quinta-feira, 22 de setembro de 2016

BUF101. Cap IV.

Haviam decorrido já cinco dias e Chester não encontrava um pretexto plausível para fazer uma nova visita à bela June Watterfield.
Apoiado indolentemente a uma coluna do alpendre do «Belo Texas», fitava a distância, pensando incessantemente na jovem, e não lhe causou a menor surpresa o descobrir que a amava. Mas era um belo sonho que teria de ser desfeito. Aquela mulher era casada. O chapéu e a capa que tinha visto em casa dela falavam eloquentemente da presença de um homem que não conseguira ver, mas não duvidava que fosse o marido de June Watterfield.
Watterfield! Aquele apelido era pronunciado com respeito por todos os sulistas de coração.
Que estranha coincidência que a jovem usasse também aquele apelido! Recordou o sobressalto dela quando lhe perguntou se era parente do famoso e venerado caudilho do Sul. E de súbito, chegou-lhe a revelação. Não seria ela sua mulher? Sim, sim, devia ser. Assim se explicava porque se haviam refugiado naquele inexplorado recanto.
Ofereciam uma recompensa de 10 000 dólares a quem o apresentasse às autoridades, pois era um vexame para os vencedores que aquele homem, que fora o último rebelde da guerra, nunca houvesse sido apanhado.
Chester estava seguro de haver acertado nas suas suposições e admirou ainda mais aquela mulher, que, para seguir o marido, arrostava com todos os perigos, renunciando à vida agradável das belas cidades do Sul em troca daquela cheia de privações e sacrifícios nos abruptos e ignorados territórios do Norte do Texas.
Experimentou o desejo de tornar ao vale para lhes dizer que havia descoberto o seu segredo e que o seu braço estava inteiramente ao serviço de ambos. Procurou Patt com o olhar mas não o viu por ali.
Havia uns dias que o seu hercúleo amigo se portava de maneira um tanto estranha. Quase não o via, parecendo que andava a fugir-lhe. Duas ou três vezes o surpreendera a jogar com indivíduos de má catadura, ele, que raramente pegava em cartas.
Mas Patt não perdia o seu tempo. Havia descoberto algo pouco tranquilizador para a gente do vale e seguia determinado rasto com a tenacidade de um buldogue até se inteirar bem do que se estava passando.
Deitado de bruços sobre uma afastada mesa do «Belo Texas», roncava estrepitosamente, com a cabeça entre os braços, mas nem por isso perdia uma única sílaba da conversa que três indivíduos mantinham sentados numa mesa próxima.
— Digo-te, Smilin, que não há a menor dúvida. Estão onde já te disse. Eu próprio vi ontem a casa e os carros. Se não acreditas, pergunta a Alex.
— Ah! Pois, são eles. Não há a menor dúvida — afirmou o chamado Alex. — Vimos a rapariga sair a cavalo.
— Que achas que devemos fazer, Smilin? Temos os dez mil dólares à mão. Só temos de ir buscá-los — continuou o que falara primeiro.
Smilin quedou-se um momento pensativo, enquanto expelia colunas de fumo do seu cachimbo de barro. Era um homem de regular corpulência e rosto taciturno, que não correspondia à alcunha de «Risonho» por que era conhecido. Tinha o nariz pontiagudo e uns olhos brilhantes como brasas, ocultos pela aba do chapéu, o que lhe dava o aspeto de um corvo preparando-se para se lançar sobre a presa.
-- Julgo que devemos fazer-lhes uma visita — disse por fim. — Que te parece, Jeff?
— Que não perderemos o tempo. Estou convencido de que são eles.
— Muito bem — decidiu Smilin — Alex, encarrega-te de reunir os rapazes. Partiremos quando abrandar um pouco o calor.
— Baixa a voz, Smilin — grunhiu Jeff. — Aquele pode ouvir-te — e com a cabeça indicou Patt, que resfolgou como uma locomotiva para desvanecer suspeitas.
-- Aquele? — riu Alex. — Tem álcool para muito tempo. Está ali há mais de duas horas, bebendo sem cessar. Bem, vou andando. Onde nos encontramos?
— A uma milha daqui, para o Norte. Vamos, Jeff. O moço da pousada acercou-se à chamada de Smilin, que pagou o consumo, e os três abandonaram o local.
Patt ergueu um pouco a cabeça e com o rabinho do olho viu-os cruzar a porta. Depois, levantou-se e, com passo bem seguro, sem a menor vacilação própria dos bêbados, foi em busca do seu amigo Chester.
— Patt! — exclamou este ao vê-lo. — Donde vens? Eia, que peste! Cheiras a álcool que tresandas!
— Não te preocupes, rapaz. Não estou bêbado! Mas tive de fingir que o estava para me inteirar de uma coisa que te interessa.
— De que se trata?
— De uma coisa relacionada com a mulher dos teus sonhos.
— Patt!
— Bom, se te enfadas não te digo nada —disse Patt, sorrindo.
— Que sabes tu, afinal? Vá, desembucha depressa!
— Nem sequer imaginas quem está aqui... Pois, nada menos que Smilin Mulder, com a sua quadrilha de assassinos, inteirinha.
— Com todos os diabos! — exclamou Chester, surpreendido. — E que faz por aqui o «Risonho» Mulder?
— Vais cair de cócoras quando o souberes. Ao que parece, foi ele e os do seu bando quem assaltou a caravana. E agora descobriram que estão naquele vale.
— Que me dizes? — quase gritou o amigo, agarrando-lhe um braço.
— Não me apertes tanto, ou soltarei um guincho, Chester. Sabes que tens mais força do que aparentas? Pois, como eu ia dizendo, ando há vários dias a observá-los farejando em volta deles, a inspirar-lhes confiança e a fazer-me de parvo...
— Isso não te deve ter dado muito trabalho.
— Ah! Não...? — retorquiu Patt, depois de coçar a cabeça durante um bom pedaço, a tentar decifrar o que Chester teria querido dizer. — Pois, agora, vais tu investigar o que eu sei, porque não penso dizer-to. Isto é para que aprendas a ser reconhecido...
— Patt, fala, por favor! — rogou Chester com ansiedade. — Não vês que eu estava a brincar?
— Pois vai sair-te cara a brincadeira, porque não penso dizer-te nem meia palavra.
O rosto de Chester ensombrou-se.
— Tu vais dizer já o que sabes, entendes?
Patt cruzou os braços numa atitude de desafio.
— Quem vai obrigar-me? Tu? — perguntou, sorrindo.
— Sim, eu mesmo!
— Bem, nesse caso, começa quando quiseres. Mas nem que me mates, não direi nem tanto como isto... — e mostrou a unha do dedo polegar num gesto muito significativo.
— Oh! Patt! Eu não quero bater-te, embora o mereças — disse Chester, sorrindo. — Mas a partir deste momento deixámos de ser amigos, compreendes? Já não quero saber de ti para nada, visto que levas a mal uma graça minha.
— Mas, Chester, eu... — balbuciou Patt, pousando a mão no ombro do amigo.
Chester repeliu-o bruscamente, dando-lhe uma violenta palmada na mão.
— Largue-me da mão! — exclamou, compondo a cara mais carrancuda que encontrou, embora o riso lhe bailasse dentro do corpo. Sabia qual era o ponto fraco de Patt e aproveitava-se da sua ingenuidade. — Você já não tem direito a chamar-me amigo. Safe-se daqui!
— Homem... está bem. Vou dizer-te tudo, mas não estejas aborrecido comigo.
Chester moveu a cabeça pensativo. Estás resolvido a dizer-me tudo... tudo?
— Sim, homem — lamentou-se Patt.
— Então, fala.
— Como já te disse, há tempo que os venho observando e hoje vi um tipo chamado Alex entrar na sala com Smilin. Sentei-me perto deles e comecei a beber como o faria um cavalo. Eles olhavam-me, espantados de como eu podia aguentar tanto álcool. Depois, fingi-me bêbado que nem um tonel e comecei a roncar como um porco, embora estivesse bem acordado. Pouco depois, chegou outro, creio que é o segundo do bando e chama-se Jeff. Principiaram a falar em voz baixa, mas eu ouvi perfeitamente o que diziam. «Ao que parece, foram eles que assaltaram a caravana, mas pude comprovar que por sorte nossa não nos reconheceram quando os pusemos em fuga. Perderam-lhes a pista, mas ontem viram passar a rapariga e seguiram-na. Conclusão: falaram de ganhar dez mil dólares fazendo uma visita à casa, e Smilin propôs irem lá quando fizer menos calor. Pensei que poderia interessar-te e...
— Patt, retiro o que te disse há pouco. — declarou Chester em tom solene. — Estás seguro de que diziam isso?
— Seguríssimo.
— Pois bem. Sela os cavalos e vamos preveni-los imediatamente. Patt olhou o amigo com expressão maliciosa, já esquecido do agravo anterior.
— Ë só o desejo de os prevenir que te faz ir lá, Chester?
— Naturalmente. Que outra coisa havia de ser?
— Oh!... Não sei! Mas parece-me que te proporcionei o pretexto que precisavas para voltares a vê-1a.
Chester olhou-o de sobrecenho carregado, mas acabou por sorrir.
— É verdade que às vezes não sou tão idiota como pareço?— inquiriu Patt, simplório, piscando um olho.
Caía a tarde. Sentados no jardim que rodeava a casa, June e Ronald conversavam. De súbito, Hards acercou-se deles.
— Colbert anuncia que alguém se dirige para aqui — disse.
Ronald levantou-se, e, lentamente foi andando e entrou em casa.
«Devem ser eles» — pensou a jovem, surpreendendo-se com a alegria que experimentava por tornar a ver Chester.
Com efeito, eram eles. June reparou no suor que cobria os cavalos, revelador da velocidade com que haviam galopado até ali. Com o coração oprimido pela ansiedade, ao ver o rosto sério de Chester, correu ao seu encontro.
— Que se passa? — perguntou com voz sumida ao chegar junto deles.
— Alguns homens vêm para aqui — informou Chester. — São os mesmos que assaltaram a caravana. Vêm em busca do seu marido.
June fitou-o com estranheza.
— Do meu...?
— Sim — interrompeu Chester — do major Watterfield. Eu sei tudo, June. Esses homens descobriram-no e vêm buscá-lo para receberem os dez mil dólares que oferecem de recompensa pela sua captura.
Ela deixou cair os braços desalentada. Hards correu a casa, a prevenir Ronald do novo perigo que os ameaçava, mas Chester não se apercebeu da retirada daquele, pois só tinha olhos para contemplar a rapariga. –
-- Que faremos agora? — perguntou a rapariga.
— Não se preocupe, June. Aconteça o que acontecer, estaremos nós aqui a seu lado.
— Não se poderia arranjar isso com dinheiro? — sugeriu June. — Estou cansada de andar de um lado para o outro e agora que julgávamos poder viver aqui tranquilos...
— Não os conheço — disse Chester. — É a quadrilha do «Risonho» Mulder que está no vosso rasto. Seriam capazes de lhes extorquir todo o vosso dinheiro e quando já não tivessem nada que lhes dar, denunciá-los-iam da mesma forma.
— Então...?
— É preciso enfrentá-los e não nos mostrarmos intimidados. Esperemos, a ver no que isto dá...
Interrompeu-os o ruído distante de tiros disparados das bandas do vale.
— Que será isto? — inquiriu Chester, voltando-se rapidamente.
— É o homem que temos lá em cima de sentinela, avisando-nos de que vem gente — explicou June. — Se disparou cinco vezes é porque são nove ou dez. Também nos avisou quando os senhores se aproximavam. A sentinela está postada num sítio donde se domina urna grande extensão de terreno e distingue-se quem se aproxima antes que possam ouvir o rumor dos tiros.
— Demónio! — exclamou Chester. — Não julguei que nos viessem no encalço. Patt! Leva os cavalos para trás da casa e depois põe-te aí em qualquer sítio donde não me percas de vista. Pega na espingarda e, logo que vejas o menor movimento suspeito, atira a matar e pensa depois, compreendes?
— 'Às tuas ordens, chefe! Vamos a ver se consigo fazer funcionar o gatilho. Deve estar ferrugento de não ser usado.
Patt levou os cavalos. Chester e a jovem ficaram sós junto à cancela que fechava o jardim, falando de qualquer coisa, ainda que nem um nem outro escutavam o que diziam, dominados pela tensão do momento.
Da casa e suas imediações, alguns rostos espreitavam de armas em punho, preparados para intervir no momento oportuno.
Dentre as árvores chegou até eles o relincho dum cavalo, e, pouco depois, dois homens surgiram na clareira. Detiveram-se perante o panorama que se oferecia a seus olhos, mas logo continuaram a avançar, seguidos por outros sete cavaleiros, que saíram da espessura atrás deles.
June e Chester viram-nos acercarem-se, e o coração da rapariga palpitava-lhe desordenadamente dentro do peito, enquanto o semblante do rapaz expressava a maior calma. Quando chegaram perto deles, Smilin e Jeff, os dois que vinham à cabeça, detiveram os cavalos enquanto os outros ficavam a curta distância.
— Boa tarde — disse Chester, avançando para eles, sem deixar de os observar, as mãos no cinturão, muito perto dos revólveres. — Que desejam?
Smilin cravou nele os olhos perscrutadores.
— Consigo não quero nada — respondeu. — Com essa menina é que eu desejo falar um bocado.
— Fale lá — replicou June, encorajada pela presença de espírito de Chester.
— Procuramos o major rebelde, Ronald Watterfield. Sabemos muito bem que ele está aqui e portanto não se faça surpreendida. Nós iremos daqui sem ele.
June empalideceu, mas foi Chester quem replicou a Smilin.
— Ninguém negou que ele esteja aqui, mas para me levarem serão precisos mais homens além dos que vieram.
O bandido olhou-o surpreendido.
— Quer dizer que é o senhor o major? — perguntou.
— Se você não é parvo, creio que falei bastante claro, não lhe parece?
— Massey, aproxima-te — chamou Smilin, chamando um dos homens que haviam ficado mais atrás. Do grupo destacou-se um deles e foi postar-se ao lado de Smilin, que lhe perguntou: — Ë este o homem que procuramos?
— Não. Este não é o major — afirmou Massey.
— Renegado, hem? — disse Chester, com um sorriso que não pressagiava nada bom. O rosto de Massey ensombrou-se e começou a entaramelar, com voz rouca, palavras ininteligíveis.
— Ouça... vai engolir o que acaba de dizer ou...
— Eu não vou engolir nada, ouviu? Você dirá que qualificativo se pode aplicar ao seu procedimento. Mas será a última patifaria que você faz, porque vou matá-lo, maldito traidor!
Ao ver-se ameaçado, Massey moveu as mãos, mas Chester não lhe deu tempo a atuar. Soou uma detonação e Massey caiu do cavalo com uma bala na fronte, sem sequer haver tocado na coronha do seu revólver.
-- E os outros, quietinhos! — rugiu Chester. — Já viram o que aconteceu a esse, e ao menor movimento que façam irão fazer-lhe companhia. Levantem os braços! Assim está bem.
Olhou-os com um sorrisinho, e, ao mesmo tempo que brincava com o seu temível revólver, encarou-se com Smilin.
— Ainda continuas a querer levar o major?
— Não irei daqui sem ele. Gostaria de saber como vais fazer isso. Tenho-os nas minhas mãos e vão já desaparecer daqui antes que eu conte cinco!
— Um momento! — exclamou uma voz nas suas costas.
Apesar da surpresa que lhe produziu aquela interrupção, Chester não se voltou e continuou apontando aos bandidos. Sabia que era dono da situação enquanto permanecesse vigilante, mas, à mais pequena distração, Smilin e os seus assassinos crivariam o seu corpo de balas.
Chester percebeu que alguém se colocava a seu lado, e sem olhar sabia que era o major Watterfield, o último sulista, por cuja captura ofereciam um prémio de 10 000 dólares.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

BUF101. Cap III. O mistério da casa branca

Na sua frente erguia-se uma construção de madeira, mas muito diferente das que habitualmente se viam no Texas. Era uma casa ao estilo das do Sul, como tantas outras que existiam na Virgínia e Luisiana durante a guerra da Secessão.
Tratava-se de uma edificação de forma quadrada, completamente pintada de branco, cujo pormenor mais característico era o pórtico frontal, sustentado por cinco colunas de madeira.
Circundava a casa um pequeno jardim recentemente plantado, e a curta distância havia um poço, sobre o qual fora posta uma armação de madeira com uma roldana, que fazia deslizar uma grossa corda, cuja extremidade prendia um balde, utilizado para tirar a água. Todo este conjunto de pormenores criava o ambiente verdadeiramente sulista.
Os dois amigos tinham a impressão de que, por obra de magia, haviam sido transportados outra vez a Luisana, Virgínia, Carolina ou a Nova Orleães. Pela frente de ambos passou o barbudo condutor que respondera tão desagradavelmente a Patt, que ao vê-lo expeliu um grunhido.
Hards quedou-se a contemplar com expressão reprovativa como eles desciam dos cavalos, e abanou a cabeça para tornar mais patente o seu desacordo pela loucura que sua ama cometia, levando ali aqueles homens.
No piso superior da casa, uma cortina moveu--se ligeiramente e um rosto masculino deixou-se entrever por Um segundo, perscrutando os recém-chegados.
Tenham a bondade de entrar — convidou a rapariga, postando-se à porta da casa e fazendo um gesto cheio de graça.
Chester e Patt subiram os degraus, mas à porta o gigante deteve-se.
— Eu prefiro ficar aqui — disse. — Não quero perder os cavalos de vista — foi a sua fraca desculpa, em face do olhar interrogativo da rapariga.
— Como queira.
— Não lhe dês forte, Patt — aconselhou Chester, insinuando assim que conhecia o verdadeiro motivo que o guiava a ficar fora de casa.
Ele entrou seguido da jovem até uma sala bem iluminada. Havia ali poucos móveis e notava-se à primeira vista que muitos deles tinham sido feitos à pressa, mas percebia-se a mão de mulher no arranjo do aposento, dando-lhe um ar extremamente acolhedor.
— Não quer sentar-se?
Chester sentou-se numa banqueta de madeira perto da mesa. Quando June se retirou o jovem examinou a sala demoradamente. Um chapéu e uma capa pendurados num cabide chamaram-lhe a atenção. Acercou-se e observou aquelas peças de vestuário masculino sem lhes tocar.
Nesta observação curiosa o surpreendeu o regresso da rapariga, que transportava uma bandeja com dois copos e uma garrafa. Deteve-se um instante ao vê-lo examinar as roupas com tanta atenção, mas reagiu imediatamente.
— O chapéu e a capa são de Hards — explicou ela, enrubescendo vivamente.
«Não sabe mentir» — pensou Chester.
— Permita-me que o convide, senhor Chester — continuou a jovem com voz harmoniosa.
Encheu um copo com a bebida contida na garrafa e ofereceu-a a Chester, que a foi sorvendo a pequenos goles.
— Ainda não me disse o seu nome — disse ele, sorrindo.
— Oh! É verdade! Perdoe a minha distração. Chamo-me June. June... Watterfield. Que lhe parece a minha casa?
— Encantadora. Tal como eu imaginava que seria a casa onde a menina vivesse — disse Chester, ao mesmo tempo que tentava recordar-se de quando ouvira aquele apelido. Depois, lançou a pergunta, enquanto observava atentamente a jovem:
— Vive só com esse Hards? Não lhe passou desapercebido o sobressalto da jovem ao escutar esta pergunta.
— Eu... não... Há mais outro homem que cuida dos cavalos.
Chester tornou a pensar que ela mentia. Aquela capa de fino pano e o esplêndido chapéu de feltro azul não podiam pertencer a um criado.
— Disse-me que fez a guerra da Confederação? — perguntou June, no intuito de desviar a conversação.
— Sim, até ao fim. Quando o, general Lee se rendeu em Appomatox consegui fugir e juntei--me às tropas do general Johnston, mas quando este se entregou fugi novamente, de preferência a entregar-me aos da União.
— Foi voluntário ou mobilizado?
— Voluntário desde o primeiro dia, assim como Patt. Passámos toda a guerra juntos — de súbito deu uma palmada na fronte. — Cá me parecia que o seu apelido não me era desconhecido! — exclamou. — Com o general Johnston havia um major chamado Watterfield. Era um homem valoroso que depois formou um aguerrido corpo com os melhores soldados do general e fugiu para as montanhas, recusando-se a render. Era seu parente?
O copo que a jovem sustentava nas mãos caiu ao chão, fazendo-se em fanicos. Chester viu-a empalidecer e encostar-se à mesa para não cair.
— Que tem? Sente-se mal? — perguntou ele, com solicitude.
— Oh! Não... não! Muito obrigada. Faz muito calor aqui, não lhe parece? Será melhor sairmos um pouco para o jardim. Um rumor de vozes vindo de fora fê-los alargar o passo.
Quando Chester e a jovem desapareceram no interior da casa, Patt retrocedeu sobre os seus passos, procurando Hards com o olhar, mas não o encontrou. Em vista disso, deu a volta à casa e por fim descobriu o que buscava junto à fila de árvores, entretido a cavar a terra. Para ali se encaminhou, sorrindo desagradavelmente.
— Olá! — disse, parando junto do outro.
Hards ergueu a vista e ao ver Patt endireitou-se, largando a enxada que tinha na mão.
— Sabes o que quero? — perguntou o gigantesco Patt ao outro gigante.
— Calculo.
— Quero comprovar se a tua cara é tão dura como indica o teu nome.
— Pois vais ficar apenas com a vontade.
— Eu já sabia que tinhas medo! — retorquiu Patt com sarcasmo.
— Medo, eu? — disse o outro, sorrindo. — Não digas tolices. Não conseguirás tocar-me, mas em compensação vais certificar-te da dureza dos meus punhos.
— Isso é o que vamos ver agora mesmo. Despe a camisa!
Hards assim fez, despindo a camisa que atirou para o chão. Patt imitou-o e ambos ficaram frente a frente, nus da cintura para cima. Nos seus hercúleos corpos sobressaíam os poderosos músculos, desenvolvidos em ambos na razão inversa dos seus cérebros.
— Antes de te surrar bem quero pedir-te uma coisa — disse Hards.
— Venha lá isso. Seja o que for, farei. Afinal de contas tu não pareces má pessoa, mas por causa daquela resposta que me deste não tenho mais remédio que partir-te a cara. Que queres?
— Promete-me, mesmo que saias vencido, que nunca dirás a ninguém que viste esta casa.
— Prometido. Agora, põe-te em guarda.
Patt lançou-se a Hards como um touro embravecido, mas este desviou-se e, ao passar a seu lado, estampou-lhe um soberbo murro num ouvido que tombou Patt por terra.
— Que tal? — perguntou Hards, esperando que o outro se levantasse.
— Nada mau — concedeu Patt. — Mas não voltarás a repetir o golpe. Colheste-me desprevenido.
Novamente ficaram frente a frente, mas desta vez, Patt não se lançou às cegas sobre o outro, quedou-se um instante a examiná-lo atentamente. Depois, largou um formidável soco.
— Toma! — e o seu punho direito chocou com o maxilar de Hards que mediu o chão com as costelas.
— Que tal, «Cara Dura?».
— És um verdadeiro bruto — resmungou o outro, endireitando-se e acariciando o queixo.
— Esse murro teria derrubado um touro! Mas tu és mais duro que um touro. Por agora, estamos empatados, mas aproxima-te que te vou encaixar um murro que vai desfazer o empate.
Hards acercou-se novamente de Patt, com cara de poucos amigos. Patt recuou prudentemente até que ambos estacaram em frente da casa.
— Tens medo, hem? — disse Hards, sorrindo.
— Medo, eu? — retorquiu Patt. — Não digas palermices. Aí vai este!
— Toma tu também! — ribombou o adversário.
Os dois punhos cruzaram-se no caminho e ambos encontraram o seu destino. Hards e Patt cambalearam por instantes e logo o primeiro caiu ao chão, de bruços. Patt firmou-se nos joelhos e tombou também, para ficar atravessado sobre o corpo inanimado do seu rival.
— Caramba! — exclamou Chester. — Deixaram-se «K O» mutuamente. Deram uma valente tareia um ao outro. Que dois brutos!
Dirigiu-se ao poço, pegou no balde cheio de água, e, sem nenhuma consideração, despejou-o para cima dos dois gigantes, que jaziam imóveis a seus pés.
Patt fez um ligeiro movimento e depois endireitou-se trabalhosamente.
— Quem foi que fez isto? — perguntou com os punhos apertados.
— Não te enerves, Patt. Fui eu. De alguma forma tinha de acordar-te.
Patt sacudiu a cabeça e pôs-se de novo em guarda, ao ver que Hards principiava a erguer--se, ainda meio atordoado.
— Deixa-o, Patt — disse Chester. — Já lhe deste bastante.
— Fica quieto, Hards! — ordenou por sua vez a jovem, do pórtico.
Os dois gigantes olharam-se e sorriram desafiantes.
— Reconheces que te venci, «Cara Dura»? — perguntou Patt.
— Não. Não me venceste. Ambos caímos duas vezes ao chão — replicou Hards.
— Mas eu levantei-me primeiro que tu.
— Isso não quer dizer nada. Estavas em cima de mim e não deixavas mover-me. O que reconheço é que tens o punho mais duro que a pata duma mula.
— E eu reconheço que mereces a alcunha de «Cara Dura» — confessou Patt.
Chester sorria.
— Bom — disse — se já acabaram, creio que são horas de partirmos.
— Vamos lá. Ainda não acabei de tirar as fumaças a esse cabeçudo, mas há-de apresentar--se outra ocasião.
Quando ambos já haviam montado os cavalos, June acercou-se deles.
— Adeus, Bruce. Adeus Patt e muito obrigada.
— Não tem nada que agradecer — respondeu Chester. — E já sabe onde pode encontrar-nos se precisar de nós.
— Supõe que virei a precisar da vossa ajuda? — inquiriu ela, sorrindo.
— Não suponho, sei que precisarão de nós — frisou bem estas palavras com segunda intenção, e, picando de esporas, afastou-se seguido de Patt.
*
Quando os perdeu de vista por entre as árvores, June penetrou em casa. Lá dentro estava um homem que se lhe dirigiu mal ela cruzou o limiar.
— June — disse com voz grave — porque trouxeste aqui aqueles homens?
— Não tenhas receio, Ronald, que eles não dirão nada. Assim mo prometeram.
E logo referiu o que lhe havia acontecido e como Chester a salvara de uma morte certa. Ao chegar a este ponto da sua narrativa, o' homem interrompeu o passeio no aposento e estacou em frente da jovem. Aparentava uns trinta e seis anos, era alto e forte, bem proporcionado. Os seus olhos eram inteligentes e resolutos e os traços do seu rosto nobres e corretos. Vestia calças justas de veludo azul-escuro, que se perdiam dentro das botas de montar. A camisa era de seda branca e todo o seu conjunto correspondia à imagem que se esperaria encontrar naquele ambiente. Era a perfeita estampa de um cavaleiro do Sul.
— Apesar disso, não devias tê-los trazido aqui — repetiu. — Este esconderijo é quase desconhecido e é um perigo que alguém saiba que ele existe. Os dez mil que oferecem pela minha captura são para tentar qualquer.
— Julgo, Ronald, que não deves preocupar-te tanto. Eles serviram no Exército do Sul até à última hora. Um deles recorda-te e falou de ti com o maior respeito e admiração. Ainda que ele soubesse que estavas aqui, tenho a certeza de que nada tentaria contra nós. É um rapaz muito agradável e estou segura de que podemos confiar nele. Diz-mo o instinto.
Ronald olhou a jovem com um sorriso.
— Não estarás enamorada dele, não é verdade?
A jovem sorriu por sua vez.
— Pelo menos, acho-o um rapaz muito agradável — repetiu.
— Está bem, June. Deus queira que tenhas razão e que não te arrependas de haver confiado nele. Dirigiu-se à janela e encostou-se ao parapeito, sorrindo pensativo, o olhar perdido no atalho por onde Chester e Patt haviam desaparecido.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

BUF101. CAP II. Os dois amigos fazem uma excursão

Durante quinze dias, Chester esperou em vão que a caravana regressasse à pousada, sem haver conseguido atravessar o deserto.
— Deixa-os em paz, homem! — respondeu Patt, quando o amigo lhe comunicou os seus receios. — Porque te preocupas tanto com eles?
— Tu não te fixaste bem naquela caravana, não é verdade, Patt? De contrário, estarias tão intrigado como eu.
-- Que tem de particular?
— Em primeiro lugar aquele cavalo que ia atrás do último carro. Reparaste no seu equipamento?
— Não...
— E passaste tu toda a guerra na cavalaria sulista? A tua cabeça não tem arranjo, Patt. Se fosses um pouco observador, não teria deixado de te impressionar o facto de aquele animal trazer arreios e tudo o mais igual ao dos nossos cavalos durante a guerra.
— Isso não quer dizer nada, Chester. Bem sabes que há muitos soldados por aqui, chegados depois da debandada. Nós próprios...
— Já sei, Patt, já sei — interrompeu Chester, impaciente. — Mas nenhum se lembrou de vir com quatro carros e uma mulher tão formosa como a que vimos. Digo-te que há alguma coisa estranha em tudo isto e parece-me que vou entreter-me um pouco a investigar.
— Que poderás fazer, se nem sequer sabes para onde se dirigiram?
— Mas suspeito. De que não atravessaram, o deserto, não há a menor dúvida. Falei com os condutores duma caravana que veio de Lincoln, no Novo México, quatro dias depois de eles aqui passarem, e disseram-me que não encontraram ninguém.
— Podem ter seguido outro caminho.
— Tu sabes que isso é impossível, Patt. Ninguém pode afastar-se das estacas que marcam as direções, porque pereceriam irremissivelmente nesse deserto.
— Bom, tu dirás o que há a fazer. Se pensas que há alguma coisa que mereça a pena averiguar, mãos à obra, mas, por favor, Chester, não me faças magicar mais, porque me dá tonturas e até me dói a cabeça.
— Se te dói toda, compadeço-me muito de ti.
— Porquê?
— Pelo tamanho dela.
— És muito engraçado — respondeu Patt, enfadado.
— Vamos, Patt, não te zangues — disse Chester, sorrindo. — Sabes o que penso?
— Julgas que sou adivinho? Desembucha de uma vez, a ver se nos movimentamos um pouco. Eu sou um homem de ação e isso de ter de pensar faz-me mal.
— Pois amanhã, cedo, vamos explorar um pouco, a ver se damos com eles.
— Para onde iremos?
— Para o Norte. Suponho que chegaram ao limite do deserto para despistar, mas dali seguiram para o Norte até alcançarem o terreno em litígio.
Patt olhou o amigo, de boca aberta.
— Supões que estarão ali? — E, perante o gesto afirmativo de Chester, tornou: — Mas, e Os índios?
--Quatro carros podem passar desapercebidos.
Patt soltou uma risada.
— Em face do que se avizinha, a estas horas os índios devem ter vigias em cada montículo, esperando a invasão. Não quatro carros, mas nem sequer uma ratazana poderá penetrar no seu território sem que eles deem por isso.
— Bem sei, mas não se meterão com a caravana enquanto não estejam seguros do que vai acontecer. Estão em muito boas relações connosco e não lhes convém arvorar o facho da guerra só porque quatro carros penetraram no seu terreno. Conheço Maxwell, o Delegado do Governo para a sua concessão, e sei que não admitirá o menor ato de força. — Quantas pessoas calculas tu que seguiam naqueles carros?
— Não sei, mas com certeza mais que as que vimos, a julgar pelo fogo cerrado com que receberam os assaltantes. Creio que disparavam cinco ou seis pessoas, pelo menos. Essa é outra coisa que me desperta a curiosidade. Porque se ocultavam tanto? E sobre tudo isso, há aquela mulher...
— Ela não te terá dado volta ao miolo, Chester?
— Não digas tolices. Simplesmente, gostaria de saber a razão por que vieram. Ela é demasiado bonita para vir para estas paragens e a única mulher branca existente em muitas milhas em redor. Tem de haver um poderoso motivo que a trouxe para aqui.
— Enfim, tu dirás o que havemos de fazer. Já sabes que me tens à tua disposição para quantas loucuras te passem pela cabeça.
Chester pagou a despesa que haviam feito encostados ao alto balcão de madeira de pinho e saíram da pousada.
Fazia uma noite maravilhosa e os dois amigos começaram a passear ao clarão da lua cheia. Aos seus ouvidos chegava o rumor de vozes e canções, vindas das janelas abertas da pousada.
— Acho que será melhor irmos dormir, Patt. Partiremos amanhã muito cedo.
Subiram ao quarto que ambos ocupavam. Dali a poucos minutos Patt roncava estrepitosamente, completamente alheado do mundo, enquanto Chester se remexia inquieto na cama, sem conseguir conciliar o sono, fazendo a si próprio a mesma pergunta, uma e outra vez: onde estaria a caravana? E porque se escondiam as pessoas que seguiam nela? Principalmente, porque os acompanhava aquela lindíssima rapariga?
Como muito bem dissera Patt, pululavam por ali numerosos ex-soldados do derrotado exército sulista, e mais gente chegava constantemente, ansiosa por irromper no território índio, isto é, homens solitários sem outros haveres que os seus cavalos e os seus revólveres, mas nenhum deles levava uma mulher branca.
Que iria fazer ali uma mulher que podia permitir-se o luxo de equipar quatro carros? Quem seguia neles e que papel representava a jovem em tudo aquilo?
O mais absoluto mistério envolvia todas aquelas perguntas.
Recordava o profundo respeito com que o barbudo condutor havia tratado a jovem e o acento meridional da voz dela, que fazia pensar ser do Sul. Que motivo a teria constrangido e empreender tão longa e penosa jornada?
Meditando em tudo isto adormeceu, e parecia--lhe que havia uns escassos cinco minutos que fechara os olhos quando Patt o despertou:
— Levanta-te, preguiçoso! Está amanhecendo e temos de ir andando.
Chester saltou da cama. Alguns minutos depois saíam da cavalariça com os seus cavalos selados. Montaram e empreenderam o caminho a bom passo, à luz indecisa do 'amanhecer, em direção ao território dos índios.
O sol ainda se não erguera, e a fresca aragem subtil e penetrante que fazia mover o mar de erva da pradaria, obrigava-os a abotoar as blusas de pele de anta.
Ao trote dos cavalos, foram deixando para trás milhas e mais milhas. O sol levantou-se e começou a aquecer cada vez mais, com uma intensidade que fazia prever outro dia torriscante.
Teriam percorrido umas quinze milhas, quando o panorama principiou a mudar de aspeto. Agora, a pradaria era salpicada de grupos de árvores, que cada vez se tornavam mais frequentes, até se converterem num confuso emaranhado que lhes tolhia a marcha.
De vez em quando deparava-se-lhes um profundo barranco que tinham de circundar, o que os obrigava a fazer vistosas exibições de equitação para o atravessar.
Saíram dentre um verdadeiro bosque de castanheiros, nogueiras e eucaliptos, e encontraram--se numa planície que atravessaram a trote largo até que se lhes deparou uma parede vertical que lhes vedava a passagem.
Mais para além, estendia-se um extenso vale, salpicado de árvores, onde as paredes subiam em suave declive pela vertente oposta. O lado onde eles se encontravam tinha as paredes cortadas a pique e não apresentavam o menor ponto franqueável, pelo menos até onde a vista alcançava.
— Aqui começa o território dos índios — disse Chester.
— Não sei. Vamos subir o vale a ver se encontramos alguma abertura por onde se possa passar.
Seguiram junto à parede e apenas haviam percorrido meia milha quando Patt deteve o cavalo para se erguer nos estribos.
— Que Se passa, Patt?
— Não sei, mas iria jurar que vi qualquer coisa mover-se por entre aquelas árvores isoladas no extremo do bosque que acabamos de abandonar.
Chester olhou com atenção.
— Não vejo nada... -- disse. — Estás seguro de que não tiveste uma miragem?
— Não sei... — murmurou o corpulento Patt. — Não posso afirmar... Olha, Chester!
Dentre o arvoredo surgiu um cavalo que corria à desfilada para as paredes do vale. Galopava como uma exalação e não tardaria a cruzar-se com eles, veloz como o raio.
Ouviam já o rápido e cadenciado matraquear dos cascos no solo. Havia qualquer coisa de estranho na veloz corrida daquele cavalo e também nos movimentos descontrolados e nervosos do cavaleiro para o refrear.
— Chester, aquele cavalo tomou o freio nos dentes. O cavaleiro não consegue dominá-lo... Cuidado! Afasta-te ou vai cair-te em cima!
O cavalo passou a poucos metros deles e Chester soltou uma exclamação de assombro ao ver quem era a pessoa que o montava. Era a rapariga da caravana! O seu cabelo flutuava ao vento como uma bandeira de ouro.
— É ela, não há dúvida — murmurou.
O cavalo prosseguiu na sua carreira desenfreada, galopando obliquamente à beira do precipício, com uma direção que levava irremissivelmente a despenhar-se no abismo. Voava desvairado para a morte e a rapariga era impotente para, o conter.
O jovem não teve um segundo de hesitação. Fincou as esporas nas ilhargas do cavalo e partiu disparado atrás do outro, num desesperado esforço para livrar da morte a sua preciosa carga.
A distância entre ambos encurtava-se rapidamente, mas com maior rapidez ainda se aproximavam do abismo. Chester calculou que não chegaria a tempo e com infinita ansiedade fustigou o seu cavalo repetidas vezes. O animal deu de si quanto pôde, realizando um magnífico esforço. Mais que galopar, parecia voar de modo que em poucos segundos Chester estava colado à garupa do outro cavalo.
Logo se encontrou à altura da rapariga que se voltou para ele. No seu belo rosto lia-se o terror e ansiedade, perante a morte para a qual avançava a passos rápidos. No entanto, mesmo assim, os seus lábios entreabriram-se num débil sorriso ao perceber o que Chester tentava fazer.
— Não tenha medo! — gritou ele. — Incline--se para mim. Isso mesmo.
Por espaço de uns segundos, cavalgaram a par. O abismo estava apenas a uns escassos metros de distância deles, com as suas fauces medonhas escancaradas.
Chester enlaçou a jovem pela cintura com o braço direito.
— Agora! — gritou. E, puxando-a fortemente, arrancou-a da sela já no último segundo.
O cavalo da rapariga precipitou-se pela, escarpa, soltando um relincho de impotente desespero, enquanto ele, com o corpo da jovem vigorosamente enlaçado pela cintura, desviava trabalhosamente o cavalo com a mão esquerda.
Passou tão perto do precipício, que a jovem ficou uns instantes com a respiração suspensa. Depois, Chester fez a montada voltar a garupa, ao mesmo tempo que a refreava.
Fora tudo tão rápido que Patt continuava a contemplá-los de boca aberta, a um quarto de milha de distância, quando Chester depôs a jovem suavemente no chão. Em seguida, desceu ele do cavalo e postou-se em frente dela.
O rosto da rapariga denotava ainda a mais viva emoção pelo terrível perigo que correra, mas os seus olhos já não refletiam medo.
— Obrigada, senhor... — murmurou, olhando sorridente o seu providencial salvador.
— Chester. Chester Bruce.
— Muito agradecida. Pelo visto, a sua missão nesta terra é livrar-me de apuros.
O rapaz sorriu.
— O seu cavalo tomou o freio, hem? — disse ele, desnecessariamente.
— Não sei como aconteceu isto. Todos os dias saía com ele e nunca me sucedeu nenhum percalço.
Chester não deixava de a olhar, embevecido na sua beleza. A jovem envergava o traje de amazona, que lhe fazia realçar as formas harmoniosas. O cabelo caía-lhe sobre os ombros como uma chuva de ouro, emoldurando-lhe o lindo rosto, onde se abriam aqueles grandes, olhos azuis como o belo céu da Carolina do Sul.
Patt chegou junto deles.
— Apresento-lhe o meu amigo Patt — disse Chester, para quebrar o embaraçoso silêncio que se estabelecera.
— Encantada, senhor Patt.
A sua delicada mão afundou-se na áspera manápula do gigante, que se ruborizou intensamente, baixando os olhos.
— Nós... temos muito prazer em tornar a vê-la — murmurou.
Fez-se outro silêncio que Chester interrompeu para inquirir:
— A sua casa fica muito longe?
O sobressalto da jovem não passou desapercebido ao rapaz.
— Eh...? Como? — balbuciou. — Para que quer sabê-lo? Chester estranhou bastante o tom de desafio que notou na voz dela, e mais uma vez se perguntou em mente que mistério envolveria a presença da jovem por aquelas paragens.
— Oh! Não se assuste! Queria simplesmente acompanhá-la.
— Não... não... se incomode. Fica muito perto e posso bem ir só.
— Não tem medo dos índios? — perguntou Patt.
— Não. E não se preocupem comigo. Muito agradecida, senhores.
Estendeu a mão a Chester que a tomou maquinalmente nas suas, pensando que não devia deixá-la seguir sozinha. Depois, as palavras saíram-lhe atropeladamente da boca, e até lhe pareceu que não era ele mas sim outra pessoa quem falava.
— Escute, menina. Não sei onde fica a sua casa, mas notei que não lhe interessa que se saiba onde está localizada. Tenho a impressão de que a menina não está em situação agradável, mas rogo-lhe que tenha confiança em mim. Fiz a guerra no Sul, sabe? — nunca o jovem soube explicar porque disse aquilo. — E ainda não me rendi. Ninguém saberá nada por mim nem pelo meu amigo.
Ela perscrutou-o com o olhar. Os olhos de Chester, francos e leais, não se desviavam dos dela. Depois, a rapariga sorriu.
— Está bem — concedeu. — Pode acompanhar-me.
O jovem montou o seu cavalo e ajudou-a a subir para a garupa. Assim, empreenderam a jornada, seguidos de Patt.
A rapariga ia indicando o caminho, e, guiados por ela, desceram ao vale por uma estreita senda que formava uma espécie de cornija na parte vertical. Ao fundo, encontraram um espesso bosque de faias e nogueiras.
Sem vacilar, ela guiou-os por entre o arvoredo até que se encontraram numa espaçosa clareira aberta no meio do bosque.
Mas não foi isto que fez Chester soltar unia exclamação de assombro, mas sim o espetáculo que os seus olhos contemplavam.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

BUF101. CAP I. A caravana misteriosa

Sentado nos degraus de madeira do alpendre do «Belo Texas», Chester Bruce contemplava a dilatada planura que se estendia na sua frente, enquanto distraidamente introduzia outra vez a delgada vara no cano da esplêndida espingarda que estava limpando.
Estendido no chão a seu lado, com o cotovelo esquerdo apoiado no primeiro degrau e a mão na face, Patrick Mont, o gigantesco Patt, seu companheiro inseparável, mascava incessantemente Deus sabia o quê, enquanto com o indicador da mão direita se entretinha a desenhar na terra sinais cabalísticos.
Ambos haviam feito toda a guerra juntos no Exército Sulista e havia pouco tempo haviam-se desmobilizado por sua conta, não fazendo caso do decreto dos vencedores, ordenando que deviam considerar-se prisioneiros todos os que haviam pertencido ao Exército do Sul.
«Belo Texas» era uma pousada que dominava uma vasta planície, para além da qual se estendia o Staked Plaid, o temível deserto, pelo qual ninguém ousava aventurar-se, a não ser as caravanas, que levavam alguns carros, destinados exclusivamente ao transporte da água.
Uma extensa pradaria rodeava a pousada., com o seu verde panorama de erva ondulante, que na distância se tornava, subitamente, num gigantesco tapete de areia caldeada pelo sol, onde não havia o menor vestígio de vida.
A pousada limitava-se a uma construção de madeira, de dois pisos. No de baixo havia uma sala de refeições, e anexa uma loja onde se podia adquirir o necessário para uma viagem pela pradaria. No andar superior ficavam os quartos destinados aos hóspedes ocasionais, sempre escassos, pois que no Inverno aquelas paragens eram pouco concorridas, e no Verão todos preferiam pernoitar ao ar livre.
Continuamente chegavam ali novos homens e carros que acampavam em redor, misturando-se aos índios, formando assim um conjunto pitoresco.
Cada dia trazia consigo mais nova gente, trapaceiros, jogadores, vaqueiros, soldados, que se juntavam na sala, onde jogavam, bebiam e provocavam contendas, que a maior parte das vezes eram resolvidas a tiros.
Toda aquela gente perseguia o mesmo objetivo. Havia anos que os Estados do Texas e Oklahoma andavam em litígio por causa de uma extensa faixa de terreno, de mais de mil milhas quadradas, situada mais ao Norte da pousada.
Esperava-se que de um dia para o outro se decidisse o pleito entre o Governo vitorioso na Secessão e, assim, o Estado que ganhasse abriria aquele terreno à colonização. Era este o momento que toda aquela gente aguardava para se lançar ao cobiçado terreno como alcateias de lobos esfaimados, para se apoderarem de algum pedaço de boa terra que lhes permitisse dedicarem-se à agricultura ou à criação de gado.
Naturalmente, teriam de contar com os índios, que não se resignariam a que lhes arrebatassem as suas terras, sem as defender até à morte, quando a avalancha de colonizadores penetrasse nelas com todos os seus vícios e virtudes.
No entanto, esta eventualidade não era motivo para que arredassem pé aqueles homens duros e tenazes, que, pouco a pouco, iam ganhando terreno para o Oeste. A luta contra os índios era um dos acidentes com que teriam de contar e aceitavam-na como mais um obstáculo a vencer.
O sol caía a prumo sobre a pousada naquela tarde quente de Setembro, obrigando as pessoas e animais a procurarem refúgio na sombra.
Em redor dos dois amigos todos dormiam, uns refugiados nas suas tendas, outros à sombra dos carros, enquanto o astro-rei projetava os seus raios abrasadores sobre a Terra.
— O que te digo, Chester — disse Patt, erguendo os olhos para o seu companheiro — é que não sei porque havemos de permanecer aqui neste deserto, podendo ir para outros lugares.
— Já to disse mil vezes, Patt, mas és tão burro que não consegues compreender. Não sabes do litígio que existe entre o Texas e Oklahoma por causa dessa faixa de terreno que fica perto daqui? Pois esperamos apenas que o pleito se resolva para corrermos para lá, estabelecermos os limites de um bom pedaço de terra e dedicarmos--nos à criação de gado.
Patt resmungou, meneando a cabeça. Os propósitos do seu amigo não logravam convencê-lo. Era um homem muito bizarro o tal Patt. Alto, forte, enorme, uma cara de lua cheia e uns olhos constantemente espantados, sempre disposto a acreditar nas maiores patranhas que lhe impingissem. Tinha a alma e a inteligência de um garoto encerradas num gigantesco corpanzil, e quando não compreendia uma coisa, a sua tendência era solucioná-la a murros, e esta sua ausência de compreensão fazia que estivesse sempre dependente dos outros.
Era ingénuo, simples e amável. Chester Bruce conhecera-o por ocasião do alistamento e logo simpatizaram mutuamente.
Bruce estimava Patt pela sua bondade e pela dedicação que lhe demonstrava. Por seu lado, Patt adorava Chester pela sua inteligência e habilidade.
— Bem sei que não consegues compreender — prosseguiu Chester — mas não te preocupes. Eu pensarei por ti o plano a seguir e só te peço que me prestes a tua ajuda quando for necessária.
— Sabes que a tens, Bruce. Desculpa, mas é que me impaciento quando estou muito tempo inativo.
— Alegra-me ouvir-te falar assim, Patt, mas creio que em breve terás, quer dizer, teremos movimento contínuo.
— Porque dizes isso?
— Não vês a quantidade de gente nova que vem chegando todos os dias? Isso quer dizer que muitos pensam fazer o mesmo que nós e que teremos de nos movimentar para apanharmos um pedaço de terra que valha a pena.
— Com tudo isto, creio que quem está fazendo um bom negócio é o velho Coogan, que tem sempre o estabelecimento cheio até ao teto.
Chester destravou o gatilho da espingarda e levou a arma à cara, apontando a um alvo imaginário.
— A quem apontas? — perguntou Patt.
— A ninguém. Estou a experimentá-la... — interrompeu-se de súbito e baixou a espingarda. — Demónio! — exclamou. — Terei visões ou vem para aqui uma caravana?
Levou a mãos aos olhos a fazer de pala e olhou com mais atenção, verificando que não se enganava.
— Um, dois, três, quatro carros, Patt — disse. — Demasiado pequena para seguir para o deserto... Mas então, para onde irá?
Os quatro carros aproximavam-se, aos solavancos pelo caminho poeirento, mas ainda demoraram bastante tempo a chegar junto de Chester e Patt, devido à lentidão com que avançavam.
A maior das surpresas pintou-se nos rostos dos dois amigos, quando a caravana ficou ao alcance da vista.
— Olha bem, Patt. Apenas um homem conduz o primeiro carro, que traz os outros atrelados.
Aquele facto era tão verdadeiro como estranho. Um gigantesco indivíduo, cuja negra barba cerrada lhe dava ao rosto um aspeto carrancudo, segurava com a mão firme as rédeas dos cavalos que puxavam o primeiro carro, mas era a única pessoa visível da caravana. Os outros três carros seguiam atrás do primeiro, presas as rédeas dos animais à traseira do carro que os precedia, com os toldos tão hermeticamente fechados que não permitiam ver nada para o interior.
— Caramba! Para onde irá aquele homem sozinho? Que levará dentro daqueles carros?
— E que cavalos, Chester! São do melhor que tenho visto, mas vêm num estado lastimoso. Devem ter feito uma grande jornada!
Os carros chegavam naquele momento perto deles. Cada um deles era puxado por dois cavalos de magnífica raça, mas tão cansados e cheios de pó que caminhavam trôpegos, as cabeças rasando a terra. Apenas um cavalo de sela, com arreios completos, que fechava a caravana, amarrado ao último carro, parecia conservar ainda vestígios do seu sangue e da sua raça.
Ao vê-lo, Patt soltou um assobio.
— Nunca na minha vida vi um cavalo semelhante. Deve ser um prazer galopar em cima dele.
O barbudo condutor lançou um olhar de indiferença aos dois amigos, mas a pergunta escapou-se dos lábios de Patt sem poder contê-la:
— Aonde vai, amigo?
A resposta não pôde ser mais seca.
— Ainda que seja para o inferno, que lhe importa a si? — replicou o barbudo, voltando logo os olhos para o caminho.'
Patt permaneceu um segundo com a boca aberta, olhando apalermado os carros que se afastavam. Depois, quando o seu entorpecido cérebro acabou de digerir a resposta do outro, fez menção de correr atrás da caravana, mas a mão de Chester pousou-lhe no ombro, fazendo-o deter-se.
— Quieto, Patt! — disse-lhe. — Creio que aquele homem não vacilará em te pregar um tiro e bem o terás merecido por te meteres onde não és chamado.
— Aquele tipo não é do Texas, Chester — respondeu Patt, dominando o seu furor.
— E tu que sabes...
— Um texano não me teria respondido assim.
— Um texano também não teria feito a pergunta que tu fizeste, Patt. Parece-me que não foi mal feito...
Enquanto Patt se entretinha, praguejando e jurando fazer mil coisas com a pele do condutor, se voltasse a 'encontrar-se com ele, Chester mergulhou nos seus pensamentos, cujo centro era a misteriosa caravana que ainda se divisava.
Quando os carros passaram por eles, Chester viu uma coisa que lhe chamou poderosamente a atenção. Havia feito a guerra na cavalaria sulista e não podia enganar-se. O equipamento do cavalo que vinha amarrado ao último carro era o vulgarmente usado pelos confederados.
Muitos homens haviam abandonado os seus lares, impelidos para a 'guerra, finda a qual procuraram melhores condições de vida, mas em geral essa gente marchava só, sem mais propriedades que o seu cavalo e um revólver. Mas nunca tinha visto ninguém com possibilidades de equipar quatro carros e emigrar para o Oeste. Além disso, aquele cavalo...
Os seus pensamentos, de súbito, foram cortados por algumas detonações que soaram a distância, na direção seguida pela caravana.
Patt deixou de rezingar e ambos se levantaram de um salto. O que viram encheu-os de assombro.
Vários cavaleiros cruzavam velozmente a pradaria, avançando a galope em direção aos carros, com intenções pouco tranquilizadoras, pois que disparavam as suas armas, conforme avançavam, mas era evidente que os componentes da caravana se defendiam corajosamente.
Chester viu que um dos assaltantes caía da cavalgadura.
— Depressa, Patt! Corramos em seu auxílio!
Estavam já a pouco mais de meia milha do lugar da refrega. O jovem corria como um gamo, seguido pelo corpulento Patt, que soltava imprecações sem cessar, amaldiçoando os que o obrigavam a abandonar a fresca sombra do alpendre, para se expor aos abrasadores raios do sol.
Encontravam-se a uns duzentos metros da caravana, quando Chester viu que um dos assaltantes havia conseguido chegar à parte traseira do último carro e tentava entrar dentro dele.
O jovem fincou o joelho em terra, apontou cuidadosamente a espingarda e disparou. O estampido da arma confundiu-se com os tiros dos assaltantes. O homem retesou-se em cima do carro, abriu os braços e derrubou-se no chão, de costas.
Os outros assaltantes, surpreendidos por aquele reforço que o Céu enviava aos que já supunham presa segura, e ao ver aqueles dois homens que se lançavam para eles, de espingardas apontadas e disparando sempre, voltaram garupas e fugiram a galope, sem se preocuparem nada com a sorte do seu desgraçado companheiro de aventuras.
Chester chegou junto dos carros no momento em que o barbudo condutor da caravana descia da boleia do primeiro carro e se acercava dele, com uma espingarda nas mãos.
— Há vítimas? — perguntou Chester, cordialmente.
O outro mirou-o de alto a baixo.
— Não, não há — respondeu de mau modo. — Obrigado pela sua ajuda.
A Chester não passou desapercebida a estranha pronúncia do homem e disse para consigo:
« Patt tinha razão. Este homem não é texano. Parece da Carolina ou suas imediações».
— Não tem nada que agradecer — disse em voz alta. — Podemos ser-lhe úteis em alguma coisa?
— Não... muito obrigado. Já podemos seguir o nosso caminho.
A sua perturbação era evidente, parecendo estar ansioso por que Chester se despedisse para prosseguir a viagem, mas naquele momento chegou Patt junto deles; e, ao ver o barbudo, reavivaram-se-lhe as ânsias de tirar vingança da indelicadeza do condutor.
— Olá! — disse, soprando, como um fole. — Parece que voltámos a encontrar-nos...
— Eu não tenho nada que, falar consigo!
— Mas tenho eu que falar contigo, maldito respondão! Larga-me, Chester! Vou fazê-lo em papinhas!
Ia lançar-se ao outro, mas nesse instante reparou-lhe na manga ensanguentada da camisa.
— Ah! Estás ferido, hem? — disse. — Bom, tens sorte, porque isso livra-te de apanhares a maior sova que terias levado em toda a tua vida. — Você crê que...?
— Se creio? Tenho a certeza absoluta. Mas havemos de nos encontrar outra vez e espero ter ocasião de te partir a cabeça.
— Lembro-lhe que quem se dispõe, a dar, arrisca-se a receber.
Patt ia replicar, mas uma voz doce de mulher soou atrás deles:
— Que se passa, Hards? (') — perguntou. — Porque não prosseguimos a marcha?
( 1 ) Duro.
Chester e Patt voltaram-se e ficaram como que estupeficados, olhando a jovem que havia falado.
Era uma linda rapariga de grandes olhos azuis e cabelo loiro como os trigais do Texas, que os olhava com curiosidade.
— Oh! Menina June! — respondeu o gigante. — Estava agradecendo a estes homens. A sua intervenção obrigou a fugir esses bandidos.
A jovem sorriu a Chester de maneira que faria atordoar qualquer.
— Obrigada, senhores — disse ela. — Muito obrigada pelo vosso auxílio.
— Não há de quê, menina — respondeu Chester, tirando o chapéu. — Porque os atacaram?
— Não... não... sei. — E logo acrescentou precipitadamente: — Suponho que pretendiam roubar-nos. Repito-lhe os meus agradecimentos. — E dirigindo-se ao barbudo: -- E agora, Hards creio que não há nenhuma razão que nos impeça de prosseguirmos o nosso caminho.
Dito isto, desapareceu no interior do carro. Hards içou-se novamente à boleia do primeiro carro, incitou os cavalos, e pouco depois a caravana perdia-se atrás de uma lomba, enquanto as caras de Chester e Patt refletiam o maior assombro que jamais se viu no Texas em rostos humanos.
— Ainda que ele tenha a cara tão dura como o seu nome indica, hei-de partir-lha um dia —murmurou Patt.

domingo, 18 de setembro de 2016

BUF101.1 Revisita a «O último rebelde»


A bela ideia chave deste livro não nos foi indiferente. Durante mais de cinquenta anos bailou na nossa cabeça e, finalmente, o livro voltou às nossas mãos. Oh! Quantas vezes recordei aquelas palavras: «Salvaste-me a vida e eu dei-te o coração».
Temos de provar que isto acontece mesmo em «O último rebelde». É, por isso, que a partir de hoje e nos próximos dias vamos publicar, em formato passagens, o livro por inteiro. Eis o prólogo...

 
A guerra da Secessão americana principiou em 12 de Abril de 1861. Depois de várias alternativas, a vitória inclinou-se definitivamente para o lado das Repúblicas da União.
Texas permaneceu sempre fiel aos confederados do Sul, embora no seu território não se houvesse travado nenhuma batalha importante, mas apenas algumas escaramuças.
Em 3 de Abril de 1865 o general Lee, com 60 000 homens, rendeu-se em Appomatox-Court--House às tropas do Norte, acaudilhadas pelo general Grant.
No dia 9 do mesmo mês, o general Johnston entregava-se em Raleigh com o resto das tropas sulistas, e essa rendição acabou com aquela sangrenta guerra civil, que durara quatro anos, e que se deu oficialmente por terminada em 27 de Abril de 1865.
Mas nem todos os componentes do exército sulista se conformaram com a rendição e muitos fugiram, de preferência a tornarem-se prisioneiros da União.
Entre estes, contava-se o major Ronald Watterfield.
Membro de uma abastada família de Alabama, e sulista até à medula, juntou ao seu redor um numeroso grupo de homens audazes e decididos, como ele fiéis ao seu ideal e que sempre conseguira iludir as fortes tropas da União, cujo Governo oferecera uma recompensa avultada a quem o entregasse.
Durante mais de dois meses não se falou senão do último rebelde. O eco das suas façanhas chegou aos mais ignorados recantos da jovem nação americana, até que de súbito, um dia, o grupo dissolveu-se e não mais se tornou a ouvir falar do major Watterfield, como se a terra o houvesse tragado.
Passou tempo, e aquela pujante nação, que se dedicava plenamente à sua tarefa colonizadora e expansiva, esqueceu aquele nome, mas a oferta de uma recompensa continuou de pé, pois que o Governo não podia deixar sem castigo o único homem que ousou desafiar o seu nascente poderio.
 

sábado, 17 de setembro de 2016

BIS120. O provinciano

 
(Coleção Bisonte, nº 120)
 
Lazaro Galindo, um perito em cavalos, chegou a São Francisco com a mãe com o objetivo de começar uma nova vida de trabalho naquilo que melhor conhecia. Chegado de Salinas, terra onde parecia não haver maldade, em breve foi tido por «provinciano» e sujeito a todo o tipo de aldrabices cometidas pelos miseráveis que pululavam na cidade.
A amizade entabulada com uma pequena, filha de boas famílias, mas a quem os pais tinham sido assassinadas, fez com que ultrapassasse alguns problemas, mas ao mesmo tempo fê-lo cair nas más graças de um indivíduo poderoso interessado na jovem.
Finalmente, a sua extrema parecença com um criminoso fez com que fosse perseguido pela lei e Lázaro acabou por desesperar ao ver que a sua esperança numa nova vida naquela terra onde o ouro transformava a vida das pessoas de um momento para o outro não tinha correspondência na realidade.
Cesar Torre tem aqui um livro onde explora bem o caráter do provinciano, onde mais uma vez o criminoso surge no indivíduo impoluto de quem ninguém suspeito, mas a dada altura introduz personagens secundárias para encher texto que o tornam um tanto insuportável.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

BIS119. A cidade contra o herói

 
 
(Coleção Bisonte, nº 119)
 
Este livro é a continuação de «Prémio Sangrento» e «A fuga do condenado». Franklin Murray e a jovem esposa, Dianna Gallen, vão passar uns dias a São Francisco e ele resolve levá-la a um restaurante chinês. No local, acaba por desencadear-se monumental conflito com dois arruaceiros onde o jovem cow-boy mostra o valor dos seus punhos e a sua rapidez com as armas. Deste conflito, resultou forte amizade com o dono do restaurante, Chang Hu, a quem, passados anos, Murray acabou por contratar como cozinheiro para o seu rancho.
Mas não foi apenas Chang Hu quem foi habitar o rancho de Murray, mas um número significativo de chineses, pessoas a quem a população local detestava ainda mais do que aos índios já que estes eram considerados valentes guerreiros.
O ambiente em torno de Franklin Murray tornou-se bastante desagradável e os conflitos voltaram agora contra a população que um dia venerara o seu herói e agora não conseguia reconhecer a igualdade entre seres humanos.
Trata-se de mais um livro de Vasco Santos que se disfarça sob o pseudónimo V. Saint Kasymir, mais uma vez explorando o contacto entre culturas diferentes.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

BIS118. Seis quadrilheiros

 
(Coleção Bisonte, nº 118)
 
Will Dewey era um vaqueiro errante à procura de trabalho. A presente novela surpreende-o a caminho de Winslow onde pensava haver trabalho montado no seu fiel cavalo «Red». Mas um grupo de seis quadrilheiros intercetou-o e, depois de se apoderar de toda a sua fortuna, setenta e dois dólares, proveniente do seu último contrato, resolveu deixá-lo de mãos atadas em cima do cavalo, corda ao pescoço. O fiel «Red» não se moveu até que um inesperado índio convertido à fé cristã libertou o vaqueiro.
Will, cheio de gratidão, partiu para o seu destino, o rancho dos Mac Leane que, segundo o seu novo amigo, podia dar-lhe trabalho. Mas mais uma vez os seus intentos foram frustrados. Do rancho nada restava depois da passagem dos quadrilheiros. Ou melhor, restava uma jovem que, salva por Will, o contratou para a acompanhar na perseguição aos malvados. E apartir daqui, desenrola-se uma nova história para o valente «cow-boy».
Eis um belo livro de O.C.Tavin, um livro com uma bela capa que, como tal, merece ser lido por inteiro pelo que o vamos disponibilizar no «Novelas».

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PAS674. O homem que morreu de medo depois de matar o próprio filho


No momento em que Zale se perdia na distância, quatro cavaleiros vestidos de negro chegavam silenciosamente às imediações do rancho. Três deles encaminharam-se para a casa e o quarto ficou, como sempre fazia, de guarda aos cavalos. Aquela era uma precaução que o «Escorpião» e os seus companheiros nunca se esqueciam de tomar. Abrigando-se com todos os acidentes do terreno, conseguiram aproximar-se do edifício principal.
O silêncio era absoluto, quase pavoroso. Na casa, mergulhada na mais completa escuridão, parecia não haver um único alento de vida. E assim era, realmente. Naquele momento «La Cortada» apenas era habitada pela morte.
O «Escorpião» avançou uns passos e lançou um brado. Descobrira, junto da cerca, o corpo de Ernest Zale. Aproximou-se e, num relance, adivinhou o que se tinha passado. Estudou as marcas das patas do cavalo em que Kermit fugira, e chamou os companheiros.
— Nada há a fazer aqui. Zale fugiu. Voltem para Abilene, amigos, e deixem-me concluir esta tarefa.
As ordens do «Escorpião» nunca eram discutidas. Enquanto os seus amigos passavam uma rápida busca ao rancho, para se certificarem de que nenhum dos vaqueiros vivia ainda, ele voltou para o ponto onde tinham ficado os cavalos e, montando o seu, lançou-se a galope através da pradaria.
Durante cerca de uma hora galopou sob a luz do luar, sem avistar o cavaleiro a quem perseguia. Para que lhe fosse mais fácil descobri-lo, o homem de negro procurava subir a cada elevação de terreno' que encoro trava no caminho, observando a distância.
Até que, ao cabo de mais meia hora de galope, avistou quase inesperadamente o fugitivo, perto do sopé da montanha. A ondulação do terreno, acidentado naquele ponto, tinha-o impedido de vê-lo antes. Mas Kermit avistou-o quase ao mesmo tempo e, ao compreender que o seu destino ia cumprir-se, deixou escapar um brado de angústia. De nada lhe tinha servido fugir, matando o próprio filho.
O vingador ganhava terreno rapidamente. Não podia salvar-se. O desespero levou-o a deter o cavalo e a empunhar a espingarda, começando a disparar furiosamente. O mascarado ocultou-se com uns penhascos, desmontando também. Zale preparou-se para montar de novo, e tinha já um pé no estribo quando uma sombra caiu sobre ele, num salto de jaguar. Em menos de dois segundos Zale ficou desarmado e à mercê do seu perseguidor. Lentamente, o mascarado recuou dois passos, levando as mãos aos coldres. Kermit Zale bradou, num soluço:
— Não, Burney, não me mates!
A voz dele, como a de todos os cobardes quando veem a morte aproximar-se, tinha um som estridente e trémulo.
— Como me reconheceste, Zale?
— Só esta noite... compreendi a verdade... Tiveste--me ao alcance das tuas armas... e não disparaste. Porque não o fizeste... poupando-me esta agonia?
— Eu avisei-te, Zale. Depois do que fizeste a Ana Maria, tinhas de morrer devagar, vendo chegar a morte. E agora a morte está diante de ti.
— Não, Alan, não!... Tenho muito dinheiro... dar-te-ei o que quiseres... mas não me mates!
O «Escorpião» empunhou vagarosamente as duas armas e engatilhou-as. Um grito desesperado e rouco saiu da garganta contraída de Zale. Caiu de bruços sobre uma pedra, balbuciando palavras sem nexo. Depois, de súbito, rolou de costas e ficou imóvel, de olhos muito abertos. Alan Burney deixou cair os «Colts» nos seus coldres. A vingança do «Escorpião» tinha sido cumprida. Inclinou-se sobre Kermit Zale e verificou que o miserável tinha morrido da mais vergonhosa de todas as mortes — tinha morrido de medo!...

domingo, 11 de setembro de 2016

BIS115. CAP X. «O Escorpião» liberta Ana Maria


Alan, o homem a quem todos os ca valeiros obedeciam acaba por localizar a jovem que lhe animava a existência. Salva a pequena, a próxima missão seria encontrar e eliminar os Zale.

sábado, 10 de setembro de 2016

BIS115. CAP VI. A visita dos cavaleiros de negro


A família Zale acabou por ser visitada pelos cavaleiros de negro, mas conseguiram um trunfo enorme já que raptaram Ana Maria e um dos cavaleiros nutria singular paixão pela pequena. Agora a tarefa importante era salvá-la.

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