quinta-feira, 30 de novembro de 2017

PAS810. Uma jovem caída no caminho

Era uma das raparigas mais bonitas que Cass Tirrell vira nos dias da sua vida.
Estava caída a um lado do caminho, com o rosto pálido voltado para o céu azul.
Sem desmontar, Cass olhou em volta. Não viu nada de anormal na habitual paisagem de árvores e pastagem que rodeava o caminho até Cheyenne.
Aproximou mais o cavalo e depois desmontou.
Antes de se ajoelhar junto da rapariga, olhou-a novamente.
Usava uma blusa simples, saia de montar e umas botas muito elegantes, de tacão alto e esporas.
Era, certamente, uma rancheira da região, Cass não a conhecia, como é natural, pois a rapariga teria uns dezanove anos e ele há dezoito que saíra dali, para só agora voltar.
Pegou na jovem como se fosse uma pena e atravessou-a sobre a sela do cavalo. Depois montou ele próprio, após o que tomou a rapariga nos braços. Lembrava-se, vagamente, de que, não muito longe, corria um pequeno regato, e dirigiu o cavalo para lá.
Alcançou-o em menos tempo do que pensara. Desmontou e transportou o corpo inanimado até à beira da água, pondo-o, cuidadosamente sobre a relva, fresca e macia.
Tirou o lenço do pescoço e examinou detidamente a formosa cabeça da rapariga. Encontrou um ferimento na nuca. Ao que lhe pareceu, fora provocado por uma pedra, quando ela caiu... de um cavalo, talvez?
Enquanto fazia esta interrogação a si mesmo, molhou o lenço na água e começou a limpar o ondulado e ruivo cabelo empastado de sangue e pó. Quando viu a ferida completamente livre de sujidade, molhou a ponta do lenço com uísque que tirou de um cantil e procedeu a uma sumária desinfeção. Em seguida rasgou várias tiras do lenço e com elas improvisou uma ligadura que passou à roda da cabeça da rapariga.
Permaneceu algum tempo a contemplar a respiração ritmada que o elevar do peito juvenil marcava. Simultaneamente, tentava calar uma voz que só ele ouvia:
«— Vai-te embora e não voltes! Não voltes a Cheyenne! Vai-te, idiota...»
Levantou-se, uma vez que a rapariga não voltava a si, resolveu levá-la a Cheyenne. Lá, certamente, que alguém a conheceria.
Voltou a pegar-lhe e aproximou-se do cavalo, quando ouviu o ruido provocada pelas patas de vários cavalos lançados a galope.
Tornou a pousar a rapariga no chão e quando levava a mão ao «Colt» verificou que já não tinha tempo.
Segundos mais tarde, estava cercado por uns vinte cavaleiros silenciosos, todos vaqueiros, a julgar pelos trajos que usavam.
— Quem é você e que faz aqui com a minha filha? Que aconteceu? Responda!
Quem fazia estas perguntas era um homem forte e alto como um pinheiro, de olhos cinzentos e de aspeto nobre, apesar dos seus modos e do tom das suas palavras.
— Encontrei-a a cerca de meia milha daqui, patrão — respondeu Cass em tom ainda mais seco do que o cavaleiro. — Suponho que caiu de um cavalo, mas isso só ela o poderá explicar quando acordar. Quanto a mim, chamo-me Cass Tirrell e vou a caminho de Cheyenne.
O rancheiro não respondeu, pois desmontara já de um salto e correra para a filha.
Depois de a examinar, tomou-a nos braços e caminhou para o cavalo. No caminho olhou para as tiras que ligavam a cabeça da rapariga e em seguida para os restas do lenço que Cass tinha preso ao pescoço.
Foi já com modos afáveis que voltou a falar ao rapaz.
— Espero que não seja nada de grave, Tirrell —disse-lhe ele. — Se não tem pressa de chegar a Cheyenne, peço-lhe que nos acompanhe, ao meu rancho.
— O senhor manda — respondeu Cass.
— Então vamos.
Montou, a cavalo e voltou-se para um dos vaqueiros:
— Tu, Phil, corre a Cheyenne, e chama um dos médicos de lá.
Ao colocar o pé no estribo, Cass olhou em volta e sentiu-se satisfeito por não notar a mínima hostilidade nos semblantes dos vaqueiros.
O chamado Phil partiu a galope e o grupo pôs-se também em marcha com o rancheiro à frente a marcar um andamento moderado e Cass logo atrás dele,
Meia hora depois, a' rapariga começou a dar sinais de voltar a si, e todos pararam.
Ela não sofrera, realmente, mais do que o desmaio provocado pela pancada, porquanto, decorridos uns momentos de natural confusão, mostrou-se logo risonha e bem-disposta, ante a compreensível alegria do rancheiro.
Este e a filha trocaram algumas palavras e depois ela passou para a garupa do cavalo, agarrando-se à cintura do pai.
Antes de se porem de novo em marcha, Cass viu que ela se voltava para trás e lhe sorria, ao mesmo tempo que acenava com a mão.
O rapaz sentiu-se deslumbrado com o encanto daquele sorriso e com o brilho de tão formosos olhos.
Correspondeu com uni ligeiro sorriso e depois desviou os olhos.
Seguia na retaguarda do grupo, embrenhado nos seus pensamentos, quando notou que alguém cavalgava a seu lado, estribo com estribo.
Voltou a cabeça e enfrentou um semblante tão duro como o seu próprio, embora muito mais velho, no qual luziam uns olhos castanhos e vivos.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

KNS104. Não voltes a Cheyenne

 
(Coleção Kansas, nº 104)

Apesar deste aviso feito em tom ameaçador, passados 18 anos Cass Tyrrel voltou a Cheyenne e aí vingou a memória dos pais ultrajados por uns facínoras que chegaram a apoderar-se das suas terras. Conquistou também a mais linda rapariga que conhecera até então, uma jovem que, curiosamente, também andava a ser perseguida por uma estranha seita.
Joe Mogar é um bom autor, esta obra demonstra-o amplamente, tem bons argumentos, mas é um pouco repetitivo e não é um grande produtor de passagens, ficando, neste aspecto, bem abaixo de um Clliff Bradley ou mesmo de um Raf Segrram. Por esse motivo, deste livro muito interessante, só vamos extrair os primeiros dois capítulos.

domingo, 26 de novembro de 2017

PAS809. Dodge, dois minutos

— Oh!
Gail deteve-se, sobressaltada, levando a mão direita à garganta e olhando para Martin com os olhos muito abertos.
Cada vez que a via, Martin surpreendia-se por achá-la mais bonita. Não se tratava só da sua perfeição física. Existia algo mais que não se via, que não podia definir-se. Eram a sua expressão e viveza, o brilho dos seus olhos e dos seus cabelos; eram mil coisas encantadoras que a faziam irresistivelmente sedutora.
O jovem dedicou à rapariga o melhor dos seus sorrisos, ao mesmo tempo que tirava o chapéu. — Que surpresa tão agradável, menina Culver!
Gail sobrepôs-se quase imediatamente ao seu assombro e, levantando a cabeça altivamente, olhou-o com frieza.
-- Vejo que lhe entregaram a minha nota, pois tem o chapéu.
— Entregaram-mo, com efeito. Um cavalheiro, se sabe o que isso significa, não desobedeceria jamais aos desejos de uma dama. É muito injusta, menina. Não fui a sua casa nem lhe impeço que feche os olhos, se não deseja ver-me. Eram os únicos desejos que expressava, e ainda que fosse uma autêntica lástima ocultar essa glória que tem nos olhos, eu s6 pretendo que me escute. Gail corou.
— Não quero ouvi-lo, nem vê-lo, nem tê-lo próximo. Está agora suficientemente claro? Faça-me o favor de ser ir embora imediatamente.
— Nada desejo tanto como agradar-lhe, menina. Mas posto que já expressou claramente que não acredita que sou um cavalheiro, correrei o risco de que se afirme na sua opinião.
— Isso já o fez — replicou Gail, secamente.
E em seguida começou a andar, muito erguida. Martin foi uns momentos atrás dela, pondo o chapéu.
— Não foi minha a culpa que seu pai me julgasse um federal. Nada fiz para induzi-lo nesse erro.
A rapariga continuou andando, sem dar a menor mostra de tê-lo ouvido nem de advertir a sua presença.
— Por outro lado, fui o mais prejudicado. Estivera várias vezes a ponto de me matar.
Tão-pouco aquilo a comoveu. Martin tentou, então, deliberadamente' enfurecê-la compreendendo que seria a única maneira de romper a sua reserva.
— Quando você... me ajudou, a minha vida estava real mente em perigo.
Naquele momento viu como ela corava, e um instante depois tinha parado, enfrentando-o com os seus formosos olhos fulgurantes de indignação.
— Você é um... um... — mas não pareceu encontrar a palavra adequada, dentro das limitações impostas a urna menina de bons princípios. — Como se atreve a recordar o seu descaramento? Abusou imperdoavelmente de que o pensasse em perigo mortal. Não é mais do que um malandro. Um... — de novo não encontrou o vocábulo apropriado, e calou-se.
— Aquilo foi algo que perdurará no meu coração e na minha memória no resto dos meus dias — disse ele, com intenção, sorrindo alegremente.
— Oh! — Gail olhou-o com as faces coradas e os olhos lançando chamas. — Vá-se embora! Não quero vê-lo! — gritou a rapariga, que pôde ler nos olhos do texano quanto ele a desejava.
— Se fosse um homem ou tivesse pelo menos uma arma...
— Se você fosse um homem não estaria agora tão zangada comigo e eu não teria corrido perigo algum nem iria jogar a vida dentro de uma hora.
Martin procurava irritar e desconcertar a rapariga, mas surpreendeu-se ao advertir o efeito das suas palavras. Assombrado, viu como o calor desaparecia das faces da jovem, passando de encarnado a urna palidez, e também como a indignação que relampejava nos seus olhos era substituída pelo escuro temor que os tornava quase negros.
A sua surpresa impediu-o de juntar mais alguma coisa, e produziu-se um silêncio de admiração e descontentamento. Gail depressa baixou a cabeça e começou a andar de novo, quase precipitadamente. No entanto, não foi muito longe.
— Você... lutou com Henry? — perguntou inesperadamente, detendo-se, de novo, ainda que sem olhá-lo.
Então foi Martin quem sentiu um estranho receio. Toda a sua alegre fanfarronice e segurança em si mesmo não bastavam para fazê-lo supor que ela temesse pela sua vida, e a única alternativa produzia-lhe uma profunda e dolorosa opressão no peito. Seria possível que Gail amasse Henry?
— Desafiou-me — murmurou roucamente.
Ela não disse nada. Permaneceu imóvel, com a cabeça baixa, de modo que Martin não podia ver-lhe os olhos. E não soube que juntar. Pela primeira vez em toda a sua vida, o jovem conheceu a cruel mordidela dos ciúmes. Sentiu um ódio tão intenso, que lhe produziu um estremecimento e lhe fez apertar os punhos até cravar as unhas nas palmas das mãos, e a ânsia de matar assaltou-o como uma abrasadora labareda que lhe queimou as entranhas e lhe corou as faces.
— É seu noivo? — perguntou surdamente. Ela levantou a cabeça para olhá-lo. Tinha os olhos cheios de lágrimas e uma perturbadora expressão neles, que Martin não pôde compreender.
— O quê?
O jovem fez um esforço para aclarar a sua voz.
— Perguntava-lhe se Henry é seu noivo.
— Oh, não! — Disse-o com indiferença, como se estivesse muito longe.
— Eu... farei o possível por não o matar. Se tenho uma única oportunidade, procurarei desarmá-lo sem lhe fazer outro mal.
Ela baixou novamente a cabeça, de forma precipitada, e algo como um afogado soluço escapou dos seus lábios.
— Por favor, deixe-me! — disse, ao mesmo tempo que se voltava, e começou a correr, precipitadamente.
O tom em que foi feita aquela súplica conseguiu que Martin ficasse petrificado, olhando-a com um véu húmido nos olhos e um nó na garganta. Vendo-a afastar-se dele, da sua vida, compreendeu perfeitamente o que aquela rapariga tinha chegado a ser para ele. Parecia-lhe impossível que tal coisa tivesse podido acontecer em tão pouco tempo, mas a razão nada tinha que ver com os sentimentos.
— Sou um estúpido romântico — disse, com uma careta —, a quem lhe ocorre saltar dum comboio somente por um bonito palmito de cara.
Deitando o chapéu para trás, meteu as mãos nos bolsos e começou a andar lentamente, assobiando uma canção.
Não podendo chorar, só lhe restavam dois caminhos: aumentar o peso do seu rival em algumas onças ou ir-se embora. E como tinha prometido não matar Henry...
— Dodge, dois minutos — disse em voz alta, imitando a entoação do empregado do caminho de ferro.
 

sábado, 25 de novembro de 2017

PAS808. A cabana da tia Sarah

Talvez por ser de dia, ou devido a que já fosse conhecido de que não era um polícia, o caso foi que não pôde descobrir nada suspeito, nem que alguém o seguisse.
Ao chegar diante da cancela da casita, o jovem vacilou, indeciso. Pela manhã não era nunca boa a hora para visitas, e realmente não tinha nada que justificasse ir molestar a boa mulher. Instintivamente, levou a mão até ao bolso da jaqueta, onde guardava a nota de Gail, e o leve toque do papel acabou com as suas vacilações.
Resolutamente, abriu a cancela, atravessou o jardim e bateu à porta. Esta foi aberta com tal rapidez que pareceu estarem esperando a sua visita.
—Como se atreve a pôr aqui os pés, jovem desavergonhado?
A frase foi dita com voz gritante, mas nos olhos vivos da anciã havia um riso malicioso, de modo que Martin não se aborreceu e, tirando o chapéu, sorriu também.
— Devo lembrar-lhe que me convidou — disse.
— Mas isso foi antes de saber o malandro que você é.
Martin riu calmamente e respondeu:
— Tem um grande reportório de palavras feias.
— Não se' faça inocente, jovem, que sou demasiado velha para que me possa enganar. Você veio seguindo a minha sobrinha, mas não lhe vai servir de nada fazer-se de novas.
O jovem olhou-a, assombrado.
— Quer dizer que... está aqui?
Tia Sarah piscou-lhe um olho.
—Claro que está! E não finja que não o sabia.
Martin compreendeu perfeitamente que a anciã se estava divertindo à sua custa, mas naquele momento encontrava-se demasiado confuso para saber como raciocinar. Vá-se embora daqui, jovem libertino. Ela estava quase a sair, mas já não o fará até estar bem segura de que você se afastou. Não quer voltar a vê-lo nunca mais.
Depois de dizer aquilo, deu-lhe praticamente com a porta na cara. O jovem ficou olhando a porta de madeira até que o sentido das palavras de tia Sarah se foi infiltrando entre as nuvens do seu aturdimento.
E, de repente, a sua confusão desvaneceu-se por completo, assaltando-o tal alegria, que esteve a ponto de dar uma cambalhota. Gail estava ali, e ia sair de um momento para o outro! Poderia vê-la e falar-lhe! Voltando-se sobre si mesmo, afastou-se a grandes passadas.
Quanto mais depressa o perdessem de vista, mais rapidamente Gail sairia, pois devia estar escondida atrás de qualquer cortina. Este pensamento esteve quase a fazê-lo voltar a cabeça para ver se a descobria, mas pôde conter-se a tempo. Não devia alarmá-la, pois se ela suspeitava das suas intenções, poderia fazer bastante comprida a espera. Era ainda cedo, mas o seu encontro com Henry Spincer não lhe deixava muito tempo.
Resolutamente, meteu-se pela rua que desembocava diante da pequena vila de tia Sarah, e seguiu-a até estar bem seguro de que não podiam vê-lo desde o sítio onde iria esperá-la.
Só então voltou a cabeça e, ao comprovar que não podia ver mais que o muro do jardim, apressou-se a encostar-se à parede e retrocedeu sobre os seus passos. Continuou até ver a borda do marco da primeira janela e deteve-se sem se atrever a continuar, por temer que o pudessem descobrir.
Sem dúvida, não bastava estar ali, pois não via a porta nem a cancela, de modo que se Gail tivesse a menor suspeita de que a estava aguardando, poderia enganá-lo facilmente, indo por outro sítio. Voltou a seguir pela rua com passo cada vez mais apressado, até acabar por correr.
Por aquelas ruas apertadas não se via ninguém, mas de qualquer modo, Martin não lhe importava em absoluto que o vissem correr, e fê-lo com toda a ligeireza de que era capaz, metendo-se pela primeira transversal, saindo novamente para o descampado.
Assomou com cuidado atrás da esquina de um curral e pôde ver a casita e também as duas mulheres, que se despediam carinhosamente diante da cancela. Naquele momento teve que ocultar-se, porque Gail, com a cabeça voltada para o final da rua que acabava de abandonar, vinha diretamente na sua direção.
—És um sol, tia Sarah! —disse para si, pois já não tinha dúvida alguma de que todos os impropérios e desplantes da velha dama, não tiveram outro objetivo do que indicar-lhe a presença da sua sobrinha e de que ela se dispunha a ir-se embora.
Um momento depois ouvia o rápido bater dos passos da rapariga, que soavam apagadamente ao pisar a dura e seca terra nua.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PAS807. Um aristocrata ofendido na sua honra

Martin estreitou, com os seus fortes braços, a rapariga e beijou aqueles lábios que o estavam enlouquecendo desde o mesmo instante em que os viu.
Ela não lutou. Permaneceu imóvel, sem responder à sua carícia, mas aceitando-a passivamente.
O jovem, então, recordou as suas experiências e, sobretudo, os ensinamentos daquele diabo tentador da Jade, a «vedette» francesa de Chicago, e juntou a tudo isso algo que nem sequer sabia então, que tinha surgido no seu interior.
Esqueceu até os passos e não ouviu como se aproximavam até se deterem ali mesmo.
— De modo que era isso!
A voz rouca e violenta fê-lo voltar a si da loucura em que se encontrava, e levantou a cabeça para o homem que permanecia em pé diante do banco.
O luar caía plenamente sobre o inoportuno, e pôde ver que se tratava de um atlético rapagão, jovem, bem vestido, de angulosas feições, onde se marcavam fortes ângulos de luz e sombra.
— És igual a todas as outras — continuou o homem, dizendo as palavras com profundo desprezo e mal contida violência. — Deste-me largas, brincando com os meus sentimentos, só para te atirares para os braços do primeiro forasteiro que chega.
—Henry! — exclamou a rapariga, demasiado surpreendida para reparar de que a estava insultando.
Mas Martin já se tinha posto de pé, como que impulsionado por uma mola.
— Não tens vergonha nem... — continuava o chamado Henry.
O forasteiro estendeu, então, o punho esquerdo e aplicou-o no estômago de Henry e, com verdadeira gana, pondo toda a sua força e impulso nisso, disparou um formidável gancho à ponta do queixo do adversário, levantando-o e estirando-o de costas no chão, tão inerte e pesadamente como se fosse um saco.
Antes de cair em terra, o enfurecido Henry rebolara pelo canteiro.
Martin voltou-se com apreensão para a rapariga, temendo as suas iras.
Mas ela não lhe fez uma cena, como temia, nem formulou sequer a menor reprovação por tê-la beijado. Parecia assustada, e nem por isso precisamente, como o demonstraram as suas primeiras palavras:
—Tem que abalar imediatamente. Seria impossível fazê-lo entrar em casa sem que ninguém o visse, nem tão--pouco pode sair por porta alguma. Tudo está cheio de gente. Terá que voltar a saltar o muro.
— Não se preocupe por isso.
— Siga a rua até à terceira transversal à esquerda, o encontrará uma pequena quinta, já nos arredores da capital, completamente rodeada de jardim. Convença-se de que não há ninguém pelos arredores antes de bater à porta. Abri-la-á uma mulher magra, já de idade. >G a minha tia Sarah. Vive só, e se você proceder com cuidado, ninguém suspeitará de que se refugiou ali.
— Mas é que...
— Vamos, não há tempo a perder. Henry armará um escândalo quando recuperar os sentidos.
— Quem é esse Henry? — perguntou Martin, sentindo uma aversão tão profunda como injustificada contra aquele jovem que nem sequer conhecia.
Mas ela pareceu não ter ouvido a pergunta. Voltou a pegar-lhe no braço e levou-o precipitadamente até ao muro.
— Vamos, suba — disse. — Espero que esta trepadeira seja bastante resistente para sustê-lo.
Tinha-lhe soltado o braço e Martin voltou-se para olhá-la. Iluminada pelo luar, pôde vê-la quase com a mesma claridade que à luz do dia. E estava maravilhosamente formosa. Sentiu novamente um desejo louco de voltar a beijá-la. Sem parar de refletir, incapaz de conter-se, Martin inclinou-se ligeiramente, solando de novo os seus lábios aos da jovem. Beijou-a loucamente e, ao afastar-se, reparou que a jovem tinha os olhos muito abertos, tão grandes que pareciam querer sair-lhe do rosto. Ele, então, disse:
— Não teria sabido de que outro modo poderia agradecer-lhe tudo o que fez por mim. Depois, voltou-se para o muro e trepou agilmente pelo grosso tronco da trepadeira, saltando para o outro lado.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PAS806. Passos na noite escura

Internou-se pela rua, aproximando-se do muro. Era feito de pedras, e para uma pessoa muito ágil e de fortes dedos, não era impossível trepar por ele. O jovem ficou indeciso durante uns segundos. Não conhecia aqueles sítios, ignorava onde se encontravam os seus inimigos e quem eram estes, pelo que não se podia prevenir contra eles, e ser-lhe-ia igualmente perigoso continuar deambulando pelas sombras ou voltar para o hotel.
Necessitava urgentemente um refúgio, um lugar onde pudesse deixar passar algumas horas que desconcertassem e até fizessem desistir os assassinos. Não tinha a menor ideia de onde poderia esconder-se.
Resolutamente, iniciou a subida do muro, e depois de um par de infrutuosas tentativas pôde assomar por cima do muro.
Este dava para um formoso e bem cuidado jardim, profusamente adornado, em torno da casa, ainda que não se visse dali.
Do seu alto observatório podia ver uma grande animação. Dançava-se no amplo terraço e também no jardim, e à simples vista resultava fácil calcular que se reuniam ali mais de meia centena de pessoas.
A casa era ampla, branca, de dois andares e vermelho telhado, adornada com esbeltas colunas. Se uma casa podia definir a personalidade e procedência dos seus donos, aquela fazia-o sem a menor dúvida. Aristocratas procedentes da Louisiana. Ou pelo menos, tal era a ideia que Martin tinha sobre as casas dos grandes plantadores do Mississípi.
Rapidamente passou para o outro lado, deixando-se cair agilmente no chão e, ainda agachado, olhou em seu redor.
Tinha produzido algum barulho ao roçar pelos ramos de uma árvore trepadeira que ocultava a fealdade do muro por aquele lado, mas dificilmente podiam tê-lo ouvido, mesmo que se encontrasse muito próximo, pois a música e as vozes teriam afogado qualquer som mais forte.
Em seguida, ficou tenso ao descobrir, meio oculto entre alguns arbustos, um banco muito próximo, onde se sentavam duas pessoas.
O seu sobressalto durou soente uns instantes, até reparar de que se tratava de um par muito enamorado, que não tinha ouvido nada, tão absortos estavam nas suas conversas amorosas.
Martin esperou um momento e, na altura em que se beijaram, saiu de entre as plantas, afastando-se por um estreito caminho, com um sorriso malicioso nos lábios.
Não tomou muitas precauções. Limpou as mãos e, sacudindo a roupa, fez um cigarro e escondeu o chapéu entre uns arbustos. Depois encaminhou-se decididamente para a casa.
Dada a quantidade de gente que dançava e se movia em torno do terraço, chamaria muito menos a atenção confundindo-se entre elas do que passeando solitário pelos sítios escuros.
A sua ideia, ainda que audaz, era boa, indubitavelmente. Mas houve algo com o que não tinha contado e no que nem sequer pensou.
Corretamente vestido e de boa presença, nada o diferenciava dos homens que dançavam ou conversavam por ali, uma vez próximo do terraço, pois também se viam alguns com revólveres pendentes do cinto. Ninguém lhe prestou atenção.
Mais calmo, quando olhava em seu redor, levemente sorridente, pensando na possibilidade de divertir-se dançando com alguma rapariga bonita, os seus olhos encontraram a jovem da estação.
Viu-a no momento em que, rindo, com a cabeça voltada, se separava de um grupo de homens já maduros, com os quais parecia ter estado brincando. A sua atenção foi ainda mais despertada pelo recorte gracioso e esbelto da sua figura, envolta numa nuvem de tule branco, e pelo doirado da sua cabeleira, que lhe caía sobre os ombros em enormes ondas, artisticamente penteadas.
Estava ainda um pouco indeciso, quando ela se voltou, quase tropeçando nele.
Gail levantou a cabeça, ainda sorridente, e daí a pouco abriu imensamente os olhos, levando a mão direita à garganta, tão sedutora como toda ela.
— Oh!
Os seus lábios, cheios, encarnados, formaram um pequeno e delicioso círculo. Estava muito bonita.
Martin ocultou como pôde o seu sobressalto e, ampliando o sorriso que se tornara um pouco rígido, inclinou-se galantemente.
— Levei séculos procurando-a para lhe apresentar as minhas desculpas pelo incidente desta tarde — disse, recorrendo a toda a desfaçatez de que dispunha.
Ela nem sequer pareceu ouvi-lo.
— Você! — exclamou, muito aflita.
— Foi um desafortunado incidente em que ninguém teve culpa, asseguro-lho — continuou o jovem, com um desembaraço mais fingido do que outra coisa. — Mas não me sentirei tranquilo, enquanto não ouvir dos seus próprios lábios que já o esqueceu.
Ela agarrou-o pelo braço.
— Venha — ouviu-a dizer.
Aquilo era, certamente, a última coisa que Martin esperava ter ouvido. No entanto, deixou-se levar sem opor a mais leve resistência, entrando novamente nos lugares mais escuros do jardim.
Ela parecia conhecer muito bem todos os recantos, e o jovem temeu que o levasse diretamente para o mesmo lugar por onde havia saltado.
Mas, pelos vistos, não era isso que ela desejava, pois ouviu como a jovem deixava escapar uma clara exclamação de contrariedade quando, entre os arbustos, pôde descobrir o banco onde o par de namorados continuava beijando-se, muito apertado.
Martin reparou que a jovem vacilava um instante, mas quase em seguida voltou a puxar por ele e, sempre agarrando-lhe pelo braço, levou-o até outro recanto afastado, onde se encontrava um banco, desta vez vazio.
Gail conduziu-o até lá quase correndo, como se temesse que fosse alguém ocupá-lo. Sentando-se, puxou por ele para o fazer ocupar um lugar a seu lado.
— Viu aquele par? — perguntou-lhe num sussurro.
O jovem não pôde evitar um sorriso divertido.
—Perfeitamente — assentiu, igualmente calmo, tanto para manter o misterioso tom da jovem, como para ocultar o riso que lhe bailava.
— Pois comporte-se como se... se fôssemos também apaixonados — continuou ela, sussurrando. —É a impressão que devemos dar, no caso de alguém nos ver.
Martin olhou-a entre irónico e assombrado, mas a escuridão ali era quase completa, e o rosto dela, apesar de o ter muito próximo, era somente uma pálida mancha.
— Se assim o quer... — murmurou, sufocadamente.
— Só para dar a impressão — apressou-se ela a advertir quando Martin estendia já o braço para enlaçar os seus ombros nus.
— Mas suponho que será necessário fazê-lo ao vivo —disse ele, rodeando os maravilhosos ombros da rapariga.
— Aproxime a sua cara da minha. Com isso bastará. Está demasiado escuro para que alguém consiga reconhecê-lo e, desse modo, poderemos falar ao ouvido.
Martin prestou-se com muito gosto. Tendo-a praticamente abraçada, roçando a sua face com a dela e sentindo a sua perturbadora proximidade, aspirando o seu ténue, ainda que embriagador, perfume, ouvindo o leve e algo agitado sussurro da sua respiração, notando incluso a agitação do seu busto e o levantar e baixar dos seus erguidos seios, desvaneceu o seu sorriso e advertiu que estava ainda em maior perigo que quando os quatro assassinos o perseguiam, disparando contra ele. Então podia defender-se e fugir, mas agora...
Tão absorto estava nas suas sensações, lutando mesmo contra o clamor do seu sangue, que a voz dela, apesar de não ser mais do que um suspiro junto ao seu ouvido, produziu-lhe um sobressalto.
— Como pôde entrar aqui? — perguntou-lhe ela.
Martin necessitou de fazer um esforço para compreendê-la e coordenar os seus pensamentos.
— Sei perfeitamente quem é. Não percamos tempo—disse a jovem.
— Assim o crê? — perguntou Martin, apagadamente, sobrepondo-se aos seus instintos.
— Não, não se afaste.
O jovem, não muito seguro de si mesmo, pois aquela rapariga tinha-lhe produzido uma profunda impressão desde o momento em que a viu, intentava afastar-se um pouco, mas ela conteve-o, puxando-o mais contra o seu peito e encostando suavemente a face contra a dele.
— Confio em que a sua presença aqui não haja sido advertida, mas não estou muito segura, e. poderiam as. piar-nos.
Martin ouvia o seu coração bater no peito de tal modo, que duvidava muito não atraísse quantos se encontrassem na casa, para averiguarem a razão daquele maluco martelar.
— Não sabe bem o perigo que estou correndo — suspirou, sentindo-se completamente perdido. — Honradamente, creio que devia ir-me embora sem perda de tempo.
— Não me explicou como teve o atrevimento de se meter aqui — continuou Gail, trocando completamente o sentido das palavras do jovem. — Meu pai estava seguro de que você intentaria vê-lo, pelo que me advertiu da sua personalidade por se... para que não...
— Não me faria um escândalo — sorriu Martin.
Sentiu perfeitamente o pestanejar dela, pois estavam tão juntos que as pestanas da jovem lhe roçaram pela face.
— Esqueçamos isso — murmurou Gail.
— Asseguro-lhe que não foi intencional. Um golpe de vento arrebatou-me o chapéu e...
— Não tem importância e já o esqueci. E em seguida acrescentou: — Afinal, ainda não me disse como entrou aqui. Isso é para mim muito mais importante. O jovem esboçou um sorriso e respondeu:
— Saltando o muro. Perseguiam-me e, calculando que ninguém me conhece em Dodge, pensei que poderia confundir-me entre os convidados.
A jovem olhou-o, surpreendida.
— Que loucura! Não compreende que neste momento já toda a gente sabe a sua descrição? E que é aqui precisamente onde esperam que venha?
Agora foi a vez dele se mostrar surpreendido.
— Porquê?
De novo sentiu na sua face a carícia das pestanas da jovem. Sobressaltou-se.
— Por favor! — murmurou Gail, com impaciência. —Tem que se ir embora imediatamente. Cada minuto que passa aqui é um constante perigo para a sua vida. Portanto, peço-lhe que parta!
Martin não estava disposto a abandonar a companhia de Gail.
— Que importa? Já não tenho salvação — murmurou.
A jovem tentou animá-lo.
— Não desespere. Ainda que não possa voltar ao hotel, pois seguramente o terão vigiado, eu já lhe arranjei um bom refúgio para si.
Martin acariciou levemente a face dela e aspirou o seu perfume. Naquele instante, um débil raio de prata acabava de atravessar os arbustos, pousando sobre a doirada cabeleira da jovem, pois a Lua começava a assomar, então, por cima do telhado da casa. O jovem notou como a rapariga se punha rígida e, perdendo completamente a cabeça pela sua formosura, pela sua proximidade, pelo influxo da Lua que a acariciava com a sua luz de prata, ia a beijá-la, quando percebeu perfeitamente o som de uns passos que se aproximavam na direção do banco onde se encontravam.
Gail também os deve ter ouvido, pois imobilizou-se quando já tinha apoiado as mãos no peito para rechaçá-lo na sua investida.
Os passos soavam cada vez mais fortes.
A Martin pouco lhe importava que alguém se aproximasse. Alegrou-se, realmente, já que por isso se lhe deparava uma magnífica oportunidade para se aproveitar da situação.
Sem qualquer receio, e sentindo os passos já muito perto do banco, fê-lo em seguida.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

KNS100.1 Reencontro com «Dodge, dois minutos»

Após a venda com sucesso de um conjunto de cabeças de gado em Chicago, Martin regressou de comboio com os seus vaqueiros à terra de origem. Em Dodge, o jovem resolveu sair do comboio para desentorpecer as pernas, mas uma rabanada de vento atirou o seu chapéu contra uma jovem de beleza inigualável, acabando por lhe produzir uma atrapalhação de tal ordem que a pequena se estatelou.
Martin desculpou-se, mas não foi bem atendido. Apesar de tudo, depois de ver a jovem afastar-se resolveu ficar na cidade.
E os dois minutos da paragem transformaram-se nos mais importantes da sua vida ao ser confundido com um federal, que uns procuravam abater e outros proteger, que vinha investigar a sucessão de roubos que andavam a ser praticados na cidade.
Sigamos então os encontros de Martin com a bela Gail e as suas desavenças com o ciumento Henry que acabou para o desafiar para um duelo…

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