quarta-feira, 23 de junho de 2021

ARZ002.12 Encontro entre duas mulheres e proposta excêntrica

Por aquela altura, Dicky Root teve necessidade de sair de São Francisco, e fê-lo porque a sua presença era imprescindível em Salem, Oregón, onde ia constituir-se uma sociedade de madeiras, da qual Dicky ia ser o primeiro acionista e também diretor.

Se a sua presença não fosse tão necessária, teria ficado na cidade, não porque o «Dragon-fly», o seu negócio de maior vulto, seu quartel general e domicílio particular, tudo isto em conjunto, requeresse a sua constante presença. Tudo caminhava o melhor possível, e naqueles últimos dias nem Hazel nem os seus amigos tinham voltado a aparecer. Mas era precisamente por isto que Dicky receava. Sabia que o orgulho daquela rapariga não podia ter obedecido ao conselho que ele lhe dera de que não voltasse, ela e os amigos, ao cabaré.

Saiu, pois, de São Francisco com a certeza de que, no regresso, Hazel teria intentado alguma coisa contra ele e contra Hutchinson. Podia muito bem defender-se de Hutchinson, prevenindo-o antecipadamente de que Hazel havia subornado um dos seus empregados, o que na noite da sua visita ao «Fortune» prestara serviço no gabinete reservado em que se realizara a entrevista.

Se ouvira tudo quanto ali se dissera e isto chegava ao conhecimento da polícia, Hutchinson teria de ver a forma de justificar o seu grande interesse pela hipoteca duma quinta que rendia agora tanto 'dinheiro, e por causa da qual se haviam dado tantas mortes.

«Não serei eu que provoque o derrubamento do túnel —pensou. — Mas se o desastre se der, e Hutchinson ficar lá dentro, é sinal de que devia alguma coisa…Hutchinson não é o incauto que eu era quando Dave me pilhou...».

Saiu de São Francisco sem nada lhe dizer. A sua chegada a Salem coincidiu com um telegrama que Jimmy lhe enviou: «Regressa quanto antes. Vejo as coisas feias. Jimmy».

— A tua perna de pau -- comentou, de bom humor.

Não obstante, estava convencido de que o seu amigo tinha graves motivos para estar alarmado. Dois dias depois, quando mais absorvido se encontrava no negócio, chegou outro telegrama de Jimmy.

«Isto continua mal. É melhor, adiares o teu regresso».

Conhecendo Jimmy tão bem, parecia-lhe inconcebível que ele, se na verdade o queria manter longe da área de perigo, utilizasse aqueles termos para mantê-lo afastado. Aquilo era o mesmo que cravar uma espora num cavalo brioso. A investida produziu-se instantaneamente.

Assuntos que o teriam retido ali porventura vários dias foram resolvidos numa só noite, e, ao amanhecer, um barco carregado de madeira, que se dispunha a. zarpar para São Francisco, foi o meio que utilizou para o regresso.

Parecia que Hazel sabia que Dicky ia sair por uns dias de São Francisco. Não apareceu no «Dragon-Fly» nem em nenhum outro local noturno até que Dicky partiu.

Nessa mesma noite, Hazel e o seu grupo de amigos de ambos os sexos repetiram as pândegas que tanto haviam dado que falar. Nenhum dos que rodeavam Hazel tinha a menor personalidade, se se omitisse, é claro, a posição económica de que desfrutavam.

Hazel já por várias vezes tinha olhado desolada à sua volta, como se de repente se tivesse visto mergulhada no mais hediondo lodaçal. Então, o mesmo impulso de fugir que tantas vezes sentira, quando seu tio reunia na quinta a melhor gente da cidade, acometia-a de novo, precisamente agora, quando parecia dispor de tudo...

Naquela noite, como os amigos supunham, não foram ao «Dragon-fly». No último instante, surpreendeu-os a todos dizendo:

— Vamos ao «Fortune».

— Ao «Fortune»! Foi lá que mataram Alden!...

Alden tinha-se convertido numa espécie de ídolo para aquela juventude vazia e frívola. Recordavam-se a cada momento as suas atitudes, a sua maneira de vestir; até os seus defeitos se evocavam em tom de elogio...

— Ao «Fortune»! E julgas que estaremos em segurança? — perguntou um timorato. Hazel fingiu-se enigmática.

— Quem sabe!... Mas não se preocupem. Tenho a minha polícia particular, que se manterá vigilante.

No «Fortune» parecia que iam repetir os desregramentos do «Dragon-fly», mas sentaram-se apenas a uma mesa de jogo. Hazel levantou-se.

— Continuem vocês. Vou falar com «alguém».

Num extremo da sala, Romelle observava-a. Então, num momento em que sabia que todos os olhares se haviam concentrado nela, Hazel Kelly, a multimilionária, atravessou lentamente a sala e dirigiu-se a Romelle.

Aquela audácia surpreendeu a própria aventureira, que não se mexeu do sítio onde estava, e esperou que a jovem chegasse junto dela. Os olhos verdes, mesmo a distância, já lhe haviam lançado o desafio. Romelle teve de recorrer a todos os seus dotes de dissimulação. Dominando os nervos, o seu semblante nem sequer ao de leve se alterou.

Enquanto Hazel se aproximava, Romelle examinava-a com um olhar inexorável. Havia já algum tempo que a receava, ignorando, que acontecia exatamente o mesmo a Hazel em relação a ela.

Romelle, agora, verificava que tinha na verdade motivos para temer aquela mulher. «É muito bonita...». Em seguida concedeu-lhe a supremacia. Quanto a beleza considerou-a superior. Mas nalguma coisa se ficou em dúvida. «Que é isto? Uma mulher valente... ou extremamente cínica?».

Quando Hazel se encontrava a dois passos, Romelle chegou a esta conclusão: «É muito pior do que eu..., mas o dinheiro doura-lhe os pecados». Com esta convicção, começou aquela inusitada entrevista.

— Boas-noites, Romelle. Concede-me uns momentos de atenção?

Isto puderam ouvir quantos se encontravam em volta. E puderam comprovar que nem a sua voz nem a sua atitude acusavam a menor timidez. Ao contrário, Hazel parecia senhora da situação.

—Mas certamente! Nós estamos aqui para atender os clientes.

—É que a minha conversa com a senhora não tem nenhuma relação com o negócio.

— Ah! É de carácter privado?... Surpreende--me, minha senhora, que não se tenha lembrado que para isso tenho a minha casa.

— Certos assuntos tornam-se menos perigosos tratados em público... — disparou Hazel, sem deixar de sorrir.

Romelle passou a ponta da língua no lábio inferior, algo pronunciado. Precisamente sobre aquele lábio havia uns momentos que Hazel tinha cravado o olhar, como se procurasse o vestígio de qualquer coisa torturante, de qualquer coisa que lhe houvessem roubado...

— Agrada-lhe esta mesa? — perguntou Romelle, indicando uma desocupada a um canto. — Ou prefere um gabinete reservado?

— Não! — a palavra reservado pareceu queimá-la. — Prefiro aquela mesa.

Sentaram-se uma em frente da outra, Hazel com as suas belas costas nuas voltadas para a sala. Assim, Romelle abarcava com o olhar quase todas as mesas.

— Antes de começar, devo preveni-la que tenho nesta sala, ao meu serviço, agentes que nos estão observando — preveniu Hazel, enquanto brincava com as joias que lhe adornavam o pulso esquerdo. — O que tenho a dizer-lhe vai ser muito breve... Sorria enquanto lhe falo. Quero que a senhora saia de São Francisco. A senhora e o seu sócio... Amanhã sem falta. Este estabelecimento não deve constituir um obstáculo. Marque um preço. Não discutirei.

Efetivamente, Romelle sorria, embora nos seus olhos se tivessem produzido, muito rápidas, várias e estranhas mudanças de luz.

— Deseja-o a esse ponto? — murmurou Romelle, sem deixar de sorrir.

O semblante de Hazel alterou-se. Chisparam--lhe os olhos. Por sorte, encontrava-se de costas voltadas para os presentes.

— Que julga a senhora? — e quase gritou.

— Sorria... sorria...

— A senhora não me compreendeu — prosseguiu Hazel, numa calma súbita e forçada. — Quero que se vão embora para evitar alguns momentos desagradáveis. Dicky não lhes disse nada? O que os senhores lhe propuseram, num desses gabinetes reservados, referente à famosa hipoteca, mais a visita que Dave fez à casa dos senhores, no próprio dia em que meu tio foi assassinado, é qualquer coisa que a polícia vai digerir com muito prazer... Julguei que Dicky os tivesse prevenido...

Hazel conseguira o efeito desejado. Apesar da sua maquilhagem, percebeu que Romelle empalidecera. Em seguida, levantou-se.

—Pensem nisso... O que decidirem, poderão comunicá-lo para minha casa.

Todo o dia seguinte, esteve Hazel à espera de que do «Fortune» lhe chegassem notícias. Mas soube apenas que Romelle se avistara com Jimmy. Do que tinham falado, ignorava-o. A sabê-lo, talvez tivesse procedido doutro modo. O que Romelle fez ao falar com o amigo de Dicky foi exteriorizar o receio de que Dicky tivesse dado à língua, revelando a Hazel o que se tratara no gabinete reservado, e que Hutchinson exercesse represálias. Jimmy, porém, ignorava tudo, e Dicky encontrava-se ausente, de modo que Romelle partira com a sua angústia, mas sem tomar qualquer decisão.

Na noite seguinte, Hazel voltou ao «Fortune», mas Romelle esquivou-se. Da breve conversa que na noite anterior as duas mulheres tinham mantido, Hutchinson pouco ou nada sabia. Ao interrogar Romelle, esta respondeu, aborrecida:

— Já conheces estas meninas milionárias... Naturalmente Dicky falou-lhe alguma vez da nossa velha amizade, e quis conhecer-me. Está doida de despeito, porque Dicky não lhe liga nenhuma...

— Só ela é que sente despeito? — resmungou, Hutchinson, maldoso.

Na noite seguinte, quando Hazel verificou que Romelle lhe fugia, rodeou lentamente a sala e encaminhou-se para a mesa de jogo onde se encontrava Hutchinson. Este, que a observava atentamente, ao ver que a jovem o procurava, apressou-se a sair-lhe ao encontro.

— Boas-noites, senhora Kelly.

— Senhor Hutchinson: do que eu propus ontem à noite a Romelle, que decidiram?

— Que diz?... O que a senhora propôs?... Ignoro o que seja. Quer ter a bondade de me explicar...?

— Não. Ela o fará. Boas-noites.

Saiu e foi diretamente para casa. Naquela noite somente a acompanhavam dois amigos. Entretanto, Romelle, violentamente interrogada por Hutchinson, revelava a conversa com Hazel.

— E porque mo ocultaste? — rugia Hutchinson. — Para que não tivesse tempo de fugir! Assim te desfazias de mim!... Era o que tinhas combinado com Dicky?

E após uma cena penosa, em que os mais soezes impropérios e terríveis ameaças foram acompanhadas de pancada, Hutchinson pareceu acalmar--se. De súbito, pareceu aperceber-se do mau trato que havia infligido a Romelle. Pôs-se a acariciá-la.

— Sabes, Romelle?... Não me parece nada mal a proposta dessa excêntrica... Nada mal! Podemos chegar a um acordo.

 

13. O refúgio do bandido e a visão do amor

 

Quando Dicky regressou a São Francisco, o «Fortune» encontrava-se fechado. Sabia-se que Hutchinson tinha trespassado o negócio, mas ignorava-se quem o tinha adquirido. Esta fora uma das condições que Hazel impusera para chegar a acordo.

Os que se consideravam conhecedores do assunto opinaram que «Dicky-35» obrigara o seu pior rival a retirar-se. O «Dragon-fly», com certeza, tinha esmagado o «Fortune». E outros casinos que se iam mantendo não tardariam muito a desaparecer...

Mas, além do «Fortune», Hutchinson tinha em São Francisco outros negócios que não podia liquidar tão depressa, pelo que Hazel, apesar da impaciência que sentia para que Romelle e Hutchinson deixassem a cidade, não se atreveu a objetar, quando, dois dias depois de ter chegado a acordo, Hutchinson e a aventureira ainda permaneciam ali...

Hutchinson nem um só instante perdia de vista Romelle. Fora em vão que ela simulara aceitar, de boa vontade, a resolução de liquidar todos os negócios com o melhor lucro possível e deixar a cidade.

Romelle esperava ainda que Hutchinson, absorvido na liquidação dos restantes negócios, se esquecesse dela por uns momentos. Esta oportunidade, porém, não surgiu. Quando Hutchinson tinha necessidade de sair sozinho, fechava-a num dos quartos mais afastados, com o pretexto de defendê-la da curiosidade dos jornalistas.

— É preciso ter muito cuidado, Romelle... A menor indiscrição daria escândalo. Hazel Kelly dona dum cabaré como o «Fortune»!... Essa rapariga podia exercer represálias sobre nós. Não convém arriscar...

Assim falando, o seu rosto permanecia grave, mas os seus olhos denunciavam ironia. «Já sabes porque não te deixo à solta!... Sei muito bem o que farias!» — isto pareciam dizer os seus olhos.

O que Hutchinson acreditava que Romelle faria imediatamente era ir à procura de Dicky, a fim de o prevenir contra ele, Hutchinson. Mas o que Romelle pretendia era mais fácil de realizar: ter a sós uma entrevista com Hazel, e em condições que uma e outra pudessem tirar a máscara. Romelle estava certa de poder então averiguar se Hazel era apenas uma mulher enamorada que não se tinha ainda resignado a reconhecê-lo, ou, na realidade, um ser perverso, cuja imensa e súbita fortuna começava a enlouquecê-la...

Os dois telegramas enviados par Jimmy eram do conhecimento de Hazel. O segundo telegrama, o que recomendava que adiasse o regresso, despistou-a. Não via nenhum perigo em que Hutchinson não tivesse ainda saído da cidade. Dicky tardaria em regressar... Jimmy era o único que na realidade o conhecia, e havia redigido o telegrama naqueles termos precisamente para o fazer voltar sem demora.

O barco atracou à meia-noite e Dicky não perdeu um minuto a saltar para terra. Procurando as zonas mais escuras, embrenhou-se na cidade e penetrou no «Dragon-fly» sem que ninguém o visse, utilizando uma das portas reservadas.

Estavam naquele momento a fechar e Jimmy tinha abandonado o seu posto de observação, disposto a ir deitar-se. Ao entrar nas salas particulares e ao ver luz, lançou mão do revólver. Dicky pressentiu o movimento sem necessidade de o ver, só pelo rumor que fez a perna de pau ao parar repentinamente.

— Sou eu, Jimmy.

A perna de pau voltou a soar-numa forte pancada, e em seguida várias tão apressadas que pareciam o prolongamento de urna só.

— Dicky! Maldito seja o meu sangue! Fizeste--me passar das boas!...

«Virá em pleno dia? Terá percebido? Confia? Não confia...?».

— Bom, basta! O que é que se passa?

— Ah!... — e Jimmy pôs-se a coçar a cabeça. — Isso queria eu sabei...

Referiu-se à entrevista com Romelle. À inquietação que esta demonstrara no receio de que Dicky tivesse revelado a Hazel o que se devia manter em segredo...

—Uma autêntica embrulhada! — concluiu. —Sabes do que se trata?

— Talvez — respondeu Dicky, pensativo, dando a impressão de que se encontrava muito longe.

— Pois ouve agora isto...

E contou-lhe do encerramento do «Fortune».

— Mas Hutchinson continua em São Francisco... Tentei várias vezes falar com Romelle, mas não houve maneira! Hutchinson sempre em cima de mim, como quem fala do tempo que faz: «Que notícias tem de Dicky? Demorará muito a regressar?... Seria uma pena se não me despedisse dele...»

Dicky sorria, pensativo.

— Imagino — foi o seu único comentário.

Deitou-se. Jimmy não se atreveu a objetar, embora se lhe afigurasse que o amigo confiava demasiado na sorte...

No dia seguinte, Dicky levantou-se tarde. Vestiu-se sem pressa. Depois, esteve um bocado a falar com Grotto, acerca do negócio do «Dragon-fly», e quando o amigo tentou falar-lhe do «Fortune» e da estranha atitude de Hutchinson, atalhou:

— Já estou inteirado.

Com isto parecia dar a entender que a entrevista terminara. Dicky regressou ao quarto. Esteve ali uns momentos. Quando saiu, disse a Grotto:

— Vou ver o que se diz por aí...

Nada havia de alarmante na sua voz. Mas Grotto começava a saber ler naquele rosto que para a maioria se afigurava inexpressivo. E, logo que Dicky saiu, correu ao quarto dele e verificou que o cinto com dois revólveres, que habitualmente se encontrava na mesa-de-cabeceira, já lá não estava. Dispunha-se a sair, cheio de inquietação, quando pelo corredor que comunicava com a sala do «Dragon-fly» ouviu avançar a perna de pau.

— Jimmy! Escuta...

Foi ao seu encontro e comunicou a saída de Dicky e o desaparecimento do cinto. A impassibilidade com que o coxo o ouviu alarmou-o ainda mais.

—Jimmy! Será possível Que não compreendas?... Temos de fazer alguma coisa!

— Tudo o que podíamos fazer por ele, já está feito — respondeu o coxo. — O que resta é lá com eles...

—Eles quem?

— Dicky, Hutchinson e Romelle... Incluindo Hazel. Fui visitá-la antes de Dicky se ter levantado. Está tudo a andar, tudo pronto para que se dê a explosão... Viver não é mais do que isso: um trabalho de sapa, e quando menos se espera, catrapus!, o túnel vai abaixo... Uns conseguem sair. Outros não... Dicky é dos que saem. Com a alma de pedra, mas sai...

Grotto fitou-o espantado. Via-o falar maquinalmente, sem gesticular, os olhos perdidos ao longe.

—Não julgues que estou doido — preveniu Jimmy. — Vamos ao meu esconderijo beber qualquer coisa, enquanto esperamos...

No pequeno cubículo, cheio de móveis, na penumbra, Jimmy prosseguiu, depois de ter aberto uma garrafa de genebra:

— Aqui, julgo-me na mina... Aquelas horas eternas, com a perna esmagada... E vejo ali em baixo as pessoas a rir, ou de má cara, quando uma jogada sai mal, e dá-me vontade de lhes cuspir em cima. Que vida idiota! Todos se movem como bonecos... Dicky também. Quanto mais tem mais quer... E chega um momento em que alguém diz: «Vá! Túnel abaixo!» Então os bonecos voltam a ser pessoas e debatem-se por sair à pressa...

Ergueu outra vez a garrafa. O trago, agora, foi mais prolongado; deu um estalo com a língua e acrescentou:

— Sim. Quando os bonecos se veem enterrados, arranham e chiam como se fossem ratos... Mas é então que se fazem pessoas. Verás como Dicky e Hutchinson se transformam em pessoas...

— O que é que tu disseste a essa rapariga? Para que foste vê-la?

— Para provar uma coisa de que eu suspeitava. Apenas lhe insinuei que Hutchinson preparava uma represália contra Dicky, por qualquer coisa que este havia dito, deixou de ser uma boneca, e chiou como uma rata perseguida. «Não! Não foi Dicky! Dicky não disse nada contra Hutchinson!» ...

Calou-se. Grotto respirava com força, à espera.

—E que mais?...

—Nada mais... É só esperar. Aqui mesmo, neste buraco. Ainda sobra luz, para que pareça exatamente o túnel abatido. Mas a angústia... é quase a mesma daquelas horas...

Quando Dicky chegou diante da casa de Hutchinson, no momento em que se dispunha a chamar, no passeio em frente uma voz muito conhecida pronunciou o seu nome.

— Dicky! Quero que seja o senhor o primeiro a sabê-lo!...

Ao voltar-se, viu Hazel no vestíbulo do «Fortune», de cujas portas só uma se mantinha aberta. Dicky avançou para ela, desconcertado.

— Que faz a senhora aqui?

Esperou-o, e quando o viu perto estendeu-lhe a mão. Ele apertou-lha e atravessou o umbral.

—É meu, o «Fortune»! — exclamou Hazel.

— Como?

Tanta surpresa lhe causou, que não se aperceber de que Hazel fechava a porta da rua. Deu por isso quando viu a rapariga, com repentino nervosismo, correr o ferrolho.

—Para que fecha?...

— Venha cá, Dicky! — e tomando-lhe uma das mãos, puxou-o com força, em atitude desesperada. — Quero que saiba que Hutchinson!...

— Já sei o que quer dizer-me! — interrompeu, com a voz e o rosto endurecidos. — Virou-o contra mim e agora projeta outra embrulhada... Dona do «Fortune»! — a sua voz ressoava na grande sala vazia. Ficou-se a olhar para todos os lados. — A verdade é que pode muito bem ocupar o posto de Romelle...

Hazel tornou-se lívida. Os seus olhos lembravam os de um cão castigado quando suplica uma carícia.

— Dicky! Estou disposta a incendiar os meus poços! Estou disposta a instalar-me aqui... se é este o único caminho em que tu e eu poderemos encontrar-nos!...

Dicky avançou para ela, excitado, cego, aturdido. Estendeu os braços, como se fosse a abraçá-la, mas desistiu, num gesto brusco.

— Hazel! Que nova extravagância é essa?!

Mas ele já estava convencido de que ela não brincava. Algo que parecia morto na alma de Dicky começou a ressuscitar.

— Ouve, Hazel. Lembras-te do que disse a Dave? Pois bem. Enamorei-me de ti desde o primeiro momento. Mas também desde o primeiro instante rebelei-me contra esse sentimento. Depois, o teu golpe de sorte aumentou a distância entre os dois...

— Não, Dicky! Sê sincero como eu quero sê-lo agora. Tu estás ressentido... porque te feri com a minha desconfiança quando recuperei os documentos que comprometiam a minha quinta. Tenho a certeza de que tu conhecias o verdadeiro valor da hipoteca, antes de ma entregar. Quis odiar-te por esse gesto... Quis odiar-te..., mas não pude!...

Mantinha-se diante dele, impressionantemente pálida, os olhos abertos quase a medo, as lágrimas prestes a saltar...

— No fundo, todas as minhas ações, desde que te conheci, tenderam para o mesmo: poder chegar até junto de ti — confessou ele, subitamente rouco. — Os meus intuitos, quando pela primeira vez vim a esta cidade, distavam muito dos de «Dicky-35», o homem que se contentou em reaver os seus trinta e cinco mil dólares... Foi por ti, Hazel, que renunciei a um caminho que Dave já tinha percorrido por mim... É a única coisa que posso oferecer-te como homenagem. Outro «gesto» ... pelo que talvez queiras odiar-me outra vez...

Pareceu que ela iria protestar, mas nesse momento Dicky estendeu os braços e apertou-a com força, procurando-lhe o rosto, depois os lábios. As suas bocas uniram-se por fim...

Mais de um transeunte deteve o passo uns momentos quando Dicky foi chamado por Hazel. E ao fechar-se a porta, o que Havia presenciado o desaparecimento do par fez porventura um gesto malicioso, sacudiu a cabeça e continuou o seu caminho.

Ninguém podia estranhar, se Dicky fosse reconhecido, vê-lo entrar numa casa daquele género. A coisa, porém, seria muito diferente se alguém tivesse descoberto que a rapariga que se encontrava no vestíbulo era nem mais nem menos do que Hazel Kelly.

Mas Hazel entrara no edifício utilizando uma das portas de serviço, que dava para a outra rua, de muito pouco trânsito. Durante um bom bocado vagueou de uma dependência para a outra, cada vez mais angustiada, temendo ter chegado demasiado tarde. O seu propósito era espreitar a casa de Hutchinson. Se o visse sair, iria ao seu encontro. Em plena rua, trataria de sondá-lo acerca das suas intenções a respeito de Dicky. Segundo o que dissesse, revelar-lhe-ia como tinha sabido o que, conforme todos os indícios, tanto o comprometia. Confiava que Dicky permanecesse com a indiferença do costume, entregue aos seus próprios assuntos, em casa, sem se preocupar com o que Hutchinson pudesse pensar dele. Ao vê-lo aparecer diante da porta de Hutchinson, Hazel, aturdida, só pensara em afastá-lo dali.

— Agora sabemos que Hutchinson receia tudo de nós! — exclamou Dicky. Talvez me tenha visto entrar... e a ti, quando me chamaste. O mais provável é que julgue que lhe preparamos aqui uma cilada... Podemos sair sem perigo por uma porta de serviço.

Enganava-se. Se Hazel tivesse deixado Dicky bater à porta de Hutchinson, teria visto que ninguém lhe respondia. Porque há certo tempo que não vivia ali ninguém. Receando a chegada de Dicky de um momento para o outro, e receando uma visita da polícia, Hutchinson tinha abandonado a casa juntamente com Romelle.

O «Fortune» oferecia-lhes o refúgio ideal. Conheciam-no em toda a sua 'estrutura. E na noite em que Hutchinson decidira esconder-se ali, não teve mais do que agarrar umas tantas chaves que prudentemente guardara, abrir uma das portas que davam para a rua mais estreita, e entrar. Proibiu Romelle de sair dali, quer de dia quer de noite. E ele apenas saía ao anoitecer, quando já não havia perigo de alguém o reconhecer na rua.

Durante as horas do dia, Hutchinson andou a vaguear por todo o casarão, falando sozinho. Num dos sótãos, Romelle permanecia deitada, tratando, à força de álcool, de mergulhar numa total inconsciência. Tinha-se convencido de que tudo acabara para ela.

Hutchinson enlouquecia por momentos de ciúmes e de pânico. Durante horas e horas, ouvia os seus passos de cá para lá, e uma vez em que decidiu assomar fora dó sótão, viu-o em frente de uma mesa de jogo, que tinha sido arrumada no armazém dos móveis velhos, fazendo girar urna roleta enferrujada e cheia de teias de aranha, enquanto gritava, grotesco, tentando imitar o «croupier»: «Nada mais! Trinta e três!».

Romelle respirou quando, ao chegar a noite, ele fechou por fora a porta do sótão e se foi embora. Regressou quando começava a despontar o dia. Vinha embriagado. Para Romelle voltava a tortura em que tinha vivido estes últimos dias. Mais terrível, porém, naquela manhã. E nunca, como então, desejara mais a morte de Hutchinson. Mas este, na sua aparente inconsciência, parecia mais alerta do que nunca, e lendo nos olhos da mulher, aproximava as mãos da coronha da pistola.

— Apanha-a... Dás um tiro e ficas livre!...

De súbito, rompia em gargalhadas. E, em seguida, voltava à ideia fixa daqueles dias: que ela tinha escondido a proposta de Hazel apenas para o perder... Passos apressados interromperam uma destas cenas. Por sorte, soaram num momento em que Hutchinson permanecia calado, atento às mudanças que se produziam nos olhos de Romelle, no instante em que a tentava oferecendo-lhe a pistola.

Romelle, com a pistola de Hutchinson na espádua, foi obrigada àquilo que ele considerava uma última tortura, a mais dolorosa: a presenciar como Dicky e Hazel declaravam o seu amor,

COMO ambos pareciam encontrar a salvação precisamente onde tantos se haviam perdido... Hutchinson suportou aquilo tudo, até que Dicky, levando Hazel pelo braço, decidiu sair pela porta que dava para a viela. Hutchinson, então afastou a arma das costas de Romelle.

— Cuidado, Dicky!...

A voz de Romelle ficou afogada num estampido. Em seguida, ouviu-se o choque surdo dum corpo ao cair: o de Romelle. Dicky girou rapidamente para a direita, enquanto, estendendo o braço esquerdo, dava um forte empurrão a Hazel, que a fez cair instantaneamente.

Nesse momento, o mesmo braço encolheu-se, procurando o coldre da pistola, e quando a mão direita, já provida também, iniciava a resposta, pôde apenas notar-se um ligeiro atraso na arma que a outra mão empunhava. O tiroteio durou apenas uns segundos.

A coluna, atrás da qual se escondia Hutchinson, com Romelle estendida a seus pés, foi batida em todos os sentidos por Dicky. Disparando com ambas as mãos, enquanto se inclinava para um e outro lado, foi correndo para o seu inimigo.

Hutchinson tombou quando se dispunha a ocultar-se noutra coluna. Assim, caiu longe de Romelle. Quando Dicky e Hazel se debruçaram sobre a mulher, esta ainda respirava. Sustida pelos dois, ergueram-na um pouco. Romelle abriu os olhos. As primeiras palavras tornaram-se ininteligíveis, Parecendo aperceber-se disso, começou a sorrir.

Hazel fitou sem ódio aqueles lábios, nos quais sempre tinha parecido procurar o vestígio dalguma coisa que lhe tinham roubado — as carícias de Dicky. Agora, não. Não sentia nenhum rancor por aquela mulher.

— Obrigou-me... a vê-los... Queria torturar-me...

Referia-se ao momento em que Hutchinson a obrigara a sair do sótão, com o revólver fincado na espádua, a fim de proporcionar-lhe a última tortura, afundá-la no mesmo desespero em que ele tinha vivido...

—É estranho... Não sofro nada...

Sorria olhando-os aos dois. Prendeu a mão de Hazel.

— Afinal... eras apenas... uma mulher... enamorada...

Os dedos encolheram-se, acariciando as costas da mão de Hazel. E, de repente, esses dedos ficaram rígidos. E todo o seu corpo. Mas o sorriso permaneceu, como se com ele tivesse querido impedir que, no derradeiro instante, os seus lábios adquirissem a expressão de sensualidade que tanto haviam prodigalizado. Deixaram-na estendida. E em silêncio, estreitamente unidos, encaminharam-se para a porta principal.

A cada passo que davam naquela direção, surgia em ambos, cada vez mais forte, a sensação de que saíam de um longo, angustioso túnel... Quando alguém foi à procura de Jimmy para lhe comunicar o que acabava de acontecer no «Fortune», o coxo continuou na penumbra da guarita, sem se mover.

Julgando-o demasiado embriagado, o homem voltou-lhe as costas e foi-se embora. Porém, ao ficar sozinho, Jimmy pôs-se a falar, como se continuasse um longo monólogo:

— Tudo estará bem, se deixaste no túnel a tua alma de pedra... Pois bem, meus pombinhos! Depois de andarem por aí a chiar como ratos... encontraram enfim o vosso verdadeiro fundo!... À vossa saúde!...

Ergueu a garrafa. Em seguida levantou-se e, cambaleando, saiu da guarita.

— Há demasiada luz... para que isto pareça um túnel!...

E, num ritmo incerto, o rumor da sua perna de pau foi-se perdendo a pouco e pouco ao longo do corredor.

F I M

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