sexta-feira, 14 de outubro de 2016

KNS074. CAP III. Em defesa da beldade

Wagon Mound era uma povoação fronteiriça, entre as nascentes do Canadian River, no noroeste do Novo México. A sua larga rua principal não era mais do que a estrada de diligências entre Pueblo e Santa Fé, de ambos os lados da qual se tinham construído algumas casas de madeira. E pouco mais.
Fazendo trotar «Dark» atrás do carro, Roy olhou distraidamente para um lado e para o outro, vendo que, pelos passeios de tábuas, circulavam poucas pessoas, enquanto os infalíveis ociosos contemplavam a sua passagem com um ar de curiosidade aborrecida.
A observação fê-lo distrair-se o tempo suficiente para não ver que o carro se chegava a um dos passeios. Quando quis aproximar-se já a jovem parara o trotador e saltara para o chão, sem necessidade de ajuda.
Ignorando ostensivamente a sua precipitada, embora tardia, aproximação, Arabella atravessou rapidamente o passeio e entrou num edifício baixo e amplo, que era sem dúvida um armazém.
Roy seguiu-a, depois de um instante de hesitação, encontrando-se num estabelecimento grande e velho onde havia de tudo à venda, desde sementes e utensílios de lavoura até armas de todos os géneros e roupas para os dois sexos.
 Junto do comprido balcão, que naquele momento abandonava com uma exclamação de alegria, estava uma rapariga muito bonita, de cabelo loiro e olhos claros.
— Arabella! Que alegria! Há uma eternidade que não te vejo.
— Não sejas exagerada, Ally... — riu Arabella. — Há duas semanas assisti à festa dos teus anos.
— É verdade, sim... Mas porque não vieste no domingo? Tivemos baile e divertimo-nos. Sabes uma coisa? Frank, esse misterioso e inquietante vaqueiro do teu rancho, esteve a fazer-me a corte! Quase se pegava, por minha causa, com Jubal Beasley, esse pistoleiro de Coe, um que é muito magro e alto. Tive um susto tremendo! Menos mal que Frank não quis lutar estando comigo, e esse Beasley não levou as coisas longe de mais, encolheu-se.
Enquanto ela falava excitadamente, os seus belos olhos cor de mel fitaram-se em Roy, que estava um tanto afastado. Ele inclinou-se, sorrindo, e isso pareceu desconcertá-la um tanto, porque a sua voz perdeu vivacidade e acabou por se calar.
A mudança de tom e o olhar da amiga fizeram com que Arabella se voltasse, notando então a presença de Roy. O seu sorriso desapareceu.
— Vem contigo?... — perguntou Ally, num sussurro.
— Sim. É Royal Donovan, um novo vaqueiro do rancho. «Miss» Alice Nason... — acrescentou ela, de má vontade, meio voltada para o rapaz.
Roy aproximou-se, sorridente e de chapéu na mão.
— Muito gosto, menina.
— É forasteiro aqui, não é verdade?
— Sou, realmente. É a primeira vez que venho a esta terra, o que significa que tenho andado a perder o meu tempo.
O olhar dele era muito mais expressivo do que as suas palavras, e Ally sorriu, lisonjeada.
Por algum estranho motivo, Arabella sentiu que aumentava grandemente a sua irritação contra aquele descarado que prodigalizava sorrisos e dirigia olhares' incendiários às raparigas. — Sabes onde está teu pai, Ally?... — perguntou ela, muito séria. «Mr.» Donovan tem de falar com ele.
— Esteve aqui há momentos, mas disse não sei quê a respeito do calor e foi beber uma cerveja... — disse. Ally, com uma risada. — Já sabes como ele é. Qualquer pretexto lhe parece bom para uma cerveja.
— Sabes onde ele foi?
— Sei. Ao «saloon», a em frente.
Arabella voltou-se para o vaqueiro.
— Ouviu, «Mr.» Donovan... — disse ela, friamente. — O pai de «miss» Nason tem um estabelecimento de ferrador, exatamente por detrás deste edifício, e é o homem mais entendido em cavalos que há na povoação. Vá pôr-se de acordo com ele.
Roy riu-se ante aquele ataque que nada tinha de velado.
— Desculpe-me, «miss» Nason... — disse ele. — Preciso dos serviços de seu pai, para cuidar da pata ferida de um cavalo que pertence ao pai desta menina. Porque não vem também ao rancho? Proponho-me domar esta tarde uma égua selvagem, e embora esteja habituado, as éguas são sempre difíceis... não é verdade?
Olhou para Arabella e viu que ela corava de indignação.
— Oh! Terei muito gosto!... — apressou-se a dizer Alice, notando que a amiga estava prestes a explodir.
Roy inclinou-se e, sempre sorrindo, deu meia volta e saiu.
— Que criatura tão odiosal... — murmurou Arabella, entre dentes. — Apetecia-me dar-lhe bofetadas.
— Que tens contra ele?... — perguntou-lhe a amiga.
— É um fátuo insuportável e grosseiro. Não compreendeste que aquilo da égua era comigo?
— Bem, em todo o caso a alusão foi muito mais velada do que a tua, que quase lhe chamaste cavalo... — disse Alice, a rir.
— Irrita-me o seu ar de superioridade e o seu sorriso petulante. É um fanfarrão, um presumido e um tolo!
— Pois eu achei-o simpático. E é um rapaz muito jeitoso! Quase tão bonito como o Frank.
— O que acontece contigo é que te entusiasmas quando vês um rapaz bem-parecido... — declarou Arabella, com azedume.
Mas Alice não se perturbou grandemente.
— Claro que sim !... — disse, a rir. — Gosto mais deles do que de torta de maçã!
Arabella teve um gesto de impaciência.
— És incorrigível, Ally. Quando te resolves a ter juízo?
— Por acaso deixo de o ter, por me agradarem os rapazes?
— Mostras-te garrida com todos, e isso não está muito bem.
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— Porque não? Quando tiver noivo, não haverá para mim outro homem, em todo o mundo, além do meu... mas entretanto gosto de vê-los borboletear à minha volta.
— O que é um jogo perigoso. Dizem que noutros sítios as mulheres estão em maioria, mas aqui há homens a mais. Dez ou doze para cada mulher. Compreendes? Se os animas, pode chegar a haver uma luta.
— Ora! Não dramatizes, Arabella. Tu és séria de mais. Aposto que nunca beijaste nenhum desses rapazes simpáticos que andam por ai...
— Claro que não!
Alice riu alegremente.
— Pois não sabes o que perdes!
Entretanto Roy, alheio à discussão que tinha originado, atravessou a rua, dirigindo-se para um edifício situado em frente do armazém, um pouco mais à direita., em cuja fachada uma grande tabuleta indicava : «Fox Case Saloon».
Ao chegar diante da porta de batentes curtos, empurrou-a e entrou na casa meio vazia que, em contraste com a luz exterior, parecia mergulhada na penumbra. Ao fundo, e a todo o comprimento, era o balcão; à esquerda viam-se umas quantas mesas, naquele momento desocupadas, e à direita havia uma ampla pista de baile com um estrado onde estava uma pianola e que podia servir de pequeno palco. Durante as noites de sábado e de domingo devia reinar ali uma grande animação.
«Terei de passar por aqui no próximo sábado...», pensou.
Junto do balcão estava um homem forte, de costas para, ele e voltado para uma grande caneca de cerveja. Roy notou que o homem o observava através do espelho que tinha na sua frente.
— Um «whisky»... —  pediu ele ao empregado, apoiando-se ao balcão, ao lado da bebedor de cerveja. — É «Mr.» Nason?... — perguntou, olhando-o também pelo espelho.
— Seria caso para duvidar, perguntando desse modo, — respondeu o outro, com um largo sorriso. — Aqui toda a gente me conhece por Elihu. Aconteceu alguma coisa ao seu cavalicoque?
— O meu cavalicoque, cama diz, é um cavalo como deve ter visto poucos, e está perfeitamente. O que tem uma pata magoada é um rosilho comprado há pouco tempo por «Mr.» Marvin, para quem trabalho. É ele quem me manda pedir-lhe para passar por lá e ver o animal.
— Amarraram-lhe essa perna, com demasiada força e por demasiado tempo... — disse Nason, com grandes gestos. — Há tipos que precisavam de chicotadas. São muitos os cavalos que se perdem em consequência do bárbaro costume de trata-los assim. É criminoso.
E Nason bebeu um largo gole de cerveja, como se pretendesse afogar a sua indignação.
— Irei, evidentemente, ainda que pouco possa fazer pelo pobre bicho... — acrescentou.— A única coisa a fazer é manter limpas as feridas, até sararem.
— Agradeço-lhe que me acompanhe, porque Marvin espera a sua ida.
Nason afastou o assunto, com um gesto.
— E que me diz da égua?... — perguntou. — Essa sim, que é um belo animal ! E pensar que aqueles estúpidos lhe bateram com um pau, como se fosse uma pileca!
— Pelo que vejo conhece-os bem.
— Fui eu quem mandou esses caçadores para falarem com Dan, mas não sem lhes ter dito o que pensava deles.
— Ah!
— Agora Dan terá de esperar que passe por aqui um desses domadores de cavalos, uns tipos doidos que andam de um lado para o outro e parecem incapazes de ficar quietos. Com certeza que há-de aparecer por aí um desses homens, ou dois, para as festas do final do «rodeo». Nos arredores há só um e trabalha para Coe, de maneira que não se pode contar com ele.
— Quem é esse Coe?... — perguntou Roy, interessado.— Desde que cheguei só oiço falar dele, mas de maneira pouco clara, ao ponto de não saber quem é.
Nason olhou pensativamente para a cerveja, e depois para o empregado do «saloon», que estava a fazer qualquer coisa do lado de dentro do balcão.
— Herbert Coe é um produto da época... — disse ele. — Dentro de uns anos, tipos como ele serão perseguidos e enforcados pelos seus crimes. Mas agora a única lei é a força, e ele tem-na. Rouba descaradamente, e se alguém o estorva, faz com que o matem. Esse é Herbert Coe. Um bandido.
— Hum! Não o pinta com bonitas cores.
— São as que lhe convêm. Mas não pense, por isso, que é um tipo rude, sujo e com ar de patife. Nada disso. É novo, de bom tipo e orgulhoso como o diabo. E o curioso do caso é que tem amigos... e há raparigas que andam doidas por ele, sem que algumas das mães façam objeções a isso.
Bebeu de um trago o resto da cerveja, limpando a boca às costas da mão grande e peluda.
— Mas o melhor é ir andando sem perda de tempo, a caminho do «Shoe». A jornada é longa, até ao rancho, e quero voltar antes que seja noite.
Roy chamou o empregado, mas Nason segurou-o por um braço e levou-o para a porta, depois de atirar umas moedas sobre o balcão.
— Eu convido, rapaz.
Roy deixou-se levar, sem protestos.
Simpatizava com aquele homenzarrão cujos peque-nos olhos brilhavam, vivos e risonhos, na larga face, bonacheirona e franca; apesar da sua gordura, dava uma sensação de força pouco comum. Usava, pendente do cinturão, um revólver antiquado e grande.
O calor apertava, àquela hora do meio-dia, de maneira que quase ninguém se via pela rua. As duas raparigas estavam sozinhas nas traseiras do armazém.
— Olá, Arbell !... — exclamou o ferrador ao vê-la, surpreendido.— Este rapaz não me disse que estavas cá.
— Talvez fosse para lhe fazer uma surpresa... — respondeu a jovem, indiferente, olhando de relance para o vaqueiro.
— Já te disse que fazias mal em vir aqui sem suficiente proteção. Vou ter que dizer isso mesmo ao teu pai. E não passa de hoje.
— Não lho diga, Eli... — pediu a jovem. — Sabe como é o pai, e num encontro com Coe ele não levaria a melhor. Além disso venho bem acompanhada.
Elihu Nason tossiu com força.
— Bem, eu não digo que este rapaz...
— Donovan? Oh, não, Elihu !... — disse ela, rindo. E metendo a mão na pequena bolsa de tecido que levava, tirou uma pequena pistola de dois canos. — Referia-me a isto.
Ao falar, olhou de soslaio para Roy. Mas se esperava vê-lo irritado pelo flagrante desprezo, fracassou no seu intento porque ele mostrou-lhe o mesmo sorriso fácil, parecei-ido muito divertido.
-- E que raio pensas tu que poderias fazer, com esse brinquedo, contra um homem como Herbert Coe? — grunhiu o ferrador.
— Dar-lhe um tiro se se atrevesse a incomodar-me... — ripostou a rapariga, séria.
— Ora! Coe é rápido como um raio e tirar-te-ia essa caranguejola muito antes de que tu pudesses usá-la. O melhor será que voltem imediatamente ao rancho. Eu vou atrelar o meu carrito e sigo-os dentro de um minuto.
— Eu também quero ir, pai... — interveio Alice.
Nason olhou para a filha, surpreendido.
— É um passeio um tanto comprido, não te parece? — perguntou. — E voltaremos quase imediatamente.
— Mas quero ver como domam essa égua. Ouvi-te falar tanto a respeito dela, que tenho interesse em vê-la.
— Vão domar a égua?... — perguntou o homenzarrão, surpreendido.
— Sim. Roy Donovan vai domá-la. Ele não te disse?
— Parece-me que Donovan gosta mais de ouvir que de falar... — respondeu Elihu.— Você propõe-se montar esse bicho?
— Sim... — Roy sorriu. — O que não sei é por quanto tempo.
— Muito bem. Ally, vai buscar a tua sombrinha porque o sol aperta. E vocês vão andando. Alcançá-los-emos dentro de minutos.
— Oh, tenho de arranjar-me um bocadinho!... — exclamou Alice, saindo precipitadamente.
— Leve esses embrulhos para o carro, faça o favor... — pediu Arabella ao vaqueiro, dirigindo-se para a rua sem olhar para ele.
— Até logo... — disse Roy, agarrando numa porção de embrulhos que estavam em cima de uma mesa.
— Leve-a daqui, depressa, e não afrouxe o passo enquanto não estiver longe da povoação.
O momento não era indicado para estar a pedir explicações, e o rapaz concordou, em silêncio, atravessando o armazém.
Ia a chegar à porta quando o som de uma voz guinchante o pôs alerta, fazendo-o parar:
— Que pena que Herbert não tenha vindo também! Olha, ali vai a pombinha bonita e orgulhosa.
— Raio!... — resmungou uma voz mais forte e rouca. Pois é verdade!
Ouviu-se uma gargalhada, no momento em que Roy se inclinou, deixando os embrulhos no chão, sem rumor.
— Que achas tu que devemos fazer?... — perguntou a voz que falara primeiro.
— Eu penso, Joe, que o patrão ficará zangado se nós só lhe dissermos que vimos a rapariga dele.
— Queres dizer que devemos agarrá-la e levar-lha?
— Que faria ele?
— Pois...
— Vamos, Joe. Que te acontece? Julgas que o chefe não tem coragem para isso?
Roy saiu, localizando os dois homens um pouco à sua esquerda. Um deles era uma espécie de gigante coberto de pêlo, e o outro um tipo baixo, com cara de fuinha.
Não notaram a aparição dele, porque tinham emu-decido e olhavam, entre incrédulos e espantados, a pistola prateada cujos dois canos estavam dirigidos para eles.
— E agora desapareçam daqui... — disse Arabella, com voz firme e sossegada.
O tipo baixinho soltou uma gargalhada estridente.
— Anda, Nick... — disse ele. — Essa coisita não pode fazer mal a um tipo grande como tu.
— Vai para o diabo !... — grunhiu o gorila. — É uma boa pistola. E vê tu como ela a empunha!
— Porque hesitas, tamanhão?... — riu o outro, divertido. — Tens medo da picada de uma pulga?
— Alguma vez o farei... — rosnou o chamado Nick Alguma vez o farei, com certeza!
— Mas enquanto se decidem, ponham-se ao largo !... — ordenou Arabella. — Vamos! Fora!
O tipo miúdo reparou então em Roy e agarrou no braço do companheiro.
— Chegaram reforços... — disse ele. — Repara nesse figurino, ali. De onde julgas que ele saiu?
Roy encaminhou-se lentamente para eles, tranquilo.
Quando estava bastante perto disparou subitamente a mão direita, atingindo o homem baixo com um soco tão violento que lhe rasgou o lábio, estendendo-o ao comprido no chão.
O homem soergueu-se sobre os cotovelos, passando a mão pela boca, e por instantes olhou, incrédulo e surpreendido, o sangue que lhe sujara os dedos. Depois, com um guincho de rato, empunhou o revólver, num gesto rapidíssimo. Mas não chegou sequer a levantá-lo, porque Roy lhe apontava já um dos seus «Colts» de coronhas nacaradas e com aplicações de prata, ao mesmo tempo que, com a outra arma, mantinha em respeito o gigante, que rosnava surdamente.
— Largue a armal... — ordenou Donovan, seco.
O pistoleiro teve uma curtíssima hesitação mas obedeceu.
— Agora levante-se e volte a cara para a parede.
Espumando de raiva, mas sem poder fazer outra coisa, o homúnculo fez o que lhe era ordenado.
— Vigie-o, «miss» Marvin. E ao menor movimento dispare sem hesitar... — disse Roy a Arabella.
— Que vai fazer?... — perguntou ela.
Roy não respondeu. Recuando um passo, meteu as armas nos coldres.
— E agora, maldito porco... — disse ele ao gigante — vais lamber o chão com a tua língua suja, para ver se tiras a crosta da peçonha que a cobre. Vamos, põe-te de joelhos e começa.
Nick olhou para o rapaz, que não empunhava qualquer arma, e cerrou os punhos com força.
O gigante tinha visto a rapidez com Roy sacava os «Colt» dos coldres, e tinha medo. Por isso cometeu o erro de se precipitar cegamente sobre o seu inimigo, pretendendo derrubá-lo antes que ele pudesse fazer qualquer movimento. Mas enganou-se.
Roy desviou-se com a facilidade e a graça de um bailarino, e atirando o punho para a frente, com todo o peso do seu corpo, meteu-o quase até ao pulso no estômago desprotegido do tamanhão, que se dobrou ao meio para logo se endireitar bruscamente, sob o impulso de dois «uppercuts», seguidos de um golpe dado com a mão em cutelo, sobre a maçã-de-adão.
Nick tornou-se lívido e começou a cair, no que foi ajudado por outro soco na estômago e outro golpe de cutelo, desta vez na nuca.
Caiu de bruços no chão, com tal violência que fez estremecer as vidraças do armazém.
Roy curvou-se sobre ele, tirando-lhe o revólver, e depois foi buscar a arma do outro pistoleiro, que estava caída sobre as tábuas. Descarregou as duas armas e depois atirou-as para o meio da rua, entre a poeira. Então foi buscar os embrulhos de Arabella e levou-os para o carro.
Ela parecia demasiado aturdida para falar. Olhou-o por instantes e subiu para o carro, destravando e empunhando as rédeas.
Donovan montou o seu grande cavalo negro e seguiu-a, abandonando a povoação, quando alguns curiosos começavam a juntar-se no local do combate.
Pouco depois foram alcançados pelos Nasons, que, do outro lado do armazém, onde ficava a loja do ferrador e, ao lado, as cavalariças, nada tinham visto do que acontecera. E juntos chegaram ao rancho «Shoe».

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

KNS074. CAP II. A beldade que não apreciava fanfarronices

Revigorizado e fresco depois de se lavar na água gelada da bomba, Roy acabava de se barbear quando começaram a aparecer os primeiros de entre os seus camaradas, a quem cumprimentou alegremente.
— Caíste da cama, ou não estava bastante macia para ti?... — perguntou um rapagão bem parecido, de pernas compridas e ombros fortíssimos.
— O que aconteceu foi que tive de dormir encolhido... — respondeu Roy, no mesmo tom. — O dormitório não foi feito para pezudos, de maneira que, quando te estendes, não há lugar para mais ninguém. Devias dormir em pé, com uma perna dobrada.
Os outros rapazes riram-se.
— É boa ideia... — disse uma voz. — Com os pés que tens, não é fácil perderes o equilíbrio.
O visado atirou-lhe com água, e um momento depois armava-se uma batalha campal, entre risadas. Roy apressou-se a desandar dali.
De novo no dormitório, estava a acabar de abotoar uma camisa lavada, quando apareceu o moreno Frank.
Embora magro e de estatura meã, o rapaz dava uma impressão de agilidade e de força. Os seus olhos negros tinham um brilho penetrante; a face delgada parecia talhada em pedra, mas por um artista consciencioso e enamorado dos pormenores. Uma mulher considerá-lo-ia bonito, sem qualquer dúvida, e era precisamente a dureza das suas feições o que evitava que ele parecesse bonito demais. Estava já completamente vestido, e da cintura delgada pendiam dois revólveres negros, bastante baixos.
— Pronto?... — perguntou.
Roy tirou o cinturão-cartucheira do prego onde estava suspenso, e afivelou-o rapidamente.
— Pronto... — respondeu.
— Pois então mais vale tomarmos posições junto do refeitório. Estava na cozinha quando te vi sair, e vão chamar de um momento para o outro. Verás como se lançam todos para lá, piores do que uma manada de búfalos em fuga.
Os homens entravam de novo no dormitório, em grande algazarra, atirando com as toalhas e acabando de vestir-se a toda a pressa. Quase no mesmo instante ouviu-se o som vibrante de um «gong», que provocou alvoroço.
Entre risos, gracejos e empurrões, correram todos para o refeitório, sentando-se em volta da comprida mesa maciça que ia quase de um extremo ao outro do compartimento.
A comida era abundante, simples e nutritiva, acompanhada com café escuro e aromático. Os homens falaram pouco enquanto comiam, e acabaram rapidamente. Depois prepararam-se para a tarefa diária, selando os cavalos e verificando o equipamento.
Roy dispunha-se a fazer o mesmo quando o capataz o chamou.
— Vamos lá a ver, rapaz. Disseste-me que era o melhor cavaleiro do mundo, não foi?
Donovan olhou-o com alguma desconfiança, mas o capataz não parecia gracejar naquela altura.
— Bem, sei aguentar-me sobre uma sela, se é isso que quer saber... — respondeu, com cautela.
— Temos no curral alguns cavalos por domar. Três, exatamente. Sentes-te capaz da tarefa?
— Posso tentar.
— Muito bem. Será esse o teu trabalho de hoje. Se acabares depressa, podes descansar durante o resto do dia.
— Não me fio em você, chefe... — resmungou Roy, olhando-o com desconfiança. — Tanta amabilidade põe--me a pedra no sapato.
Uma ruidosa gargalhada, atrás dele, fê-lo voltar-se rapidamente, deparando com o ganadeiro e a filha...
— Bons-dias... — cumprimentou o rapaz, tirando o chapéu.
— Faz bem em não se fiar em Tap, rapaz... — disse Marvin, ainda a rir-se.— É um velho matreiro, e entregou-lhe um osso duro de roer. Um desses animais vai ser muito difícil de domar.
A jovem estava encantadora naquela manhã, fresca numa blusa branca e de mangas curtas, que lhe deixavam a descoberto os braços morenos e bem torneados. Uma das suas pequenas e cuidadas mãos empunhava uma curta chibata com a qual batia ao de leve nas botas, e parecia muito distraída a olhar os rapazes que se preparavam para partir, alguns já a cavalo.
Olhando-a, Roy lembrou-se bruscamente que ainda não a tinha ouvido falar, e sentiu curiosidade de conhecer a voz dela, pensando se estaria de acordo com a perfeição do resto.
— Naturalmente não será uma novidade para si, presentear o trabalho de domar um cavalo bravo. «miss» Marvin... — disse ele. — Mas há alguma coisa de excitante em todas as lutas, não é verdade?
— Sim... — respondeu ela, secamente, com um ar desatento, sem o olhar.
Roy não se sentiu satisfeito. O monossílabo era insuficiente para apreciar a voz, e por outro lado desejava que ela o olhasse para definir de uma vez a cor dos olhos, agora que estava suficientemente perto.
— Não me parece que esteja muito interessada... — comentou.
A rapariga fitou nele os seus belos olhos que eram verdes e pareciam ter raios de sol, segundo o deslumbrado Roy os classificou mentalmente — embora a sua expressão fosse distante e indiferente, aqueles lagos de luz traíram-na por um instante, com um súbito brilho de admiração, ao olhar o novo vaqueiro, barbeado e limpo.
Roy tinha boa estatura e era magnificamente constituído. As suas feições eram firmes, e o queixo voluntarioso, quase agressivo, ao mesmo tempo que os olhos grandes e azuis, de expressão irónica, e o permanente sorriso, lhe davam um ar juvenil. Livre do pó e da barba do dia anterior, parecia dez anos mais novo, mal aparentando os vinte e três que então contava. Na sua face correta e bronzeada, destacavam-se os dentes perfeitos, brancos e fortes; e tanto isso como a sua figura bem proporcionada impressionaram profundamente a jovem. Todavia, por uma estranha reação, tratou-o sem a afabilidade e simpatia que lhe eram habituais quando falava com os vaqueiros ao serviço de seu pai.
— Toda a luta contém sempre alguma forma de brutalidade... — respondeu desabridamente, embora o tom não desfigurasse o timbre harmonioso da sua voz — ...e a brutalidade não me agrada, em nenhuma das suas manifestações.
 Roy notou claramente o antagonismo que havia na maneira de falar da jovem, e alargou o seu sorriso.
— Isso depende sempre dos contendores... — argumentou.— Seja como for, se ficar para assistir, tentarei evitar a cambalhota, para não a sobressaltar.
Ela lançou-lhe um olhar indecifrável porque as escuras e longas pestanas velaram a expressão dos seus olhos luminosos.
— Não pensava em si, mas sim no cavalo... — disse, sarcástica. — O animal é quem fica sempre pior.
Roy deixou escapar uma gargalhada alegre e forte, que era quase de desafio. Era um riso agradável, de homem novo e seguro de si mesmo.
Tanto o ganadeiro como o seu corpulento capataz tinham-se afastado, e naquele momento os vaqueiros partiam para as pastagens. Donovan mal o notou.
— Não se preocupe por isso... — disse ele, trocista, olhando ousadamente a rapariga. — Ninguém ainda me acusou de tratar com rudeza os cavalos... nem as mulheres.
Os olhos dela cintilaram, indignados.
— Decerto que não... — assentiu. — Duvido muito de que tenha saído do seu estábulo, antes de agora.
Furiosa, deu meia volta e afastou-se num passo vivo e airoso, que o trajo masculino acentuava, seguido pelo riso alegre do vaqueiro. E esse riso não contribuiu, decerto, para atenuar a sua irritação.
Roy ficou a vê-la afastar-se até que desapareceu no interior da casa, e mesmo depois continuou por momentos imóvel.
— Cuidado, rapaz... — disse ele de si para si, pensativamente. — Esse diabinho é a criatura mais bonita que encontraste na tua vida, e não deves esquecer-te que, agora, está numa situação muito superior à tua. Parece-me que o melhor será desandares daqui, quanto antes.
— Venha comigo, Roy. Vou mostrar-lhe os cavalos e poderá começar a trabalhar quando quiser.
A voz do ganadeiro arrancou o rapaz à sua meditação, sobressaltando-o ligeiramente.
— Agora mesmo... — respondeu, voltando-se para Daniel Marvin.
Foram juntos até um pequeno curral, rodeado por uma cerca forte e alta, ligado a outro maior e menos alto. O ganadeiro içou-se para uma das traves horizontais.
— Que tal lhe parecem?... —perguntou.
Roy imitou o patrão e olhou para os três cavalos que ali se encontravam. Os animais tinham-se refugiado no lado oposto cio curral e olhavam-nos entre receosos, desafiantes e curiosos.
Eram animais selvagens, disso não havia dúvida, e um deles ressentia-se da pata dianteira do lado esquerdo, sem dúvida porque lha tinham amarrado, dobrado, segundo o bárbaro costume de alguns caçadores. Contudo não se tratava, de «caudas de vassoura», como se designavam, no Oeste, os cavalos selvagens descendentes dos animais que os espanhóis levaram para a América, mas sim de três bons exemplares que tinham conservado a pureza do seu sangue através de muitas gerações. Um deles, sobretudo, uma égua não alto alta, mas de fina estampa e orgulhosa cabeça, ¡alhas pequenas e peito largo, era um soberbo animal pelagem castanha. Uma vez domada, limpa e bem cuidada, valeria à vontade cento e cinquenta ou duzentos dólares.
— Magníficos animais... — admirou Roy, sinceramente. — A égua, principalmente, é esplêndida.
— Paguei-os caros... Cento e cinquenta dólares pelos três.
— Só a égua valerá isso, quando estiver domada.
— O osso está aí. Não vai ser fácil domá-la, porque a destino à minha filha e não a quero aleijada. Bastante a maltrataram os caçadores a quem a comprei. Repare como lhe tremem os músculos, e o modo assustado como nos olha. Tem uma ferida na cabeça, consequência, sem dúvida, de uma pancada. Devem ter querido domá-la à paulada. Vai dar-lhe trabalho, Roy.
— Sem dúvida. Vou começar pelo alazão. O outro não pode ser montado agora, porque tem a pata magoada. Penso que devia ser visto por um veterinário.
Marvin concordou, com um aceno de cabeça.
— Ocupe-se agora do alazão, e depois do almoço pode ir à povoação e trazer o veterinário para ver o rosilho. O veterinário é um bom amigo, e há-de gostar de ver você montar a égua. Tem a certeza de que o conseguirá?
— Tenho a certeza de que o tentarei... — sorriu o rapaz.
— Bem, veremos como se entende com o alazão. Se, realmente, sabe manter-se na sela, poderemos preparar uma pequena festa para esta tarde. Temos poucas distrações por aqui, e um trabalhe desses merece alguma atenção.
Donovan pulou agilmente para o chão.
— Vou buscar a sela... — disse.
Não tardou em estar de volta com os arreios, e o próprio ganadeiro o ajudou a separar o alazão, levando-o para o curral contíguo onde o chão era mais macio e arenoso.
A atividade dos dois homens atraiu a atenção do cozinheiro, de um rapaz sardento que o ajudava e de alguns «peones» mexicanos que trabalhavam no rancho, além de umas quantas mulheres ou filhas dos mexicanos.
Um relance de olhos para a casa principal, um belo edifício de dois andares e largo portal, revelou a Dono-van um vulto feminino assomado a uma das janelas altas, de onde se dominava perfeitamente o curral.
Isso fê-lo sorrir.
Com a ajuda de dois «peones», que seguraram a cabeça do alazão, selou o animal que se agitava violentamente, tentando soltar-se. Quando acabou, montou de um salto, sem tocar nos estribos.
— Larguem-no!... — ordenou.
Os dois «peones» soltaram o alazão e lançaram-se em corrida para a cerca, onde treparam rapidamente. Mas apesar de toda a sua rapidez, quando ficaram a salvo já o alazão pulava como uma cabra, a cabeça baixa, as patas rígidas e o dorso arqueado.
O animal era forte e tinha ímpetos de luta, mas enfrentava pela primeira vez um cavaleiro e não tinha má índole, de maneira que Roy não encontrou grande dificuldade em manter-se na sela.
Durante toda a manhã ocupou-se do cavalo, passeando-o, cuidando dele, desmontando e voltando a montar. Durante algum tempo ainda, evidentemente, o animal defender-se-ia de cada vez que alguém o montasse, mas antes do almoço já estava praticamente domado.
— Bom trabalho... — felicitou-o Marvin, quando ele deixou o alazão entregue aos «peones». — Vejo que não nos enganou quando disse que sabia montar.
Donovan olhou de relance para a casa e viu que a jovem já não estava à janela, mas não se importou porque a tinha visto lá até quase ao fim do seu trabalho.
— Gosto de fanfarronar um pouco, mas não sou um mentiroso... — disse ele, a sorrir. — Conheço o meu ofício.
— Bem o vejo. Bom, suponho que você quererá ir arranjar-se antes de almoçar. Não tem muito tempo, e por isso é melhor apressar-se.
Roy apressou-se, efetivamente, banhando-se no rio e mudando de roupa. Não era um presumido, mas gostava de cuidar do seu aspeto e de andar limpo.
Não estava qualquer vaqueiro no rancho e por isso Roy almoçou sozinho, visto que os mexicanos preferiam os seus guisados e, além disso, quase todos eles tinham família e viviam em casitas afastadas, na base da colina ao alto da qual se erguiam a casa do rancho e as outras instalações.
Ao sair do refeitório viu o ganadeiro e a filha sentados no portal da casa. A um sinal de Marvin, foi reunir-se a eles.
— Pronto, Roy?... — perguntou Marvin, ainda antes de ele alcançar a escada.
— Quando mandar, patrão... — respondeu ele, embora só tivesse olhos para a jovem que, ao que sabia agora, se chamava Arabella Marvin.
Era a primeira vez que a via com trajos femininos, e sem dúvida valia a pena. Se o tinha impressionado quando parecia um rapazote esbelto, com as calças e o cabelo solto, agora, com um gracioso chapéu e um vestido simples, de busto cingido, que a fazia parecer um pouco mais alta, o efeito era deslumbrante. Não devia ter mais de dezanove anos, mas era já uma mulher. E que mulher!
Donovan soltou um assobio mudo.
— Minha filha também precisa de ir à povoação para fazer umas compras. Assim, atrele o carro ligeiro e venha buscá-la... — dizia Marvin.
Roí fez um esforço para esconder a satisfação que lhe causava a perspetiva de um longo passeio de carro, em companhia da jovem.
— Volto num momento... — disse.
Em poucos minutos atrelou um bonito trotador ao leve carro de altas rodas e dois lugares, que estava quase novo e muito bem pintado.
Parou o carro em frente da casa e, apeando-se, tirou o chapéu, numa reverência graciosa.
— Quando quiser, menina.
— Ela estava já de pé e disposta a subir para o carro, usas parou ao ver o brilho alegre que havia nos olhos azuis do vaqueiro.
— Será melhor que sele o seu cavalo... — disse friamente, levantando a cabecita orgulhosa. — Gosto de guiar, e à volta tenho alguns embrulhos a trazer. Não haverá lugar para si.
O entusiasmo de Roy sofreu um rude golpe, mas encolheu os ombros e dirigiu-se para as cavalariças.
— Que tens contra esse rapaz, Arabella?... — perguntou Marvin, quando o vaqueiro se afastou. — Pareces antipatizar com ele.
— É um fanfarrão insuportável... — respondeu ela.
Daniel Marvin curvou a cabeça, pensativo.
— Creio que não o julgaste bem... — disse ele, depois de uma breve pausa. — É claro que gosta de fanfarronar, mas nunca conheci um texano que não gostasse disso. Mas fá-lo de um modo alegre, como a rir-se dele próprio e dos outros, e não como tu dás a entender, visto que não tenta enganar ninguém. Eu gosto do rapaz.
— Pois eu não... — volveu ela, categórica. Talvez demasiado categórica.
O pai olhou-a, com os olhos semicerrados, como se quisesse averiguar o que havia de verdade na sua afirmação.
— Seja como for, deves evitar que a tua antipatia dê nas vistas... — aconselhou, com calma. — Trabalha para nós, e enquanto o fizer satisfatoriamente, tem direito a ser tratado com consideração. Mas... ai vem ele.
Pai e filha desceram os degraus do portal, e o ganadeiro ajudou a jovem a subir para o carro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

KNS074. CAP I. O homem que acertava numa flor solitária

Royal Donovan fez parar o seu grande cavalo negro e, quando as ferraduras do belo animal deixaram de martelar o terreno pedregoso ouviu nitidamente o rumor do combate que devia estar a travar-se em qualquer ponto à sua frente, não muito longe.
— Parece que temos complicação aí para diante, «Dark»... — disse ele, falando com o cavalo. — Que te parece que seja?
Evidentemente que não esperava que a montada resolvesse as suas dúvidas ou lhe desse qualquer espécie de resposta. Apenas, como muitos outros cavaleiros habituados a longas jornadas solitárias, adquirira o costume de se dirigir ao seu cavalo para exprimir em voz alta os seus pensamentos.
— Pode tratar-se de uma incursão dos índios... ou de alguma perseguição de ladrões de gado... ou até, talvez, de alguma ramificação da guerra entre os criadores de Lincoln. Não se sabe! Seja como for não nos convém ir meter o nariz no caso, porque o tiroteio é dos bons.
Alguma coisa, no eco das detonações, fê-lo prestar maior atenção, ao mesmo tempo que uma ruga de preocupação lhe sulcava a testa.
— Estão a aproximar-se muito depressa... — disse ele a meia voz. — Trata-se de um grupo que persegue outro, sem dúvida, e dão a impressão de vir para estes lados.
Roy olhou em volta. Não queria retroceder, mas também não queria que os dois bandos em luta, quaisquer que fossem, o surpreendessem no meio daquela estreita garganta.
Se um dos grupos fosse constituído por índios, atacá-lo-iam, por pouca oportunidade que tivessem para isso; se fossem bandidos a coisa não seria muito diferente; e se se tratasse de duas fações dos ganadeiros em guerra, uns ou outros poderiam tomá-lo por inimigo e as balas matavam do mesmo modo, disparadas por índios, por bandidos ou por ganadeiros em luta.
Uns arbustos, à direita da passagem, ofereciam um bom esconderijo. Roy impeliu para lá o seu cavalo negro, internando-se pelo mato até onde não pudesse ser visto, mas não tanto que deixasse de poder ver.
Nesse momento as detonações ouviam-se já nitidamente, e parecia que os combatentes iam surgir de um instante para o outro na extensão do longo e sinuoso desfiladeiro que Roy podia avistar.
E de facto não tardou que assim fosse.
De um ângulo da passagem irromperam sete cavaleiros que galopavam perigosamente, considerando o terreno desigual e pedregoso da passagem.
Os quatro primeiros pareciam concentrar toda a sua atenção na tarefa de conseguirem obter a máxima velocidade das suas montadas, enquanto os outros três, um pouco atrasados, empunhavam os «Colt» e voltavam-se frequentes vezes nas selas, olhando para trás.
Por momentos não se ouviram tiros, visto que -a curva da passagem impedia que perseguidos e perseguidores pudessem distinguir os alvos. E, durante o breve espaço de tempo em que os últimos tardaram a aparecer, Roy, que era grande apreciador de cavalos, admirou um belo animal que, embora viesse no grupo da retaguarda, tinha de ser constantemente contido pelo seu cavaleiro, pois quando este deixava de lhe puxar as rédeas, o cavalo avançava com a rapidez de uma flecha, de tal maneira que os outros pareciam ficar parados, embora todos eles fossem bons.
Roy não pôde fixar-se em muitos pormenores, porque quase imediatamente a sua atenção foi atraída por outro grupo de cavaleiros, mais numeroso, que acabara de surgir na curva do caminho. Logo que avistaram os fugitivos, os perseguidores começaram a disparar.
Entre os mais adiantados dos perseguidores e os mais atrasados dos perseguidos, havia uma distância de aproximadamente sessenta metros, mas como nem uns nem outros dispunham de espingardas, todo aquele tiroteio era praticamente inútil, visto que as armas curtas não tinham bastante precisão para fazer fogo a tal distância, e só por acaso uma bala encontraria o alvo.
Os cavaleiros passaram em frente do esconderijo de Roy, afastaram-se e acabaram por desaparecer na curva próxima.
— Bem... — murmurou o rapaz... — a única coisa que consegui perceber foi que não se tratava de índios.
Agitou as rédeas, fazendo com que «Dark» saísse de entre os arbustos, e por instantes imobilizou-se outra vez, atento e à escuta.
O tropel dos cavalos e o eco das detonações foi-se atenuando, como o rolar de um trovão que se perdesse na distância, sem que qualquer outro ruído viesse do ponto de onde tinham aparecido os dois grupos.
— Parece que era só aquilo... — disse Roy, consigo mesmo. — O melhor é pôr-me ao largo antes que voltem.
Lançou o cavalo a trote, e pouco a pouco as altas muralhas do desfiladeiro foram-se afastando e baixando até desembocar num amplo vale ao centro do qual corria uma brilhante fita de água.
Roy fez parar a montada e contemplou a paisagem com verdadeiro prazer. O vale, na sua frente, lembrava um mar de altas e frescas pastagens, entre o qual se viam as manchas negras de muitas reses. Era o sonho de qualquer criador de gado. Um lugar cheio de beleza e de paz...
— Mãos para cima!
A ordem, seca como uma chicotada, era tão imperiosa que Roy apressou-se a obedecer.
«Sobretudo paz...», pensou.
Com os dois braços erguidos, voltou-se lentamente para o sítio de onde viera a ordem, mas embora procurasse o homem que a bradara, esqueceu-se dele quase no mesmo instante.
Quatro cavaleiros tinham aparecido detrás de um frondoso grupo de árvores que, evidentemente, lhes servira de esconderijo, e um deles era capaz de tirar a respiração a qualquer.
Tratava-se de uma linda rapariga, vestida com trajos masculinos, com finas botas quase até à altura dos olhos, calças justas que desapareciam sob as botas e uma blusa branca que moldava um busto esbelto, alto e firme, ao mesmo tempo que a gola aberta formava encantador decote, mostrando as linhas delicadas da garganta.
Roy deixou escapar um ligeiro assobio admirativo, que mais parecia um suspiro, porque a bela amazona ora decididamente o seu tipo.
E decerto havia razão para qualquer expressão admirativa, porque a rapariga era realmente bonita. A pele firme e morena da sua cara numa época em que as mulheres punham todo o cuidado em defender-se do sol, para se parecerem quanto possível com bonecas de porcelana os lábios vermelhos e bem desenhados, uns olhos enormes e claros que o fitavam com curiosidade e alguma desconfiança, e uma magnífica cabeleira de tons de cobre, brilhando ao sol, que lhe caía solta sobre os ombros, convenceram Roy de que nunca encontrara nada tão belo.
— Quem diabo é você?
A pouco amável pergunta arrancou Donovan à sua contemplação um tanto indiscreta, fazendo com que ele notasse os companheiros daquela inesperada Diana com calças. Eram três, e todos lhe apontavam as armas.
O que lhe fizera a pergunta, decerto o mesmo que lhe havia dado ordem para levantar os braços, era um homem corpulento, de cerca de quarenta anos, forte, rijo e curtido pelo ar livre e pelo sol; à direita deste estava outro cavaleiro mais idoso e quase da mesma estatura, de olhos claros e cabelo escuro. Era o mais bem vestido dos três, e a sua parecença com a rapariga, embora não muito acentuada, denunciava a inegável existência de um parentesco entre eles. O terceiro era um tipo novo, magro, muito moreno e de estatura meã; apoiava-se descuidadamente ao arção da sela, desviado e meio inclinado o revólver que empunhava, mas apesar disso dava a impressão de ser o mais perigoso do grupo.
— Descubro-me na sua presença, menina... — disse Roy, com uma leve inclinação de cabeça... e peço-lhe que me desculpe por fazê-lo apenas em sentido figurado. Mas não desejaria que a minha intenção fosse mal interpretada pelos seus belicosos companheiros, que poderiam confundir o gesto com um ato de agressão. Chamo-me Royal Donovan, venho do Texas e procuro trabalho.
A jovem pestanejou levemente, mas os outros não pareceram impressionar-se com as maneiras ironicamente suaves e corteses do forasteiro.
Roy mal notou isso, todavia, porque estava muito interessado em descobrir qual era a verdadeira cor dos olhos da linda amazona. Via-os bem, mas não estava bastante perto para distinguir se eram cinzentos ou verdes. Havia neles um brilho doirado, quase fosforescente, que o desconcertava.
— Desde quando procura trabalho, Donovan? — perguntou secamente o indivíduo corpulento que já tinha falado.— Não será desde que, há coisa de dois minutos, decidiu salvar a pele, abandonando esse lobo carniceiro que se chama Herbert Coe?
Roy olhou para o homem.
— Não conheço nenhum Herbert Coe... — respondeu, calmo, claramente.
— Deveras? Você veio dessa garganta de rochas por onde acabam de passar dois grupos de homens, aos tiros... e não me dirá que passaram ao seu lado cumprimentando-o amavelmente, de chapéu na mão.
Donovan pensou um momento, antes de responder:
— Se os perseguidos fossem vossos amigos... — disse ele — ...não estariam vocês aqui, com essa menina. De modo que se pode dizer, com quase absoluta certeza, que os vossos amigos eram os perseguidores. Ora bem, como julga que eu tivesse podido passar para cá, se me encontrasse entre os fugitivos, como parece julgar?
O homem fez uma careta.
— Não é difícil... — resmungou. — Essa endiabrada garganta tem muitos recantos. Ter-lhe-ia sido fácil esconder-se.
 — Foi isso o que eu fiz, ao ouvir o tiroteio que se aproximava. E quando passaram continuei o meu caminho. O outro olhou-o com desconfiança.
— Tira-lhe a artilharia, Frank...— ordenou ele, bruscamente. — Desconfio sempre dos tipos espertos.
O cavaleiro jovem e moreno fez avançar o cavalo, obrigando-o a dar uma pequena volta para que em nenhum momento se interpusesse entre o desconhecido e os outros. Guardou o seu revólver no coldre e apoderou-se dos dois «Colts», com coronhas de madrepérola, que Roy trazia no cinturão. Depois viu a espingarda, no coldre da sela, e também se apoderou dela.
— Um verdadeiro arsenal — comentou. — E se medisser que comprou estas armas com o seu salário de vaqueiro, é um mentiroso. Repare na sela, patrão! É uma «Padget», trabalhada à mão e com incrustações de prata! Não lhe deve ter custado menos de trezentos dólares.
— A presença daquela menina tranquiliza-me... — gracejou Roy. — De outro modo recearia que o seu entusiasmo o levasse a despojar-me dos meus pequenos tesouros.
Sem fazer caso, o chamado Frank verificou a carga dos revólveres e cheirou-os.
— Não há dúvida de que foram disparados recentemente... — disse — ...mas não há minutos. Além disso estão limpos.
O homem bem vestido aproximou-se, fazendo avançar o cavalo.
— Isso iliba-o... — comentou. — A espingarda está em boas condições?
O moreno verificou a arma, hábil e rapidamente.
— Carregada e em condições de fazer fogo... — declarou.
— Nesse caso não há dúvidas. Se os homens de Coe tivessem utilizado uma espingarda, os nossos rapazes teriam dado por isso. De qualquer modo, mostre-nos como se serve dessa joia, Donovan.
Roy baixara os braços ao ser desarmado, e concordou, sorrindo.
— Muito bem... — disse. — Experiência número três... Contra quem devo disparar?
O homem olhou em volta e fixou a atenção num cato de grandes folhas, sobre a mais alta das quais aparecia uma flor solitária.
— Veja aquele cato, sobre as rochas, a uns duzentos metros daqui... — disse ele. — acerte na folha mais alta.
Roy olhou para o alvo indicado e assentiu, com um aceno.
— Arrancarei a flor... — disse. — Assim não será preciso irem lá, para verificar se acertei ou não.
Enquanto falava recebeu a arma das mãos de Frank e bateu ao de leve com a coronha no pescoço de «Dark», verificando com satisfação que o cavalo se imobilizava completamente, como ele lhe tinha ensinado. Levou a arma à cara, apontou rapidamente e disparou.
A flor saltou, cortada a haste pela bala, e Donovan olhou, sorrindo, para o homem que lhe propusera a experiência.
— Satisfeito? — perguntou.
— Não demasiado... — respondeu o outro, gravemente. — Nunca gostei muito dos vaqueiros de fantasia, e você leva a palma a quantos encontrei até agora. Seja como for, está provado que nada teve que ver com a incursão de há bocado. Pode seguir o seu caminho. Dá-lhe os revólveres, Frank.
O cavaleiro moreno obedeceu, com uma careta.
— Acho que teria gostado de o ver enforcado numa árvore... só para poder ficar com estas armas... — disse. — E o cavalo, como o resto, não fica atrás.
— Lamento tê-lo enganado... — troçou Roy.
— O inferno!
— Siga o seu caminho, rapaz. E, se quer ouvir um bom conselho, não aceite qualquer combinação com Herbert Coe. Algum dia o levantaremos do chão, pendurado de uma corda, e com ele os que o acompanham.
Donovan olhou diretamente para o homem.
— É criador de gado, se não me engano... — disse.
— De facto. Chamo-me Daniel Marvin e pertence--me todo o terreno e todo o gado que pode ver daqui.
— Um belo sítio.
— Não posso dizer que esteja desgostoso por isto.
— Disse-lhe que procurava trabalho. Não poderia proporcionar-mo?
— É o meu capataz que se ocupa de contratar o pessoal.
— Compreendido. Falarei com ele, se não tiver inconveniente.
— Nenhum. Aqui o tem. Chama-se Tapworth Roberts, e apesar do tamanho que tem, não sabe dizer que não a ninguém.
Sorrindo do ligeiro gracejo, o ganadeiro Marvin voltou-se para o cavaleiro corpulento que tinha falado em primeiro lugar.
— Que dizes, Tap?... — perguntou.
O capataz tinha-se também aproximado, e fez uma careta.
— Nunca tive um vaqueiro tão janota às minhas ordens... — resmungou. — Receio não me habituar a tratá-lo como aos outros, e começar a tirar o chapéu de cada vez que o encontre. Os outros rapazes também não se sentiriam à vontade. Para não ficarem atrás haviam de querer vestir sempre camisas lavadas e não se atreveriam a descalçar-se se não tivessem peúgas, ou as tivessem rotas. E no fim de contas, que poderia fazer um homem assim com cinquenta dólares por mês. Mal lhe chegariam para sabonetes e lenços. Não parece, Frank?
--- Porque não lho perguntas, a ele? Depois de vê-lo disparar, prefiro suportar o cheiro da sua loção a tê-lo na minha frente, de espingarda na mão. No fim de cintas é capaz de fazer outras coisas igualmente bem.
— Hum!... — resmungou o capataz. — Que diz você a isso, Donovan?
O jovem riu alegremente.
— Não se esqueça de que me fez a pergunta, e suponho que queira uma resposta sincera... — disse ele, em ar de troça. — Sou o melhor cavaleiro do mundo; com o laço apanho borboletas; sei marcar um novilho com um prego, se não houver outra coisa, e a demonstração que fiz há bocado foi uma brincadeira para mim. Poderia ter feito o mesmo... com o dobro da distância. De qualquer modo, o meu forte são os revólveres.
O ganadeiro ria até às 1ágrimas.
— Não digas que não o provocaste, Tap... — disse ele, quando lhe foi possível dominar o riso, limpando os olhos com o lenço.
Roy estava a observar o capataz e viu perfeitamente o brilho divertido que havia nos seus olhos escuros. A cara larga do homem parecia duramente cinzelada, mas havia uma clara expressão de honradez e de bondade nas suas feições.
— Está bem, rapaz... — grunhiu. — Correrei o risco, e veremos se você tem, de bom, metade do que tem de fanfarrão. As condições são cinquenta dólares por mês, comida e equipamento. Tem livres os domingos e os sábados à tarde, salvo quando lhe toque ficar de guarda, o que se faz rigorosamente por turnos. Nesse caso terá um dia da semana para folgar.
— Você é um homem de sorte, patrão... — disse Roy alegremente. — Aceito.
Roberts soltou um resmungo, ante o desplante do novo vaqueiro.
— Pelo menos podes ter a certeza de não deitar fora o teu dinheiro, Dan...— disse ele ao ganadeiro.— Nunca conheci um fanfarrão maior. Durante o «rodeo» havemos de metê-lo entre o grupo de Coe. Hão-de ficar embasbacados a ouvi-lo, que se esquecerão de roubar os nossos novilhos.
— Creio que voltam os nossos rapazes... — disse Frank, naquele momento. — Oiço tropel de cavalos.
Todos prestaram atenção, e de facto, muito fraco ainda na distância, chegou-lhes aos ouvidos o som inconfundível do martelar de ferraduras em terreno duro e pedregoso.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

KNS074. Pradaria sem lei

(Coleção Kansas, nº 74)
 
Royal Donovan chegou a Wagon Mound, povoação fronteiriça no Novo México, uma terra sem lei, à procura de trabalho. Curiosamente, conseguiu-o junto daqueles que primavam pela honestidade e encetou uma árdua batalha que o levou a afastar o banditismo daquela terra.
Nesta novela de Tex Taylor, tudo corre de feição ao nosso herói. Inclusivamente, ao princípio, era detestado pela beldade da história, mas acabou por conquistá-la. Apesar de tudo, a novela é agradável de ler no seu todo, pois o autor é rico em cenografia do Oeste.
Será ela que nos acompanhará nos próximos dias.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

KNS073. O terceiro xerife

(Coleção Kansas, nº 73)
 
 
A cidade dividia-se em dois grupos e cada um deles apoiava um candidato a xerife. As eleições realizadas de nada valeram: o novo xerife abateu o antigo em duelo, mas quando se dirigia para casa, depois de festejar a eleição, foi cobardemente abatido. Paul acompanhava-o e notou um pormenor estranho no assassino.
As razões que levavam à divisão na cidade prendiam-se com a seca estival. Todos reconheciam a necessidade de uma represa para reter as águas das chuvas. Mas um dos grupos temia que a partir do momento da sua construção nunca mais tivesse acesso à água.
Paul acabou por ser nomeado xerife, o terceiro, no meio deste conflito de interesses e acabou por encontrar a felicidade na cidade. Eis um livro de um autor de obras excelentes, mas, neste caso, um pouco apalhaçado, artificial.

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