergões dormitavam, em diversas posições grotescas, cinco marinheiros e dois vadios.
Uma súbita vertigem fez que Taylor se agarrasse às grades, para poder manter-se de pé.
Ao fundo do corredor, através de uma janela alta, coava-se a luz do dia, que provinha certamente da porta que comunicava com o corpo da guarda. Tornou a estender-se, porque não lhe era possível conservar-se de pé.
Doía-lhe o corpo, sobretudo o lado esquerdo da cara, onde a primeira pancada da matraca lhe havia feito uma brecha. A testa ardia-lhe bastante, mas era menos o mal-estar físico do que a sua sensação de moral abatida, ao ir-se transformando em frequente visitante de prisões.
Amodorrou-se de novo, mas em breve saiu do seu letargo. Da porta de grades, uma voz repetia o seu nome. Era um vigilante que chamava:
— Bart Taylor! Bart Taylor! Ao locutório.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

II. A primeira sova no camarim de Olímpia

— Olá, Bart. Crê que lamentei bastante o que sucedeu em Albany.
Fechando a porta do camarim, Bart Taylor deitou o chapéu para trás, enquanto examinava aquela que diante do espelho ia tirando o excesso de vermelhão dos lábios, o «rouge» das faces e o «Khol» das pestanas e das sobrancelhas. Tinha, porém, ainda o vestido de luto da comediante, com gazes sabiamente repartidas com sedas e rendas.
— Temos de terminar o «nosso»... — começou ele, com voz rouca.
— Já terminou, Bart — interrompeu-o Olímpia. — Nós não seríamos felizes, porque tu tens génio de mais e atormentam-te suspeitas infundadas. Eu disse-te constantemente que quando tivesses um emprego sólido e me demonstrasses firmeza de propósitos, então...
— Tens de abandonar esta profissão...
— Conheceste-me nela, Bart, e além disso tenho de viver.
— Deixa de te olhares ao espelho! Ninguém brinca comigo e eu não sou nenhum boneco de palha.
— Lá voltas tu a exasperar-te... Eu não tenho culpa de que te despedissem do lugar de fator dos caminhos de ferro de Oklahoma, por brigão...

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

I. Seattle, cidade de perigos e excitações onde a bela Olimpia recusa o advogado

Os habitantes de Seattle não mentiam, quando afirmavam, com certo orgulho, que não havia no Mundo inteiro um espetáculo mais pitoresco do que o oferecido pelo buliçoso porto dos barcos que faziam o tráfego entre o Oriente e a costa do Pacífico.
Também era verdade que a profunda baía, formada pelas águas do Pacífico, criava, em redor das colinas, onde se escalonavam os edifícios de todas as classes, uma série de rios, lagos e tanques que davam a Seattle um aspeto original.
Onde os nativos exageravam um pouco era em vangloriarem-se de que a noturna Seattle superava São Francisco em perigos, excitações, escândalos e na grande quantidade de vítimas, enterradas ao amanhecer.
Turbulenta como cidade aumentada vertiginosamente, a partir da corrida rápida e impetuosa ao ouro de 'Yukon em 1897, Seattle contava em 1905 um bom número de habitantes já proprietários, ex-aventureiros ou pesquisadores, convertidos momentaneamente em potentados, que haviam trocado os incómodos e contrariedades da busca de fortuna por sumptuosas mansões no esplêndido bairro de Punget Sound.