quarta-feira, 15 de agosto de 2018

CLF030.09 Os milhões do «Profeta»

— Dodds?
Shady Dolan estava de pé em frente ao homem de farto ca5elo e grande personalidade.
Agradava-lhe o seu rosto nobre, de traços duros. Agradava-lhe também a lealdade, um pouco ácida, das suas pupilas cor de âmbar, sob as espessas sobrancelhas grisalhas.
— Então você é o homem por quem vim até Coffeyville?
—É possível — admitiu o outro, com tom suave. — Tudo depende do que lhe disse... alguém.
— Crooks falou-me de você — observou uma agitação desusada à sua volta, mas prosseguiu, sem soltar a mão cálida de Virgínia: —E pouco depois de o fazer, encontrava a morte. Como Douglas Lyman, como Ferguson Mason... Talvez seja o último homem que os viu vivos... antes de se encontrarem com os federais que os mataram.
— E o que lhe disse Crooks, além de me mencionar, Dolan?
— Poucas coisas. Ele contava continuar a viver, uma vez fora do forte. Ainda não cheguei a compreender como o apanharam. Transpostas as muralhas, tudo estava a nosso favor. Eu escapei, eles poderiam tê-lo feito também. E no entanto deixaram-se apanhar.
— Sabemos de que maneira morreram — disse lentamente Dodds. — Foi lamentável, depois de uma luta tão árdua para escapar da pena de morte. Mereciam melhor sorte.
— Claro que sim. Compartilhei a sua cela algumas horas, escapei com eles. Sei a classe de homens que eram.
— Fizeram o mais difícil, e depois... — suspirou Dodds.

Depois, levantou a cabeça olhando pensativo a rapariga. Interrogou:
— Quem é a rapariga? É verdadeiramente a filha do juiz militar de Fort Copper?
— Sim, é Virgínia Hodgins em pessoa. Pôs-se contra o seu próprio pai para... — de repente deteve-se. Olhou, admirado Dodds, e perguntou com tom incisivo: —Como sabe você isso?
Dodds respondeu com um sorriso, fez um sinal, e um dos guardas das portas, aproximou-se, rifle na mão, sorrindo amplamente para Dolan. Este ficou surpreendido ao reconhecer as faces do oficial que lhe pedira os documentos na rua. Só que agora não usava o uniforme azul.
— Olá, Dolan — saudou alegremente o rapaz. — Perdoe-me de o meter naquele apuro, mas os meus soldados não eram da nossa causa, e tinham-me reprovado por me mostrar demasiado benévolo consigo. De todos os modos tudo estava a postos para o libertar, desde o momento em que foi preso. Trabalhamos sempre assim.
— Uma perfeita engrenagem — comentou Dolan, saindo da sua surpresa.
— Quase perfeito. Era-o quando viviam Crooks e os outros — disse Dodds tristemente. — Agora, vamos encontrar muitas dificuldades. Eram os únicos inteirados do segredo mais importante da guerra para a causa confederada.
— «0 profeta»? Ou «A sétima missão»? — aventurou Dolan, sorridente.
Mike Dodds sobressaltou-se. E um novo murmúrio percorreu a sala cheia de espias e conspiradores sulistas.
— Também sabe isso, Dolan? — disse Dodds assombrado. — Então, isto foi longe...
— Não tanto como possa parecer—sorriu Shady.—Ponho as cartas na mesa, Dodds. Não sei nada de nada, exceto esses nomes, o seu e o de Coffeyville. Sei que tudo isso forma algo. Um quebra-cabeças que possivelmente significa milhões. Mas nada mais.
— Exatamente cem milhões, Dolan — disse pausadamente o homem de cabelo grisalho.
— Eh? — Shady trocou um rápido olhar de surpresa com Virgínia. Depois exclamou: — Há alguma coisa que possa valer cem milhões de dólares, Dodds? Não está a delirar... ou não estava a delirar Crooks?
— Albert Crooks era o mais oposto a delírios ou fantasias. Prático, duro e eficiente. Ia pela certa. Não há sonho nem exagero, Dolan. Há cem milhões em jogo. Cem milhões que podem alterar tudo, provocar uma crise tremenda no governo yanquee, pois o Sul, com essa fortuna incrível, podia mudar o curso desta guerra em questão de horas.
— E quase o curso do mundo — murmurou Dolan, gravemente.
— Na verdade, o mundo inteiro, o nosso mundo, daria uma reviravolta com essa fortuna em nosso Poder. Mas, onde está? Como alcançá-la antes que a derrota seja inevitável?
— Se ignoram onde se encontra esse tesouro oriental, não há nada a fazer — disse Shady. —É como pensar na lua.
— Não, é algo mais atingível. É... simplesmente o «Profeta!».
Dolan estremeceu. Chegava ao nó do mistério, à razão daquela grande operação sulista. Ao segredo que Crooks, Lyman e Mason levaram para o túmulo. Ao segredo de cem milhões, pelo qual um bando de foragidos, chefiada por um tal Burns, fingindo ser uma patrulha nortista, os tinha assassinado friamente.
— «O... Profeta»? — repetiu Dolan como um eco. — O que é «O Profeta»?
— Uma galera. Um carro de mato das planícies, pertencente a uma suposta caravana de mórmones. Na lona levava esse nome pintado em grandes letras: «O Profeta». Dentro... cem milhões de dólares em oiro e pedras preciosas de imenso valor.
— O tesouro oriental, feito realidade — silvou Dolan entre dentes.
— Tesouro, sim. Mas não oriental. — Sorriu Dodds com amargura. É a inacreditável ajuda ao Sul, chegada da América Central. Ignoro a sua origem, ignoro se se roubou e se se matou para a conseguir. Não é incumbência nossa sabê-lo e a guerra é tão cruel... Que importa que os seus meios sejam também cruéis? O certo é que pessoas que sentem o sangue do Sul nas suas veias, reuniram essa fortuna para nós Sulistas, aparentando serem mórmones, trouxeram a fortuna até aqui. Mas tinham que cruzar territórios yanquees. Muitas coisas saíram bem, mas uma fracassou, e o oiro, esse imenso tesouro em oiro e pedras, caiu em poder de um destacamento militar yanquee. Não tiveram tempo de informar ninguém da sua existência, porque Crooks, um dos nossos melhores homens, adotou uma resolução imediata, e levando Lyman e Mason consigo, foi para território inimigo resgatar esse oiro.
—E conseguiu? — Dolan, fascinado pele relato, não afastava os seus olhos de Dodds.
— Sim. Crooks era um homem de inteligência pouco comum, capaz dos mais audaciosos planos. Na realidade, era o único que tinha contacto direto com o nosso chefe supremo em Kansas — Dodds falava com tal energia e paixão, que nem reparou no ligeiro estremecimento de Dolan ao ser mencionado o ansiado «Chefe». Continuava já: — Sabemos que recuperou o carro de mato, não sem que antes tivesse que eliminar um destacamento militar yanquee. Foram descobertos e perseguidos, mas Crooks escondeu o tesouro em qualquer parte, e fez jurar aos seus companheiros que nada revelariam em caso de o não poderem resgatar; depois caíram em poder do inimigo...
— Mas a história continua, não é verdade? — disse Dolan, ocultando a sua ansiedade. O chefe conseguiu libertá-los. E eu com eles. Tem que ser poderoso esse chefe para o fazer.
Dodds olhou-o com certa estranheza.
— O chefe não pôde tentar a sua libertação, porque carecia de meios oportunos para o fazer atualmente — disse lentamente. — Ao menos, nenhum de nós tomou parte ativa nisso. Deve ter sido ele quem preparou essa fuga, Dolan.
— Crooks sempre assim pensou. Recebeu uma mensagem do chefe, parecia tudo obra do chefe... — Shady chamou em Dodds um olhar penetrante. Acrescentou: — Já ouviu falar dum tal Burns?
— Não. Disse Burns? Nunca ouvi esse nome, a menos que... Espere! Que eu saiba há um Burns em Coffeyville. Bem, havia. Era o encarregado do negócio de cavalos que tem Sidney Crooks, o irmão mais velho de Albert. Mas desapareceu há já algum tempo. Porque é que o pergunta?
Dolan, à laia de resposta, contou a sua aventura a partir da condenação de Hodgins, até à sua chegada a Coffeyville, omitindo somente o que dizia respeito à sua autêntica personalidade.
Mike Dodds e os outros sulistas escutaram-no em silêncio. Depois, um murmúrio de comentários levantou-se à sua volta. Dodds levantou um braço, impondo calma, e terminou dizendo em tom alto e firme a Dolan:
—Pelo que você conta, tiramos à seguinte conclusão: Há alguém que não pertence nem ao Norte nem ao Sul, um grupo de foragidos ou canalhas, interessados em obter a todo o custo esses cem milhões, inteirados da sua existência sabe Deus como, mas não inteirados do seu esconderijo. Fingindo-se amigos, conseguiram a liberdade de Crooks e de todos os outros, incluindo você. Depois, eliminaram os três, sem conseguir o mesmo com você. Ao eliminá-los, não duvido que tenham tido como ideia básica obter o segredo desse refugio, e daí a insistência na sua captura, pois provavelmente Crooks ter-lhe-ia feito confidências. Não é da mesma opinião?
— Exatamente. E a notícia de que esse Burns trabalhou com um familiar de Crooks, completa o quadro. — Deve tratar-se da mesma pessoa.
— Pela sua descrição, sim. Devem ter tentado impedir que você chegasse aqui, mas vocês os dois foram mais rápidos, meteram por estradas pouco frequentadas e difíceis, e isso fez com que se adiantassem. No entanto, o perigo subsiste. Gente assim, sem ideais nem fé em nada que não seja o dinheiro, é o pior inimigo para o Norte ou para o Sul.
—Cem milhões, são muitos milhões. O velho «Profeta» vai ser muito procurado...
—Só ignoro ainda um detalhe: O que significa «Sétima Missão»?
— É o nome cifrado que se deu à operação de resgatar «Profeta» e escondê-lo da rapina dos nortistas, sulistas ambiciosos e sem ideais, ou simplesmente canalhas em bando. Essa palavra, significaria que Crooks cumpriu plenamente a sua missão. Chegou a dizer-lha para que viesse repeti-la aqui?
— De certo modo, parece ter sido essa a sua intenção.
— Então, se o Sul não poder lucrar com essa fortuna... que Deus impeça que mãos impuras pousem sobre elas—sentenciou firmemente Dodds baixando os olhos.
Shady Dolan começava a admirar aquele homem rijo, de idade avançada e poderosa energia. Era honrado, nobre e justo. Apesar do seu fanatismo, se o Sul fosse derrotado, seria ele o primeiro a estender a sua mão amiga, com um amargo sorriso, aos soldados inimigos. Mas mão amiga de verdade sem embustes nem enganos. Apesar da sua atual situação clandestina, não podia esquecer que isto era a guerra.
—Creio que conheço todos os dados deste mistério—disse Dolan — e no entanto continuo sem ver a solução com clareza. Quem teria informado Burns acerca do «Profeta»? Não me parece um homem com inteligência capaz de aprofundar muito questões destas. Tem que haver alguém por detrás dele. E se pudesse encontrá-lo, vingaria a criminosa matança de então. Não é fácil esquecer o rosto de Lyman, nem a expressão de Mason cosido com balas... ou o corpo do pobre Crooks flutuando nas águas do riacho. Você tem razão, Dodds. Devem ter resistido sem confessar o esconderijo do oiro. Eram tipos fixes, valorosos e duros. Capazes de tudo pela sua bandeira. Homens assim fazem grande um país, não importa de que parte combatam. Deve-se admirar o herói seja de que lado for.
Dodds contemplava-o com admiração.
— Nada sei a seu respeito, Dolan, exceto o que os nossos agentes nos informaram a respeito da sua condenação. Sei que é sulista, porque os outros o dizem. Podia pensar que também não era sulista — sorriu como se estivesse brincando, apesar da gravidade do seu tom. — Mas num caso assim compartilharia do seu juízo de agora. Eu admiro o herói mesmo que seja meu inimigo.
— Mas eu não sou seu inimigo, Dodds — disse Dolan impulsivamente. —Não podia sê-lo. Uma guerra separa os homens, e põe-nos frente a frente. No entanto alguma coisa fica sempre à margem desse dia estúpido e provocador: o coração dos homens sinceros e honestos. Você e eu, Dodds mesmo com uma espingarda na mão, enfrentando-nos nas trincheiras, continuaríamos sendo amigos, estou certo disso.
—O que não seria obstáculo para que eu o matasse ou você me matasse a mim — sorriu Dodds gravemente. —Não esqueça isso, meu amigo... Apesar de você ser do Sul como eu.
Depois deste diálogo incisivo, fulgurante como as lâminas de dois floretes esgrimindo em ardoroso duelo, houve um silêncio prolongado; Shady Dolan percebeu que o ambiente não estava mais hostil ou perigoso do que antes.
O olhar frio e duro de Mike Dodds é que tinha experimentado uma ligeira mudança. A mudança de um homem que adverte o seu rival, de forma amistosa e correta.
Dolan percebeu imediatamente essa oculta advertência. Não, não tinha podido enganar Dodds. O nobre cabecilha confederado não acreditou na sua filiação sulista. Mas também com a sua viva inteligência tinha compreendido que algo os unia naqueles momentos, algo que estava acima da guerra e do ódio partidarista: o afã de vingar umas vidas sacrificadas covardemente por pessoas sem partido nem ideal. Ante o torvo inimigo comum, ambos lutariam ocultamente, unindo as suas forças... mas enfrentando-se entre si quando esse adversário tivesse sido vencido.
— Gostaria de falar mais Intimamente consigo, Dolan -disse Dodds, com um sorriso dirigido especialmente a Virgínia Hodgins, testemunha desse tenso duelo verbal. —Esta noite cearão comigo em minha casa...
Durante a ceia, não houve novos atritos verbais com Dodds. Tinha uma encantadora esposa, com muito menos personalidade do que ele, mas excelente cozinheira.
Dolan inteirou-se durante esse agradável serão familiar em casa dos Dodds, situada ao lado do enorme armazém de grão que possuía em Coffeyville o dirigente sulista, de que eles formavam um simpático casal muito considerado na cidade ambos com fama de nortistas e sem complicações políticas. Ninguém teria imaginado que, por detrás daquela máscara afável e hospitaleira, um espírito ardente de confederado batia e incitava a bater os outros apaixonadamente.
As dependências destinadas a Dolan e a Virgínia eram reduzidas, mas confortáveis, limpas e alegres. Dolan nunca teria imaginado, mas a verdade é que dormiu como poucas vezes tinha feito em toda a sua vida, e que ao despertar, o sol estava alto no céu nublado que adivinhava chuva.
Sentiu certa preguiça ao levantar-se, porque o , Inverno começava a fazer a sua aparição, com um subtil frio húmido que chegava até aos ossos. linha terminado de barbear-se e pentear cuidadosamente os seus cabelos loiros em frente do espelho, quando cravou os olhos no retângulo da sua janela com vivo e súbito interesse.
Não era o panorama uniforme, cinzento e castanho, da cidade, que o atraía, mas sim a montra vermelha e azul de um edifício de azulejos, de dois. andares, situado uma ou duas ruas mais abaixo, formando esquina.
Aí estava fixado um enorme letreiro:
SIDNEY CROOKS CAVALOS, SELAS, ARREIOS E RAÇÕES
Alguns homens, em frente da enorme porta do armazém, descarregavam selas de montar, utensílios próprios para montadas e tudo o mais, formando altas pilhas no átrio de tábuas. Um homem de cãs, cujas feições não se distinguiam bem, por causa da distância, dirigia a operação com gestos vagarosos e enfáticos.
Dolan afastou-se da janela, pensativo. O apelido Crooks trouxe-lhe à memória Albert; não tinha sido um homem simpático ou afável, mas também não era essa a sua missão. Dolan admirava os homens como ele, talvez porque ele próprio se parecesse um pouco com aquele carácter. Agora estava morto. Por quem? Quem teria informado Burns? Teria este operado por sua conta ou não?
Quando Shady ia a sair de casa, lembrou-se duma coisa: ia a sair sem revólver. Voltou ao móvel onde o guardara, mas pensou imediatamente na série de complicações que uma arma poderia trazer-lhe, numa cidade que supunha sua inimiga e que virtualmente o era agora.
Fechou a gaveta, encolhendo os ombros, e saiu sem levar o seu revólver. Desarmado, possivelmente correria menos perigos.
Em baixo encontrou Dodds, que estava falando com o jovem oficial nortista que o prendera no dia anterior. Ao vê-lo, o jovem deu meia volta e foi-se embora, com um adeus precipitado a Dodds, e sorrindo dissimuladamente a Dolan.
— Bons dias, Dolan. Não é muito madrugador — disse Dodds olhando-o fixamente.
—Estava estafado. Dormi muito bem na sua cama, Dodds. É um sítio encantador.
—Espero que goste. Se quer passear tranquilo por Coffeyville, tome isto. Trouxe-me o jovem tenente Mullinson. Estendia-lhe um salvo conduto militar, com as armas da União, em nome de Shady Carter.
Estava perfeitamente falsificado, sobre o impresso oficial, e Dolan guardou-o sorridente.
— Pensam em tudo, eh, Dodds? —observou.
— Sim, Dolan. Absolutamente em tudo — disse, por sua vez o nobre chefe sulista, sem tirar os olhos dele. Repentinamente, perguntou-lhe: — Que pensa fazer quando chegar o fim?
Shady voltou-se bruscamente. Os seus olhares cruzaram-se.
—A que fim?
— Você e eu sabemo-lo bem. Não tente enganar-me mais. Pode enganar esses rapazitos, mas não a mim. O que procura e onde é que se vai deter?
Dolan encostou-se a uma coluna da porta, antes de responder, sereno:
— Até ontem à noite, procurava-o a si.
—A mim? — Dodds retrocedeu ligeiramente.
— Sim. Você disse-me para não o enganar. Peço-lhe também que não me tente enganar. Você é o chefe sulista, o verdadeiro cabecilha de Kansas.
— O que é que o faz supor isso?
—Nada. Não me baseio em provas, mas em motivos de carácter humano. Você é um chefe nato. Não posso imaginá-lo recebendo ordens, apesar de ontem à noite, o ter tentado com todas as minhas forças, antes de adormecer. Não, você é dos que mandam, não dos que obedecem. Obedeceria a Jefferson Davies, a Lee... e a poucos mais, não é verdade, Dodds?
— Não me equivoquei ontem. Você é muito esperto, Dolan. Demasiado esperto para ser o que aparenta. Conhecemo-nos imediatamente. Soube que me procurava, e eu sabia que me tinha encontrado. Homens como nós, Dolan, nunca nos podemos enganar.
— O curioso é que ao chegar a você, chefe supremo do Sul neste território, terminava a minha missão. — Shady moveu-se, deu uns passos pelo átrio, de cabeça baixa. Bruscamente, girou sobre os seus tacões, olhando Dodds. — E agora, descubro, que não fiz senão enganar-me, e seguir uma pista errada.
— Errada? —Dodds uniu as sobrancelhas. — A sua missão era desmascarar-me. Cumpriu-a. Que mais pode aspirar? Vencer sozinho toda a Confederação?
— Você sabe bem o que eu quero dizer, não dissimule. Já deu conta como eu, de que alguma coisa pior do que a guerra e as nossas diferenças, se interpõe nos nossos respetivos caminhos como uma sombra negra. Há um inimigo comum, que não sabemos quem é, nem como opera. Um inimigo, que assassinou por três vezes. Crooks, Lyman e Mason foram as suas vítimas. Como souberam do «Profeta» e dos seus milhões, escondidos algures no Kansas, e possivelmente não longe de Fort Copper? Não creio em Burns como um cérebro ativo, mas sim como um homem a soldo.
— A soldo de quem? — ripostou vivamente Dodds.
—É o que quero averiguar. Farei enforcar esse homem... ou matá-lo-ei eu mesmo.
— Também o faria, Dolan, se soubesse quem era. Lyman era um bom tipo, Crooks, um cérebro de primeira grandeza, Mason um honesto combatente, fiel às suas ideias e aos seus amigos... Mas você e eu continuamos a ser inimigos, apesar de tudo. Se eu não o mandar matar, você entregar-me-á aos seus camaradas e serei fuzilado como traidor. É matar... ou morrer.
Dolan falou lentamente, olhando o céu nublado, sentindo que o ar frio cheirando a terra molhada lhe açoitava o rosto e agitava os seus cabelos alourados como também agitava os cabelos crespos e revoltos de Mike Dodds, seu antagonista mortal naquele duelo singular. Duelo entre cavalheiros um do Norte, outro do Sul... Mas ambos americanos leais a si mesmos e ao seu ideal. À sua honradez, ao seu espírito e à sua nobreza.
— Há outros meios de resolver diferenças como as nossas, Dodds. Meios que não envergonhariam nem um nem outro, e que seriam mais dignos de nós do que acabar a tiros ou numa prisão qualquer. Por que não os tentamos?
—É você que tem a palavra, Dolan — sorriu penosamente Dodds. — Esta cidade é nortista, as suas tropas são do Norte A palavra é sua, e saberão quem você é.
—Não é tão fácil como cré, mas deixemos isso. Quero o homem que cometeu aqueles crimes monstruosos. Quero esse dinheiro, esses milhões em ouro...
— Para a União?
—Para o país, Dodds. Vai necessitar dele, quando isto acabar. Não prolonguemos mais a contenda. Esse dinheiro, nas mãos de Davies e Lee, significará dois, três, cinco anos mais de luta entre irmãos. Nas nossas, Dodds, é o fim, rápido, e menos cruel que nenhum outro. A paz, a fraternidade de novo entre todos...
—Não pode pretender que eu compreenda o seu ponto de vista.
— Mas posso pretender que veja a realidade, crua e valorosamente: isto está a acabar. Não durará mais do que um ano, quanto muito. Vocês, Dodds, perderam a guerra. E sabem-no. Não?
Dodds não respondeu. Dolan acercou-se dele, olhou-o agora fixamente e disse:
— Julgava procurar assassinos, e encontrei somente patriotas. Não é isso que quero. É algo mais: é a vida dos verdadeiros malfeitores que se tem que estripar como um tumor. Os que, inteirados dos milhões em jogo, vão atrás deles como aves de rapina.
— E em troco da minha ajuda... o que me oferece você, Dolan?
— Isso, Dodds... é o que vamos combinar, se você aceitar.
Ambos se olharam longamente. Por último, Dodds assentiu com a cabeça.

Sem comentários:

Enviar um comentário