segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PAS674. O homem que morreu de medo depois de matar o próprio filho


No momento em que Zale se perdia na distância, quatro cavaleiros vestidos de negro chegavam silenciosamente às imediações do rancho. Três deles encaminharam-se para a casa e o quarto ficou, como sempre fazia, de guarda aos cavalos. Aquela era uma precaução que o «Escorpião» e os seus companheiros nunca se esqueciam de tomar. Abrigando-se com todos os acidentes do terreno, conseguiram aproximar-se do edifício principal.
O silêncio era absoluto, quase pavoroso. Na casa, mergulhada na mais completa escuridão, parecia não haver um único alento de vida. E assim era, realmente. Naquele momento «La Cortada» apenas era habitada pela morte.
O «Escorpião» avançou uns passos e lançou um brado. Descobrira, junto da cerca, o corpo de Ernest Zale. Aproximou-se e, num relance, adivinhou o que se tinha passado. Estudou as marcas das patas do cavalo em que Kermit fugira, e chamou os companheiros.
— Nada há a fazer aqui. Zale fugiu. Voltem para Abilene, amigos, e deixem-me concluir esta tarefa.
As ordens do «Escorpião» nunca eram discutidas. Enquanto os seus amigos passavam uma rápida busca ao rancho, para se certificarem de que nenhum dos vaqueiros vivia ainda, ele voltou para o ponto onde tinham ficado os cavalos e, montando o seu, lançou-se a galope através da pradaria.
Durante cerca de uma hora galopou sob a luz do luar, sem avistar o cavaleiro a quem perseguia. Para que lhe fosse mais fácil descobri-lo, o homem de negro procurava subir a cada elevação de terreno' que encoro trava no caminho, observando a distância.
Até que, ao cabo de mais meia hora de galope, avistou quase inesperadamente o fugitivo, perto do sopé da montanha. A ondulação do terreno, acidentado naquele ponto, tinha-o impedido de vê-lo antes. Mas Kermit avistou-o quase ao mesmo tempo e, ao compreender que o seu destino ia cumprir-se, deixou escapar um brado de angústia. De nada lhe tinha servido fugir, matando o próprio filho.
O vingador ganhava terreno rapidamente. Não podia salvar-se. O desespero levou-o a deter o cavalo e a empunhar a espingarda, começando a disparar furiosamente. O mascarado ocultou-se com uns penhascos, desmontando também. Zale preparou-se para montar de novo, e tinha já um pé no estribo quando uma sombra caiu sobre ele, num salto de jaguar. Em menos de dois segundos Zale ficou desarmado e à mercê do seu perseguidor. Lentamente, o mascarado recuou dois passos, levando as mãos aos coldres. Kermit Zale bradou, num soluço:
— Não, Burney, não me mates!
A voz dele, como a de todos os cobardes quando veem a morte aproximar-se, tinha um som estridente e trémulo.
— Como me reconheceste, Zale?
— Só esta noite... compreendi a verdade... Tiveste--me ao alcance das tuas armas... e não disparaste. Porque não o fizeste... poupando-me esta agonia?
— Eu avisei-te, Zale. Depois do que fizeste a Ana Maria, tinhas de morrer devagar, vendo chegar a morte. E agora a morte está diante de ti.
— Não, Alan, não!... Tenho muito dinheiro... dar-te-ei o que quiseres... mas não me mates!
O «Escorpião» empunhou vagarosamente as duas armas e engatilhou-as. Um grito desesperado e rouco saiu da garganta contraída de Zale. Caiu de bruços sobre uma pedra, balbuciando palavras sem nexo. Depois, de súbito, rolou de costas e ficou imóvel, de olhos muito abertos. Alan Burney deixou cair os «Colts» nos seus coldres. A vingança do «Escorpião» tinha sido cumprida. Inclinou-se sobre Kermit Zale e verificou que o miserável tinha morrido da mais vergonhosa de todas as mortes — tinha morrido de medo!...

domingo, 11 de setembro de 2016

BIS115. CAP X. «O Escorpião» liberta Ana Maria


Alan, o homem a quem todos os ca valeiros obedeciam acaba por localizar a jovem que lhe animava a existência. Salva a pequena, a próxima missão seria encontrar e eliminar os Zale.

sábado, 10 de setembro de 2016

BIS115. CAP VI. A visita dos cavaleiros de negro


A família Zale acabou por ser visitada pelos cavaleiros de negro, mas conseguiram um trunfo enorme já que raptaram Ana Maria e um dos cavaleiros nutria singular paixão pela pequena. Agora a tarefa importante era salvá-la.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

BIS115. CAP I. Os assassinos do pastor


Apresentamos o primeiro capítulo de «Os quatro Cavaleiros de Negro» onde Mayfair nos narra o modo com o pobre pastor foi torturado e assassinado pela família Zale pelo simples facto de uma ovelha ter entrado no rancho deles. O cadáver de Soto foi encontrado por Alan que o levou para a cidade e depois informou Ana Maria, a filha do pastor.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

BIS115. Quatro cavaleiros de negro

 
(Coleção Bisonte, nº 115)
 
 
Eram quatro cavaleiros que vestiam de negro. Eram quatro cavaleiros que, na noite escura, percorriam montes e vales e castigavam todos aqueles que abusavam dos mais fracos. Um deles, o «Escorpião», era totalmente obedecido pelos restantes. De identidade desconhecida, poderoso com o «Colt», sabia relacionar-se com a Lei e desenvolver ações para anular criminosos.
É neste contexto que o autor nos traz o acto cobarde da família Zale contra um pobre criador de ovelhas mexicano. Soto foi vilmente assassinado quando, por descuido, alguns dos seus animais entraram no terreno da poderosa família. A partir desse momento, quatro cavaleiros de negro desenvolvem forte ação contra os criminosos que culminaram na vergonhosa morte do mais velho… por medo.
As passagens que hoje aqui deixamos não puderam ser postas em texto devido à má impressão que neste momento caraterizava os livros da APR a qual torna impossível o reconhecimento de carateres. Note-se ainda uma certa semelhança de estilo deste autor com A.G.Murphy, sendo que algumas passagens fazem lembrar o magnífico «Não sou um foragido».

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

PAS673. O «Cão Ianque» faz frente à «Dama do Rio»

Havia ano e meio que percorria o Oeste procurando algo. Ano e meio desde que deixou de pertencer ao exército do Norte, no qual combatera até alcançar o posto de comandante. Quando partiu do Sul para juntar-se às forças do Norte, jurou que não voltaria a pisar o solo de Luisiana. Mas aconteceram coisas que o fizeram quebrar aquele juramento.
Não ia para ficar, mas o caso era o mesmo. A sua meta era Nova Orleães e para ali se dirigia. Fez boa parte do percurso a cavalo, mas depois de passar por Baton Rouge, a dois quilómetros desta cidade, o cavalo partiu uma pata e teve de abatê-lo.
Continuara a viagem a pé. Depois, aquele barco e o roubo de que fora objeto, ao ter de pagar quinhentos dólares por uma passagem que somente, e pagando bem, poderia custar uns cinquenta dólares.
Com que então, Yuga Dumeine... Quem seria? A julgar pelo apelido, uma crioula. A não ser que se fizesse passar por outra... Jogadora, hem? Ele também conhecia alguns truques. Era possível que a tal Yuga Dumeine tivesse de arrepender-se.
Depois de vestir-se, saiu para o corredor. Foi empurrando todas as portas. Várias se abriram e teve de fechá-las em seguida. Mas, por fim, encontrou o que procurava: a sala de jogo. Ao entrar, ficou assombrado por estarem ali tantos jogadores, apesar de ser tão cedo. Depois viu a mulher. Estava de costas, e era uma «Dama». Pensou nela assim, com maiúscula. Aproximou-se, mas algo o fez retroceder até ao balcão. Agora estava atrás dela, observando-a, procurando encontrar um defeito naquela elegante e preciosa figura. Devia ser a proprietária do «Belle». Conhecia o nome do barco, por tê-lo visto no costado momentos antes de subir par ele.
Sem fazer caso da expectativa que a sua figura despertava, nem do assombro que se exprimia num ou noutro rosto, continuou a olhar para as delicadas e elegantes mãos da mulher, despojadas agora das luvas vermelhas que tinha ao lado, para melhor poder jogar.
Ganhava quase infalivelmente. Um dos jogadores atirava naquele momento. Com os seus olhos de lince viu o resultado: um dos dados marcava cinco, o outro um. Um «ponto» do barco lançou-os à mulher. Naquele momento, «O Ianque» antecipou-se e as suas mãos chocaram com as dela. Mas os dados ficaram nas suas, fortes e poderosas.
— Mil dólares ao sete. De acordo, «Miss»? — disse, encarando os olhos chamejantes de Yuga Dumaine.
Esta não respondeu. Ficou-se a olhar para o homem, observando-o com manifesto descaro, da aba do chapéu aos bicos das botas. Por fim, disse, em tom incisivo:
— Quando um homem fala comigo, tira o chapéu. Isto, se não quer aparecer aos meus olhos como um grosseiro.
O riso silencioso e gelado do homem contribuiu para aumentar a sua cólera pela inopinada intervenção. Mas o que a fez momentaneamente perder as estribeiras foi o que ele disse a seguir:
— Descubro-me sempre diante das damas, encanto. Por agora, você para mim não passa de uma jogadora profissional. Mil dólares ao sete, sim ou não?
Primeiro empalideceu ante aquelas palavras. Depois fez-se vermelha como uma papoila. Respirava afogada, furiosa. Os seus olhos negros disseram por entre chamas do inferno muita coisa que os lábios se lhe recusavam a pronunciar. Por fim explodiu, levantando a mão para esbofetear o homem.
«O Ianque» segurou-lha a tempo. A sua boca deixara de rir, mas tinha-a entreaberta, como se fosse fazê-lo dum momento para o outro.
— Solte-me! Solte-me, já disse! Ouviu-se um arrojar de cadeiras, ao mesmo tempo que os «encasacados» se afastavam das mesas. Nelas só ficaram os jogadores profissionais, com as mãos tensas à altura do peito, perto, muito perto dos coldres axilares. De repente ouviu-se uma voz autoritária:
— Solte «miss» Dumeine, forasteiro. Disso depende a sua vida!
Olhou para o que assim se exprimia. Jogador, batoteiro ou trampolineiro, foi o que num segundo pensou dele «O Ianque» ao vê-lo. Era um indivíduo alto e ossudo, louro como o trigo. Um ligeiro bigodito escurecia-lhe o lábio superior, sobre uma boca sarcástica de lábios delgados e descoloridos.
Olhou-o nos olhos antes de responder. Yuga Dumeine continuou quieta, com o braço seguro pela tenaz de ferro que era naquele momento a mão homem. Nem sequer tentava soltar-se da pressão. Estava eletrizada, com os olhos fixos nos de «O Ianque». Não conseguia mover-se, sequer. Continha até a respiração, à espera de que falasse, de que respondesse às palavras de Peter Stringer, o mais rápido dos homens de Phil Whisper.
Mas quando falou, não pôde deixar de estremecer...
— Não me agradam os teus modos, «cavalheiro». Ainda se diz assim no Sul, não? Dá meia volta e põe-te a andar. A dama fica comigo. Quero jogar com ela.
Yuga Domaine, então, viu-se quase atirada para um extremo da mesa, enquanto os dois homens se olhavam friamente. A sua cólera dissipara-se como por encanto. Ouviu nitidamente a resposta de Stringer:
— Nada tem que dizer, homem. Os seus também não são próprios dum cavalheiro, mas dum labrego ou dum pistoleiro. O seu fato e acento o provam, cão ianque!
O rosto do jovem corou intensamente. Depois ficou pálido como a cera. Por fim exclamou:
— Vou matar-te, jogador. Puxa quando quiseres, mas não o faças com o revólver do coldre axilar. Isso está muito visto. Trazes um «Colt» no cinto.
Lentamente, o jogador afastou a mão da banda esquerda da sobrecasaca. Depois, os braços caíram ao longo do corpo. Olhou fixamente para o homem que tinha em frente, com um meio sorriso gelado nos lábios cruéis.
Deu um passo para o lado, enquanto o silêncio se tornava mais profundo e os comentários se reduziam a leves sussurros. Mas «O Ianque» nem sequer os ouvia. Estava atento ao homem. Pelo menos, assim julgavam os que seguiam a cena com olhos desorbitados...
De repente, a mão de Stringer voou para o coldre, ao mesmo tempo que se deixava cair no solo. Levantou-a e...
«O Ianque» levou as mãos aos seus. Um fogacho relâmpago surgiu do seu «Colt» esquerdo ao mesmo tempo que do direito saía outro em direção diferente. Três detonações explodiram em uníssono no meio da sala de jogo. Várias mulheres pintalgadas gritaram. Depois...
Dois homens ficaram imóveis. Um deles era Stringer, com uma roseta vermelha no peito. Não se mexeu do sítio onde caíra. Quanto a Chasse Milton, jogador profissional, amigo do outro, à esquerda do que fazia chamar-se «O Ianque», caiu sobre a mesa da roleta com que trabalhava, com um orifício na fronte, do qual quase não saía sangue. Depois, escorregou da mesa para o chão e ficou numa posição irrisória, se não fosse trágica, olhando para as lâmpadas do teto que balouçavam ligeiramente impelidas pelo suave movimento do barco. Todos viram que tinha empunhadas as armas. A intenção lera bem reliam. Quisera assassinar aquele desconhecido, aproveitando a sua distração com o chamado Stringer. Os comentários inundaram a sala. Com uma fria calma que fez vacilar a mulher, «O Ianque» aproximou-se dela:
— Jogamos, «miss»?
Então, Yuga sorriu, deixando todos assombrados. Sem deixar de sorrir voltou-se par os outros jogadores, dizendo:
— Tirem esses homens da minha vista.
— Dirigiu-se depois ao resto dos passageiros que continuavam silenciosos, sem perder de vista o pistoleiro: — Aqui não aconteceu nada. Continuem a jogar. Não é a primeira vez.
Aquilo era verdade e «O Ianque» não o ignorava. Não obstante, tinha o rosto pálido, apesar da sua serenidade, repôs as cartuchos gastos e olhou para a mulher, ao mesmo tempo que metia as armas nos coldres. Entretanto, os demais jogadores obedeciam à ordem. Ela assombrou-se ao vê-lo tão sereno e, todavia, tão pálido, porque não podia saber o que se passava no seu íntimo. «O Ianque» continuava pálido, mas não por ter matado dois homens. Matara muitos, e segundo os seus cálculos, talvez se visse obrigado a matar mais algum.
Isso só o poderiam dizer o tempo e as consequências do que pensava fazer em Nova Orleães. A sua palidez devia-se, unicamente, ao insulto de Stringer. Dissera: «cão ianque». Estas palavras tinham soado algumas vezes aos seus ouvidos, pronunciadas por uma pessoa à qual não podia fazer-lhas engolir com chumbo: Diana Todd.
Agora, o «cão ianque» passearia novamente por Nova Orleães. Mas desta vez não seria como antes. Do aperaltado cavalheiro que um dia partira para a guerra, não restava nada. Em seu lugar voltava um frio pistoleiro, um homem que só tinha por lei os seus «Colts» calibre 45, sem amigos, sem um carinho sincero, nem sequer dos que ele, apesar de tudo, continuava a amar do todo o coração.
As palavras do batoteiro, momentos antes da sua morte, reavivaram-lhe as recordações. Que aconteceria durante a sua ausência?
— Não queria jogar, senhor? Disse mil dólares ao sete. Ou ouvi mal talvez?
Sacudiu a cabeça. A cor voltou lentamente ao seu rosto. Olhou para a mulher que se aproximara até quase roçá-lo. Os lábios vermelhos como o sangue, incitantes e tentadores, o sorriso diabólico. Compreendeu quanto perigosa era Yuga Dumeine, e mais ainda quando a viu pestanejando os olhos negros como o próprio diabo, com as suas longas e sedosas pestanas.
Por uns instantes julgou oportuno fechar os olhos. Mas não o fez. O silêncio que havia na sala fê-lo olhar para ambos os lados. Mulheres e homens desviaram a vista imediatamente, mas ele leu algo nos olhares das pessoas que o conheciam. Poucas, três ou quatro o máximo, mas as suficientes para que os comentários voassem dum lado para o outro sobre Nova Orleães. Pensou com pena que a guerra fratricida não mudara os cavalheiros do Sul. Nem as damas. Luisiana seria sempre tal e qual foi: uma sociedade corrompida, das mais baixas paixões, de críticas peçonhentas...
— Ficou muito pensativo, senhor. Joga ou não?
Voltou-se para «Ela ». Ficou assombrado quando notou pela segunda vez que pensava duas vezes da mesma maneira, ao referir-alie à mulher: com maiúscula. Não sabia porquê, nem tinha intenção de averiguá-lo.
Ao voltar a cara para aquela beleza, encarou por segundos com os jogadores do barco, que regressavam. Todos, menos um, se os seus cálculos não falhavam. O seu rosto não deixou transparecer o que estava a pensar. Limitou-se a responder à mulher:
— Mil ao sete. Feito?
— Porque não, forasteiro?
Foi ela a primeira a pegar nos dados de cima da mesa, onde ficaram no momento em que levantou a mão contra aquele rosto que a olhava agora sem demonstrar a menor emoção.
Yuga Dumeine, que se sabia formosa, bela e elegante, ficou desconcertada. Aquele homem não era igual aos demais. O brilho dos seus olhos nada dizia. Continuava indiferente à sua formosura, como se em vez de a ter na frente tivesse um cato ou uma couve. Revoltou-se contra aquela ideia, e voltou a pensar o mesmo que quando o viu abater dois homens de Whisper, mas noutro sentido.
— Tem medo, «miss»?
Os olhos negros pareceram duas setas de fogo quando se cravaram nos do homem.
— Com mil diabos! Não, «monsieur».
Depois daquela exclamação pouco académica, Yuga Dumeine dispôs-se a lançar os dados. Mas no mesmo instante, «O Ianque» fez uma genuflexão palaciana, levando a mão ao chapéu para descobrir-se. Quando o fez, a sua cabeça quase tocou o chão, levando aquele ao peito.
— Pode jogar quando quiser, «mademoiselle» Dumeine — disse no mais puro francês.
Yuga ficou uns instantes em suspenso, olhando para ele, mas aquela cara era uma máscara. Não dizia nada. Com expressão azeda, atirou os dados. Estes, pela primeira vez, marcaram cinco. Como se aquilo fosse um sinal, os jogadores formaram círculo em torno deles no mais completo silêncio.
O grupo de curiosos engrossou de maneira notável, quando se aproximaram as mulheres pintadas e, com elas, o resto dos encasacados cavalheiros. Sem saber porquê, talvez por um estranho sexto sentido, tinham compreendido que aquela não era uma simples partida, que havia mais alguma coisa.
Na expressão do homem não havia nada, mas a de Yuga denunciava claramente que naquele momento sentia um ódio sem limites pelo homem que, com o sorriso nos lábios, gelado como a própria morte, se preparava agora para lançar os dados, mas dizendo primeiro:
— Creio que me deve mil dólares, «mademoiselle».
Yuga crispou o seu lindo rosto numa máscara. Naquele momento sentia desejos de esbofetear o homem. E muito mais quando viu que os dados marcavam sete.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

PAS672. Um «Ianque» que regressa ao Sul

Sem saber que fazer, aproximou-se dos jogadores de dados. Uns instantes depois estava absorvida pela partida. Cinco minutos mais tarde a figura dum homem recortou-se no umbral da porta e percorreu com o olhar gelado, como a folha duma navalha, as mesas de jogo. Depois avançou lentamente para onde vira a mulher. No centro da sala, porém, como se pensasse outra coisa, o desconhecido voltou-se, encaminhando-se para o balcão. A sua voz soou fria como a expressão dos seus olhos:
— «Whisky» — pediu.
O «barman» estava assombrado. Não vira aquele passageiro durante toda a viagem. Quem seria?
Enquanto lhe servia o que pedira, não deixou de observá-lo, disfarçadamente. O seu aspeto definia-o como o clássico pistoleiro ido Oeste.
Cobrindo-lhe o peito de titã, trazia uma espécie de samarra de couro. Na delgada cintura, um duplo cinturão-cartucheira repleto de balas «45». Nos coldres, colocados muito baixos, presos às coxas por delgadas e entrançados correias, assomavam as nacaradas coronhas de dois «familiares» do coronel Colt.
As calças, azuis, justas, voltadas em baixo, cobriam as botas texanas de salto alto. As esporas eram de prata, de grandes rosetas. O chapéu que trazia na cabeça, de cabelo louro e ondulado, era o clássico entre os jogadores ou batoteiros. A sua altura oscilava entre um metro e setenta, e um metro e oitenta e a idade entre vinte e oito e trinta anos. Sob as abas do chapéu via-se urna fronte alta, e espessas sobrancelhas sobre uns olhos cinzentos de brilho sem igual. Em toda a sua atitude havia uma segurança assombrosa, embora a indumentária destoasse fortemente da dos elegantes e encasacados cavalheiros.
— Já me examinou bastante?
O «barman» sobressaltou-se. Julgava ter dissimulado bem a sua observação, e afinal o desconhecido dera por isso. Não respondeu à pergunta. À cautela, voltou-se para a armação, demonstrando que se ocupava em atender outro dos clientes do balcão, os quais não perdiam de vista o para eles grosseiro desconhecido.
O recém-chegado não insistiu na pergunta. Limitou-se a beber lentamente o seu «whisky», segundo parecia com verdadeiro deleite. Depois deixou um dólar sobre o balcão.
— Guarde o troco. Eu pago sempre a curiosidade das pessoas.
Sem acrescentar uma única palavra, deu meia volta e encaminhou-se diretamente para a mesa na qual vira a mulher. Colocou-se atrás dela, observando a sua graciosa figura. O sete era o ponto com o qual jogava a casa. Admirou a mestria da mulher ao lançar os dados. Pensou, por um momento, se estariam viciados. Sorriu. Muitos dos presentes voltaram-se para ele. Viu de soslaio algumas caras que o fitavam, com curiosidade primeiro e com assombro depois.
Sorriu novamente ao supor o que pensavam. «O Ianque» voltava. Mas desta vez o seu sorriso não aflorou à superfície.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PAS671. O homem que fazia medo à «Dama do Rio»

Entretanto, Yuga chegou à sala de jogo. Apesar de ser ainda muito cedo, havia ali muitos jogadores. Era uma distração ao longo da viagem, e Yuga sabia-o. Esta era outra das coisas com as quais contava. Encaminhou-se para um pequeno balcão. Antes de pedir alguma coisa, o «barman» serviu-lhe um copo de «Cavalo Branco».
Ia levar o copo à boca, quando atrás de si soou uma voz:
— Yuga. Onde esteve até agora?
Não precisava voltar-se para saber de quem se tratava: dum dos jogadores do barco. Um profissional e o único homem que odiava deveras. Não sabia donde era nem donde vinha. Entrou no barco numa época em que ela estava sem um cêntimo, precisamente no dia em que o «Belle» começou a navegar depois da morte do pai.
Aquele homem emprestara-lhe um bom punhado de dólares, para ficar no barco como um dos «pontos». Aceitou, visto que não tinha outra solução. Foi demorando o pagamento daquele dinheiro dia após dia. Quando uma vez o tentou, o sorriso untuoso do homem deteve-a. Segundo declarou, apaixonara-se por ela e o seu único anseio era que correspondesse ao seu amor.
Pela primeira vez na sua vida, sem saber porquê, não se atreveu a rir-se do homem. Discutiram durante muito tempo sem chegarem a um acordo. E ela, agora, não tinha outro remédio senão suportá-lo. Aquele dinheiro que o batoteiro não aceitou, perdera-se. Certo que ela tinha. Mas o pagar não resolveria nada, pois Yuga julgava saber o que pretendia o homem.
Queria as duas coisas: o barco e ela. Teria que suportá-lo, quisesse ou mão. Phil Whisper soubera fazer bem as coisas. Quando ela deu por isso, era demasiado tarde. Em cada porto onde o «Belle» ancorou, entrara um jogador, até cinco, homens de confiança de Whisper.
Tinha-lhe medo, mas guardava-se muito bem de lho demonstrar, sabendo que se o fizesse estaria perdida para sempre. Mas a verdade indiscutível era esta: de nome, era a proprietária do «Belle». De facto, eram precisos muitos «Colts» para desfazer os manejos Phil Whisper!
Olhou-o de frente antes de responder. Era um tipo alto e ossudo, muito senhor de si., sempre com um untuoso sorriso nos lábios. Tinha o cabelo louro e ondulado, uns estranhos olhos azuis e uma boca grande de dentes brancos e cuidados. Vestia a clássica indumentária dos batoteiros: sobrecasaca e calças de riscas, botas brilhantes e chapéu de copa direita e largas abas.
Debaixo das abas da casaca apareciam as negras coronhas de dois «Colts» 38. Ela sabia que era muito rápido. Em várias brigas na sala de jogo, elas terminaram com a morte de um ou outro jogador, sempre em consequência das armas daquele a quem temia. Também trazia um «Derringer» de cano curto num coldre auxiliar.
— Estive na coberta — respondeu por fim. — Mas não creio que isso lhe interesse muito, Phil.
— Engana-se. Sabe que a amo e que farei tudo o possível para conseguir o seu amor.
Ela desatou a rir, mostrando uma dupla fila de dentitos de marfim. Phil Whisper olhou para eles como que fascinado, mas não se atreveu a nada mais. E ela continuava a rir. Era essa a sua arma de defesa: o riso. Enquanto a visse rir, Whisper não poderia adivinhar o medo que tinha.
— Mas eu não, Phil, já lho disse várias vezes. Passe esta noite pelo meu escritório — disse, de repente, esquecendo o que constituía a sua obsessão. — Pagar-lhe-ei o que lhe devo e poderá sair deste barco. E creio que o lamento. Gostaria de poder amá-lo.
Agora chegou a vez do batoteiro. Riu alegremente, enquanto se crispava a boca de Yuga Dumeine.
— Não quero esse dinheiro, Yuga. Só a si, por demais o sabe.
A rapariga perdeu a calma, esquecendo o medo por uns instantes.
— É possível que seja verdade, «monsieur» — replicou, mordendo as palavras. — Mas não acredito. Considera-me uma desgraçada? É tolo, se assim pensa. Quer o barco com tudo o que contém. Supõe que não percebi já? Porquê, senão por isso, essa teimosia em não querer que lhe devolva o seu dinheiro? –
O sorriso de Whisper gelou-se-lhe nos lábios.
— Sempre disse que você era uma mulher inteligente — disse, tirando a máscara. — Amo-a, a si. Mas muito mais o barco e o seu dinheiro. Já sabe a verdade. Que responde agora?
— Que você é um porco coiote, Phil — retorquiu, com os olhos chamejantes. — Se tivesse uma arma, creia que o mataria neste instante.
— Não sairia viva daqui, Yuga. Não lhe aconselho levar as coisas para a tragédia. Os meus homens e eu somos agora os senhores. Terá que resignar-se. Tem tempo de pensar o que mais lhe convém, até à nossa chegada a Nova Orleães. Quer dizer — acrescentou, depois duma curta pausa — até à noite de véspera. Creio que o capitão tem poderes para celebrar um casamento. Pense, Yuga.
— Já pensei bá muito, «monsieur» coiote. Primeiro me deixaria matar.
Ele fitou-a com um sorriso gelado.
— É possível que a mate. As testemunhas suspeitas estorvam, Yuga. Dessa maneira, evitarei incómodos, e você perderá o barco e a vida. Recomendo-lhe que pense bem no caso. Tem mais a perder do que a ganhar. Por outro lado — terminou em tom cínico — julgo-me com competência para desempenhar o papel dum bom marido.
Deu meia volta antes que ela pudesse responder e afastou-se pelo corredor. Ela continuou a beber o «whisky» a pequenos sorvos, olhando para os jogadores. Segundo parecia, ninguém dera pela estranha conversa.
Quando acabou de beber, percorreu com o olhar os «profissionais». Só havia três, segundo parecia, que lhe eram afetos. Os outros cinco, jogadores e pistoleiros ao mesmo tempo, eram os homens Phil Whisper. Então, ao vê-los embrenhados no jogo de cartas, da roleta ou dos dados, compreendeu que não podia contar com nenhum. Todos eles se colocariam ao lado do mais forte. Neste caso, Phil Whisper!

domingo, 4 de setembro de 2016

PAS670. Senhores e senhoras, esta é a «Dama do Rio»

Todos quantos a conheciam a tratavam par «A Dama do Rio». Tinha um corpo verdadeiramente maravilhoso, alta, delgada, muita bem proporcionada. No lindo rosto, de queixo agressivo, brilhavam uns enormes olhos negros e a sua boca, de lábios carnudas e sensuais, revelava um temperamento apaixonado. Possuía todos os traços típicos das mulheres crioulas (1), e o jogo como profissão.
O seu porte era altivo e orgulhoso, e a sua singular beleza tornava-a muito mais perigosa.
Tinha os cotovelos apoiados na amurada do barco, olhando as águas do Mississipe. Um vestido simples, vermelho como uma labareda, cingido, moldava-lhe o corpo felino. Os sapatos eram da mesma cor, tal como as luvas, que lhe chegavam aos cotovelos. Na cabeça, um pequeno chapelito enfeitado com duas penas de pavão.
O barco, que navegava fazenda girar as suas pás a caminho de Nova Orleães era seu, a única coisa que possuía depois da morte do pai. Antes da guerra de Secessão, pertencia à requintada aristocracia daquela capital. 
Seu pai era um jogador, como quase todos os habitantes de Nova Orleães daquela época. Tinha uma plantação. Uma noite deixou-se ganhar mais da conta, perdeu cem mil dólares, e um homem apoderou-se da plantação no dia seguinte.
O capitão do «Belle», nome do barco no qual navegava agora, era amigo de seu pai. Embarcou-os com ele e deu-lhes um lugar nas salas de jogo.
Porque o «Belle» não era mais que um casino flutuante. As coisas não correram nem bem nem mal durante algum tempo. Quando o capitão morreu, legou o barco à jovem. Ela e o pai continuaram a explorar o negócio, até que o velho morreu. Durante uns dois meses, o «Belle» deixou de navegar. Mas quando o fez novamente, levava como proprietária Yuga Dumeino.
Depressa a sua magnifica figura se transformou num atrativo mais para os que navegavam no Mississípi. Na grande sala de jogo iam deixando o seu dinheiro. Ela, com o sorriso sempre à flor dos lábios, tornava as perdas menos dolorosas. Agora ia a caminho de Nova Orleães. Para quê?
Era uma mulher estranha. Podia tratar um homem por tu ou por você, conforme os casos; podia até chamar-lhe «mister» ou senhor, falar-lhe em inglês ou em francês, indistintamente. Mas quando antepunha ao nome a palavra «monsieur», o aludido estava perdido. Caíra em desgraça. Fizesse o que fizesse em favor dela, não servia de nada. O «monsieur» acabava por desembarcar em qualquer parte das margens do rio, ou, se teimava, saía mesmo pela borda fora, para alcançar a margem a nado.
Claro que ela procurava sempre que os seus servidores o fizessem longe daquelas pás que podiam fazer em pedaços um homem em alguns minutos.
Com o seu procedimento conquistava muito poucos amigos. Criara mais ódios que outra coisa. Agora, voltava a Nova Orleães...
Fazia-o ano e meio depois de terminada a luta, quando pelas ruas da cidade imperavam as armas, quando toda a pior ralé do exército da Confederação e parte do Norte caíram qual manada de corvos sobre as plantações, os lindos e senhoriais salões de jogo e tudo o que de valor ficara nela, que não era pouco.
Mas algo de bom havia nesta mulher: era honesta. Ninguém podia dizer que chegara sequer a beijá-la. Ela fazia o seu negócio. Muitos, para não dizer todos, o sabiam. Talvez por isso, de dia para dia, o barco se enchia cada vez mais de passageiros, com o único objetivo de conquistá-la, e com ela o seu dinheiro.
Mas Yuga Dumeine parecia ter um «olfato» digno dum cão de caça. Adivinhava-os logo à chegada. Sorria-lhes com os olhos, mas não com a boca. Acompanhava-os até que perdiam inclusivamente a camisa. Então, apagava-se-lhe o sorriso dos olhos e em tom altaneiro dizia: «Outra vez será, senhor»; ou então: «Noutra ocasião terá mais sorte».
Eram frases invariáveis; frases que já conheciam de cor todos os velhos e novos endinheirados que frequentavam o «Belle». Mas isto, contra toda a lógica, constituiu um novo incentivo para eles. Sabia-o Yuga Duareine? Pensava nisto e por isso se comportava daquela maneira, ou na sua linda cabecita só havia uma ideia fixa?
Eram estas as perguntas que faziam os homens que se davam com ela. Mas, apesar de tudo, continuavam a vir e a perder, noite após noite.
Agora estava muito pensativa, deixando vaguear os seus misteriosos olhos pela margem do rio. Havia meia hora escassa que saíra do cais de Baton Rouge, na margem direita do Mississipi. Parecia esquadrinhar a referida margem, olhando os altos arbustos e matos que a povoavam.
Via-se que estava pensativa. De quinze metros mais adiante, contemplava-a o capitão que por vontade expressa dela, governava agora o barco. Aproveitando a circunstância de ela o não ver, abanava a cabeça, como se tentasse averiguar o que a mulher pensava, ou talvez perguntando a si mesmo, o, a que diabo se devia aquela pressa de chegar a Nova Orleães, quando ela se opusera sempre a tal ideia.
De repente viu-a pôr-se tensa. Que vira na margem? Sentia-se curioso, mas não se atreveu a incomodá-la indo junto dela para ver ou perguntar.
Yuga então voltou-se, exclamando :
— Ordene que aproximem o barco o mais possível da margem. Há ali um homem a fazer sinais. Lance-lhe um cabo e que suba. Se tiver com que pague a passagem para onde quer que vá, que fique. Mas se não, diga aos seus homens que o atirem pela borda fora.
Afastou-se, como uma rainha ofendida, a caminho dos camarotes.
Mike Lack não pestanejou. Segundo parecia, estava acostumado àquelas ordens. Por outro lado, ao verificar que se voltara diretamente para onde ele estava, pensou que, apesar de todos os seus esforços para o dissimular, ela sabia que a estivera observando.
Fez o que lhe ordenaram e pouco depois apareceu a bordo um homem trazendo nas mãos uma espingarda e um duplo cinturão-cartucheira com dois impressionantes «colts» 45. Enquanto atravessou o rio, mantivera-os acima da cabeça, como receando que a água os molhasse. E assim fora.
 
(1) Mestiças.

sábado, 3 de setembro de 2016

BIS114. A dama do rio

 
(Coleção Bisonte, nº 114)
 
Este livro é algo parecido com «Morte no rio» da coleção Colorado de que já falámos. Também aqui, uma dama crioula, de beleza invejável, ganha a sua vida num barco. Também aqui, depois da guerra, um nortista entra no barco e conhece esta mulher que o impressiona profundamente.
Que levaria Mogar a escrever livros tão parecidos? Não é que as obras sobre o Oeste não sejam todas parecidas, mas estas têm demasiadas situações em comum, depois de serem tão diferentes das restantes.
Tencionávamos disponibilizar este livro por inteiro, mas um incidente desconhecido fez com que ao mesmo faltassem várias páginas. Assim, limitamo-nos a algumas passagens iniciais.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

PAS669. O pistoleiro reencontra a mulher amada

Tinham decorrido três dias desde a sua chegada Vale Perdido. A meio da tarde, Lex decidiu voltar à vila com o fim de averiguar o que lhe fosse possível naquele assunto que o preocupava e constituía para ele numa obsessão.
Talvez alguém na vila soubesse algo sobre a morte de seu pai e das circunstâncias em que esta ocorreu Lex não estava disposto de maneira alguma a deixa por esclarecer aquela situação anómala.
Lex voltou a selar o seu magnífico cavalo. Depois, sem despedir-se de Joan nem da mãe, saltou para a sela com uma agilidade que os seus gestos lentos e cansados desmentiam, apertou levemente as ilhargas do animal e este meteu a galope em direção a Vale Perdido. Pouco depois, «Gavião» atravessava a ponte de Clear River e entrava numa das ruelas da vila.
Era sábado. Alguns trabalhadores e vaqueiros das fazendas próximas deixavam os respetivos trabalhos e vinham à vila divertir-se. A diversão consistia em beber uns quantos copos de «whisky» na taberna do velho Clarence.
Lex meteu o animal a passo e dirigiu-se também para a taberna. Faltavam-lhe uns duzentos metros para ali chegar, quando duma das travessas próximas surgiu a airosa silhueta duma amazona, ao trote de um alazão de boa estampa. O aventureiro estremeceu ao reconhecer quem vinha em sentido contrário. Todavia, foi uma fugaz sensação que prontamente se desvaneceu. Voltou a recuperar o habitual aprumo e sangue-frio. Tratava-se de Myrna Hudson, a mulher a quem tanto amou e cuja recordação imperava ainda no seu coração.
Au chegar junto de Lex, Myrna estacou o cavalo. Olhou para o jovem com uma expressão de felicidade no lindo rosto.
— Lexington!
O interpelado contemplou-a fixamente. Já não era a menina de quinze anos. A sua beleza aumentara consideravelmente com o decurso dos anos. Em lugar da jovenzita bonita e simpática que deixara ao partir, Lex encontrou uma mulher de formas esculturais e beleza serena. Tinha uns lábios vermelhos e sensuais; os olhos e cabelos negros como o azeviche. O jovem conseguiu dominar os desejos que sentia naquele momento de lançar-se nos seus braços e dizer-lhe que ainda a amava, que a sua recordação nunca o abandonou durante os anos de ausência.
— Olá, Myrna...
Eia fitou-o com os olhos muito abertos pela surpresa.
— Não gostaste de ver-me, Lex? Já me esqueceste?
Ele interrompeu-a com expressão grave.
— Não esqueci nada. Amo-te como sempre te amei, Myrna... Mas entre nós, tudo acabou.
— Porquê? — inquiriu a rapariga, ansiosa. — Eu esperei-te sempre.
— Não sei quanto haverá de verdade nisso que dizes. Não obstante, para mim serás sempre a sobrinha do homem que arruinou o lar dos meus. Supões que pode esquecer-se facilmente a magnitude da canalhada que vocês fizeram à minha família?
Myrna contemplou o jovem através das lágrimas que empenavam: as suas lindas pupilas.
— Oh! Lex !... Eu não tenho a culpa de nada. Como podes imaginar que tenha comparticipado na desgraça que os aflige?
— Desejaria acreditar-te, Myrna...
— Podes porventura duvidá-lo?
— Já não sei em quem acreditar ou não... A vida ensinou-me a desconfiar de toda a gente. Imagina que vinha cansado de viver como Deus quis, uma existência cheia de perigos e ciladas. Pensava na ventura que me esperava ao chegar novamente para junto de meus pais... Que encontro no regresso? O pai morto, a mãe cega de tanto sofrer, a irmã a tratar de ovelhas... Achas que é pouco?
— Sou a primeira a lamentar o acontecido. Mas...
As palavras morreram-lhe nos lábios, interrompidas pelo galope de vários cavalos que se aproximavam. Lex Mulford voltou a cabeça e verificou que um grupo de três cavaleiros se dirigia diretamente para eles. No rosto de Myrna refletiu-se uma expressão de terror.
— Vai-te embora, Lex! É o meu tio Michael e dois dos seus homens que se dirigem para aqui!
O «gun-man» não se alterou absolutamente nada com as palavras da jovem, embora pelo tom com que foram pronunciadas compreendesse o medo que lhe inspirava a presença do cacique. Os cavaleiros detiveram-se muito perto dos dois jovens. O que vinha à frente do pequeno grupo encarou furiosamente com Myrna, perguntando com voz rouca:
— Que fazes aí, Myrna, falando com esse tipo? Não te disse já muitas vezes que evites falar com gente que não conheces?
— Mas, tio...
— Não há mas, nem meio mas!
Lex observou o homem em silêncio, aquele que causara a ruína e a desgraça do seu lar. Era um homem relativamente jovem — andaria à volta dos quarenta — de maciça estrutura e feições duma dureza pétrea. Sentiu vontade de levar as mãos às armas e crivá-lo de balas. Mas conteve-se. Primeiro precisava de ter a certeza de muitas coisas.
Michel Farmer voltou-se na sela. Rugindo de novo como um leão, dirigiu-se a Lex:
— E tu põe-te a andar! Se te vejo, novamente a falar com minha sobrinha...
— O quê?
— Meto-te uma bala na cabeça. Quem és?
— Isso não deve interessar-lhe muito.
— Sabes com quem estás a falar?
— Também isso não me interessa a mim.
Os dois tipos que acompanhavam Farmer contemplavam a cena calados; mas olhavam para Lex com olhos assassinos. Eram dois sujeitos de mau aspeto, que certamente se teriam oposto várias vezes a uma boa corda de cânhamo.
Lex, embora continuasse aparentemente distraído, nem por isso deixava de observar as três personagens nos mínimos movimentos. Conhecia a espécie de indivíduos que tinha em frente e não estava disposto a que o apanhassem desprevenido.
Um deles olhou para Lex de través. O seu olhar continha uma dose de veneno suficiente para fulminar vários cavalos juntos.
— Parece-me que é precisa dar uma lição a este tipo, não é verdade, «mister» Farmer? Tem demasiadas fumaças.
— Deixe-me matá-lo, patrão! — exclamou o outro.
— Tanta, pressa tens em deixar a mundo? — riu Lex com voz fria como o gelo.
Myrna tinha coração apertado. Sentia uma grande angústia ao ver o perigo que estava a correr o rapaz, pois conhecia de sobra a habilidade dos dois pistoleiros com as armas.
Muitos dos que passavam na rua tinham parado, embora a respeitável distância. Alguns deles estavam na taberna de Clarence na noite em que Lex regressou a Vale Perdido, e reconheceram imediatamente o jovem Mulford. Por isso pressentiam que aquilo não podia acabar bem de maneira alguma. Ninguém ignorava na vila os motivos de ódio que existiam entre o cacique Farmer e os Mulford, motivos de sobra para aquele diálogo acabar a tiro.
Supondo apanhar o jovem desprevenido, Michael fez um sinal impercetível aos dois homens que o acompanhavam, os quais não fizeram repetir a ordem. As suas mãos desceram aos revólveres com extraordinária rapidez.
Lexington Mulford voltou a ser o «Inexorável» uma vez mais. Esperou que as mãos dos pistoleiros se fechassem; sobre ais coronhas das armas. Então aconteceu algo que causou calafrios a quantas pessoas contemplavam a cena. Os seus braços pareceram adquirir vida momentaneamente, e num lapso de tempo que a vista humana mais apurada seria incapaz de notar, nas suas mãos apareceram dois «Colts» que brilharam sinistramente ao sol do fim da tarde. As duas detonações deram a impressão de serem uma só. Os dois adversários, que já quase tinham conseguido tirar as armas, soltaram-nas e escorregaram das selas para o chão, onde ficaram em posição grotesca.
Aquela demonstração de segurança e domínio no manejo do «Colt» deixou mudos de assombro quantos a contemplaram. Enquanto Lex assoprava os canos das suas armas e voltava a metê-las nos coldres, alguns curiosos aproximaram-se do lugar onde jaziam os dois cadáveres. De muitas bocas se ouviram exclamações de assombro. Ambos tinham um orifício na fronte e no mesmo sítio!
O facto a todos pareceu inconcebível. Ninguém da vila, excetuando os irmãos Crawford, se considerava capaz de enfrentar qualquer daqueles homens que jaziam agora sem vida na poeira da rua. Todavia, Lex Mulford fê-lo, dando-lhes ainda a vantagem de deixá-los puxar primeiro pelos revólveres.
Sem pronunciar palavra, Lex fez o cavalo dar meia volta e afastou-se em direção da taberna de Clarence.
Os olhares que lhe dirigiram Farmer e a sobrinha não podiam exprimir sentimentos mais opostos: o dele, ódio, profundo rancor pela humilhação sofrida; o dela, admiração ao verificar a valentia do homem a quem amava.
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

BIS113. A volta do pistoleiro

 
(Coleção Bisonte, nº 113)


Lex Mulford voltou à terra natal 10 anos depois de dali ter saído para se alistar com o objetivo de participar na guerra civil que devorava os Estados Unidos. Senhor de um espírito bélico assinalável, conseguiu afirmar-se como soldado e, no fim, resolveu aventurar-se pelo país, tendo ganho fama notável como pistoleiro disponível para abater indivíduos de poucos escrúpulos. Quando alguém falava em «O Inexorável» todos sabiam que de alguém muito temível se tratava.
Mas Lex resolveu descansar e quis voltar à sua terra. Aí soube que o seu pai tinha sido morto em circunstâncias estranhas, encontrou a sua mãe cega e reviu a sua antiga namorada. Decidiu esclarecer as circunstâncias em que o pai foi morto e em que condições o seu rancho tinha passado para as mãos do cacique Michael Farmer que dominava tudo e todos.
Eis uma narrativa muito interessante de Kent Wilson da qual vamos extrair uma passagem relativa ao reencontro de Lex com a sua antiga namorada, Myrna.
 

Outras passagens

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...