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Era uma cena de terrível intensidade, de tanto dramatismo, que parecia ultrapassar o real.
Os cinco bandidos avançavam lentamente, passo a passo, com as feições crispadas ante a serenidade do inimigo.
— Searles! — falou Jimmy, pronunciando as palavras entre os dentes. — Searles! — repetiu. — Ante os mortos que nos rodeiam, ante os homens que podem ainda morrer, acuso-te de seres o «Cavaleiro Negro»!
Antes que a última sílaba se perdesse no ar, falaram as armas. A cena ficou envolta pelo fumo da pólvora.
Ao mesmo tempo que os secos estampidos, rasgarem o ar gritos e maldições; depois, nada; um silêncio pesado, as asas negras da morte pousando na terra.
Cem pares de olhos olharam, como que hipnotizados, a tragédia. Jimmy tinha caldo, segundo parecido crivado de balas, e erguia-se sobre os joelhos.
Três bandidos, Carl, Hartlhey e Stanley, jaziam no solo, mortos, de boca para cima, com as testas atravessadas por balas.
Coberto de sangue, horroroso na sua atitude de besta que repugnava à vista, Searles lutava contra o negro manto da morte que tapava já os seus olhos.
Doe, alcançado em cheio no ventre, revolvia-se no solo, uivando
Nem um só dos espectadores se moveu, fixos na luta. Fazendo um esforço sobre-humano,
Jimmy recarregou os tambores das suas armas.
Conseguiu-o tateando os revólveres, ajudado pela sua grande experiência, enquanto o seu corpo se estremecia, sacudido violentamente pela dor.
Os seus olhos inundados de sangue, viram o rosto de Nelly, sorrindo-lhe na distância, animando-o.
Conseguiu levantar-se ainda mais.
Em frente dele, horrível, bramindo sacudido pelos últimos arrancos da sua ferocidade, o «Cavaleiro Negro» levantava o «Colt» e procurava-o, afastando as trevas que o cegavam com a mão esquerda, que era já uma garra impotente e enclavinhada.
As armas de Jimmy despejaram o seu mortal fogo, regando o corpo do bandido, que se paralisou no ar, para dobrar-se •convulsivamente, morto.
Jimmy tentou recarregar de novo, mas não o conseguiu. Os seus joelhos, subitamente leves, inexistentes, enterraram-se no vazio, arrastando-o para a morte.
Riscas vermelhas de fogo atravessavam-lhe o cérebro, e todo o seu corpo, coberto de sangue, ia ficando pesado como chumbo.
O valente texano, cumprida a sua vingança, dobrou-se sobre si mesmo, deixando de lutar.
Mas não tinha perdido os sentidos. Vagamente, confusamente, ouviu gritos à sua volta, muitos passos.
Conseguiu entreabrir os olhos e viu, envoltas em névoa, fantasmagóricas, muitas pernas que o cercavam, negras bocas de revólver que apontavam para ele. Algumas palavras soltas, irreais, chegaram ao seu cérebro.
— É o «Cavaleiro Negro»... Acabem com ele... Acabem com ele.
Então compreendeu o que se passava: morto Searles, continuavam a pensar que era ele o «Cavaleiro Negro».
Lutou para libertar-se do vazio que o prendia, da imobilidade absoluta que o vencia, e conseguiu apenas enterrara-se mais, como se estivesse preso num pântano.
Viu que uma bota lhe pisava a cara, sem o sentir, e ouviu, longe, muito longe, um estampido que abria na sua carne quase insensível uma marca silenciosa, um escorrer lento.
Tudo o que o rodeava voltou a emudecer. As pernas retrocediam. Ouvia o galope de um cavalo? Não; era silêncio, tudo silêncio.
Os incêndios aumentavam ante os seus olhos, um resplendor enorme, enchendo as suas pupilas, queimando--lhe a respiração débil, cada vez mais débil.
Sim; eram incêndios..., uma cascata de ouro, uma cabeleira. Beijavam-no beijava-o Nelly, distante e presente; Nelly.
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