Mostrar mensagens com a etiqueta BIS122. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BIS122. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de maio de 2017

PAS743. A história do homem que matou o melhor amigo

Mike deu uma profunda chupadela no cigarro e falou sem a olhar:
— Meu pai foi um pistoleiro de fama, Cristy. E morreu com as armas na mão, numa desordem de rua. Eu tinha só cinco anos, não o vi morrer, mas ouvi mais de uma vez o relato, dos lábios de minha mãe. Ela fazia-o, para que eu aborrecesse essa espécie de. vida... as armas de fogo... A pobre morreu, antes de descobrir que todos os seus esforços tinham sido vãos.
«Tinha dezassete anos quando matei o primeiro homem. Nos sete anos seguintes matei outros quinze. Eram homens valentes, hábeis com as armas, acostumados a lutas a tiro. Porém, matei-os. E converti-me num pistoleiro famoso, mais ainda do que meu pai tinha sido. Não tinha pena de ser assim. Na realidade, até gostava. Era como um jovem tigre.
«Dan Price criara-se juntamente comigo, éramos amigos desde que tivera o uso da razão. Era um belo rapaz, o melhor do mundo. E um homem pacífico. Através de todas as vicissitudes, a nossa amizade manteve-se inquebrantável. Mais do que amigos, éramos irmãos. A sua casa era o meu melhor refúgio de paz.
«Casara-se com uma excelente rapariga e tinha dois filhos, um de poucos meses, que tinha o meu nome pois fui seu padrinho. Naquela maldita noite, em Wichita, eu não sabia que ele se encontrava na cidade.
Fez uma pausa, para cobrar forças. Cristy escutava com atenção, as mãos cruzadas sobre o regaço. Prosseguiu:
— «Estava no «saloon» de Creswell, jogando às cartas com uns indivíduos. Junto de mim tinha uma dessas pobres raparigas que fazem vida por tais sítios. Já havia bebido bastante e estava a perder. Receei que estivessem a fazer batota e disse-o, lançando mão do revólver. Os outros conheciam a minha fama. Não tocaram nos seus e deram-me explicações.
«Não me conformei com elas. A bebida e a perda do dinheiro tinham-me posto furioso. E estava convencido de que faziam batota. Com uma bofetada deitei a rapariga ao chão. Ela levantou-se, insultou-me, tirando um revólver a qualquer daqueles homens com a intenção de me matar. Dei-lhe um tiro num braço e começou a guinchar.
«Um daqueles homens sacou da arma. Meti-lhe uma bala no estômago. Os demais levantaram os braços rapidamente, aterrorizados. E então entrou Dan...
«Ia buscar-me. Alguém lhe dissera que eu estava ali, metido numa zaragata, e sei que entrou julgando que eu precisava de ajuda. Porém, eu tinha perdido por completo o domínio dos nervos e só vi um homem que entrava apressadamente no local, com a mão sobre a coronha do revólver. Antes de ver a sua cará, já tinha apertado o gatilho. E matei-o...
Voltou a calar-se, vencido pela fadiga e pelos remorsos. Cristy, muito pálida, afagou-lhe a cabeça. Sem o parecer notar, Mike concluiu surdamente:
— Matei o meu melhor amigo, o homem que era como meu irmão e tinha corrido em meu socorro. Quando o vi cair, a nuvem de sangue e álcool que nublava os meus olhos evaporou-se de um golpe. Em dois saltos cheguei a seu lado... e ainda pude ver o seu olhar agónico fito em mim, perguntando-me porque o tinha matado... a ele.
«Senti-me louco. E apontando o revólver ao meu peito dei um tiro a mim mesmo. Porém, um dos que estavam junto de mim deu-me uma pancada no braço e desviou a bala, que apenas me feriu sem me matar. Despertei em casa de outro amigo, que me recolhera e curara, e quando pude valer-me das minhas forças, saí dali, montei a cavalo e afastei-me de Kansas, perseguido pelos remorsos do meu crime.
«Durante muitos meses, vagueei de um lado para o outro. Finalmente, acabei por chegar ao «Círculo Cross», onde pedi trabalho com um nome suposto. Julgavam-me morto, pois ao sair de Wichita não estava curado da minha ferida e até bem longe disso. E, na realidade, Mike Mansfield estava morto, e em seu lugar ficara um nutro homem ao qual causava horror empunhar uma arma contra um semelhante, matar outro homem, porque todos eles tinham o rosto de Dan Price...
Estremeceu e levantou os olhos para os fitar na jovem.
— Agora já conheces a história — disse. — E porque me horroriza matar. No entanto, sei que hoje matarei Crewe, sem o menor remorso.
Muito séria, com o olhar terno e compassivo, Cristy inclinou-se e beijou-lhe a fronte enfebrecida, murmurando:
—Obrigada por mo teres contado, Mike. Assim já pude compreender-te melhor...

domingo, 30 de abril de 2017

PAS742. Quando alguém quer partir

Cristy descia do seu quarto, quando ouviu a voz de seu pai no escritório.
— Com todos os diabos, Mike Morgan! Que mosca te picou? Queres dizer-me, de uma vez, porque desejas abandonar o rancho?
Abandonar o rancho! Cristy perdeu a respiração, e sentiu-se invadir por um susto tremendo. Mike queria ir-se embora!
A voz dele chegou-lhe fria, calma:
— Necessito de me ir embora, é tudo. Chegou-me a vontade de mudar de ares.
A resposta de Joyce fez corar as faces de sua filha. Porém, já estava com a mão no puxador da porta. E entrou sem bater.
Seu pai fazia frente, com o rosto congestionado pela indignação e pelo desconcerto, a um pálido e impassível Mike. Os dois olharam-na, ao ouvi-la entrar. E Cristy julgou ver algo de estranho nas pupilas do vaqueiro.
—Que é que estou a ouvir? Mike Morgan? Que queres deixar-nos? — inquiriu.
— Assim é, menina Cristy.
Cristy protestou:
—Porém... porém isso é absurdo! Precisamente agora...
Mordeu os lábios, perturbando-se ao compreender que havia estado a pontoe de deixar escapar. Seu pai franziu a testa, olhou-os e rouquejou:
— Acaba de entrar e de dar-me a notícia. E aí o tens, especado, sem me dar explicação nenhuma. Vê lá tu se lha podes conseguir.
— Não há nenhuma, patrão, além do que lhe disse. Cansei-me de estar aqui, é tudo.
— Olha para mim, Mike Morgan. Estás a mentir e todos sabemos. Tu tens outro motivo e eu quero conhecê-lo, agora mesmo.
A veemência da jovem fez franzir ainda mais a testa de seu pai e pôs urna expressão de amargura nos lábios de Mike.
— Pode ser que eu seja tão embusteiro como cobarde, menina Cristy — disse calmamente.
Ela mordeu os lábios, fazendo-se vermelha até à raiz dos cabelos.
— Então... então é por minha culpa... Mas já te pedi perdão!
— Não... não é por isso.
— Sai, Cristy. Deixa-nos sós e não pares a escutar do outro lado da porta.
— Oh! Papá!
— Sai, Cristy.
Turbada, ofendida, temerosa, a jovem hesitou uns momentos, olhou suplicante e compungida o impassível Mike e depois obedeceu, mordendo os lábios.
Ao ficarem sós, Joyce adotou um tom mais brando.
— Vamos a ver, rapaz, se posso tirar-te da cabeça essa ideia absurda. Dizes que queres marchar hoje mesmo, sabendo bem que ainda não estás em condições de galopar. E dás uma explicação absurda. Que tal se virarmos as cartas com as pintas para cima?
— Eu já as pus.
— Não me faças rebentar de novo com a tua casmurrice. Sabemos que não é verdade. Vamos... é por Cristy? Sê sincero.
— Por ela também.
— Hum! Já o suspeitava. Não te consideras digno da minha filha... Bem, rapaz, deixa que Cristy e eu decidamos o que consideramos mais conveniente. Admito que até há pouco tempo os dois não tínhamos de ti um conceito lá muito bom. No entanto, a tua conduta fez mudar os nossos pontos de vista. Pela minha parte, não quero que deixes o meu serviço. E estou disposto a dividir a autoridade de capataz entre ti e Jim Thornton...
— Sabe que não poderia...
— Como? Hum! Bem, talvez... Porém, aqui sou eu o patrão. E tenho muitas reses, muita terra e muitos vaqueiros e peonagem. Um só capataz não pode abarcar tudo de maneira a sentir-me satisfeito.
—Thornton não o toleraria. Além disso, eu tão-pouco quero esse lugar.
—Porque não? Vê bem, sê razoável, rapaz! Dou-te o cargo por inteiro. Sei que Thornton te vê com maus olhos, desde que Cristy começou a mimar-te demasiado e a demonstrar as suas preferências por ti...
— Deixe-o estar, patrão.
— Com todos os diabos! Estás a tornar tudo muito difícil, filho! Estou a tratar de te meter na moleirinha a ideia de que, se minha filha gosta de ti, não penso opor-me ao vosso casamento, agora que já demonstraste que és capaz de a proteger e também ao rancho. Incluo, se na tua vida passada existe alguma coisa pouco clara... bem, bastaria que, de homem para homem, tudo me contasses agora e me prometesses não reincidir. Mike escutava-o muito pálido e grave. Respondeu com voz clara e aguda:
— Nunca lhe agradecerei bastante as suas palavras, senhor. Porém, daria a sua filha a um assassino?
Joyce sentiu como uma forte cacetada na nuca.
— Um assassino... tu?
Mike assentiu.
— Sim, eu. E não pergunte mais nada. Sua filha, esquecerá facilmente, se é que alguma coisa começou a sentir por mim. E eu não devo aproveitar-me da sua generosidade para causar-lhe um dano irremediável. Dê-me, pois, a minha soldada, e deixe-me partir sem mais perguntas.
Cristy estava no pórtico da casa, entrançando e desentrançando as mãos, com gesto nervoso. Ao ver surgir Mike, cortou-lhe o passo e começou a falar com veemência:
— Mike, eu...
Com um triste sorriso, Mike cortou-lhe a palavra:
— Não diga nada, menina Cristy. Parto agora mesmo.
Cristy perguntou:
—Porquê? Porquê? Preciso de uma explicação. Não podes deixar-me... bem... assim... assim... Não quero que partas, Mike Morgan. Compreendes? Não quero!
Mike pegou-lhe nas mãos, abanando-a.
— Não há outra solução, Cristy Joyce. Nenhuma. Não a mereço, creia. E o melhor que posso fazer por si é afastar-me.
— Mas... porquê... porquê?
Mike respondeu:
— Por muitas coisas. Cada um deve pagar o que faz... e não deve saber mais. Até nunca, Cristy Joyce... jamais a esquecerei.
Inclinou-se bruscamente e beijou-a na testa. Ela fechou os olhos.
Quando os abriu, Mike já caminhava para o estábulo, onde já tinha o cavalo encilhado. Quis chamá-lo, mas um nó apertou-lhe a garganta. Ia-se embora... para sempre. Com um terrível segredo que lhe impedia corresponder ao seu amor... amando-a...
— Oh! Mike! Mike! Que terás feito? — gemeu, tapando a cara com as mãos.

sábado, 29 de abril de 2017

PAS741. Uma jovem suspira pelo cobarde

Quando entrou no dormitório, quase toda a gente se encontrava deitada e muitos já dormiam. Contra o que era costume das outras vezes, alguns dos seus companheiros saudaram-no de maneira diferente. O próprio Thornton falou-lhe como a um igual.
— Demoraste-te muito, Mike. Algum tropeço?
—Nenhum, Jim. Tudo correu bem.
— Pois muito meu alegro.
Sim, tinha mudado um pouco a atitude dos seus camaradas para .com ele.
Estendeu-se na sua tarimba, depois de tirar o jaleco e as botas e entrecruzou as mãos debaixo da cabeça, ficando quieto de boca para cima. Ainda mudaria mais, quando soubessem o que ocorrera naquela tarde. Provavelmente, começariam então a pensar... todos. Como  estaria magicando o xerife Bracken..
Bracken, que tinha sido xerife em Topeka... e ainda se recordava dia sua cara.
Muito (antes ide nascer o sol, 0 pátio do rancho. estava cheio de animação e de bulício. Os homens tiravam os cavalos dos estábulos, davam-lhes de beber, apertavam-lhes as cilhas, vistoriavam as alfaias de trabalho, colocavam sobre as pernas as proteções de ca-lda , iam .até à cozinha em busca de uma  tigela de café negro, falavam aos gritos... enfim, toda a gama de ações que se repetia, 4nvariávelmente, todas as segundas-feiras de manhã.
Cristy tinha-se lançado fora do leito quando os primeiros gritos alegres soaram com o dealbar do dia, frio e cinzento. Foi encostar o rosto ao vidro da sua janela. E o primeiro homem que viu foi Mike Morgan, caminhando para a cavalariça.
Mike Morgan... Os seus sentimentos para com ele tinham-se modificado um pouco, depois de ouvir as notícias que Jim Thornton trouxera a seu pai. De maneira que tinha sido capaz de amedrontar aquele assassino do Dogan, de revólver em punho, e depois tinha--lhe dado uma tareia soberana, ainda que este pormenor só pudesse ser sabido por conjeturas.
Sentiu uma agradável emoção e ao mesmo tempo um ligeiro desassossego. Mike Morgan tinha respondido bem ao aguilhão dos insultos. Não era um cobarde, então... tê-lo-ia feito por ela?
Estivera pensando muito no assunto antes de adormecer. E agora apressou-se a lavar-se e a vestir-se, enquanto cantarolava, excitada.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

PAS740. Um cobarde cansado de o ser

Mike ia pela rua devagar, como abstraído nos seus pensamentos. Porém, não o estava tanto que não reparasse em duas coisas de sumo interesse. A primeira, a presença do xerife Bracken diante do armazém de Steele, enrolando calmamente um cigarro e olhando na sua direção. A segunda, o tipo que, apenas o viu. se apressou a entrar no «Prairie Saloon»
Quando os batentes do mesmo se abriram, dando passagem a Dogan, toda a rua se pôs em movimento. Enquanto os homens se aprestavam a assistir à iminente peleja, as mulheres apressaram-se a chamar seus filhos e a meterem-se em suas casas, receando o que ia passar-se.
Mike seguiu o seu caminho no mesmo passo. Não pareceu ter visto Dogan. Sem embargo, o seu rosto parecia agora mais velho e os olhos afundavam-se-lhe nas órbitas.
Dogan saiu para a rua com gesto fanfarrão, ajustando o cinturão e deixando logo a mão direita junto à coronha do revólver. A ninguém cabia a menor dúvida acerca das suas intenções. Tinha todo o rosto tumefacto, com grandes marcas dos punhos de Mike. E brilhavam de ódio os seus olhos inchados.
Quando Mike se encontrava a uns quarenta metros dele, levantou a voz em tom agressivo:
—Eh! Tu, porco! Chegou o momen...
O que então sucedeu dificilmente seria esquecido  por aqueles que puderam presenciá-lo.
Todos esperavam um duelo à maneira clássica do Oeste, ou uma nova retirada de Mike Morgan, pois, a falar verdade, muitos poucos confiavam que aceitasse o claro desafio. O que ninguém pôde prever, nem mesmo Bracken, foi o que aconteceu.
A mão direita de Mike desceu para a sua arma com tal velocidade que ninguém pôde seguir-lhe os movimentos. A distância era tal que ninguém, a não ser um magnífico atirador, teria iniciado a ela um duelo a tiro. O mesmo Dogan, que não atirava mal, pensava aguardar a clássica distância dos vinte e cinco a trinta metros.
Quando quis puxar do revólver, os seus movimentos tornaram-se ridiculamente lentos em comparação com os de Mike. Soou um estalido e todos viram brotar urna chama alaranjada da arma de Mike e o revólver que Dogan começava a tocar saltou velozmente do coldre, enquanto o pistoleiro retirava a mão instintivamente, com gesto dolorido. Um momento depois, a arma, avariada pelo choque da bala contra o tambor e o gatilho, caía no pó do caminho.
Desarmado, com a mão entumecida, Dogan enfiou uma série de pragas e juramentos soezes, enquanto a cara se lhe punha cinzenta. Segundo o estabelecido na lei do Oeste, ninguém podia impedir Mike de dar novo tiro e meter uma bala na cabeça do adversário.
Mike continuou a avançar no meio de um silêncio sepulcral. A sua mão empunhava firmemente o revólver, apontando ao cada vez mais nervoso Dogan. Este começou a mover os pés, a passar a língua pelos lábios subitamente ressequidos.
A tensão tornou-se insuportável. Homens, mulheres e crianças aguardavam o tiro inevitável com a alma em suspenso. O próprio Bracken, com o sobrolho franzido, tirou um cigarro e deu um passo, baixando a mão até ao cinto.
Mike não tinha nenhuma pressa, ao que parecia. Calmamente, chegou a dez passos de Dogan, a seis, a cinco, a quatro...
O pistoleiro estava lívido e encolhido, com os olhos a saírem-lhe das órbitas. Tinha-se-lhe secado a garganta e o pomo-de-adão movia-se-lhe espasmodicamente. Nem sequer podia falar, porque era a única pessoa em condições de ver bem os olhos de Mike, o pusilânime. E o olhar daquelas pupilas tinha-o deixado gelado até à medula dos ossos.
Quando Mike chegou a três passos de Dogan levantou lentamente o revólver. Uma mulher tapou a cara com as mãos. Outra gemeu. Um homem gritou roucamente:
— Deus, vai fazê-lo!...
A destra de Bracken caiu pesadamente sobre a coronha da sua arma.
Mike deu outros dois passos, mantendo fixo o olhar sobre os olhos de Dogan, cuja fronte estava pulada de suor frio. Depois...
Depois levantou o revólver velozmente.
Uma mulher guinchou.
O cano da arma caiu sobre o rosto de Dogan, partindo-lhe o nariz e os lábios com um ruído seco;
O pistoleiro vacilou, gritando quaisquer palavras ininteligíveis. E levantou ambas as mãos, para proteger o destroçado rosto.
O cano do revólver chocou de novo, violentamente, com a sua cara. E Dogan tombou, como um saco deixado cair de golpe, ficando feito num farrapo sobre o solo, a cara convertida numa massa de carne sanguinolenta e sangrando copiosamente. Porém vivo.
Foi como se levantassem de repente uma imensa lousa. Soaram vozes, murmúrios, rumor de homens movendo-se. O revólver de Bracken caiu no seu coldre, enquanto o xerife esboçava um sorriso duro e pensativo. As mulheres respiraram com alívio e toda a gente olhou Mike Morgan de uma maneira muito diferente.
Impassível, tendo deitado apenas uma olhadela ao castigado assassino, Mike guardou o revólver e passou ao lado do caído Dogan, seguindo o seu caminho com a mesma tranquilidade, sem olhar para ninguém de maneira especial, com um duro sorriso à flor dos lábios.
Sabia que Bracken estivera a ponto de intervir e que não o deixaria afastar-se, mesmo assim, sem mais nem menos. Não moveu, pois, um músculo, quando o xerife desceu do passeio e se aproximou pausadamente. Os dois homens enfrentaram-se no meio da rua, renovando-se a expectação geral.  
— Foi um bom trabalho, Morgan.
— O senhor acreditou que eu ia matá-lo a sangue-frio.
— Confesso que sim... por um momento. O senhor é um atirador de primeira ordem.
— Defendo-me.
— Já vi.  E pergunto-me como as gentes daqui chegaram a pensar que o senhor era um cobarde.
— Às vezes, até os cobardes se cansam de o ser.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

PAS739. Insultos difíceis de engolir

Mike deteve-se diante da entrada do «saloon». Saíam ruídos de música desafinada, risos de mulher demasiado altos e risotas masculinas. Ali dentro a gente parecia divertir-se. Se entrava, era quase seguro que de pronto teria uma questão com Dogan ou qualquer outro bêbado desordeiro. Na maior parte os vaqueiros dos outros ranchos haviam deixado de meter-se com ele, tratando-o com certa indiferença desdenhosa. Conhecia-se a sua boa pontaria e sabiam-se as suas façanhas que salvaram o gado do rancho. Isso travava muito o desprezo daqueles homens por um que recusava sistematicamente lutar, ainda que fosse provocado. De qualquer modo, não podia dizer que contasse com muitos amigos, fora três ou quatro dos seus próprios companheiros. E não queria causar-lhes dissabores.
Seguiu o seu caminho e abriu os batentes da taberna de Harris. Era o local mais sossegado da povoação e dava-se bem com o seu dono.
Havia pouco mais de uma dezena de clientes, entre eles dois ou três dos seus companheiros e vários vaqueiros dos ranchos vizinhos. Quase todos bebiam ou jogavam na companhia de batoteiros profissionais e gente da população. Ali não havia mulheres. Como o conheciam, apenas recebeu uns olhares e dois ou três cumprimentos indiferentes ou desdenhosos. Preferia assim. Acercou-se do balcão e cumprimentou o taberneiro.
— Olá!, John. Dê-me um trago.
— Olá! Mike. Chegaste um pouco tarde.
— Não tinha pressa.
Era o que costumavam dizer... Mais ou menos, as mesmas frases todos os sábados. O taberneiro serviu-lhe de beber e Mike saboreou um gole, enrolando epois, destramente, um cigarro. Mike perguntou:
— Muitas novidades por aqui esta semana?
— A mulher de Curly Farow teve uma filha na quinta-feira. Boa bezerrinha... E um mexicano, recém--chegado, deu uma boa navalhada a Tom Willard, quando ontem disputavam por uma jogada de «poker».
— Que aconteceu ao mexicano?
— Está preso.
Durante os quine minutos seguintes, Mike não fez outra coisa que fumar e beber a curtos sorvos, enquanto contemplava os demais com os olhos semicerrados e o chapéu deitado para a nuca. Observando-o, dir-se-ia que não olhava para ninguém, mas para dentro de si, ou para uma distância insondável. Também se notava, na sua descuidada atitude, certa instintiva tensão, cheia de energia contida.
Mais tarde, vozes ásperas soaram na rua. Mike passou a língua pelos lábios e ficou com o rosto sombrio. Porém, antes que pudesse fazer outra coisa, os batentes abriram-se com violência, dando passagem a três homens.
Vinha à frente um tipo alto, forte, moreno, de compridos bigodes pretos, olhos raiados de sangue e pálpebras empapuçadas. Trazia o revólver colocado baixo e mexia nele com ar fanfarrão. Deteve-se sobre as pernas bem abertas e passeou o olhar pela sala, onde a sua aparição tinha provocado certa tensão e olhares de esguelha a Mike.
Depois, aparentando não ver este, avançou com passo pesado até ao balcão e foi encostar-se ali, a uns dois metros do silencioso vaqueiro. Os seus dois companheiros imitaram-no, olhando Mike também de esguelha, com um sorriso desdenhoso.
Este voltou-se para colocar o seu copo sobre o balcão. Um bom observador teria captado o aperto dos seus lábios.
— Quanto devo, John? — inquiriu.
— Vinte e cinco cêntimos.
Dogan levantou a sua voz áspera, detendo o taberneiro:
— Deixa essa rata, John, e serve-nos, a nós, homens, um trago.
O seu insulto fez calar toda a gente. O taberneiro olhou Mike de soslaio.
Este apenas acusou o insulto com um cerrar de olhos. Lançou um dólar sobre o balcão e disse seco:
— Paga-te, John.
— Já disse que me sirvas primeiro. — Dogan voltou-se, para olhar Mike com desdém agressivo. — Esse  porco sujo com sangue de negro pode esperar que eu me permita pagar e sair.
— Maldito seja! — um dos vaqueiros do «Círculo Cross» que estavam ali não pôde aguentar mais, e saltou, derrubando a cadeira, com os olhos chamejantes. — Já me fartei de passar vergonha por tua culpa, Mike Morgan! E tu, Dogan, olha para cá! Nem todos os homens do «Círculo Cross» temos tão pouca coragem como esse. Se queres zaragata, aqui me tens!
Os outros dois vaqueiros do «Círculo Cross» levantaram-se também, agressivos e carrancudos. Dogan pôs-se em guarda e também os seus dois companheiros. Ninguém parecia reparar em Mike, de tal forma era. considerado coisa desprezível.
— Já vejo que és um galito de combate, Biggert — «grunhiu» Dogan. — Porém, não deverias dar a cara por um reles tipo desprezível como esse vosso companheiro. De qualquer modo, se queres barulho, adiante...
— Será melhor que ambos deixeis as mãos quietas.
A suave e fria ordem de Mike obrigou todos a olharem-no. Dogan pestanejou, perplexo. E também alguns outros. Porque na mão direita do vaqueiro se achava firmemente empunhado um revólver.
— Tem cinco balas — continuou no mesmo tom. —E uma só é bastante para acabar com um assassino bêbado. É melhor que levantes as tuas mãos, Dogan e não me obrigues a puxar o gatilho.
No brusco silêncio da sala, Dogan soltou um violento palavrão.
— Se pensas que porque me colheste de surpresa...
O tiro estalou com fortes ecos. Dogan deu um pulo ao sentir a queimadura da bala sobre o lóbulo da orelha,
— Talvez já tenhas ouvido falar da minha pontaria. Não me obrigues a demonstrá-la.
Pouco a pouco, as mãos de Dogan levantaram-se. E também as dos seus companheiros. Estavam mais desconcertados que assustados pela inesperada reação de quem até então se havia mostrado tão pouco belicoso. Mike voltou a dizer ao taberneiro:
— Paga-te, John.
Em silêncio, o taberneiro obedeceu. Sem deixar de apontar ao trio de corridos assassinos, Mike recebeu o troco e guardou-o. Depois caminhou para a porta. Olhou então o vaqueiro que momentos antes estalara de nojo.
— Tens o sangue demasiado quente, Don — disse--lhe com calma. — Quando fores dar uma ajuda a um companheiro, assegura-te primeiro se ele na verdade o necessita.
O outro mastigou em seco, suspenso do que Mike dizia. E antes que ele ou alguém desse palavra, Mike saiu do local.

domingo, 29 de janeiro de 2017

BIS122. Mike, o troçado


(Coleção Bisonte, nº 122) 
Mike Morgan era sem dúvida o melhor cavaleiro, o mais eficiente e cordato dos peões que jamais trabalharam no rancho do «Circulo Cross» propriedade do velho Joyce, pai da bela Cristy. Mas parecia faltar a Mike a principal qualidade que, no oeste, se exige a um homem: a valentia pessoal. Isso levava a que muitos o não respeitassem e até tentassem troçar dele.
A verdade é que, nas palavras do próprio Mike, até um cobarde deixa de o ser e o passar de uma quadrilha conhecida do terrível Crew por aquelas terras fez com que a verdadeira história de Mike viesse a ser conhecida.
Este é mais um livro de Jess Mc Carr, um livro interessante, mas sem o brilho dos anteriores. Mais uma vez o velho bandido que se quer regenerar está junto de uma “família de acolhimento” e impressiona a beldade da mesma. A capa, não assinada, é magnífica, mostrando um pormenor da luta de Mike contra os malfeitores, procurando proteger a vida da bela Cristy…

Outras passagens

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...