quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PAS800. Perseguição invade território navajo

Keith Carmichael colocou a sua mão esquerda em pala sobre os Olhos fatigados. Tinha de continuar até ao Norte, se queria escapar.
Depressa o alcançariam os seus três perseguidores, pois, além de poderem substituir as suas montadas, contavam com provisões e facilidade de informes sobre o seu rasto.
Ele, pelo contrário, por ter enfrentado muitos, só, numa selvagem revolta do seu indómito carácter irlandês, agora tinha atrás de si os três melhores atiradores do Sul do Arizona...
Quatro dias, com as suas imensas noites, procurando despistá-los, piara, ao entardecer do quinto dia, os voltar a divisar, a umas cinco léguas ao Oeste!
Estavam a encurralá-lo na confluência do Little e do Grand Colorado.
Continuou a olhar para o arco azul que formavam o afluente e o rio principal. Era a sua única via de salvação.
Mas entre os seus joelhos, os flancos do alazão capturado a laço num cercado, duas noites antes, latejavam aceleradamente.
O melhor cavalo não poderia suportar aquela frenética fuga de horas e horas num constante galopar.
Keith Carmichael apoiou-se sobre a garupa para se voltar e olhar para o Sul, onde consumira as suas últimas munições.
Não havia possibilidade de retorno para o foragido Carmichael. E dam um alazão quase a rebentar entre as suas rijas pernas, uma carabina sem munições, e dois revólveres sem balas, aquele quinto dia de êxodo, significava o fim para Keith Carmichael.
O seu temperamento incitava-o à luta, mas seria um brinde para aqueles três seletos caçadores de homens enfrentá-los de mãos vazias.
Viu-os encorajar as suas frescas montadas, desfilando ladeira abaixa, seguros já de o alcançarem.
Carmichael fustigou o alazão. Uma careta feroz crispou o seu belo rosto onde os olhos duzentos se destacavam em contraste com o cabelo, negro e a tez bronzeada.
À esquerda, quase na confluência dos dois colorados, divisava-se o inexplorada e terrível Grand Canyon, como um dedo erguido, ameaçador, a indicar que era perigoso passar além da meseta dos Não-Convidados.
À direita, o Painted Desert e Cliff Dwelling. Um deserto de um esplêndido colorido, com as manchas verdes de enormes cactos, e as grutas onde habitavam ds navajos. Nenhum branco se aventurava pelo território que se estendia entre o arco formado pelos traços azuis da linha do horizonte. E foi por isso que Keith Carmichael levou o seu fatigado alazão, até um dos vaus da Little Colorado,.
Seria a sua última rebeldia. Aqueles três sabu¡os não o caçariam. Preferia deixar a cabeleira e todo o resto da pele entre os habitantes daqueles ninhos abertos nas rochosas escarpas das pequenas mesetas.
Iria tentá-lo. Seria quase agradável sentir cotim lhe separavam a pele do crânio, se as cabeleiras daqueles três atiradores acabassem também por adornar os cintos dos nava¡os.
Mas aqueles três homens não eram ingénuos, e era preciso sabê-los enganar. O chapinhar das patas dentro de água, em que se afundava até ao peito, pareceu vigorizar o alazão. As salpicaduras, empapando o cavaleiro, proporcionavam-lhe um deleite tanto mais grato quanto fugaz. Depressa, para Carmichael, terminaria toda e qualquer sensação.
Em vez de cruzar o vau, saltou, deixando, que o alazão se aliviasse da sua carga. E ambos, ao cabo de uns minutos, nadavam deleitosamente: o cavalo, submergindo até à boca, na ânsia de se refrescar; a seu lado, Carmichael, agarrado à sela, encontrava também um natural bem-estar em se submergir uns instantes.
Ainda queimavam os oblíquos raios do sol que declinava. E os três cavaleiros apareceram recortados no azul, que ia escurecendo sobre a meseta, onde meia hora antes Carmichael contemplava os pontos cardiais e avaliava ás suas possibilidades.
O alazão nadava em direção ao Norte, para a confluência dos dois rios, como se quisesse indicar que aquele caminho líquido era um alívio na tortura de fugir entre nuvens ide pó e um sol abrasador.
Keith Carmichael emergiu, quando a ribeira oriental mostrava já, um leito de seixos redondos. Reteve o cavalo que continuava mergulhado até ao peito e dedicou-se a uma estranha manobra. Via aproximarem-se os três cavaleiros, que ainda não, podiam 'empregar as suas carabinas.
Desencilhou o cavalo, e, puxando pelas rédeas, abandonou o rio. Outra «loucura» ido irlandês Carmichael, pensariam os seus perseguidores. Levava ao ombro a pesada sela com a sua bainha para a 'carabina sem munições. E colocara o cinturão com os dois revólveres sem utilidade em torno do arção.
Avançava diretamente piara Painted Desert. E quando distava três léguas do local onde pusera pé em terra, atirou a sela ao chão e obrigou o alazão a sentar-se sobre os quartos traseiros, à usança dos índios.
A última loucura do irlandês Keith Carmichael
E começou a rir em gargalhadas sucessivas, vendo como, passado a vau o Little Colorado, os três cavaleiros se agrupavam em conciliábulo.
Havia entre a caça e caçadores apenas uma légua, suficiente distância para que as suas carabinas se tornassem inúteis.
— Se deixarmos que a noite desça, esse louco torna a escapar-se, Smitters — murmurou um dos três.
— Já não tem munições, e o alazão não pode correr — respondeu o interpelado, 'em voz sonora.
— Mas se o perseguirmos, ele ainda arrancará umas milhas ao seu cavalo, Smitters.
Os três homens olhavam friamente as manchas verdes dos catos e as escarpas rochosas; nalgumas das quais as escadas até Meia altura pareciam fios de negra teia de aranha.
Smiters era o responsável pelo bom termo da expedição. Tinham de regressar ao Sul, levando de rastos, vivo ou morto, o irlandês rebelde.
— Vamos. Sempre nos restará tempo para voltarmos a passar o rio se... os emplumados assomarem.
Os outros dois hesitaram e Smiters acrescentou, imperioso:
— Para o Este, tu; Paxton. Tu, pelo curso do rio, Golding. Já!
Smitters partiu a galope em direção ao vulto que parecia um centauro sentada na areia.
O sol incendiou, num fulgor derradeiro o cume do Grand Canyon,
Paxton, a todo o galope, seguiu urna linha obliqua. Carmichael permanecia imóvel, mantende o alazão sentado sobre ias ancas.
Paxton refreou bruscamente, para assentar com força a coronha da carabina sobre o seu ombro direito.
Carmichael lançou um grito aguda, esporeando a montada. O cavalo levantou-se e, voltando, empreendeu um rude galope can direção aos verdes agrupamentos de gigantescos cactos e aos Cliff Dwelling.
Sabia que aquele renovada vigor do alazão, após o banho e o omito repousa, era fictício. Era, como a nervosa sacudidela após uma chicotada, de efeitos breves. Os três cavaleiros iam atrás da sua garupa cerrando o leque. Roy Smitters era o mais próximo.
Outro irlandês, aquele Roy Smittens, como também o era Martin Paxton. E tão jovens como ele, apenas rondando os vinte e cinca anos. Mas por isso, por que eram Irlandeses, lhes haviam encomendado trazer vivo ou morto o louco Keith Carmichael, que se atrevera a derrubar a socos o rico rancheiro Omar Graham.
Keith Carmichael não queria olhar em frente. O seu rosto, contraído em sarcástico regozijo, encarava ferozmente o cavaleiro mais próximo.
Gritou:
— Dispara já, Roy. Assim serás o primeiro a dar a tua cabeleira!
Roy Smitters praguejou furiosamente. O rio ficava distante umas quatro léguas em linha reta.
As sombras amontoam-se, atapetando a verdura da Giant Forest Cactus, e os cumes avermelhados dos Chuska Mounts, mais além. E em contraste, ressaltavam mais as lívidas escarpas dos Cliff Dwelling, os ninhos com escadas, dos navajos,
Thomas Golding, exasperado, encabritou o seu cavalo para apenas retomar a posição normal, fazer pontaria.
Carmichael, que novamente detivera o seu cavalo, riu…
Roy Smitters gritou raivosamente:
— Não dispares, maldito! Não dispares, maldito!
Mas foi Martin Paxton quem, sobre-excitado pelas gargalhadas de Carmichael, disparou...
O tiro ecoou, repetindo pelas penedias o seu estampido !sibilante.
Keith Carmichael pareceu crescer repentinamente. Na camisa de pele de antílope, o pó tornou mais espessa a mancha vermelha, que brotou do lado direita do seu amplo torso.
— Já está, Smitters! Dei-lhe em cheio! — gritou Paxton.
E os três, que se dispunham a esporear os seus cavalos, permaneceram um instante indecisos. Era arrepiante ver o «louco» Keith rir em sacudidelas espasmódicas, estendendo o braço em linha recta, apontando para além dos três cavaleiros, para a linha azul escura do Little Colorado.
Foi Thomas Golding o primeiro a olhar pana trás e a gritar, desfigurada:
— Eles cercam-nos!
Nos torsos nus e cobreados dos índios destacavam-se as linhas ondulantes das negras cabeleiras, brilhantes de gordura de búfalo, e os sulcos brancos de pintura que também formavam pequenos riscos nos seus rostos. A cabeleira penteada com um risco ao meio, em espessos bandós a cada lado, cobria orelhas e nuca, para logo se abrir em grossas tranças.
Os simples frecheiros levavam uma pluma vermelha na cabeça, e mais atrás os cavaleiros sobressaíam sobre os seus potros selvagens de compridas crinas e patas curtas, e também porque levavam diferente ornamento nas cabeças. A maior parte, a dupla fileira de penas inscritas no gorro de pele, com compridos pingentes. Alguns, a cabeça dissecada de um animal, com os pequenos chifres, formando uma horrível máscara.
Pareciam não ter pressa, certos de que aqueles temerários brancos, apenas caísse a noite, seriam fáceis presas no Painted Desert.
Foi Thomas Golding o primeiro a empreender uma frenética fuga em direção ao Sul, seguindo-o Martins Paxton.
 Vários navajos a cavalo destacaram-se, seguindo também o curso do rio.
Roy Smiters hesitou um instante. Finalmente, lançou a sua montada para o Este.
Keith Carmichael, abraçado ao pescoço do alazão, sangrando, ainda viu como Thomas Golding era desmontado. Dois navajos haviam-lhe cortado a passagem enquanto um terceiro saltava sobre a garupa, afundando num golpe certeiro o seu pequeno machado na nuca de Golding.
Carmichael ria silenciosamente, enquanto o seu alazão galopava impelido pelo instinto, como se procurasse fugir às trevas e àqueles vermelhos emplumados.
Quando o alazão tropeçou, não foi por ter encontrado uma rocha ou uma cova sob os seus cascos. Simplesmente esgotara as suas possibilidades.
Keith Carmichael rolou pela pequena pendente arenosa, do lado oposto onde o alazão tornara a pôr-se de pé, para continuar a sua fuga para a morte.
Keith teve um instante de lucidez. Compreendeu que estava perdido — peito húmido de sangue, com calafrios de morre percorrendo-lhe a espinha dorsal. Mas contraiu o seu rosto num rictos triunfante. Morria, sim, mas Roy Smitters, Thomas Golding e Martin Paxton acompanhavam-no na sua viagem final.
E no negro céu coberto de estrelas, antes de ver inclinada sobre si a horrível cara pintalgada de um navajo com a machadinha ao alto, viu o nimbo vermelho que aureolava a lua. Uma lua sanguinolenta, escarlate...

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