quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ARZ115. O misterioso «John Brown»

(Coleção Arizona, nº 115)
 
John Brown era o nome com que se identificava um indivíduo em nome de quem eram depositadas quantias elevadas provenientes do cumprimento de contratos para abater personagens incómodas.
O xerife de Dodge City viu-se assim na necessidade de descobrir o verdadeiro autor deste massacre e também o indivíduo que tinha interesse no mesmo o que se relacionava obviamente com o desejo de aumentar o património de alguém que estava no mesmo meio.
Como curiosidade, note-se que Dickinson utiliza o mesmo espaço e a mesma personagem central da obra que falámos anteriormente da sua autoria e bem assim o médico amigo do álcool que conhecemos por «Doc» Bellamy. Apesar de tudo, o livro não me pareceu tão interessante como o anterior.
Ainda a título de curiosidade, note-se a semelhança entre as personagens destas obras e as da série de banda desenhada entre nós designada por Matt Dillon (Gunsmoke) e desenhada por Harry Bishop: o xerife, o ajudante, o médico e a garota do saloon.

ARZ114. O fantoche

(Coleção Arizona, nº 114). Capa e texto indisponíveis

terça-feira, 9 de agosto de 2016

PAS654. O pistoleiro perde a lucidez

— Bebe, «Frisco»! Anda, rapaz! Bebe mais! — ria Walter Rocky, oferecendo outra garrafa desarrolhada ao pistoleiro.
Belle implorou.
— Deixem-no! Não vêem que já não sabe o que faz nem o que lhe fazem?
— Isso está bem, pequena—comentou Rocky. — precisamente o que nós queremos... Que não saiba o que faz, nem o que se lhe faz, nem o que se passa.
O outro pistoleiro, Madoc, coçou atrás da orelha.
-- Ouve, Rocky, e se nós também bebêssemos um trago? Eu não creio que o rapaz possa preocupar-nos. Está completamente embriagado.
— Não é má ideia — admitiu Walter Rocky. — Bebé, traz uma dessas garrafas.
Como flutuando nas brumas de um pesadelo, «Frisco» agitava-se no leito. O seu corpo estremecia. Em algum ponto do cérebro, conservava a lucidez, mas os nervos não respondiam às ordens da sua vontade embotada.
Através do seu infernal mal-estar, apesar de a bebedeira e de a apatia do seu espírito, com toda a clareza, começou a compreender o «porquê» daqueles homens estarem ali; «porque» não lhe tiravam a vista de cima; «porque» lhe haviam feito beber garrafa atrás de garrafa, sob a ameaça das armas, até cair vencido pelo álcool.
Estavam ali para o vigiar, para impedir que se pusesse em contacto com o xerife. O riso bailou-lhe nos lábios, mas não foi mais do que um abafado gorgolejo, um estertor da garganta... Dave Van Doren havia suspeitado parte da verdade.
Todos sabiam que ninguém era mais rápido do que «Frisco». -Os seus polegares, acionando o percutor dos «Colts», cuspiam chumbo e fogo como relâmpagos.
Salvar uma vez o xerife e permitir-lhe que continuasse com vida novamente... era demasiado para Van Doren. E Walter Rocky estava ali, com Madoc, para lhe impedir uma nova debilidade.
«Debilidade»?
«Frisco» sentiu fogo no peito. Sim... fora isso o que tivera. Porque, em anteriores ocasiões, havia matado sem hesitar, obedecendo aos Van Doren e cobrando o dinheiro prometido.
«Debilidade ?»
Que lhe havia dito Cumberlan? Dissera-lhe que ao fim de cinquenta anos ninguém se lembraria de homens como eles... mas que se deveria, precisamente a eles, o avanço da civilização e da... da Lei. Um objetivo!
Um objetivo na vida! Era isso o que Cumberlan havia alcançado! Em contrapartida... ele...
Sentiu o céu-da-boca seco e passou a língua pelos lábios.
— Queres mais uísque, «Frisco»? -- perguntou Madoc, ironicamente.
Aquelas palavras chegaram-lhe de muito longe.
A lucidez do seu cérebro era cada vez mais intensa.
Mentalmente, viu Chuck. Sim; viu-o sair do escritório e caminhar confiadamente pelo meio da rua. Era manhã cedo e toda a gente dormia ainda em Dodge. Descansando. Todos... exceto uns quantos madrugadores, sentados aqui e ali, ao longo da rua, olhando fixamente para o xerife à espera do sinal... do momento oportuno...
O apito de uma locomotiva fenderia o ar matinal.
O comboio preparar-se-ia para entrar na estação de Dodge...
«As estrelas no céu...»
De todos os lados brotariam os disparos. E Chuck, surpreendido, sem poder defender-se, cairia contra o pó e contra as pedras...
Depois, os seus matadores correriam à estação... para arrebatarem a vida a Jeff Bompard.
E aquele plano havia sido maquinado por ele!
Quis levantar-se, mas nenhum músculo, nenhum nervo obedeceu à desesperada decisão da sua vontade. Uma nuvem apagou todas as imagens do seu pensamento e, lentamente, como se mergulhasse num poço, foi perdendo a consciência, a lucidez, os sentidos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

PAS653. Uma estrela para um alcólico

Bellamy separou os maxilares, como se fosse engolir o teto. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e pestanejou, passando a língua pela boca ressequida.
Tentou levantar-se e gemeu. Cada vez que dormia naquele maldito cadeirão do escritório do xerife, despertava com dores em todo o esqueleto.
Chuck já se havia levantado. Estava de costas para ele, imóvel, olhando para a rua.
— Bons dias, meu filho!
O xerife voltou-se, sorrindo, e sentou-se.
— Gostaria de se banhar num barril de genebra, «Doc»? Isso é bom, antes do pequeno-almoço. Estimula o apetite.
Bellamy tentou levantar-se pela segunda vez e desistiu.
— Estás acordado há muito tempo?
Chuck recostou-se no espaldar da cadeira e não lhe respondeu diretamente.
— Estão a chegar ganadeiros em grande número, «Doe».
 -n natural.
— Com as suas equipas.
— Também é natural.
— Bom. Não pensará do mesmo modo se souber que os vaqueiros destas equipas têm as mãos suaves como urna donzela e usam fatos dos mais caros.
Bellamy despertou por completo.
— Pistoleiros?
— A maioria... — respondeu Cumberlan, preocupado. -- Suspeito que vou ter muito trabalho...
«Doc» firmou os pés no solo, inclinou-se para a frente e começou a levantar-se, acompanhado do sucessivo ranger de todas as articulações dos ossos.
— Se lhe cair a cabeça, avise-me, «Doe» — indicou Chuck, com amabilidade. — Recolhê-la-ei e p8-la-ei outra vez sobre os seus ombros.
— Obrigado, filho — disse Bellamy, apoiando uma mão nos rins e dobrando-se para trás. — Acontece-me o mesmo todas as manhãs.
— Porque não vai ao médico?
— Porque não te matas, Chuck Cumberlan? — bufou, irritado. Aproximou-se da mesa e fez um gesto perentório, com a palma da mão para cima. — Vamos! Uma estrela, xerife!
Chuck olhou-o com curiosidade.
— Que tem, «Doc»? Ainda não começou a beber.
— Malditos sejas! — exclamou Bellamy, tremendo. — Decidi não provar uma só gota de álcool enquanto este maldito congresso durar! Decidi proteger-te, para que nada te aconteça! Decidi ser o comissário de Dodge... e tu agradeces-me rindo-te de mim! — Vermelho de ira, voltou-se, abriu a sua maleta e girou sobre os calcanhares, apontando a Chuck um enorme «Colt». — Dá-me essa estrela, meu filho, ou o facto de teres de te pentear deixará de ser um problema para ti!
Chuck recostou-se na cadeira e contemplou o indignado médico com tranquilidade.
— Está carregado, «Doe»?
«Doe» apertou o gatilho. O estrondo fez estremecer as paredes e, quando a nuvem de fumo se dissipou, viu Chuck na mesma posição, olhando-o perplexo. — No tambor ainda se encontram cinco como essa que saiu, Chuck.
Chuck abriu uma gaveta, pegou numa estrela e deixou-a sobre a mesa.
— É sua «Doc».
A irritação do médico desapareceu e riu como um garoto.
— Sabia que não me desiludirias! — exclamou, colocando o «Colt» debaixo do braço. Pegou na estrela e prendeu-a, muito ufano, na lapela da labita. — Obrigado, Chuck! Agora já não corres nenhum perigo!
— «Doc», o que tem debaixo do braço é um revólver, não uma garrafa. Agora, que está tão contente, não se confunda e, para o festejar, não meta o cano na boca. Tragar uísque não é a mesma coisa que tragar chumbo. Este dá uma digestão mais difícil. Como médico, deve sabê-lo.
— Sim, Chuck — respondeu Bellamy, mansamente, ao mesmo tempo que escondia o «Colt» no bolso da labita.
Chuck olhou por cima do ombro e observou os estragos causados pelo disparo de Bellamy.
Movendo a cabeça tristemente, disse:
— Se não taparmos esse buraco, morrerei de uma pneumonia, «Doc». Há uma corrente de ar terrível.
— Oh! Não te preocupes. Volto já. Vou ver se arranjo umas tábuas e alguns pregos.
— Muito bem, «Doc».
                                                                             
                                                                               *
Bellamy avançava pela rua principal de Dodge como um cônsul romano num desfile triunfal. Enfunava o peito, exibindo a sua insígnia da Lei, bamboleava-se e olhava de um lado para o outro, com um gesto desdenhoso nos lábios, como se as pessoas, Dodge e a terra inteira não tivessem importância.
Ao passar defronte do «Oriente», Walter Rocky e Leslie Nelson levantaram-se de um salto. Estavam debaixo do alpendre, esperando o regresso de «Frisco» e de Dorado, sentados comodamente, com os pés cruzados apoiados sobre o varandim. Quase dormitavam. E, por isso, sobressaltaram-se, porque...
Ao ver o seu caminho impedido, Bellamy encolerizou-se E deu tal pontapé nas pernas de Nelson, que este se levantou com um gemido. Walter Rocky imitou-o, levando as mãos às armas.
Mas, ao descobrirem um ancião, que os olhava malevolamente e que, ainda por cima, ostentava a estrela de comissário, desorientaram-se.
— Não é sítio para se dormir — avisou Bellamy, de mau talante. — A próxima vez que vos encontrar assim... fechar-vos-ei numa pocilga de porcos, que era onde deveríeis estar!
E continuou o seu caminho.
Leslie Nelson coçou a cabeça.
— Este tipo é que é a Lei em Dodge?
Walter Rocky sorriu. E o seu sorriso atentou-se, até que todo ele desatou às gargalhadas.
— «As estrelas no céu»! Serão favas contadas, Leslie! — exclamou através da sua hilaridade, batendo nos quadris. – Serão favas contadas!

domingo, 7 de agosto de 2016

PAS652. A bela e o pistoleiro (2)

Belle Smith contemplou-se ao espelho e suspirou tristemente. «Frisco» era um selvagem mas nunca havia conhecido outro homem semelhante. Tal pensamento levou-a à recordação de Chuck. O xerife também a impressionava, mas, diante dele, a sua reação era diferente da que experimentava com «Frisco». Cumberlan era rígido, mas amável, duro, de poucas palavras... Diante dele sentia-se pouca coisa. Quando a olhava, parecia que lho estava a dizer com os olhos. «És pouca coisa; a tua beleza não chega para mim; não és... não representas... não sugeres... nada».
Belle passou o pente pela cabeleira.
Que atrativo teria «Virtuosa» Seam para conseguir a dedicação e o amor daquele pedaço de granito? Porque o xerife adorava-a. A ela não lhe havia escapado tal pormenor. Quando Chuck olhava «Virtuosa», estando ela distraída, as suas feições dulcificavam-se; e... quando ela se voltava para ele, adquiria de novo aquela dureza que o tornava inexpressivo.
A jovem passou os braços pela nuca e bocejou.
Talvez houvesse fogo no coração de Chuck. Recordou que, em certa ocasião, «Doc» Bellamy lhe havia dito: «Há homens tão apaixonados, que a própria violência dos seus instintos os obriga a mostrarem-se frios e indiferente». Talvez Chuck fosse um deles.
A porta abriu-se e surgiu «Frisco». Ainda não se encontrava totalmente livre dos efeitos do sono e da bebedeira. -- Bons dias, querido. Ele arqueou as sobrancelhas e olhou-a com aborrecimento.
— Que fazes aqui?
Belle soltou uma risadinha.
— Não te recordas?
Afastou-se do espelho e tentou beijá-lo, mas o pistoleiro repeliu-a.
— Deixa-me em paz! Belle Smith olhou-o, magoada.
Ele pegou num enorme alguidar de ferro lavrado, pelas asas, levantou-o e derramou toda a água que continha por cima de cabeça. Uma torrente cristalina espalhou-se-lhe pela cara, pelo tórax e encharcou-lhe as calças. Reanimado pela frescura do líquido e completamente desanuviado, «Frisco» suspirou de prazer. Em seguida, atirou o alguidar contra uma cómoda e espreguiçou-se.
-- Queres que peça o pequeno almoço ?
Ele aproximou-se da janela, pegou numa das cortinas de cores vivas e enxugou-se, esfregando a pele vigorosamente.
— Faz o que te parecer melhor.
Belle franziu os lábios com tristeza.
-- Será que já não me queres?
O pistoleiro soltou a cortina e entrou no outro aposento.
Belle seguiu-o até à porta.
— Fiz-te uma pergunta — disse com timidez.
Ele saiu com a camisa vestida, e ao mesmo tempo que segurava o cinturão e o colete com uma mão ajeitava o chapéu com a outra.
-- Vou andando.
— Não tomamos o pequeno-almoço juntos?
«Frisco» inclinou-se e deu-lhe um rápido beijo. Ao separar-se, piscou-lhe um olho.
— Não pretendas amarrar-me com as tuas enjoativas carícias, bebé. Quando me apetecer… voltarei.
Ao ficar só, Belle Smith não pode reprimir um soluço.

sábado, 6 de agosto de 2016

PAS651. A bela e o pistoleiro (1)

Belle Smith era muito jovem. O seu apelido era vulgar; mas ela era pouco parecida com uma rapariga vulgar. Pouco? Bom. Absolutamente nada parecida. Sabia-o e fazia-o saber aos demais. E os «demais» — os homens de Dodge faziam tudo por ela e dançavam ao som dos seus extravagantes caprichos.
Quando passeou os bonitos olhos pelo animado «saloon» e descobriu aquele homem, não pôde reprimir uma sensação de excitação e prazer.
«Bem parecido, forte e... parece triste», pensou Belle. E sorriu, encantada. — «Talvez seja um destes ganadeiros que não sabem o que fazer e desaproveitam o tempo. Se for tímido... brincarei um pouco com ele.»
E Belle, embaraçada pela sua própria auréola de mulher irresistível, rodeou as mesas e dirigiu-se para o «vaqueiro».
Quando chegou diante dele, disse:
-- Boas noites.
O outro continuou a contemplar o tampo da mesa e não moveu urna pestana.
Belle, boquiaberta, pensou que aquele indivíduo estava surdo. E optou por se sentar defronte dele.
— A que me convidas?
—  A que desapareças.
A rapariga corou como se acabasse de ser esbofeteada.
Levantou-se de um salto, pondo as mãos na cintura.
— Alguém já viu uma coisa destas? — gritou com voz esganiçada. Havia falado alto de propósito, para chamar a atenção. Alguns dos seus admiradores acudiriam e ela gritaria ainda mais. Então ...aquele grosseirão receberia a maior tareia da sua vida. — Quem julgas tu que és?
O outro continuou sem levantar a cabeça.
Belle Smith olhou à sua volta e comprovou que várias caras conhecidas já se haviam fixado nela.
— Desprezar-me deste modo! 7E um insulto!
— Quem te insultou, Belle? — interrogou urna voz escandalizada.
Um homem corpulento surgiu a seu lado. Parecia disposto a muitas coisas e s6 esperava uma oportunidade para o demonstrar a Belle.
A rapariga estendeu o braço.
— Este! — apontou. — Foi este cão!
Então, sim. Então, lentamente, a cabeça do «vaqueiro»... ergueu-se.
«Frisco» contemplou com as suas pupilas claras e frias a rapariga e o seu espontâneo defensor.
A cor fugiu das faces da jovem. Nunca havia visto uns olhos semelhantes. Sentiu-se desnudada, débil e humilhada.
Os homens do «saloon» haviam interrompido as suas diversões e contemplavam a cena com curiosidade.
— O que te disse ele? — perguntou o companheiro de Belle.
— Nada, Tom.
— Disse-lhe que desaparecesse! — informou-o «Frisco». -- Tu... podes fazer o mesmo.
O outro conteve a respiração.
— Creio que não vou sair sem...
Uma voz interrompeu-o.
— Quieto, Tom. Nada de exibições neste momento.
Um homem, vestido com roupas caras, aproximou-se da mesa. Cobria-se com um chapéu de excelente feltro e de copa mole, e segurava entre os dentes um volumoso charuto. — Não há motivo para te zangares com «Frisco».
As pupilas deste desviaram-se para ele... e contraíram-se impercetivelmente.
— Permites que me sente, «Prisco»?
— O que tiver a dizer será recebido de igual forma se ficar de pé.
— Eh, «Frisco»! Não me fales dessa maneira! — riu o outro. — Sou Rufus Altrop! Não te lembras de mim?
O pistoleiro quase não deslocou os lábios ao dizer:
— É precisamente por isso.
O outro voltou-se e fez um sinal aos empregados do «saloon».
— Trazei-me uísque!
Um clarão de alarme atravessou as pupilas de «Frisco».
— Não, Altrop! Sabe que não!
— Que tolice estás a dizer, rapaz?
Deixaram uma garrafa e copos sobre a mesa.
«Frisco» contemplou aquela garrafa como se ela o fascinasse.
— Para ti, «Frisco». Não... não te alteres. Festejemos o encontro...
Tom e Belle aproximaram duas cadeiras.
— Visto que todos somos amigos...
A mesa voou pelos ares. Enquanto dava voltas pelo solo e gritava aterrorizada, Belle apenas viu um homem de cujos flancos brotavam, ininterruptamente, vários fogachos.
Tom caia com a fronte manchada de sangue.
Mas «Frisco», não se ocupou dele.
Rufus Altrop, com o peito destroçado, retrocedia, empurrado por uma chuva de chumbo. E, quando tombou no solo... as balas continuaram a perfurar-lhe o corpo... até que se escutou o ruído característico dos percutores a baterem em seco.
Após o estrondo das armas, brotou um silêncio sepulcral. A atmosfera cheirava intensamente a pólvora queimada. O fumo irritava todas as gargantas.
Belle Smith contemplou «Frisco», que recarregava as armas, e levantou-se. Sentia uns desejos insuportáveis de se esconder e chorar, mas quando quis partir a voz do pistoleiro conteve-a:
— Não te movas!
Passou por cima do cadáver de Tom e aproximou-se do balcão.
Pegou nela e andou até se colocar diante de Belle. Com a mão, segurou-lhe as faces e obrigou-a a fitá-lo.
— Vamos, toca a andar lá para cima.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

PAS650. O xerife frente ao pistoleiro

— Odeio as serpentes! — disse Chuck.
— De que espécie? — perguntou uma voz, tranquilamente.
Chuck olhou de soslaio.
E viu-o.
O homem que havia falado era alto, magro, com voz de entoação irónica, sorriso pouco acentuado e olhos semicerrados. Vestia descuidadamente uma camisa de flanela vermelha, colete de couro e calças pretas; os tacões das suas botas eram espantosamente finos e as esporas de prata resultavam enormes, de bordos afiados; cobria-se com um chapéu cinzento de copa baixa e, pendentes dos estreitos quadris, assomavam dos coldres as coronhas de dois «Colt-Lightining» (1) calibre 38.
Ao observar os coldres daquele homem, Chuck reparou-lhe nas mãos e leu escrito nelas uma inquietante mensagem.
Eram umas mãos grandes, viris, nervosas, mas de pele fina, cuidada, delicada, limpa ...Os longos dedos pareciam seres elásticos e sensíveis. Só os polegares mostravam uma... suspeitosa deformidade.
Cumberlan sentiu tremer o músculo do queixo.
Debaixo da unha, a carne estava achatada e calejada como o bico de um pato.
O xerife compreendia melhor do que ninguém o que aquele calo nos polegares significava; só o mostravam os pistoleiros — os escassos pistoleiros — cujo «Colt» carecia de gatilho, estando sempre a arma montada; bastava puxar o percutor para trás e soltá-lo. Não se precisava de apertar o gatilho... e ganhava-se uma fração de segundo preciosa; sobretudo, quando dela dependia a vida.
— Você disse que odiava as serpentes, xerife — falou o homem. — Todos... todos, compreende?, sentimos ódio contra alguma coisa... ou contra alguém.
O rosto de Cumberlan tornou-se inexpressivo.
Olhou-o nos olhos, mas, mentalmente, continuou a ver aquela deformidade na polpa dos dedos... que representava um exercício ininterrupto ao longo dos anos.
Achava-se perante um dos pistoleiros denominados «pistoleiros assassinos», pois a sua cintilante rapidez em matar não era conseguida nem imitada pelos mais velozes atiradores.
E a deformação... aparecia em ambos os polegares. Uma... em cada mão.
Um «Flat-Thumb» (2) ambidextro!
Aquele indivíduo possuía tanta habilidade numa mão como na outra. Um pistoleiro... perfeito.
— Porque se olham desse modo ? — exclamou Bellamy. — Parecem... parecem duas feras à espreita!
Um som abafado estremeceu os assistentes.
O pistoleiro ria.
«Frisco» ria poucas vezes. Só quando a tensão dos nervos lhe fazia mal ao espirito... porque, por sua vez, «Frisco» havia observado detidamente Cumberlan... e sentiu pelo xerife um estranho sentimento de atracão e repulsa. Teve a certeza de se achar diante de um igual, diante de um matador, diante de outro que vivia e dormia com o revólver... E isso causou-lhe certa angústia. Algo chocou no seu interior; duas ondas de pensamentos, chegando de direções opostas...
Era o único momento da sua existência em que se sentia inseguro... Inseguro ante aqueles olhos frios, cinzentos, metálicos; ante aquela boca... aquele rosto de traços excessivamente duros.
Tinha diante de si o «seu» adversário. Não houvera outro antes; não haveria outro depois. Mas aquele longo momento passou e as feições de «Frisco» crisparam-se estranhamente.
E o rosto de Cumberlan experimentou uma reação idêntica.
O que teria sacudido a alma de ambos os homens?
«Virtuosa» Seam apenas soube que sentia uma grande angústia, e quando «Frisco», sem acrescentar palavra alguma, rodeou Chuck, passou a seu lado e entrou no «saloon», teve necessidade de se apoiar em «Doe» Bellamy, sem conseguir explicar porquê.
Mas o médico, com os olhos fixos nas esporas de Cumberlan, resolveu com umas palavras o motivo do seu temor:
— São iguais. Separa-os... uma estrela.
Chuck já se encontrava no outro passeio; dobrava a esquina... «Virtuosa» seguiu-o com o olhar.
— Bendita seja essa estrela, «Doc».
(1) «Colt-Lightning» — «Colt» — relâmpago (N. do T.).
(2) «Flat-Thumb», nome dado aos pistoleiros que utilizavam o revólver da maneira indicada. (N. do A.). <Flat-Thumb» —‘Polegar achatado». (N. do T.).

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ARZ113. Morreu o pistoleiro

(Coleção Arizona, nº 113)
 
Um congressista está para chegar a Dodge City e na sua comitiva segue um rancheiro sem escrúpulos que concebeu uma receção sangrenta para se livrar dele e dominar a região.
Do plano elaborado faz parte a execução do xerife, um antigo presidiário que não tem hesitações para defender a lei. Mas um encontro entre este xerife e o pistoleiro que elaborou o plano de ataque acabou por mudar a relação de forças conduzindo a novela para a regeneração do homem mau.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ARZ112. A sua última bala


(Coleção Arizona, nº 112)
 
Um rapaz transforma-se em alcoólico após a morte da mulher amada a sequência da invasão das instalações do rancho onde vivia. Os primos tomam conta do rancho e desenvolvem-no deixando o familiar entregue àquele triste destino.
Um médico chega à cidade onde se instala e resolve libertar o jovem Kerwin daquela dependência.
Mas há alguém que não vê aquela ação com bons olhos e o médico começa a sentir as ameaças por aquilo que ela representa de perigoso para alguém. Quem se sentia incomodado? Os primos que aspiravam a manter o desenvolvimento do rancho? Algum falso amigo por obrigação que não pudesse cumprir?
Eis um livro pouco movimentado, mas interessante que nos deixa permanentemente perante o mistério da morte de Kay, a noiva de Kerwin o qual acabou por ser esclarecido graças à ação do médico, podendo este libertar-se da dor e do vício pois acabou por fazer justiça.

ARZ111. O inferno do ódio


(Coleção Arizona, nº 111).

terça-feira, 2 de agosto de 2016

PAS649. Chegada oportuna do amor

O galope de um cavalo tinha cortado em seco o impulso dos vaqueiros que, recompostos, da impressão causada nos seus espíritos pelos acontecimentos terríveis, se lançaram sobre Jimmy disposto a acabar com ele. Abrindo caminho, Nelly Travers, que acudia à povoação após ele, compreendeu o que se passava.
Antes que a pudessem impedir, tinha-se arrojado do cavalo sobre o corpo de Jimmy, beijando-lhe os lábios frios, o rosto, e chorando sobre ele ao julgá-lo morto.
A jovem, levada por um impulso incontível, levantou-se, enfrentando os vaqueiros.
Os seus olhos chamejavam e os soluços sacudiam o seu peito.
Parecia muda de dor e de fúria, o espírito da vingança. Não conseguia articular uma só palavra, mas os seus olhos falavam por ela, amaldiçoando terrivelmente.
Dan Mack tentou aproximar-se dela. A jovem repeliu-o com um gesto violento. O seu corpo guardava, guardaria até à sua última gota de sangue, o corpo amado. Os vaqueiros calaram-se, respeitando a sua dor.
De súbito, Nelly levou as mãos à boca, tendo visto os corpos ensanguentados dos bandidos. Os seus soluços cessaram e balbuciou:
— O «Cavaleiro Negro», Searles, o «Cavaleiro Negro».
O velho rancheiro, compreendendo pelo estremecimento de Nelly e pelas suas palavras a verdade, reagiu, lançando-se para o texano.
— Vive, Nelly, vive! — exclamou.
A jovem afogou um grito na garganta e ajoelhou Junto de Jimmy.
Segundos depois, o seu ouvido, colado ao peito heroico ouvia o bater do coração de Jimmy.
Vários vaqueiros, mudos, envergonhados, levantaram o ferido, levando-o através da multidão, que abria alas.
Os olhos cheios de lágrimas de Nelly contemplavam a desolação do povoado, sobre o qual brilhava a manhã.
As mãos dela procuraram as de Jimmy, de quem não se afastou um passo.
A multidão seguia-os, e atrás deles, o cavalo do texano e o que ela usara para chegar a tempo de salvá-lo, o de Wah.
No coração de Nelly Travers a emoção punha um mundo de sentimentos e de amor. Por cima da tragédia espantosa, os seus lábios sorriram, pressentindo a felicidade.
E não se equivocava. As feridas de Jimmy «Zaragateiro», se bem que numerosas e de gravidade, não foram suficientes para matá-lo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

PAS648. O fim do Cavaleiro da Noite

Empunhando os revólveres, os cinco bandidos formavam um leque, em cujo vértice estava Jimmy, inalterável, tão imóvel, que parecia uma imagem estampada no vazio pelo resplendor das chamas.
Era uma cena de terrível intensidade, de tanto dramatismo, que parecia ultrapassar o real.
Os cinco bandidos avançavam lentamente, passo a passo, com as feições crispadas ante a serenidade do inimigo.
— Searles! — falou Jimmy, pronunciando as palavras entre os dentes. — Searles! — repetiu. — Ante os mortos que nos rodeiam, ante os homens que podem ainda morrer, acuso-te de seres o «Cavaleiro Negro»!
Antes que a última sílaba se perdesse no ar, falaram as armas. A cena ficou envolta pelo fumo da pólvora.
Ao mesmo tempo que os secos estampidos, rasgarem o ar gritos e maldições; depois, nada; um silêncio pesado, as asas negras da morte pousando na terra.
Cem pares de olhos olharam, como que hipnotizados, a tragédia. Jimmy tinha caldo, segundo parecido crivado de balas, e erguia-se sobre os joelhos.
Três bandidos, Carl, Hartlhey e Stanley, jaziam no solo, mortos, de boca para cima, com as testas atravessadas por balas.
Coberto de sangue, horroroso na sua atitude de besta que repugnava à vista, Searles lutava contra o negro manto da morte que tapava já os seus olhos.
Doe, alcançado em cheio no ventre, revolvia-se no solo, uivando
Nem um só dos espectadores se moveu, fixos na luta. Fazendo um esforço sobre-humano,
Jimmy recarregou os tambores das suas armas.
Conseguiu-o tateando os revólveres, ajudado pela sua grande experiência, enquanto o seu corpo se estremecia, sacudido violentamente pela dor.
Os seus olhos inundados de sangue, viram o rosto de Nelly, sorrindo-lhe na distância, animando-o.
Conseguiu levantar-se ainda mais.
Em frente dele, horrível, bramindo sacudido pelos últimos arrancos da sua ferocidade, o «Cavaleiro Negro» levantava o «Colt» e procurava-o, afastando as trevas que o cegavam com a mão esquerda, que era já uma garra impotente e enclavinhada.
As armas de Jimmy despejaram o seu mortal fogo, regando o corpo do bandido, que se paralisou no ar, para dobrar-se •convulsivamente, morto.
Jimmy tentou recarregar de novo, mas não o conseguiu. Os seus joelhos, subitamente leves, inexistentes, enterraram-se no vazio, arrastando-o para a morte.
Riscas vermelhas de fogo atravessavam-lhe o cérebro, e todo o seu corpo, coberto de sangue, ia ficando pesado como chumbo.
O valente texano, cumprida a sua vingança, dobrou-se sobre si mesmo, deixando de lutar.
Mas não tinha perdido os sentidos. Vagamente, confusamente, ouviu gritos à sua volta, muitos passos.
Conseguiu entreabrir os olhos e viu, envoltas em névoa, fantasmagóricas, muitas pernas que o cercavam, negras bocas de revólver que apontavam para ele. Algumas palavras soltas, irreais, chegaram ao seu cérebro.
— É o «Cavaleiro Negro»... Acabem com ele... Acabem com ele.
Então compreendeu o que se passava: morto Searles, continuavam a pensar que era ele o «Cavaleiro Negro».
Lutou para libertar-se do vazio que o prendia, da imobilidade absoluta que o vencia, e conseguiu apenas enterrara-se mais, como se estivesse preso num pântano.
Viu que uma bota lhe pisava a cara, sem o sentir, e ouviu, longe, muito longe, um estampido que abria na sua carne quase insensível uma marca silenciosa, um escorrer lento.
Tudo o que o rodeava voltou a emudecer. As pernas retrocediam. Ouvia o galope de um cavalo? Não; era silêncio, tudo silêncio.
Os incêndios aumentavam ante os seus olhos, um resplendor enorme, enchendo as suas pupilas, queimando--lhe a respiração débil, cada vez mais débil.
Sim; eram incêndios..., uma cascata de ouro, uma cabeleira. Beijavam-no beijava-o Nelly, distante e presente; Nelly.

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