sábado, 13 de janeiro de 2018

PAS829. Amor de bailarina

Harold havia-se instalado no andar mais alto do «Stanzer's». Três quartos contíguos constituíam os seus aposentos que eram, na cidade, os únicos daquele género.
Quando entrou no quarto, a primeira coisa que fez foi mirar-se ao espelho, para ver se o seu rosto tinha, ultimamente, sofrido qualquer alteração. Com alguma surpresa, verificou que tal não acontecera. Via diante dele uma face de traços acentuados, olhos azuis e fronte ampla.
Observava cuidadosamente a imagem da sua face. Nada havia mudado e, contudo, ele seria capaz de jurar que deveria ler-se algo de novo naquelas feições. «Algo»... que Harold não sabia definir lá muito bem...
Quando retirava o cinturão, bateram à porta, devagarinho.
—Entre — disse.
Voltou-se e viu Aline.
Tinha despido o traje de noite e vestira um ligeiro «robe de chambre» que não bastava para esconder as linhas perfeitas do seu corpo.
— Incomodo? — perguntou no limiar da porta. Harold não respondeu e ela entrou. Trazia um cigarro nos lábios e estendeu-os no gesto de quem pede lume. Harold deu-lho.
«Ghost» ficou pensativo durante uns momentos.
—O chefe quer falar consigo... Mas não agora. Logo à noite... –
Deu meia volta e dirigiu-se para a porta. No limiar desta virou-se e disse:
— Menina Narrnan, creio não ser necessário que venha tratá-lo das arranhaduras, sempre que ele tape com um chaparro venenoso.
E saiu. Harold desatou a rir, mas a jovem manteve-se séria.
— Tens medo deste «espectro»? — perguntou Harold.
-- Como é a a filha do outro «mister» Stanzer? — indagou Aline mirando-o de soslaio. — Sim, vi-a umas duas vezes. É uma menina, não é verdade? Porque abandonaste o rancho? Penso que, para ti, não seria difícil chegar à bolsa do pai, passando pela…
—Cala-te, Aline!
—Não quero! — E nos olhos dela ia surgindo um sombrio resplendor.
Harold, em duas passadas, colocou-se ao lado (Ia bailarina.
— Não continues a falar dessa maneira. É um conselho...
— Tenho esse direito — respondeu Aline, desafiante. — Será que... ela não te agradava o suficiente? É isso, Harold Rodney? Acaso achaste mais apetecível... Stanzerville... e eu?
Harold voltou a rir-se e nas faces da rapariga apareceu uma mancha escarlate. A bailarina pegou, então, num castiçal de bronze e ergueu-o acima da cabeça.
Rodney susteve-lhe o braço no ar e o gesto perdeu toda a sua força.
— Não quero que me raches a cabeça... apesar de tudo — disse. — Vamos, compõe esse «robe».
«Ghost» ou outro tipo podem aparecer de um momento para o outro... e que pensariam? A resposta da jovem desorientou-o.
— Amo-te, Harold... Largou-a, deveras surpreendido.
Então, com grande espanto de Harold, ela deu meia volta e saiu da quarto, quase a correr.
— Com mil diabos! — exclamou Rodney.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PAS828. Um xerife em fuga

Stanzerville ocupava uma área superior àquela que, na realidade, lhe corresponderia em função do número dos seus habitantes. Quando, havia cerca de um mês, Harold Rodney chegara à cidade, erguia-se, no extremo sudoeste desta, uma construção que lhe despertou a atenção. Agora, enquanto cavalgava ao lado de Karl Stanzer e de «Ghost», sentiu novamente a curiosidade de saber o que seria aquilo. «Mister» Stanzer seguiu-lhe o olhar.
— Uma das melhores coisas que fiz na vida —disse com orgulho. — E já realizei muitas coisas bem feitas — acrescentou. — Não sabes o que é aquilo?
— Parece uma cisterna gigantesca — respondeu Rodney examinando a obra com toda a atenção.
—É realmente uma cisterna — foi a resposta. —Stanzerville cresceu... Cresceu por onde tinha de crescer, mas não havia água. Eu desviei o curso de um afluente do rio Boise e construí essa cisterna. Todas as pessoas bebem da minha água e, se eu quisesse, num dado momento poderia matá-las à sede.
— Toda a água consumida por Stanzerville provém desse depósito? — indagou Harold.
— Sim — respondeu o outro.
Os seus olhos vagueavam pela paisagem. De onde estavam, divisava-se quase toda a cidade. À esquerda, vários homens trabalhavam num longo valado •com tapume.
— E o que é aquilo? — perguntou.
Stanzer olhou-o de relance e, acto contínuo, voltou--se para «Ghost».
— Diz àqueles homens que se apressem. É preciso — ordenou. Depois, dirigindo-se a Rodney: — Não é da tua conta, rapaz. Não te trouxe aqui para me fazeres perguntas. — Ergueu-se um pouco na sela. — Gostarias de ser o xerife de Stanzerville?
—Esse cargo não está ocupado? — interrogou Rodney com brandura.
O outro esboçou um gesto de impaciência.
— Não te fiz uma pergunta para que me respondas com outra. Gostarias de ser o xerife de Stanzerville?
— Claro que sim, chefe!
— Receberias o melhor ordenado da tua vida e o trabalho não te mataria... — acrescentou com uma risadinha que fez eriçar os cabelos da nuca de Harold. — Mas já sabes: obediência absoluta às minhas ordens ou às de «Ghost». Compreendeste?
— Sim, chefe.
Os olhos de «mister» Stanzer, grandes e pestanudos, fixaram-se no rosto de Rodney. Embora o dono de Stanzerville quisesse tornar hipnótico o seu olhar, este tornava-se um tanto esquivo, quando alguém o enfrentava durante uns momentos. Harold não o quis contrariar.
—E isto não é tudo. O xerife actual serviu os meus interesses, mas já não vale grande coisa, entendes? É um homem embrutecido pelo álcool, um inútil. Harold assentiu com um movimento de cabeça.
— Devo pedir-lhe a insígnia? — perguntou.
— Não! — foi a resposta. — Tens de tirar-lha. Esse indivíduo estorva-me. Uma das tuas primeiras obrigações, ou melhor, a primeira, será a de eliminares o xerife. Assim, o teu direito ao cargo será maior. Compreendeste?
— Devo, pois, eliminá-lo?
— Sim. E agora. — Estendeu o braço, com o gesto de um homem que envia cem mil soldados para a guerra, e dísse:
— Cumpre a tua primeira obrigação de novo xerife. Mas... discrição! Não actues onde todos possam ver-te, entendido?
Harold levou a mão à aba do chapéu, simulando uma continência, e partiu a galope.
Um momento depois, entrava na povoação e parava a montada em frente do comissariado. O xerife dormitava numa cadeira, a cabeça descaída sobre o peito. Sabendo que nesse instante estariam muitos olhos a observá-lo, Rodney despertou-o com uma brusca sacudidela.
— Que há? — perguntou o homem mirando-o com um olhar vago.
— Oiça-me bem, xerife — disse Harold em voz baixa. — Consegue entender-me?
— Eu... Você está preso por ter desrespeitado a autoridade... — mas, ao ver expressão de Harold, pareceu adquirir consciência.
— Não há tempo a perder -- disse Rodney olhando-o fixamente.
— Ordenaram-me que o matasse, mas não quero fazer isso. Não olhe lá para fora! Volte-se para mim. Levá-lo-ei da cidade e pensarão que vou liquidá-lo. Agarre em tudo aquilo que lhe possa fazer falta e prepare-se. São ordens de «mister» Stanzer. percebeu?
O xerife despertara por completo e ergueu-se no' tanto trémulo.
—Não dará cabo de mim? -- perguntou. — Isto não será uma armadilha?
— Se assim fosse, matava-o já aqui. Vamos, depressa!
O xerife retirou uma bolsa da gaveta da mesa. Harold levantou a voz para que o ouvissem no exterior.
—Vamos já, xerife. Não perca mais tempo, com seiscentos demónios!
Saíram para a rua.
—Monte no seu cavalo — ordenou Harold — ouça o que ouvir, não faça caso.
Atravessaram a cidade. O xerife tremia na sela e, de quando em quando, passeava em redor os seus olhos de cevado, mostrando não compreender lá muito bem o que se estava a passar. Duas milhas mais adiante de Stanzerville corria o afluente do Boise que servia para encher o depósito construído por «mister» Stanzer.  Harold Rodney deteve a montada junto de uns amieiros, à beira do rio.
— E agora, homem, fuja e não volte mais a Stanzerville.
— O... o... obrigado — gaguejou o xerife.
E desapareceu por entre o arvoredo, vagarosamente.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PAS827. Uma forma original de conseguir trabalho

Os salões de jogo, de baile e outros centros de diversão abriam as suas portas às seis da tarde. Perto das sete encontravam-se quase cheios e às nove da noite a abarrotar de gente. Harold Rodney chegou ao «Stanzer's» cerca das oito horas, quando grande parte das mesas já estavam ocupadas por jogadores e, em torno da grande roleta, lamentavam-se os apostadores mais fanáticos.
A primeira pessoa que o viu foi Aline. A jovem tinha-se sentado em cima de uma mesa e cantava o «Querido e Velho Kentucky», acompanhando-se à guitarra.
Não deixou de tocar, mas arregalou os olhos, muito surpreendida. A seguir, quem o viu foi o xerife que beberricava encostado ao balcão. «Ghost» reparou nele, quase ao mesmo tempo.
O xerife interrogou «Ghost» com o olhar e este baixou a cabeça, numa silenciosa afirmação. A rapariga parou de cantar e dirigiu-se paira o palco, com um andar ondulante.
O xerife avançou para Harold que não se havia afastado do limiar da porta. •
 -- O senhor está... — principiou a dizer.
— Vá para o inferno, velha catatua! — respondeu-lhe Harold, vincando bem as palavras. — Não volte a dizer que estou preso, porque lhe prego um tiro. E quando Harold Rodney dispara contra alguém é a matar! Há aqui quem o saiba...
O xerife retrocedeu prudentemente. Rodney encaminhou-se para o recanto onde se encontrava «Ghost» e estacou diante dele, com as pernas abertas.
— Quero ver o teu amo!
«Gost» não esboçou qualquer gesto. Mas dois dos homens encarregados da vigilância do local tinham-se ido aproximando. Rodney repetiu o que acabara de dizer e, acto contínuo, voltou-se para trás, com a agilidade de um tigre. Os homens já haviam formado o salto para lhe caírem em cima. Eram ambos fortes e pareciam não possuir muitos escrúpulos. Nem a hora se prestava para tal.
— Não quero matar nenhum de vocês — disse Rodney esquivando-se.
O seu punho atingiu as costas de um deles e atirou-o ao chão, de boca aberta e com falta de ar. O segundo indivíduo saltou sobre o corpo do companheiro e caiu em cima de Rodney. Este recebeu-o com dois murros secos em plena cara e que tiveram o condão de lhe abrandar os ímpetos. Depois, um soco no estômago e o homem dobrou-se em dois, baqueando sem um gemido. Mas haviam surgido outros dois e a figura corpulenta do xerife entrava também em cena.
— Não me matem esse homem! — gritou uma voz autoritária. Karl Stanzer acabava de aparecer sobre o palco. — Desarmem-no, mas não o liquidem!
Durante dez minutos, os frequentadores do «Stanzer's» tiveram ocasião de assistir à melhor luta que lhes fora dado ver em toda a sua vida. Aqueles cinco homens mal puderam conter Rodney quando este os atacou, distribuindo golpes selváticos. Atiraram-lhe pontapés, bateram-lhe com as coronhas dos revólveres e, contudo, conseguiu pôr fora de combate três dos agressores. Mas a arma do xerife desceu com violência sobre a nuca de Harold. Então, o vaqueiro foi-se abaixo, como rês abatida.
— Atem-no e levem-no para um lugar seguro —ordenou Karl Stanzer. Depois acrescentou: — é mesmo um homem! Cinco contra ele e apenas lograram sujeitá--lo à traição. Cobardes!
— Penso como tu — observou Aline fazendo trinar a guitarra. — É um verdadeiro homem!
Stanzer virou-se para ela e lançou lhe um olhar glacial.
— Retira-te — disse. — Vai dançar. Não quero que te metas nisto. Cumpre •a tua obrigação!
Aline afastou-se. As mesas de jogo tornaram a formar-se e na roleta ouviu-se novamente o ruído caraterístico da bola saltitante.
Harold .Rodney foi levado para um quarto situado por detrás do palco e contíguo ao escritório de Stanzer. Deixaram-no no chão.
— Despejem-lhe a água fria na cara — ordenou Stanzer.
Harold recuperou os sentidos, meio afogado, porque parte da água lhe entrara pela boca. Abriu os olhos e mirou as faces que o rodeavam.
— Podes ouvir-me bem? — perguntou o proprietário, brincando com os berloques da corrente do relógio. Harold assentiu com um gesto de cabeça. —Assinaste a tua sentença de morte!
— Deveras. — E Harold tocou ao de leve no sítio da cabeça que recebera a coronhada.
— A minha força é lei em Stanzerville — prosseguiu o outro, sem o escutar. — O que eu ordeno é o que se faz e há-de ser executado no momento em que o digo. Não permito que lancem areia nas engrenagens da minha organização. Ouviste bem?
— E eu desejava exatamente o contrário — disse Harold. — Procurava o senhor para lhe oferecer os meus serviços.
Karl Stanzer franziu os olhos, sem deixar de fitá-lo.
— Isso é um truque, um estratagema para que eu não mande que te matem.
— Não. Fui expulso do rancho de Stanzer e busco trabalho.
— E porque é que te despediram?
— Porque não, obedeço a pessoas que não sabem mandar. Que não têm qualidades de chefiar, em suma...
—E é por essa razão ...— Stanzer deixou de brincar com os berloques. — Consideras-me um chefe?
— Basta ver tudo isto — respondeu Harold encolhendo os ombros. — Refiro-me à povoação e ao resto. Um incompetente não criaria semelhante obra. Só alguém capaz de mandar e fazer-se obedecer...
O rosto de Stanzer não permitia que Rodney lhe adivinhasse os pensamentos.
— Está a enganá-lo, chefe — disse o xerife imprudentemente.
Stanzer voltou-se para ele como uma serpente.
— Não me julgas um chefe? — perguntou numa voz aguda. O xerife arrepiou caminho, embora um pouco tarde.
— Não é isso, chefe. O que eu quis dizer é que...  – E calou-se, confundido.
Stanzer virou-se, de novo, para Harold.
— Só faço ofertas uma vez. Já te ofereci um bom emprego e desprezaste-o. Karl Stanzer não perdoa uma coisa dessas. Morrerás amanhã mesmo!
Harold sentiu como que um dedo gelado a percorrer-lhe a espinha.
— Como o preferir, chefe — disse com um ar indiferente. — Mas se viu a minha forma de lutar... Não acredito que tenha muitos homens como eu.
— Tanto se me dá — respondeu o outro. — Morrerás!
Deu meia volta e saiu do aposento.
— Acompanhem-me — ordenou.
E Harold ficou só. Haviam-lhe atado as mãos atrás das costas, de tal maneira que nem pensava na possibilidade de se libertar. O quarto, por outro lado, só possuía uma porta. Nenhuma janela quebrava a monotonia das suas paredes despidas. Ignorava quanto tempo tinha decorrido, quando a porta se abriu e «Ghost» apareceu.
— Vais morrer, rapaz — disse-lhe com a sua voz inexpressiva.
Sacou do coldre o revólver e aproximou-se de Harold. Este sentiu um suor frio a banhar-lhe a fronte.
— Mas o chefe não quer que desapareças tranquilamente — prosseguiu o homem. — Os rapazes pensaram que um bocado de diversão não lhes desagradaria. Eu venho apenas preparar a encenação, com diria Aline. Vamos, amigos, peguem nele e levem-no para o salão — acrescentou, dirigindo-se a dois homens que acabavam de entrar.
Haviam afastado várias mesas do centro da sala, dispondo-as de modo a formarem um círculo em torno de um espaço livre.
Sentaram Harold numa cadeira, enquanto os clientes interrompiam os jogos e rodeavam o grupo. Karl Stanzer encontrava-se na primeira fila e sorria sinistramente.
— Rapaz — disse então. — Embora não faltem as diversões em Stanzerville, não desprezamos mais esta que ainda por cima é grátis! — E voltou-se para os rostos que o cercavam.
— Claro! — foi a resposta unânime.
Aline, mais bela que nunca, fumando um cigarro e tendo nos lábios um sorriso misterioso, dirigiu-se para eles. Harold observou-a com atenção. Não sabia se a jovem se sentia satisfeita pelo que lhe estava a acontecer. Pelo menos não parecia demasiado preocupada.
— Na mão de «Ghost» existe um revólver — prosseguiu Stanzer.
— Essa arma não tem mais que uma bala. «Ghost» fará girar o tambor, encostará, seguidamente, o cano do revólver à tua cabeça e premirá o gatilho: Veremos quanto tempo vai levar a bala para se instalar no sítio conveniente! Porque «Ghost» rodará o tambor sempre que dispare... sem êxito. Rapaziada, toca a apostar!
Harold fez um enorme esforço para se dominar. Não era um cobarde, mas aquilo ultrapassava os limites do medo ou da coragem.
— Foi o senhor quem se lembrou deste jogo? — perguntou.
— Evidentemente...
— É digno de si — respondeu Harold com um ar de admiração que encheu Stanzer de contentamento. As apostas tinham principiado. Stanzer ergueu a mão e «Ghost» fez girar rapidamente o tambor do revólver.
Harold fez um esforço sobre-humano para não perder a calma.
«Pelo menos não lhes darei a satisfação de me verem empalidecer», pensou.
Fitou todos aqueles rostos à sua volta, mirou o cabelo loiro da rapariga e sorriu. Nesse instante o revólver tocou-lhe na testa e ouviu-se um estalido. Não houve nenhuma detonação.
— Outra vez — ordenou «mister» Stanzer.
«Continua a sorrir, continua a sorrir», disse Harold para consigo, procurando que esse sorriso não se transformasse num esgar.
De novo o revólver entrou em contacto com a sua cabeça e de novo o percutor bateu em falso.
«Continua a sorrir».
— Como vão as apostas? — indagou com uma voz tranquila.
— O tipo é duro de roer — comentou alguém.
Aline, disse algo ao ouvido de «mister» Stanzer. Este sorriu.
— Traz-me cá esse revólver, «Ghost» — pediu o proprietário.
Quando «Ghost» lhe entregou a arma, Stanzer abriu-a e mostrou-a a todos. Em nenhum dos orifícios do tambor se via uma bala.
— Tens sorte comigo, rapaz. Pretendes trabalho e eu preciso de um homem como tu.
Harold engoliu em seco e por uns instantes julgou que ia perder os sentidos. Mas admirou-se de si próprio, ao perguntar:
— Você sabia, Aline, que o revólver estava descarregado?

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

PAS826. De quem é esse cavalo?

Enquadramento da passagem: Harold, chamado pelo amigo Bertie, foi contratado por Martin Stanzer para trabalhar como vaqueiro. Mas uma conversa no saloon levou-o a conhecer os planos maléficos de Karl. Imediatamente idealizou abandonar o rancho, simulando um despedimento e combater o inimigo do seu patrão infiltrado nos seus homens
 
 
Harold deu-lhe um soco no queixo e Bertie rolou no chão, como um fardo. Nesse momento a porta abriu--se e Carol Stanzer entrou.
—Ouvi o que Bertie lhe disse e creio que ele tem toda a razão. Além daquilo que lhe chamou, o senhor é um quadrúpede! Um homem que agride quem se portou para com ele como o fez Bertie, não tem o direito de viver!
Estava muito bonita, com os olhos brilhantes e o cabelo ruivo a contrastar com a tez bronzeada pelo sol. Debruçou-se sobre Bertie e procurou reanimá-lo.
—Não o magoei muito — disse Rodney, afastando-a.
Harold pegou então no corpo de Bertie e foi deitá-lo em cima da cama.
— Saia daqui! — ordenou ela.
— Fá-lo-ei amanhã — respondeu Rodney com firmeza. — Não quero cavalgar de noite...
--- Esse cavalo que a senhor trouxe não lhe pertence — prosseguiu a jovem, fitando-o nos olhos. — Onde arranjou?
—Emprestou-mo um amigo — retorquiu Harold. em seguida, sem pensar, acrescentou: — Ou por outra uma amiga. Chama-se Aline Norman, e trabalha como bailarina no «Stanzer's».
A rapariga arregalou os olhos. Depois, deu volta e desatou a correr desordenadamente.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

PAS825. O singular sentido de humor de um tio testamenteiro

BOISE— 1855

Como se os seus movimentos houvessem sido previamente sincronizados, os dois homens chegaram ao mesmo tempo à porta da casa.
Qualquer observador casual tê-los-ia tomado por irmãos, porque existia entre ambos certa semelhança física. Não eram irmãos, todavia.
Um dos indivíduos, alto, magro, de cabelo castanho e olhar inteligente, trajava como um modesto vaqueiro: casaco curto de bombazina verde e calças de montar, com botas de meio cano. O outro calçava botas altas nas quais batia, de quando em quando, com uma badine de couro e vestia jaqueta de veludo, colete amarelo com ramagens e gravata cinzenta. Foi este último quem entrou em primeiro lugar. Iam ambos avançar ao mesmo tempo, mas o vaqueiro afastou-se.
Galgaram, depois um atrás do outro, os cinco degraus que conduziam ao escritório de «mister» Nehemiah Aaronson, o advogado mais solicitado e mais bem remunerado de Boise, no Idaho.
A porta abriu-se e um corredor levou-os a uma sala recheada de móveis de estilo isabelino, feios, mas aparatosos. «Mister» Aaronson pôs-se de pé, por detrás da secretária monumental. Ao sagaz judeu bastou apenas uma olhadela para diferençar os dois homens. –
— Bons dias — disse, com uma ligeira inclinação de cabeça.
— Suponho que o senhor será Karl Stanzer, não é assim? — acrescentou, dirigindo-se ao que entrara primeiro. O homem do colete amarelo assentiu.
Tinha olhos pardos, penetrantes, patilhas compridas e um pequeno bigode. As suas mãos pareciam não poder sossegar nem por uns instantes.
— E o senhor, portanto, deve ser Martin Stanzer —continuou, voltando-se para o outro.
Martin sorriu e moveu a cabeça.
— Bem, cavalheiros. Creio que os senhores não ignoram o motivo que me levou a chamá-los.
— Temos uma vaga ideia — disse Martin com um sorriso simpático.
— Mas preferimos que nos esclareça. No fim de contas, o senhor está na posse de todos os pormenores. Desejo frisar que me parece estúpido perder tempo com preâmbulos — observou Karl Stanger. —Entremos diretamente na questão.
«Mister» Aaronson mirou-o com um ar ressentido, mas não disse nada. Fez soar uma campainha e logo apareceu um dos seus empregados sobraçando um volumoso «dossier». Extraiu da pasta várias folhas de pergaminho de excelente qualidade e principiou a percorrê-las com o olhar.
— Como muito bem disse o seu primo — comentou, fitando Martin — prescindiremos dos pormenores. O senhor Laurent Stanzer, mais conhecido por «Alphabeth» Stanzer, irmão de vossos pais, faleceu na Europa. Deixa uma fortuna avaliada em cinco milhões de dólares. Salvo algumas disposições de somenos importância, todo esse dinheiro vai parar às vossas mãos.
Martin engoliu em seco. Era um homem de uns trinta e cinco anos, rosto juvenil e ar saudável. Karl, por seu turno, embora pretendesse dominar a emoção, mal o podia conseguir. As mãos e o queixo tremiam-lhe.
—Santo... Santo Deus! — murmurou Martin. — Não imaginava que existisse essa quantia em todo o mundo...
— Pois existe, senhor Stanzer, existe — disse \o advogado. — E essa importância pertencer-vos-á com... — neste momento um feixe de pequenas rugas surgiu--lhe em torno dos olhos. — Com a condição... — tossiu e calou-se.
— Vamos, fale! — exclamou Karl Stanzer, ofegante, enxugando o suor com um enorme lenço verde. — Não... Não há nada no mundo que eu não fizesse por essa soma!
— Acredito-o, senhor Stanzer — replicou friamente o judeu.
— Acredito-o. Pois bem, a condição é que os senhores serão obrigados a viver separados num espaço não superior a dez milhas. Para ser mais claro: se um de vós for morar a mais de dez milhas de distância do outro, perderá automaticamente o direito ao dinheiro.
A cara de Karl Stanzer não era nada agradável de se ver naquele momento.
— Não me pode fazer isso a mim! — disse numa voz estrangulada, enquanto volvia para o primo os olhos espantados. — O tio «Alphabeth» sabia perfeitamente que eu odeio este indivíduo, que o desprezo, que não posso suportar sequer a sua presença...
—É possível — admitiu o judeu — que o seu tio soubesse isso, mas também toda a gente lhe conhecia o seu singular sentido do humor.
— Karl e eu nunca nos pudemos tolerar — observou Martin num tom calmo — embora não saiba porquê. Quero dizer, embora eu ignore as origens do caso. Apenas sei que ele me odeia.
— Se te odeio! — exclamou o outro, pondo-se de pé, num rompante.
— Detesto-te! Seria capaz de te matar agora mesmo! Odeio-te de tal maneira! Matava-te!...
— Se fizesse isso perderia dois milhões e meio de dólares, senhor Stanzer — objetou o judeu fitando o testamento. — Não podem matar-se um ao outro. Proíbe-o o vosso defunto tio. Karl parecia prestes a explodir. Martin voltou-se para o advogado.
— E é tudo, «mister» Aaronson?
— Não. O senhor «Alphabeth» Stanzer tem... tinha umas terras no condado de Elmore, terras regadas pelo rio Boise. Sugere no testamento que poderiam muito bem construir ali as vossas casas, separadas, caso o prefiram, por uma distância de dez milhas, isto é, pela distância limite.
Os olhos de Martin brilharam.
— Terras de amanho e de gado?
O seu interlocutor assentiu.
— Assim é, senhor Stanzer. Terras excelentes para o cultivo e para o gado.
— Sou vaqueiro, «mister» Aaronson, e o meu maior sonho é o de poder vir a ter, um dia, um rancho com a maior grandeza possível, onde aplicasse à agricultura e ao gado todas as descobertas recentes. Aceito o alvitre — disse Martin, com os olhos a reluzir.
— Mas não eu — exclamou Karl, com as mandíbulas retesadas. — Terás de procurar outra coisa.
«Mister» Aaronson voltou a mirar os papéis, muito divertido, ao que parecia.
— Pois, nesse caso, o senhor Stanzer pode perder o seu dinheiro — advertiu-o.
— O vosso tio especifica que, se as terras agradarem a um dos senhores, o outro terá de conformar-se. Só na hipótese de nenhum dos dois as querer é que poderiam escolher outro local. Está bem explícito... senhor Stanzer.
— Maldito seja o senhor e maldito seja «Alphabeth»! -- ululou Karl. Depois, com um esforço visível, conseguiu dominar-se. — Está bem — disse, por fim, numa voz apagada. — Aceito. Há alguma povoação nessas terras?
— Uns quantos casinhotos de rendeiros, precisamente nos limites da propriedade.
— Bom... — quedou-se pensativo, um momento. E em seguida continuou: — Edificarei lá uma povoação, uma verdadeira cidade. Sempre ambicionei possuir uma bela casa de jogo.
Aaronson ergueu o sobrolho, com um ar de desaprovação.
— Casa de jogo?
— Sim, «mister» Aaronson. Não sabe o que é? Um sítio onde — voltou-se e mirou o primo com uma tal maldade que Martin estremeceu — deixem o dinheiro, todos os sábados, os vaqueiros, os rancheiros e os pesquisadores de oiro. Sim, é isso o que eu pretendo. E raparigas formosas que falem ternamente aos rapazes cansados após uma longa cavalgada. E essas modernas máquinas, onde por um níquel podem sair duzentos... ou não sair nenhum. Sim, «mister» Aaronson, a perspetiva já não me parece tão desagradável.
— Mas permita-me que lhe diga, senhor Stanzer, que isso é uma indecência — disse o velho judeu, com uma expressão de repulsa.
Karl respondeu:
— Indecente ou não, com o meu dinheiro posso fazer o que me pareça bem, não é verdade?
— Sim, com efeito — o advogado examinou atentamente várias cláusulas do documento, desejoso de descobrir uma que impedisse aquilo.
— Sim, com efeito acrescentou o ancião, um pouco desiludido. — Pode fazer com o seu dinheiro o que lhe der na gana.
— Pois então — Karl, com os olhos faiscantes, não deixava de observar, o primo — pois então farei o que disse. E mostrarei a este maldito labrego que não irá rir-se de mim...
— Escuta — disse Martin erguendo-se. — Começo a fartar-me de ti. Faz o que quiseres, mas não julgues que podes ir tão longe quanto ambicionas.
— Silêncio, cavalheiros! Não admito brigas no meu escritório! — exclamou Aaronson. E depois, voltando-se para Martin Stanzer:
— Desejo-lhe as maiores felicidades, senhor Stanzer e espero que triunfe nos seus intentos. Se eu tiver a sorte de o senhor continuar a confiar-me os seus assuntos não restam dúvidas de que apenas haverá motivo para ambos nos felicitarmos.
— Evidentemente — disse Martin estendendo-lhe a mão. — Ninguém melhor que o senhor poderia fazê-lo...
— Os meus negócios serão tratados por outro advogado, claro — resmungou Karl.
— Nem por um instante duvidei disso — respondeu Aaronson. — Não lhes tocaria nem com uma vara de quinhentas jardas de comprimento.
Karl Stanzer, com os olhos brilhantes de raiva, de fúrias, e, ao mesmo tempo, de satisfação, abandonou o seu lugar.
— Ver-nos-emos — disse, já da porta. E desapareceu.
— O senhor veio sozinho a Boise? — perguntou o advogado a Martin.
— Não. Minha mulher e minha filha acompanham--me — respondeu este. — Minha filha — acrescentou com um contentamento mal reprimido — tem agora seis anos.
— Quero que jantem comigo — respondeu o advogado. — Não. Não admitirei desculpas de qualquer es-pécie. E... — hesitou um pouco — posso saber o que se passa entre os senhores, que são primos e da mesma idade?
— Isso — explicou Martin, encolhendo os ombros —é uma história longa e complicada. Sabe? Educaram-nos juntos, por ordem de «Alphabeth», quando os pais de Karl e os meus morreram no mesmo acidente. Eis o sentido de humor desse homem: quando Karl desejava uma coisa davam-na a mim. Não interessava que eu a entregasse imediatamente ao meu primo. Ele já não a aceitava. Criou-me ódio. Creio que era isso o que «Alphabeth» pretendia. Por fim, cada um seguiu caminhos diferentes, mas antes, há sete anos, conhecemos a que hoje é minha mulher. Ela escolheu-me a mim — acrescentou com simplicidade. — Ao que parece, Karl nunca me perdoou esse triunfo.
— Bem, senhor Stanzer. Vá procurar a sua esposa e a sua filhinha e venham, em seguida, buscar-me. Conduzi-los-ei a casa, na minha «charrette». Sente-se satisfeito com esta inesperada fortuna, «mister» Stanzer? — disse Aaronson.
Os olhos de Martin brilharam.
— Imagine. O sonho de toda a minha vida. Um rancho... Um rancho modelo...
— Magnífico, senhor Stanzer! Magnífico!...
 
*************************************************************************

Quinze anos depois, numa maravilhosa tarde de Verão, um homem chegou a Stanzerville. O sol tostara--lhe a pele, dando-lhe um ar saudável. Era magro, mas muito largo de ombros e musculoso, de rosto afilado e olhos acinzentados.
Deteve-se à entrada da povoação, apoiou o cotovelo no arção da sela e o queixo na mão enluvada. Diante dele estendia-se 'um amontoado de casas, a maior parte das quais eram «saloons» ricamente ornamentados, hotéis, botequins e lojas. Àquela hora, próxima do anoitecer, as ruas iam-se enchendo de urna multidão em que predominavam os homens. Quando a noite caiu definitivamente e se acenderam as luzes de gás, tudo aquilo apresentava um aspeto sumamente agradável. A luz dava mais animação ao ambiente. O forasteiro dirigiu-se pela Main Street, olhando ora para a direita, ora para a esquerda. Por fim, uma tabuleta atraiu a sua atenção:

«STANZER'S»

 Apeou-se do cavalo, prendeu-o à barra ali colocada para esse efeito e penetrou no local.
Este homem, respondendo ao apelo de um amigo, procurava o rancho Stanzer’s

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

BUF096.1 Revisita a «Herança de morte»

 
 
 
Um tio algo caprichoso resolveu deixar a sua fortuna a dois sobrinhos que se odiavam. Estabeleceu como condição terem de viver com uma distância máxima de 10 milhas a separá-los e nunca um deles matar o outro.
Condições aceites, Martin Stanzer estabeleceu-se num rancho que procurou desenvolver e Karl criou uma nova cidade com um saloon destinado a explorar vaqueiros e pesquisadores.
Passados alguns anos, factos estranhos ocorriam no rancho de Martin e o seu capataz pediu a um amigo, Harold Rodney, que os ajudasse o que levou a que este fosse contratado por Martin.
Após alguns contactos na cidade, Harold descobriu que a fonte de problemas era o primo de Martin e resolveu simular que o abandonava para ser contratado por Harold após um jogo bastante singular.
Harold encontrou numa bailarina, Aline, uma aliada, mas, por vezes, as atitudes desta foram dúbias e a beldade acabou por pagar com a vida o seu jogo duplo.
Claro que Martin tinha uma filha muito bela e o destino do herói ficou traçado no primeiro momento que a viu


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

PAS824. À procura da jovem de olhos cinzentos

Quando acordou, a luz do sol entrava como uma tromba de fogo pela janela estreita da cela. Abriu e fechou os olhos até se habituar à claridade.
Recordou o sucedido com Dora e disse para consigo que tivera um sonho maravilhoso, mas ao esfregar os olhos sentiu os ferimentos e os adesivos que ela lhe pusera e descobriu com prazer que fora tudo verdade.
«Uma aventurazinha?», perguntou a si mesmo.
Mas não lhe agradou o epíteto. Notava que Dora deixara vestígios na sua alma e que era um insulto considerar aqueles maravilhosos momentos como uma aventura igual a tantas outras que surgem na vida.
No entanto, fora o que ela insinuara. Dissera-lhe que partisse de Llano sem se despedir e que considerasse o que se passara como uma simples aventura.
Tinham perdido a cabeça, esta é que era a verdade, e corrido o risco de praticar algo irreparável. Logicamente, a rapariga, quando reagira, devia ter-se sentido envergonhada.
Dennis tinha a certeza de que Dora era boa, era pura, embora ...
Sentia a cabeça vazia. Não quis pensar em nada até se recompor. Tinha sede, como se tivesse bebido muito na noite anterior e agora sofresse os efeitos da ressaca.
Para se deitar na tarimba, tirara apenas o chapéu, • o cinturão e as botas. Calçou-se e pôs-se em pé, disposto a não pensar em nada, e distraiu-se a observar os desenhos da cela e as frases escritas.
Os desenhos eram todos pornográficos, feitos por diversas mãos, mas todos imperfeitos, e convertiam em monstros horríveis figuras humanas que desenhadas por um artista seriam encantadoras.
Os textos, ou eram datas, ou perguntas e insultos.
Um deles parecia muito recente. Dennis Blake juraria que não fora gravado havia mais de um mês. No solo húmido, colado, estava o pó vermelho que se desprendera do tijolo, o que indicava que, provavelmente, mais ninguém entrara ali. O texto, escrito em maiúscula, com notável falta de jeito, dizia: «Estou inocente! Senhor juiz, Octave Block está inocente!»
Dennis sentiu como um vácuo dentro de si. Imaginou o condenado à morte a arranhar com desespero a parede, para deixar gravado nalgum lado o protesto da sua inocência.
Não insultava, o juiz; somente dizia que estava inocente. Talvez considerasse que poderia ser acreditado por alguém que viesse a ocupar aquela cela, com o que se contentaria ou se sentiria talvez um pouco compensado.
Teria gostado de conhecer aquele homem. Imaginou-o pequeno, com os cabelos revoltos, os olhos desmesuradamente abertos ...
O nome não lhe dizia nada; nem sequer sabia que em Llano se realizara uma execução um mês antes. Eram muito poucas as notícias que chegavam a Menard,
e em todo o caso a morte de um homem seria a última a chegar. A não ser que fosse uma personagem famosa.
Voltou a ler a inscrição e sentiu outra vez invadi-lo a mesma profunda e dolorosa tristeza. Ao ler a palavra «juiz», recordou-se de Dora, sorriu, encolheu os ombros e murmurou:
— Lamento, Octave.
Pegou no chapéu e pô-lo na cabeça. Deixara o cavalo na cavalariça que pertencia ao escritório do xerife. Dirigiu-se para lá, selou-o, deu-lhe de comer e pensou no que devia fazer.
O desejo de se despedir de Dora, pelo menos de a ver pela última vez e de se convencer de que não era um sonho, pôde mais do que todo o resto. Tirou o cavalo da cavalariça, fechou a porta, montou e afastou-se.
Teve de se orientar para saber como chegar a casa do juiz. Encontrou a travessa pela qual desembocara na Main Street na noite anterior e seguiu-a. Antes de acabar de a percorrer, divisou a vistosa moradia do juiz.
Debaixo da luz do sol, que brilhava esplendoroso já muito alto, ainda era mais bonito aquele edifício. No jardim havia rosas e gerânios, girassóis e violetas.
Um homem regava as plantas, com indolência, segurando com aia duas mãos um enorme regador. Não levantou a cabeça quando o cavalo de Dennis se deteve, mas fê-lo quando o jovem desmontou.
— Bons dias, xerife — cumprimentou-o o jardineiro, pousando o regador no chão. — Posso servi-lo nalguma coisa? O senhor donde é?
— Sou o xerife de Menard e certamente me poderá dar uma informação. O juiz está?
— Sim, mas a dormir ... Lamento, mas tenho ordem de não o acordar. — Melhor — sorriu Blake.
— Precisamente o que quero é que não o acorde. Pode chamar «miss» Dora sem o acordar?
— Não o entendo.
Dennis sorriu, compreensivo.
— Quero que diga a «miss» Dora que o xerife de Menard a deseja ver ... mas procure não acordar o juiz.
— Ouça ... — o jardineiro olhou-o com pasmo, mas depois sorriu. — Há quanto tempo não vinha a Llano ?
— Bem, pelo menos há quatro anos. Porquê.
— Nada. Assim já se compreende.
— O que é que se compreende ?
— Que não saiba nada.
Dennis disse para consigo que o juiz devia ser um tipo despótico, que não permitia que lhe fizessem a corte às criadas, ou então Dora ...
— Miss Dora — disse o jardineiro, sublinhando as palavras — morreu.
— Como ?! — gritou Dennis, sentindo que o sangue lhe fugia da cabeça.
— O médico disse que da comoção.
— Repita isso ... Disse que morreu?
— Exatamente.
— Meu Deus!
O coração pulsou-lhe desesperadamente dentro do peito, com a mesma força com que o fizera na noite anterior, mas por motivo muito diferente.
De repente, recordou algumas palavras dela, quando insinuara que morreria. Até chegara a dizer que seria envenenada.
— Onde está?
— Quem?
— Ela! — gritou, desesperado. O jardineiro pareceu aborrecer-se.
— No cemitério ... — disse com uma naturalidade que chegava a ser insultante.
Dennis agarrou-o pela camisa e sacudiu-o brutalmente.
— Fala claro, maldito; de contrário, parto-te a cara.
O homenzinho empalideceu intensamente, julgando ter caldo nas mãos de um louco.
— Pergunte a quem quiser! — gritou com voz suplicante. — «Miss» Dora morreu e foi sepultada no cemitério da cidade.
— Mas ... quando ?
— Há um mês ...
A camisa rasgou-se nos dedos de Dennis. Esteve quase a esbofeteá-lo, mas por fim compreendeu que se tratava de uma confusão, largou-o, acalmou-se e disse:
— Eu refiro-me a «miss» Dora ... a actual criada do juiz.
— «Miss» Dora, a criada do juiz, morreu há um mês — repetiu o jardineiro, a medo.
— E como se chama a actual criada?
— Não temos nenhuma. Não é fácil arranjar uma, no Oeste, como deve saber. Dora era do Leste e veio com a mãe, que também morreu, mas há muitos anos.
— Não pode ser! — gritou Dennis.
— Nesse caso, o juiz informá-lo-á melhor do que eu — respondeu o homenzinho, pretendendo escapulir-se.
A mão do xerife agarrou-o e reteve-o.
— A rapariga a quem me refiro tinha os olhos cinzentos e nariz um pouco arrebitado; era muito bonita e devia contar uns vinte e cinco anos.
— «Miss» Dora tinha os olhos cinzentos.
— É a mesma que eu digo?
— «Miss» Dora tinha, pelo menos, a idade que o senhor diz... e, de facto, era muito bonita. Toda a povoação sentiu muito a sua morte.
Dennis julgou enlouquecer.
— Oiça, bom homem; eu estive ontem à noite com «miss» Dora. Compreende?
O jardineiro olhou-o como se se tratasse de um louco. A situação não era ridícula, era terrível para Dennis. 
— Não vive mais ninguém nesta casa?
— O senhor juiz e eu.
— Mais ninguém?
— Mais ninguém.
Dennis fazia um esforço desesperado para se acalmar; de contrário, teria amachucado a cabeça do jardineiro contra os gerânios.
— Chame o juiz.
— Não posso... Já lhe disse que...
Dennis não insistiu. Percorreu o carreiro de saibro e entrou na casa, sem dar ouvidos à voz do homem‘, que o chamava desesperadamente.
Parou no melo do corredorzinho, sem saber que direção tomar, pois ignorava onde dormia o dono da casa.
Ao ver a escadaria de mármore, teve a impressão de que o coração lhe subia à boca, deixando-lhe aquele sabor que tem a comoção.
Não fora um sonho e, portanto, era realidade, e se era realidade...
O jardineiro continuava a gritar. Calou-se de repente quando uma porta se abriu e apareceu um homem metido num roupão. Era de meia-idade, não devia ter ainda cinquenta anos, alto e esbelto; possuía cabelos prateados nas têmporas e feições correctas.
— Que barulho é este, Sam? — inquiriu com voz suave, olhando Dennis Blake dos pés à cabeça.
— Quero falar com o senhor... Pelo menos, parece mais cordato do que aquele estúpido — disse o xerife, adiantando-se.
— A hora é um pouco intempestiva, mas tratando-se da Lei... Sente-se, por favor.
Dennis recusou o convite. O juiz Austin Driffield, porém, sentou-se numa cómoda poltrona, tirou um cigarro de uma caixa de tabaco e acendeu-o. Depois, cruzou as pernas e dispôs-se a escutar Dennis, que, nervoso, tirara o chapéu e o volteava nas mãos.
— Quero que me diga onde está Dora.
— Dora? — o gesto de ignorar tudo pareceu perfeito.
— A sua criada.
— Sim... — Driffield expeliu uma baforada de fumo e repetiu: — Sim. Você é Dennis Blake, o xerife de Menard, a quem o nosso chefe de Polícia pediu que viesse para que se respeitasse a ordem na noite de sábado, não é verdade?
— Diga-me onde está Dora — pediu, raivoso, o jovem xerife.
— Era o que ia fazer. Você talvez a tenha conhecido, e como esteve ausente não soube da sua triste sorte. Dora Young morreu no dia vinte e três de Agosto, isto é, faz hoje... bem, exatamente vinte e oito dias. Lembro-me perfeitamente porque, além de ser uma excelente criada, a sua morte coincidiu com uma execução,
Dennis deixou-se cair na poltrona colocada diante da que o juiz ocupava. Este estendeu-lhe a caixa de tabaco, mas ele recusou-a com um gesto.
— Escute-me... escute-me bem — disse Dennis, nervosamente. Ontem à noite conheci uma rapariga alta, de olhos cinzentos, muito bonita, que se chamava Dora e era criada, nesta casa. Onde está?
O juiz fez um gesto que denotava que estava disposto a ter paciência com ele.
— Não sei quem possa ser essa rapariga a quem se refere, embora se pareça tanto com a criada que tive. Mas pode estar certo de que nada tem a ver com ela.
—Não?
Dennis voltou a levantar-se.
— Estivemos aqui, compreende? Subimos essa escada de mármore até ao seu quarto. Um quarto de paredes cor-de-rosa, com lençóis cor-de-rosa na cama, da mesma cor do vestido que ela trazia.
— Lamento — disse o juiz, levantando-se também. — Não tenho nenhuma criada; é tudo quanto posso dizer-lhe... embora me permita pôr em dúvida o que acaba de me contar.
— O senhor não estava cá ontem à noite.
— Não, evidentemente; quase nenhuma noite de sábado passo em Llano. Nesse pormenor não posso desmenti-lo, se afirma que esteve aqui... Contudo, não acredito em aparições; Dora Young morreu e, portanto, não pôde estar consigo ontem à noite.
— Que fazia então eu aqui?
O juiz sorriu compreensivo.
— Bebeu?
—Não!! — gritou Dennis.
Desesperava-o a situação. Colérico, subiu os degraus de mármore, percorreu o corredor e entrou no quarto em que estivera com Dora.
A cama não tinha roupa, nem sequer colchão. A vela do castiçal que se encontrava no toucador estava intacta, sem que tivesse alguma vez sido acesa.
Driffield parara à porta, a olhar friamente para o xerife.
— Eu estive aqui! Acendi aquele castiçal!
— Porquê?
— Dora fora buscar petróleo, porque se lhe acabara...
— Acabar-se o petróleo?... — o juiz sorriu.
Dennis irritou-se. Ia cometer um disparate; pressentia que a cabeça lhe ia estalar, mas teve suficiente inteligência para descobrir que não estava em condições de pensar e compreendeu que o melhor era acalmar-se.
Saiu do quarto seguido do juiz. Na escada deteve-se, baixou-se e procurou no chão.
— A escada foi varrida esta manhã — disse o juiz. — Pelo menos, foi o que me pareceu ouvir do meu quarto.
— Por quem? — perguntou Dennis, sem desistir.
— Pelo jardineiro, que é o único criado que tenho.
Por fim, Dennis encontrou o que procurava; um bocado de fósforo, um resto que deitara fora depois de acender outro. Estava junto ao pé de uma das colunazinhas da balaustrada.
— Sabe o que significa isto? -- perguntou, mostrando-o ao juiz. — Que eu estive aqui ontem à noite.
— Ninguém o pôs em dúvida... embora gostasse de saber porque veio cá.
Dennis continuou a descer a escada.
 Saiu. O jardineiro fugiu ao vê-lo.
Aproximou-se do cavalo, ficou pensativo e depois, muito devagar, montou.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PAS823. Uma jovem confessa ter receio

Caminhavam de mãos dadas.
Dennis gostava do à-vontade, da sinceridade e da simplicidade da mulher. Não cessava de agradecer aos céus terem-lhe designado aquele anjo maravilhoso.
Fizeram um curto rodeio até chegarem a casa do juiz. Era um vistoso edifício de dois andares, de tijolo e mármore, rodeado por um jardinzinho.
Estava situada no centro da cidade, mas fora dela, quer dizer, afastado da Main Street, à qual se podia chegar por uma travessa estreita.
A cancela estava aberta e Dora puxou-o pela mão, para que a seguisse. Percorreram um curto carreiro ensaibrado e chegaram à porta, que Dora abriu com uma chave que tirou debaixo do tapete metálico. Entraram, fecharam a porta e ficaram às escuras.
—E o petróleo? — perguntou Dennis, procurando nervosamente a caixa de fósforos nas profundezas das algibeiras das calças. Encontrou-a num do colete e, depois de acender um fósforo, observou quanto o rodeava.
Era um vestíbulo regular, ricamente mobilado. A direita, uma escada de mármore levava ao andar superior. Um grande lustre pendia do centro do tecto.
Julgou encontrar-se num daqueles palácios que as pessoas chegadas da Europa afirmavam ter visto. Dennis imaginara-os tal como via naquele momento a casa do juiz.
— Subamos — disse ela. — O juiz tem uns castiçais velhos e posso acender um. Julgo que não me ralhará por isso.
Subiram a escada. Dennis acendia um fósforo atrás de outro. Por fim, depois de percorrerem um largo corredor, detiveram-se diante de uma porta que Dora abriu empurrando-a.
— Entra.
Havia uma cama larga, muito bem arranjada. Os lençóis eram cor-de-rosa, da mesma cor que o vestido dela. O resto do mobiliário compunha-se de duas poltronas, uma mesa-de-cabeceira, um armário e um toucador.
No mármore do toucador estavam dois artísticos castiçais antigos, apenas destinados a adornar o aposento.
— Acende-os — disse Dora.
Tratava-o por tu. A situação era um pouco enervante para Dennis, Sentia a impressão de que não estava a proceder bem, mas não podia retroceder; qualquer coisa o impedia ... talvez a recordação da existência monótona passada em Menard e do futuro não menos monótono que o esperava quando regressasse.
A luz inundou o aposento e então Dennis descobriu que a epiderme de Dora era tão suave como a cera das velas dos castiçais. Era ainda mais bonita do que ao luar.
Estendeu as mãos, para tomar a mulher nos braços, mas ela esquivou-se, com um sorriso.
— Viemos para tratar da ferida ...
— Portanto ... continuemos o tratamento.
Ela afastou-se dele e tirou do armário um frasco de álcool, e doutro sitio um maço de algodão. Molhou-o e disse:
— Senta-te.
Dennis sentou-se numa das poltronas. Quando ela se aproximou, pôs-lhe as mãos na cintura. Sentiu que estremecia e fitou-a. Então, ela disse:
—Não, Dennis; sejamos amigos. Sou a mesma que era quando estava fora de casa. Não me faças envergonhar dos meus actos.
Dennis afastou as mãos imediatamente, compreendendo que o seu comportamento não estava a ser muito cavalheiresco. Ela limpou de novo as feridas com álcool e depois cobriu-as com adesivo.
— Magoei-te?
Dennis olhou-a, sério, arrependido, e meneou negativamente a cabeça.
— Então, sorri — pediu ela.
Não pôde; saiu-lhe uma careta. Dora compreendeu.
— Ah! >T por causa do que disse ?
Dennis esforçou-se por sorrir outra vez e conseguiu-o bastante bem. Viu uma hesitação no rosto da rapariga, mas antes de poder interpretá-la, Dora aproximou-se, pegou-lhe nas mãos e obrigou-o a levantar-se.
— E o mesmo, Dennis — disse. — Abraça-me com força, como te agradar ... que a mim também me agrada.
Ele abanou a cabeça.
— Vá — animou-o a rapariga. — Pensei que se morrer... enfim. Ou por que julgas que me atrevi a andar na rua a estas horas?
Fitou-a sem compreender.
Dora explicou-lhe:
— Tenho a impressão de que vou morrer muito breve, Dennis, e a vida ... bom ... compreendes o que quero dizer, não é verdade? Dennis redarguiu: — Que significa essa tolice? Morreres, tu? ...
— Oh, sim, é uma tolice, Dennis! Um disparate, bem sei. Mas, diz-me: que farias se eu morresse?
— Que pergunta! ...
— E se morresse envenenada?
Fitou-a, ainda mais admirado.
—Dora ... Dora ...
— Oh, perdoa-me! — respondeu ela, reagindo.
Pendurou-se-lhe ao pescoço, fechou os olhos e pediu:
— Beija-me, mas beija-me com força ... muito, Dennis.
O homem esqueceu o veneno, o xerife velho e tudo o mais. Mergulhou no prazer de beijar aquela boca ardente, que tinha o condão de converter em rios de fogo liquido o sangue das suas veias.
Juntaram os rostos quando terminaram a carícia.
— És o primeiro homem que me beija — afirmou ela. — Oh, Dennis, diz-me o que tenho! ...
Era delicioso o contacto do seu corpo ao longo do corpo dele. O das suas faces e da sua cabeleira loura no rosto dele; o das suas mãos no seu pescoço.
Ela afastou-se para o olhar na cara, nos sítios feridos.
— Estás bem?
Respondeu, com um sorriso.
— Achas que pode ter sido por causa da angústia ? Que o meu comportamento ...
— Não sei. Eu só sei ...
Era melhor explicar-lho com um beijo. Como poderia dizer-lhe quanta admiração lhe produzia a sua beleza, o seu comportamento franco, a sua maneira de amar e de se deixar amar ... seguindo unicamente os ditames do seu coração?
Era agradável a atmosfera do quarto. Pela janela aberta via-se o céu coalhado de luzinhas trémulas, como milhares de olhos risonhos que os observassem com malícia.
Via-se a colina distante, como um sombra cinzenta pintada no horizonte. Mares de prata, agitados por ondas suaves que não eram outra coisa senão a brisa a fazer ondular a salva alta e verde iluminada pelo luar.
— Dennis ... tenho medo ... — murmurou-lhe ao ouvido.
— Medo ? — perguntou ele.
— De quem?
—De ti ...
Disse isto muito baixinho, com os lábios colados ao ouvido dele.
Ardia. Dennis notava-o no rosto pelo contacto do dela; nas suas mãos, pelo calor do corpo que atravessava a roupa.
— Também eu, Dora.
Separaram-se um pouco. Dennis, consciente do seu dever, disse.
— Tenho de ir. Devo fazer a ronda; prometi-o a Simons e não estaria bem que ...
— Vai, Dennis, vai e ...
Continuava a segurar-lhe nas mãos. Chegaram juntos à porta.
— Que ias a dizer-me? — perguntou ele.
— Que ... Oh, Dennis! Não te zangues comigo, mas creio ... creio que me apaixonei por ti. Não é bonito que o diga, mas ...
— Dora ...
Ela pôs-lhe um dedo nos lábios, para que não fa-lasse.
— Deixa-me dizer-te o que quero, Dennis, e é que ... Amo-te; não julgava que isto pudesse acontecer, mas aconteceu e não me arrependo ... Oh, não me perguntes nada! ... Contenta-te com o que te digo.
Blake interrogou-a com o olhar. Não compreendia nada, absolutamente nada. Ela prosseguiu:
— Tu és o xerife de Menard; amanhã partirás e talvez já não te recordes de mim. Prefiro que seja assim, que esqueças isto ... embora gostasse que não te esquecesses de mim.
— Voltarei amanhã.
— Não, Dennis. Não me obrigues a dizer porquê, mas prefiro que partas sem te despedires. Quando romper o dia, pega no teu cavalo e regressa a Menard; esquece-me, se for preciso, mas não voltes.
Falava agitadamente, estava pálida e tremia. Dennis não compreendia o que tinha a rapariga; pensou que podia ser um ataque de histerismo, mas parecia tão afetada por uma mágoa profunda, que não se atreveu a dizer nada. Chegava a parecer que tinha medo, como se a possibilidade de serem surpreendidos a aterrasse.
Dennis considerou que era melhor ir-se embora, com o que, sem dúvida, a mulher se tranquilizaria.
Beijou-a fugazmente, com suavidade, e saiu. Os olhos dela seguiram-no até que desapareceu na noite.
Percorreu as ruas como num sonho, sem que os seus ouvidos pudessem escutar os gritos, os risos e a música que saiam das salas.
Já meia povoação parecia bêbeda; mas, apesar de toda a agitação, Dennis Blake considerava que a mais absoluta calma reinava em Llano. Onde havia verdadeira agitação era no corpo dele.
Não teve de intervir toda a noite. Duas horas antes de amanhecer foi-se deitar numa das celas do escritório do xerife.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

PAS822. O beijo ao xerife ferido

Dennis Blake não teve mais que inclinar-se e afastar-se para um lado, para evitar o mineiro, o qual, não encontrando no caminho a resistência calculada, foi cair do outro lado do balcão.
Depois, Dennis retrocedeu para poder abarcar bem com a vista os cinco impulsivos inimigos, perguntando a si mesmo que mosca lhes teria mordido.
Disse para consigo que aquilo era uma conspiração ideada para derrubar o velho xerife.
Também disse a si próprio muitas coisas, mas não conseguiu compreender o significado de nenhuma. Uma era certa: se não andasse com cautela, dariam cabo dele...
Embora dessem, de qualquer maneira. Aqueles tipos eram cinco bestas.
Foram-se aproximando pouco a pouco, com as mãos adiante, como garras. Um deles sorria sinistramente e as pupilas dançavam-lhe de uma maneira arrepiante.
Dennis não esperou. Quem bate primeiro, bate duas vezes. E bateu. Conseguiu atingir um em cheio, em pleno queixo. Os nós dos seus dedos estalaram e no mesmo instante o mineiro foi estatelar-se contra os companheiros, convertidos em divertidos espectadores.
Mas também encaixou um golpe. Não se enganara ao considerá-los umas bestas, pois uma daquelas mãos atingiu-o em pleno rosto e teve a impressão de que lhe arrancavam uma orelha.
Bateu por sua vez; no ventre de um e no nariz de outro.
Enfureceram-se mais. Havia maus instintos nos seus olhos. Um levantou um pé e Denis agarrou-lho, torceu-lho e o indivíduo rolou pelo solo.
Alguém pegou numa garrafa e deu-lhe com ela na cabeça. Tentara fugir-lhe, mas embora não lhe acertasse
em cheio, notou que a vista se lhe nublava.
Caiu de joelhos, mas não ficou vencido. Disparou o punho contra o baixo ventre do mais próximo. Levantou-se e atingiu outro no queixo. Os seus golpes eram contundentes e os seus adversários acusavam-nos com gritos raivosos.
O que recebera um murro no nariz sangrava muito. Era o que tinha a garrafa e tentava utilizá-la de novo.
Dennis evitou-a com alguma dificuldade, conseguiu agarrar o braço armado e torceu-o com fúria assassina.
Ouviu um estalido e um grito. O homem caiu, gemendo entrecortadamente.
Houve um momento de surpresa, que Blake aproveitou para agarrar um pela camisa e por uma perna. Com esforço, levantou-o acima da cabeça e começou a dar-lhe voltas. Os espectadores riram satisfeitos e gritaram quando o mineiro caiu sobre eles.
Mas os que ainda o podiam atacar atiraram-se a ele com verdadeiro furor. Fizeram-no cegamente, dispostos a garrá-lo, ainda que à custa de sofrerem um duro castigo, que o xerife lhes aplicou com os punhos e com os joelhos.
Dois agarraram-no pelos braços, puxaram-lhos para trás das costas e outro, auxiliado depois pelo que caíra sobre os espectadores, começou a castigá-lo.
Procuravam pontos vulneráveis, que arrancavam uivos da garganta de Dennis. Quando o largaram, caiu no chão semi-inconsciente, com o corpo todo dorido. Mesmo depois de vencido, castigaram-no com os pés, propinando-lhe furibundos golpes.
Ficou imóvel; já não podia vencer e nada conseguiria resistindo-lhes. Havia muito tempo que não praticava nenhum desporto e tinha os músculos entorpecidos.
A vida fácil de Menard fora contraproducente e agora pagava o seu erro. Recebia um castigo cruel em troca dos anos de vida fácil.
— Levem-no daqui — ordenou alguém.
Ouviram-se gracejos. Dennis admirava-se de que houvesse tipos capazes de matar à pancada um ser humano e depois encontrassem graça no desprezível acto.
Seguraram-no pelos pés e pelos braços e levaram-no para a rua. Balouçaram-no de um lado para o outro, dispostos a atirá-lo para longe e Dennis preparou-se para a queda.
Mas uma voz feminina interrompeu-os:
— Que fazem? Oh!, que malvados!
Surpreendidos com aquela intromissão, os mineiros puseram de parte os seus propósitos.
— Não diga isso! Estávamos fartos de ter um xerife a quem não se podia dar uma sova e este caiu-nos do céu.
— Larguem-no imediatamente!
Largaram-no. Dennis sufocou um gemido ao cair de costas. Depois virou-se e observou com os olhos semicerrados a sua defensora.
Era uma rapariga de extraordinária beleza, que o observava por seu turno com ar de angústia.
— Mataram-no! — assustou-se ela.
— Com certeza que não, «miss»... Esse tipo é mais forte do que imaginámos. O Louis deu-lhe com uma garrafa no meio da cabeça e ele nem gemeu. Pelo contrário, partiu-lhe um braço.
A jovem aproximou-se de Dennis e inclinou-se para ele. Os mineiros alegaram mil desculpas e mil ocupações e voltaram para a taberna. Pouco depois trouxeram o Louis, que não cessava de gemer.
— Xerife ... — chamou-o ela, baixinho. — Xerife ... como se sente?
— No céu — respondeu ele, notando que as mãos dela, tépidas e suaves, lhe acariciavam o rosto com extraordinária delicadeza.
— Que lhe dói?
— Tudo ...
— Chamo um médico ?
— O quê ? ... Não!
Dennis sentou-se no solo e sacudiu a cabeça, para a libertar do atordoamento. Não era muito heroica a sua posição e olhou à sua volta, receando que alguém o pudesse ver naquele estado. Por sorte, embora cheia de ruídos que saíam dos diversos bares, a rua estava solitária.
Um bêbado saiu de uma das tabernas e, depois de deixar escapar três soluços, cumprimentou com voz entaramelada:
— Boas noites, «miss». Precisa de ajuda?
— Não, obrigada ... — respondeu ela.
O bêbado afastou-se e Dennis fez um esforço para se levantar.
— Eu ajudo-o — ofereceu-se ela.
Fê-lo inclinando-se um pouco e metendo o ombro frágil debaixo da axila dele.
— Aonde vamos?
Dennis não sabia por onde escolher.
— A qualquer sítio onde possa refrescar-me sem que ninguém me veja. Tenho de continuar a ronda.
Começaram a andar. Como estavam numa ponta da Main Street, não tiveram dificuldade em chegar ao que se considerava os arredores.
A jovem ia silenciosa. De vez em quando olhava-o, como se verificasse o seu estado. Dennis atreveu-se a sorrir-lhe.
— Quem é você? — perguntou ele.
— Vivo na povoação.
— Já calculava ... mas, que faz na rua a estas horas? Não parece ...
— Estou a servir em casa do juiz Austin Driffield. Estava a bordar quando se me acabou o petróleo e sai à rua para pedir algum.
— E não tem medo de passear a estas horas?
— Toda a povoação me conhece e respeita.
— Como se chama?
— Dora.
— Bonito nome.
— Sente-se bem? De verdade ?
— Ainda um pouco atordoado.
Apertou-a debaixo do braço contra ele e ela limitou-se a olhá-lo e a sorrir-lhe.
Já não restava nenhum edifício diante deles. Envolvia-os uma escuridão quase absoluta e um silêncio agradável.
— Aqui perto passa um riacho. Quer que lhe lave os ferimentos?
Dennis acedeu imediatamente — por que não?... — e dirigiram-se para lá. Instantes depois estava sentado no chão e ela, com um imaculado pano branco, limpava-lhe com muito cuidado o sangue que tinha na cara.
— Fizeram-lhe muito mal ...Tem muitas feridas.
— Pois não me doem.
Observou-a. Era uma verdadeira beleza. Os seus abundantes cabelos negros entrançados, chegavam-lhe à cintura, que era estreita. Os seus olhos tinham uma cor cinzento-azulada muito bonita, nos quais brilhava a lua. O nariz era arrebitado, gracioso, e a boca formada por lábios grossos, mas pequenos, carnudos.
— Dora ... você é muito bonita.
— Cale-se ou as feridas abrem-se.
O seu busto era perfeito, talvez um bocadinho demasiado pronunciado; esse bocadinho de mais que enlouquece um homem do temperamento de Dennis Blake, embora ultimamente levasse uma existência sedentária.
O seu vestido cor-de-rosa, de tafetá, que rangia a cada gracioso movimento, marcava-o bem; o decote amplo permitia ver o princípio daqueles seios entre brancos e rosados, cheios, Jovens.
Dennis via-os a menos de cinco polegadas dos seus olhos quando ela se inclinava para lhe passar o lenço branco, húmido, pelo rosto suado.
Depois, quando se afastava de novo para humedecer o pano no rio, observara todo o seu corpo. Era delicioso. Os movimentos tinham qualquer coisa de felinos, dessa agilidade feminina que perturba e ao mesmo tempo eleva um homem a estranhas regiões.
Era graciosa a fragilidade da sua cintura, graciosa e fantástica; no entanto, tinha ancas pronunciadas. Era uma beleza. Dennis não se cansava de o repetir a si mesmo.
E pensou que fora uma sorte aqueles selvagens terem-no espancado. Todas as noites repetiria a luta, se em troca aquela rapariguinha cuidasse dele como o estava a fazer naquele momento.
Voltou com o lenço encharcado.
— A frescura da água far-lhe-á bem — disse.
E molhou-lhe todo o rosto, que enxugou em seguida.
— Não pára de sangrar! — protestou, verdadeiramente assustada.
Na realidade, não era nada. Simples fendas abertas na pele. Às vezes, quando a navalha de barbear não cortava muito, Dennis feria-se com mais gravidade.
Não disse nada. Gostava-lhe que ela se preocupasse com ele. Deixou que o tratasse. Até que por fim, quando ela ia voltar ao rio, a reteve por uma das mãos.
— Não vá; fique aqui ...
— Está a sangrar!
— Esperemos que cicatrize.
Ela consentiu, não muito convencida, e sentou-se a seu lado.
— Mas sente-se melhor, não é verdade ?
— Consigo a meu lado, sim.
Como disse isto sorrindo, ela também sorriu. Olharam-se e então ela, talvez adivinhando que não era nada grave, atreveu-se a perguntar:
— E se me fosse embora?
— Morreria.
— Pois tenho de ir. Não posso estar fora de casa a estas horas.
— Pelo menos, fique até que cicatrize. Posso esvair--me em sangue ...
— Quanto tempo demorará?
— Dois ou três dias.
Ela abriu a boca, mas ao ver o sorriso brincalhão dele, voltou a sorrir. Era bonita de todas as maneiras, sorridente e séria, assustada e angustiada.
— Mas conheço um sistema muito bom, que me curará imediatamente.
— Qual? — perguntou ela, crédula.
— Dando-me um beijo.
— Oh!
— É verdade — afirmou ele, muito sério. — Olhe, se me der um beijo, o sangue ferve-me, e então todo o corpo se enche de calor; com o calor, os líquidos evaporam-se, e o sangue também. Então, seca, e ao secar cicatriza-se a ferida.
Ela não acreditava, mas parecia disposta aceitar a teoria. Mas não tinha iniciativa para começar o tratamento.
Dennis segurou-lhe nas mãos. Eram muito pequenas e suaves; teve a impressão de que segurava as asas de uma pomba .
Aproximou-se dela e Dora baixou as pálpebras. Tinha umas pestanas compridas e abundantes, que pareciam leques. Fechou a boca e estendeu os lábios.
Dennis Blake beijou-a longamente, notando que de facto o sangue lhe fervia no corpo, que o coração lhe pulsava apressadamente, como se quisesse aproveitar aquele momento vivendo mais tempo; como o glutão que come sem descanso, para ingerir o máximo no mais curto período.
Quando se separaram, ela demorou a abrir os olhos. A primeira coisa que fez foi aspirar com sofreguidão o ar fresco da noite, depois entreabriu os lábios e levantou a cortina das pálpebras.
— Olá... — disse-lhe ele.
Dora voltou a fechar os olhos e deixou os lábios entreabertos. Muito devagar, libertou as mãos dos dedos do homem e deixou-as cair.
Dennis não se opôs, porque assim pôde agarrá-la pela cintura; depois, adiantou mais as mãos até colocar-lhas nas costas, fez pressão e de novo a boca apetitosa foi ao encontro dos seus lábios.
As asas de pomba rodearam-lhe o pescoço com uma suavidade que o fez estremecer. Também exerceram pressão, mas frouxamente, com uma ternura que, embora não cicatrizasse as feridas, agitou o sangue de Dennis, fazendo-o subir e descer da cabeça aos pés de maneira alarmante.
A segunda carícia foi mais prolongada do que a anterior e os dois participaram dela com idêntica ansiedade.
E Dora também demorou mais a regressar ao mundo real quando se separaram. Permaneceu pelo menos três minutos com os olhos fechados. Depois abriu-os muito devagar e fitou o homem apaixonadamente.
— Há medicamentos que não são de efeito instantâneo — afirmou ele — , e que até às vezes é preciso repetir, aumentando a dose.
Ela continuava a fitá-lo. O seu ar apaixonado converteu-se num de dúvida.
— Continuamos? — perguntou Dennis, largando-lhe as mãos outra vez.
— Perco a respiração! — protestou ela.
Dennis sorriu. Pegou-lhe nas mãos e beijou-lhas suavemente.
— Sou um abusador — reconheceu francamente.
Quando levantou a cabeça, ela disse:
— Voltou a sangrar ...
— Chama-me Dennis.
— Voltaste a sangrar, Dennis ... Não cicatrizaram.
— Para ser sincero, confesso que o sangue ficou mais fluido.
— Queres que te ponha álcool.
— Álcool? Onde está ele?
— Tenho-o em casa.
— Eu também tenho terras em ...
— Lá em casa não está ninguém. Estou sozinha.
— E o juiz ?
— Aos sábados passa a noite fora. Há muito tempo que segue esse costume.
O coração voltou a acelerar-se no peito do homem.
— Dora ... Dora, aconselho-te a não me repetires o convite.
— Só para te pôr álcool e um bocado de adesivo na ferida da sobrancelha.
— Bom ... mas eu não respondo por mim.
— Tu és o xerife e um homem bom, não é verdade?
— Não muito, francamente.
Levantaram-se e começaram a caminhar.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

PAS821. Uma ronda na cidade violenta

Dennis Blake começou a sua ronda, a sua única ronda, porque duraria até ao amanhecer.
Já anoitecera. Tinham-se acendido todos os candeeiros de petróleo e de vez em quando ouvia-se um galope de cavalo que se aproximava, entrava na povoação estrepitosamente e cessava de repente, enquanto as vozes dos cavaleiros substituíam o barulho dos cascos, gritando e rindo. E até, como se assim se fizessem ouvir melhor, disparavam para o ar.
«Deixa-os disparar para o ar», dissera-lhe o velho xerife. «Não fazem mal a ninguém e expandem-se. Compreendes?»
Os passeios ficavam ocultos atrás dos numerosos cava-los que se alinhavam ao longo deles. Um ladrão de cavalos ficaria rico numa só noite.
Saiu do escritório como chapéu deitado para a nuca, a ponta do cigarro nos lábios e as mãos no cinto; exatamente como fazia em Menard ... embora soubesse que se encontrava em Llano.
— Ouve! — exclamou um vaqueiro, em espanhol, para depois continuar, em inglês: — Quem matou o outro xerife?
Alguém o cumprimentou e ele inclinou a cabeça.
Começou a caminhar pela rua acima, para onde se alinhavam os feios edifícios destinados aos mineiros desafortunados. As coisas, pareciam não correr mal para Blake; embora de vez em quando se ouvisse algum disparo ou de uma porta saísse aos baldões um sujeito que ficava estendido no pó.
«Não te intrometas em zaragatas amigáveis, Dennis; só fazem mal a eles mesmos, compreendes?», dissera-lhe Conrad Simons.
O que não compreendia era para que estava ali. Ou então o normal era que acontecesse coisas piores.
Um bêbado foi catapultado de dentro de um «saloon». Caiu no chão; perdeu o chapéu e rebolou até aos pés dó xerife eventual. Ao vê-lo, sorriu constrangido e cumprimentou-o:
—Boas noites, xerife.
Passou por cima dele e seguiu o seu caminho. Pela outra extremidade da rua chegavam três cavaleiros a dispararem contra as nuvens. Uma maneira bastante vulgar já de anunciar a chegada, pois se todos faziam o mesmo nunca se sabia quem entrava na povoação.
Seguiu para ali caminhando lentamente, sem olhar para a direita nem para a esquerda. Para quê? Nunca saberia quando intervir.
— Bom xerife, sim, senhor! — gritou o bêbado atrás dele. E até o aplaudiu.
«Entras nos estabelecimentos,» dissera-lhe Simons, «dás uma vista de olhos, perguntas a quem estiver ao balcão se há alguma novidade e voltas a sair, compreendes»?
Era o mesmo que fazia em Menard, com a diferença de que lá não era preciso perguntar se havia alguma novidade, porque se adivinhava imediatamente.
Quando chegou ao outro extremo da rua, dispôs-se a mostrar-se à povoação.
«Se te virem, ficarão mais tranquilos, compreendes?»
O lugar escolhido foi um daqueles tugúrios de madeira de Caixote, que tinham pintado de branco, mas que já não tinha pintura. Era pequeno e de teto baixo, mas lá dentro estavam mais de quinze pessoas. Um comprido balcão em forma de U rodeava as três paredes e diante dele encontravam-se os tipos mais diversos.
As suas roupas eram tão heterogéneas como os seus físicos; só se assemelhavam no tipo de botas que calçavam, todas elas de cano alto, que chegava um pouco acima do joelho.
Entrou e aproximou-se do balcão. Servia as bebidas um tipo baixo e gordo, que suava copiosamente, tanto que poderia lavar os copos com o suor. Ajudava-o uma mulher mais pequena do que ele, de rosto enrugado e carrancudo, lábios' secos, gretados e pálidos, que murmuravam incessantemente, como se a incomodasse que os clientes pedissem mais álcool. Talvez temesse que o esgotassem.
— Boas noites — cumprimentou o xerife interino. Alguma novidade?
— Homem! E você o novo xerife?
— Vim ajudar o Simons.
— Homem! Um copo?
— Obrigado ... muito obrigado; estou a começar a ronda.
— Melhor! Beba!
Blake quis recusar pela segunda vez; à terceira ...
Mas viu que uns rostos o fitavam sinistramente, com olhos assassinos. Eram cinco mineiros, os cinco tinham deixado o que seguravam nas mãos e denunciavam nas suas expressões, na posição dos seus corpos, as suas intenções.
Não o deixaram recusar nem pela segunda vez. Um deles, de rosto terroso, avançou um punho fechado para ele e disse:
—Beba!
Blake fitou-o, intrigado. Juraria que aquilo fora preparado, que aquela gente estava à sua espera com a desagradável intenção de lhe dar cabo do físico. Doutro modo, não o podia compreender.
E como Blake era teimoso, respondeu:
— E se não beber?
Os cinco mineiros entreolharam-se, entre admirados e divertidos.
— Isso não pode ser. Se nós queremos que beba ...
Não havia dúvida. Tinha boa estreia. Perguntou a si mesmo se Conrad Simons se teria encontrado alguma vez naquela situação. Naturalmente, respondeu aos seus botões que não. Um só daqueles mineiros era capaz de esmagar o velho.
— Basta que vocês queiram para que eu recuse.
—Diz isso conscientemente?
O xerife sorriu, perante o pasmo de todos.
— Pois claro que digo. Não gosto de aceitar coisas à força.
— Despreza-nos — acusou-o um, avançando um passo. — Este xerife é daqueles que despreza os mineiros, que os considera ...
E, louco de furor, atirou-se ao xerife, disposto a agredi-lo.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

PAS820. Um emissário acaba com a paz do xerife

Menard era uma povoação pacífica, em que de vez em quando se falava dos índios apaches ou do que acontecia em Oklahoma, a várias milhas de distância.
Era uma terra simples, de gente simples, com uma
história simples e de simples ambições.
O xerife também era um homem simples.
Chamava-se Dennis Blake e talvez no seu tempo não fosse um indivíduo tão insignificante como era desde que pusera ao peito a estrela de chefe da policia.
Não era de estatura muito elevada, não atingia os seis pés de altura nem os oitenta de peso. Dizia-se que os seus punhos eram de aço, e que embora não pesassem, possuíam a potência do coice de uma mula.
Também se dizia que era um mago no manejo do revólver, mas ninguém o vira manejá-lo. Trazia-o sempre no coldre, fechado por uma tira de couro já gasta.
A vida para o xerife de Menard era muito calma. Chegara um dia não se sabia de onde, puseram-lhe a estrela e ficara ali, com o ordenado de cento e cinquenta dólares mensais, acrescido das comissões nas multas que aplicasse.
O pior era que havia muito tempo não aplicava multa nenhuma, pois a gente daquela povoação texana era aborrecidamente honesta.
Por sorte, ó contrato estipulava que comeria do mesmo que os presos, e a comida era paga pela povoação, juntamente com as despesas de manutenção do gabinete do xerife; e como não havia presos ...
O caso era que Dennis Blake se contentava com a sua sorte. E isso dava azo a que se murmurassem certas coisas. Dizia-se que a sua vida anterior fora muito agitada, muito turbulenta, e que aquela paz, aquele sossego, era o que Blake precisava e, decerto, o que procurara.
Mas o xerife fazia falta. Pelo menos, a gente da terra assim pensava. Sabiam que noutras povoações, talvez mais importantes, com um censo muito mais elevado, se contentavam com um ajudante.
E Dennis também. Portanto, estavam em paz; talvez até com demasiada paz, pois às vezes, Dennis, quando recebia o ordenado, julgava necessário justificar-se.
Mas que havia de fazer? Era praticamente impossível demonstrar que ganhava cêntimo a cêntimo a centena e meia de dólares. Durante o dia, permanecia no escritório, sentado numa cadeirinha de vime, debaixo do alpendre, encostado à parede e com um gato velho, meio pelado, a dormir-lhe aos pés. Com as algibeiras repletas de tabaco, para enrolar cigarros, que no cúmulo do aborrecimento às vezes mascava.
À noite, fazia uma ronda, sozinho, com o velho revólver pendente da cintura, o chapéu deitado para a nuca e o cigarro apagado nos lábios.
Entrava num bar, verificava que ninguém armava zaragata, voltava a sair, entrava noutro; ofereciam-lhe um copo, dois, três ...
Tinha por hábito aceitar os convites até cinco vezes; os restantes recusava-os. E era um mau hábito, porque às vezes, se por um motivo qualquer não atingia a conta, tinha de se convidar a si mesmo.
Depois ia dormir. Levantava-se ao romper do dia, tomava um pequeno-almoço de café com leite e, se estava no principio do mês, bebia um golo de uísque. A seguir arrastava a cadeira de vime para o alpendre, inclinava o chapéu velho e desbotado para os olhos, encostava-se à parede e entretinha-se a ver quem passava.
Então chegava o gato e punha-se entre os seus pés, onde permanecia até que da pensão faziam sinal ao xerife para ir comer. Nunca o seguira, mas esperava-o, e era raro o dia em que o xerife se esquecia dele. Levava-lhe sempre um embrulhinho com espinhas ou restos de comida.
A tarde voltava a sentar-se, tapava a cara com o chapéu e dormitava durante uma hora, duas ou três. Acordava, enrolava um cigarro e fumava-o.
— Boas tardes, xerife.
— Boas tardes, «mister» ...
Era todo o seu trabalho, cumprimentar quantas pessoas passavam, com uma leve inclinação de cabeça e com uma frase vaga, lenta, cansada.
Às vezes, algum velho retirado da vida ativa ia fazer-lhe companhia, jogar uma partida de póquer ou qualquer outra coisa.
Depois a tarde declinava, jantava, ia à estação ver se chegara alguma coisa para ele, quer pelo correio, quer pelo telégrafo, e regressava ao escritório. Então, começava a primeira ronda, que voltava a repetir à meia-noite.
Quando fazia uma só escolhia a segunda, pois lhe parecia mais importante.
Uma vez tivera de proceder contra um mineiro bêbedo, que deixara sem luz meia rua, apedrejando os candeeiros de petróleo. Tivera de o levar de rastos para o escritório e fechá-lo numa cela. No dia seguinte o bêbedo, que era forasteiro, agradecera-lhe a pensão gratuita e seguira o seu caminho.
A sua missão como xerife estava cumprida; mas como concidadão a coisa era mais complicada. Tinha de conhecer todas as doenças daquela gente, os familiares que se encontravam longe dali, os negócios em que andavam metidos ...
— Bons dias, xerife ...
— Olá, Sam. Como está a menina?
— Ah, bem! O médico já a deixa levantar-se.
Sam afastava-se; tratava da granja de «mister» Moode.
Passava Tomkin:
— Bons dias, xerife ...
— Olá, Tomkin. Então, a tua mulher já deu à luz?
— Isso sim! Com certeza é uma menina. Para se demorar tanto ...
E Tomkin afastava-se lentamente, debaixo do sol escaldante, para ajudar o ferreiro, que embora não tivesse trabalho pelo menos colaborava no aborrecimento.
Chegava o correio. O do Leste vinha no comboio; o do Oeste nas diligências. O do Leste vinha de quinze em quinze dias; o do Oeste, quase de quarenta e oito em quarenta e oito horas.
— Notícias, Jeff?
— Estão todos bem.
--- Ótimo... isso dá-me prazer.
O cigarro na boca, baforada de fumo acre. Aborrecimento de fumar, de falar, de perguntar, de dormir ...
Mas continuava. Quando chegava a diligência, levantava-se e ia ao seu encontro. Nunca se apeava nenhum passageiro, a não ser para molhar a garganta. A diligência afastava-se e Dennis voltava a ocupar o seu lugar na cadeira de vime.
Para estes casos, e alguns mais, tinha um ajudante: o filho do homem que recolhia o lixo, o qual, desejoso de ter uma ocupação mais digna do que a do pai, lhe pedira que o deixasse ser seu ajudante. Oferecera-se gratuitamente, e até, se Dennis tivesse querido, pagaria para trazer ao peito a estrela do seu cargo.
— E grande isso de ser xerife! — dizia.
Dennis Blake encolhia os ombros. Não via tal grandeza, mas calava-se. Porque o filho do homem do lixo também costumava dizer:
— Aqui deveria votar-se para a eleição do xerife, como em todos os condados.
Decerto aspirava a ser xerife alguma vez na sua vida. Tinha muitos anos à sua frente; ainda não fizera vinte e dois. Pelo menos, poderia sonhar uns quarenta anos mais.
Naquela manhã, o filho do homem do lixo ia receber uma das maiores noticias da sua vida. Ia ser xerife por três dias!
A noticia foi-lhe dada pelo próprio Blake. A coisa foi simples.
De Llano, a povoação vizinha, chegou um cavaleiro que se dirigiu diretamente para o escritório do xerife, que encontrou sentado debaixo do alpendre, numa cadeira de vime, a mascar tabaco de fumar, com um gato entre as botas velhas.
— Olá, xerife.
—Demónio! Quem é você?
— Venho da parte de Conrad Simons.
-- Que aconteceu ao velho?
— Está doente; tem uma cara tão amarela como a cera. Eu julgo que é da idade.
Aquele tipo era texano, sem dúvida nenhuma. Dennis Blake também o era, mas do norte, de muito ao norte, da própria fronteira.
— Só da idade?
— Há dias que está de cama.
— Sim? ... Lamento.
— Pediu-lhe que lhe viesse solicitar um favor.
-- Por que não desmonta?
O emissário desmontou e subiu ao alpendre.
— Pede-lhe que vá até lá amanhã.
— Amanhã? Porquê?
— É sábado, compreende?
Dennis Blake compreendeu. O sábado era o único dia em que os xerifes tinham um bocado de trabalho. Ele não, porque não havia quem descesse à povoação no fim da semana, excetuando algum pastor da alta montanha, e mesmo assim apanhava um bebedeira pacifica.
Em Llano era diferente. Nos arredores havia alguns ranchos de criadores de gado e os vaqueiros apareciam à noite para se divertirem, o que sempre dava algum trabalho ao xerife e aos habitantes pacíficos, que naquela noite preferiam ir, por unanimidade dormir cedo.
Também havia mineiros. Num rio, alguém encontrara um bocado de ouro, e quase meio milhar de mãos esgaravatavam a terra febrilmente. E com um pouco de sorte, segundo as últimas noticias recebidas.
— Mau dia — protestou Dennis.
Por isso lhe trago o pedido. Durante toda a semana, temo-nos aguentado, mas — sorriu manhosamente — sabe o que aconteceria se chegassem os vaqueiros e soubessem que não havia xerife?
— Pelo que podia fazer o velho Simons ...
— Sim, mas ...
Dennis encolheu os ombros.
— Bem — respondeu — , irei.
— Mas depressa. Tem de partir agora mesmo.
— Depois de comer, não?
— Homem ...
— Você vá-se embora descansado.
— Não, prefiro esperar por si.
— Pois espere, se quiser. Vou falar com o meu ajudante e encher o estômago para a viagem. Podemos encontrar-nos aqui mesmo, quando essa sombra dai chegar até ao último degrau — disse, indicando a linha escura que formava no solo a coluna do alpendre. — De acordo?
— Se tenho de estar aqui a olhar para a sombra ... -- resmungou o outro.
Dennis Blake levantou-se e o gato velho fugiu-lhe de entre os pés. Meteu a cadeira no escritório e foi ao armazém do lixo falar com o ajudante.
 

Outras passagens

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...