terça-feira, 13 de dezembro de 2022

BUF145.08 Oração sobre os sofrimentos da alma


O rasgão do ferimento causado pela bala não era muito grave; nem sequer chegara a alargar-se mais do que estava antes da luta. Dois dias, apenas, bastaram para que a ferida tornasse a cicatrizar e voltasse à forma em que se encontrava quando os assaltantes chegaram.

Vicky mal se tinha deixado ver, mas Frederick sabia que ela estava ali permanentemente e que nunca deixava de perguntar por ele, quando a negra saia do seu quarto. Ainda não tinha perdido aquela timidez e aquele acanhamento que sentia quando ele a encarava. E Fred ainda não tinha podido ver por completo, ou, pelo menos, a seu gosto, aquelas pupilas azuis, tão brilhantes e tão puras. Levava o dia inteiro a. fazer votos por que ela o visitasse e quando isso, por acaso, acontecia, não sabia que havia de lhe dizer. Envergonhada por se encontrar no aposento sem arranjar pretexto que o justificasse, voltava logo a sair. E o curioso é que arranjava sempre uma explicação para sair e nunca para ali entrar.

Anita animava-o muito, mas nunca lhe falava de Vicky. Quando se referia a ela, designava-a sempre por «a menina».

— Sinto muito os incómodos que dou ao senhor Blaise — disse-lhe certa vez, Frederick, quando se lhe ofereceu a ocasião. — Estou ansioso por poder montar a cavalo para daqui sair e deixá-los em paz.

— Confesso que não sei se o patrão terá os mesmos desejos — respondeu ela, com ar enigmático.

— Tendo-me aqui escondido, está correndo sérios riscos.

— O meu amo é um sulista dos quatro costados, mas é um sulista de bom coração. Eu não era escrava antes de rebentar a guerra; era o mesmo que sou agora, com a diferença de que, antes, era obrigada a estar ao seu serviço e não podia retirar-me mesmo que quisesse, e agora não quero ir-me embora, apesar de o poder fazer se quiser.

— Mas eu não sou simplesmente um sulista. Sou um proscrito perseguido pela justiça.

— O patrão entende que procede bem... e o patrão é sempre o patrão.

Frederick sabia que Blaise Stiles era um homem de carácter; um grande homem. E começou a pensar como lhe seria possível saldar aquela dívida. Não encontrou qualquer resposta; pressentia que nunca o conseguiria.

Quatro dias depois da partida de Diogo, Madalena subiu até à cabana. Fred ouviu os passos do cavalo que se aproximava e, pouco depois, a voz da jovem que dizia:

— Venho visitar minha irmã.

Ao que a negra respondeu na sua algaravia peculiar:

— «Menina vir aqui ver senhô Wheeler».

Madalena riu-se alegremente. Ouviu-se a voz de Vicky e, logo a seguir, passos muito rápidos sobre o soalho. Abriu-se a porta e apareceu a jovem. Tinha um cabelo fulvo, tão reluzente como o oiro. Trajava um vestido de seda azul que lhe assentava maravilhosamente e que condizia com o oiro dos seus cabelos e com o azul dos seus olhos.

— Olá, senhor Fred!

— Olá, Madalena!

— Conhece-me?

Entrou alegremente no aposento e aproximou-se do leito com a maior naturalidade.

— Encantada por saber que já «esteja bom».

E com um à-vontade que deixou sua irmã assombrada, foi dar um beijo nas faces do mancebo. — Ih! Como pica...

Afastou-se para o lado e sentou-se numa cadeira com a maior desenvoltura.

— Tomei a liberdade de lhe trazer uns bolos. Gosta, não é verdade?

— Muito.

Vicky ficara de pé junto da porta, dando largas aos pensamentos que a cena lhe despertara.

— Olhe, este é de chocolate.

E introduziu o bolo de chocolate na boca do homem. Vicky sentiu-se estremecer. Fred e Madalena comeram com a maior satisfação. –

— É muito agradável, não é?

— Muito bom.

— Oiça.

— Diga.

— Está muito feio com essas barbichas. Porque não há-de barbear-se?

— Não tenho com quê.

— Os homens das montanhas servem-se de uma navalha.

— É coisa que não tenho.

— Lá em casa deve haver disso. Depois cá lha trarei... ou pode Vicky encarregar-se de o fazer.

— Ficará para quando eu possa levantar-me.

—E quando pensa fazê-lo?

— Vou amanhã tentar a aventura.

Continuaram a comer os bolos. Madalena ofereceu deles a sua irmã, mas ela nem sequer deu conta. Tinha os olhos cravados no chão.

— Não queres?

Encolheu os ombros e voltou-se para o ferido:

— Que é que ela tem?

Fred não soube responder. Adivinhava vagamente os motivos do seu mutismo, mas não achou resposta concreta. Deixou de comer e sentiu-se contrariado. Madalena também se apercebeu de qualquer coisa e pretendeu amenizar a situação. Mas, apesar de querer agir com o mesmo desplante anterior, não lhe foi possível consegui-lo. E foi Vicky quem, com a sua sensibilidade, salvou a situação, retirando-se silenciosamente do quarto.

— Eu estava ansiosa por que ela saísse — confessou Madalena. — Tenho uma coisa para lhe dizer.

Aproximou-se mais para junto da cama, arrastando o banco atrás de si, e aproximou tanto o seu rosto do de Frederick que este sentiu o seu hálito ardente. Os seus olhos, tão azuis como os de Vicky, procuraram avidamente os do homem, com persistência e audácia, dizendo com calor e com ternura:

— Eu também estou apaixonada por si, Fred.

O homem não conseguiu compreender, de repente, a confissão, porque ele «também» não estava a ligar à declaração. Continuou a olhar para a rapariga, não querendo vergar-se ao império daqueles olhos azuis, mas ela não o desfitou. E, lentamente, foi aproximando a sua boca da do homem acabando por colar os seus lábios escaldantes como brasas, nos lábios enfebrecidos de Frederick.

— Amo-te!

— Madalena...

Lançou-lhe os braços ao pescoço, derrubando o cartucho dos bolos e voltou a beijá-lo com avidez. Fred, talvez involuntariamente, rodeou também, com os braços, a cintura da jovem e apertou-a suavemente.

A caricia durou longos minutos. Por fim, Madalena separou-se dele, ofegante, com um brilho malicioso no olhar, sorrindo-se com ar provocante. Encostou a sua cabeça, lado a lado, com a do mancebo, pegou-lhe numa das mãos e começou a beijá-la.

— Vicky leva vantagem sobre mim, mas eu virei vê-lo todos os dias e prometo trazer-lhe muitas coisas. O papá quis que fosse ela a vir para aqui por lhe ter dito que se encontrava apaixonada; eu limitei-me a ficar calada, porque...

Fred não compreendia nada... ou, antes, começava quase a compreender. Claro que Vicky, ao dizer que estava enamorada, queria referir-se a si próprio. Vicky, apaixonada por ele! Vicky... Aquilo era a concretização do seu sonho; do sonho que ele tanto alimentara. Era o desejo que, uma vez realizado, lhe causava uma dor e um pavor inenarrável. E isto, porque o seu futuro se lhe apresentava cheio de trevas; de trevas tão tenebrosas como as da morte.

Madalena acariciava-lhe o cabelo, sorrindo cheia de felicidade, deitada, lado a lado, no seu leito.

— Madalena...

Levantou-se e deixou-se cair sobre ele, colando a sua boca contra a dele, afagando-lhe o pescoço e a cabeça. A rapariga escaldava. Já não sorria. Quando desviou o rosto, estava cheia de ansiedade e de angústia, da paixão. Os seus olhos semicerrados e os seus lábios, comprimidos, tinham estampado um ricto misterioso...

— Menina! — murmurou a voz da negra.

Fred sentiu um estremecimento, mas Madalena nem sequer se comoveu. Continuou a olhar para ele da mesma maneira e foi-se retirando pouco a pouco.

— Voltarei amanhã — prometeu a jovem.

Fred não respondeu. A negra estava parada no meio da porta. Quando Madalena se aproximou dela, disse-lhe, com uma entoação um tanto estranha:

— Fecha bem a porta ao teu sangue. Não consintas que continue a correr.

Retirou-se para o lado, para que a rapariga pudesse passar, e lançou um olhar indefinido para o enfermo. Madalena não se deu ao trabalho de despedir-se.

Fred, ouviu o ruído do cavalo ao empreender a retirada. Cravou os olhos nas traves do tecto, com o pensamento nas duas raparigas. Havia em tudo aquilo qualquer coisa que lhe desagradava; era a impressão de que estava sendo envenenada a vida do homem que tão nobremente se portara para com ele. Além disso havia ainda outra coisa: Vicky estava apaixonada e era certamente por ele. Vicky...

Debalde esperou que ela entrasse no seu quarto. Decorreu o tempo sem que ela aparecesse. Pressentiu que a rapariga tivesse presenciado a cena e que se sentisse agora roída de ciúmes, ou se encontrasse cheia de vergonha ou talvez de medo.

Anita trouxe a comida. Estava muito séria, mas não com cara de aborrecida. Assim que poisou o tabuleiro de madeira sobre a cama, disse:

— Não se amofine com a menina Madalena. Tem uma natureza demasiado impetuosa. tal qual, como sua mãe. Apaixonou-se por um vagabundo que tinha também um cavalo negro e ficara ferido. Casaram-se e viveram sempre muito felizes. A patroa, a senhora Tessie, nunca teve de se arrepender do passo que deu..., mas a menina Madalena...

Ajudou o ferido a sentar-se na cama e colocou-lhe almofada a amparar-lhe as costas.

— Está comodamente?

— Sim. Muitos agradecimentos.

— Vicky está muito triste.

— Triste?...

— Coisas de raparigas.

Começou a comer, mas sem qualquer apetite. A negra, sentada no banco, contemplava-o em silêncio. No exterior não se ouvia qualquer espécie de ruído. Fred sentiu um desejo enorme de se levantar. Olhou para a negra e disse:

— Poderei levantar-me?

— Na opinião do médico, não há melhor enfermeiro do que o próprio doente. Se quiser, experimente, se bem que me pareça melhor esperar para amanhã. Se desejar que lhe traga o preciso para se barbear...

Fred aceitou. Assim que acabou de comer, a negra trouxe-lhe um púcaro de água e uma navalha afiada numa pedra. Sentado na cama, Fred começou a dolorosa operação de rapar a sua espessa e dura barba. Demorou, talvez, um pouco mais de uma hora, mas depois, apesar de sentir a pele irritada, obteve uma sensação de frescura.

Resolveu então levantar-se. Vestiu-se e saiu do quarto. Anita encontrava-se numa dependência que servia de refeitório, no sítio onde Fred tinha ameaçado com o revólver o casal dos mexicanos. Estava sentada em frente de uma mesa tosca, tratando de limpar e de escolher algumas ervas secas que ia guardando num tacho de metal.

— Sempre se resolveu a levantar-se?

Fred deu alguns passos, hesitante. Faltavam-lhe as forças; fraquejavam-lhe as pernas e sentia a cabeça leve, como se a não tivesse agarrada ao corpo. Parou junto da criada, olhando em toda a volta, no intuito de descobrir a rapariga.

— O senhor é muito alto — disse a negra, medindo-o de alto a baixo com os seus grandes olhos de pequeninas pupilas.

Fred sentou-se num banco junto dela.

— Vicky encontrava-se um pouco indisposta — disse a preta sem voltar a cara e adivinhando os pensamentos do homem.

—Está na cama?

— Está, sim. Vou preparar-lhe um chá com estas ervas. São muito aromáticas, não são?

Fred concordou, em silêncio. Muito gostaria ele de conhecer os pensamentos. de Anita. Pressentia que a mulher, além de saber muito, possuía uma grande experiência sobre o amor.

— Posso ser eu o portador? — perguntou.

Anita encarou-o.

— A menina gostaria, com certeza, de o ver assim, mas talvez lhe faça mal tanta alegria. Vou lembrar-lhe a conveniência de regressar a casa. A altitude não é da. melhores coisas para o seu organismo.

Ergueu-se, pôs água ao lume, onde alguns troncos em brasa deitavam um calor sufocante e voltou a sentar -se no mesmo sítio, continuando a escolher as minúsculas folhas e separando os cavacos inúteis.

— Os ciúmes são piores do que veneno, senhor Wheeler disse a mulher abanando a cabeça. E a menina Madalena é tão bonita e tão provocante...

Olharam um para o outro, como se, de repente, ambos tivessem obtido a mesma revelação.

— Que pensa o senhor fazer? — perguntou ela em tom grave.

Fred, que compreendera a pergunta, respondeu:

— Aguardo que esteja em condições de fazer meia jornada a cavalo para me retirar.

— Não sei o que seja pior. O amor é uma coisa sempre ruim, senhor Wheeler.

Voltou a levantar-se para deitar um punhado de folhas na vasilha. Como se as suas mãos fossem refratárias ao fogo e ao calor, retirou a vasilha. Filtrou a água, encheu uma chávena e olhou para o homem.

— Aqui a tem. Espero que lhe cure aquela tristeza.

Fred compreendeu. A linguagem de Anita não era difícil de interpretar. Pegou na chávena e encaminhou-se para uma das portas, para a qual Anita olhara por diversas vezes. Bateu com os, nós dos dedos e entrou, mesmo sem esperar resposta.

Vicky estava estendida na cama, com o rosto muito pálido a espreitar por entre a brancura dos lençóis. Os seus olhos tinham um colorido extraordinário e a comissura dos seus lábios dava a impressão da abertura de uma ferida a sangrar. Mal encarou com Fred, ocultou a cabeça debaixo da roupa.

Fred sorriu-se com indulgência. Colocou a chávena fumegante sobre a mesa-de-cabeceira e puxou para trás a orla do lençol, deixando a descoberto o ruborizado rosto da rapariga. Vicky fechou os olhos e então, Fred, obedecendo a um impulso irreprimível, debruçou-se sobre ela e beijou-a na boca com a maior suavidade.

— Vamos, toma o chazinho, Vicky. Vai fazer-te muito bem. Foi Anita quem o preparou.

Vicky olhava-o com os seus olhos muito brilhantes, Fred sorriu-se, acabando por conseguir que o traço vermelho, que lhe delimitava os lábios, desaparecesse.

— Amanhã iremos dar um passeio. Queres?

Os olhos azuis refulgiram.

— Queres que te ajude a levantar?

Amparou-lhe a cabeça com uma das mãos, enquanto, com a outra, lhe chegava à chávena aos lábios como se se tratasse de uma criança. O seu ferimento incomodava-o, mas era uma dor de tal maneira agradável que gostaria de a sentir assim durante o resto da vida.

As faces aveludadas haviam readquirido a sua cor normal.

— Levanto-me, agora? — perguntou.

— Não — respondeu Fred, sorrindo. — Amanhã sairemos os dois, está bem?

Antes de retirar-se, beijou-a na testa com a mesma, suavidade anterior. Pegou na chávena e abandonou quarto. Quando passou por junto de Anita, nem sequer se dignou olhar para ela.

Colocou a chávena na mesa e recolheu-se ao seu quarto. Deitou-se na cama, pôs-se olhar para um ponto invisível do tecto e ouviu a voz negra:

— Os sofrimentos da alma são muito piores que do corpo.

Sem comentários:

Enviar um comentário