domingo, 7 de agosto de 2016

PAS652. A bela e o pistoleiro (2)

Belle Smith contemplou-se ao espelho e suspirou tristemente. «Frisco» era um selvagem mas nunca havia conhecido outro homem semelhante. Tal pensamento levou-a à recordação de Chuck. O xerife também a impressionava, mas, diante dele, a sua reação era diferente da que experimentava com «Frisco». Cumberlan era rígido, mas amável, duro, de poucas palavras... Diante dele sentia-se pouca coisa. Quando a olhava, parecia que lho estava a dizer com os olhos. «És pouca coisa; a tua beleza não chega para mim; não és... não representas... não sugeres... nada».
Belle passou o pente pela cabeleira.
Que atrativo teria «Virtuosa» Seam para conseguir a dedicação e o amor daquele pedaço de granito? Porque o xerife adorava-a. A ela não lhe havia escapado tal pormenor. Quando Chuck olhava «Virtuosa», estando ela distraída, as suas feições dulcificavam-se; e... quando ela se voltava para ele, adquiria de novo aquela dureza que o tornava inexpressivo.
A jovem passou os braços pela nuca e bocejou.
Talvez houvesse fogo no coração de Chuck. Recordou que, em certa ocasião, «Doc» Bellamy lhe havia dito: «Há homens tão apaixonados, que a própria violência dos seus instintos os obriga a mostrarem-se frios e indiferente». Talvez Chuck fosse um deles.
A porta abriu-se e surgiu «Frisco». Ainda não se encontrava totalmente livre dos efeitos do sono e da bebedeira. -- Bons dias, querido. Ele arqueou as sobrancelhas e olhou-a com aborrecimento.
— Que fazes aqui?
Belle soltou uma risadinha.
— Não te recordas?
Afastou-se do espelho e tentou beijá-lo, mas o pistoleiro repeliu-a.
— Deixa-me em paz! Belle Smith olhou-o, magoada.
Ele pegou num enorme alguidar de ferro lavrado, pelas asas, levantou-o e derramou toda a água que continha por cima de cabeça. Uma torrente cristalina espalhou-se-lhe pela cara, pelo tórax e encharcou-lhe as calças. Reanimado pela frescura do líquido e completamente desanuviado, «Frisco» suspirou de prazer. Em seguida, atirou o alguidar contra uma cómoda e espreguiçou-se.
-- Queres que peça o pequeno almoço ?
Ele aproximou-se da janela, pegou numa das cortinas de cores vivas e enxugou-se, esfregando a pele vigorosamente.
— Faz o que te parecer melhor.
Belle franziu os lábios com tristeza.
-- Será que já não me queres?
O pistoleiro soltou a cortina e entrou no outro aposento.
Belle seguiu-o até à porta.
— Fiz-te uma pergunta — disse com timidez.
Ele saiu com a camisa vestida, e ao mesmo tempo que segurava o cinturão e o colete com uma mão ajeitava o chapéu com a outra.
-- Vou andando.
— Não tomamos o pequeno-almoço juntos?
«Frisco» inclinou-se e deu-lhe um rápido beijo. Ao separar-se, piscou-lhe um olho.
— Não pretendas amarrar-me com as tuas enjoativas carícias, bebé. Quando me apetecer… voltarei.
Ao ficar só, Belle Smith não pode reprimir um soluço.

sábado, 6 de agosto de 2016

PAS651. A bela e o pistoleiro (1)

Belle Smith era muito jovem. O seu apelido era vulgar; mas ela era pouco parecida com uma rapariga vulgar. Pouco? Bom. Absolutamente nada parecida. Sabia-o e fazia-o saber aos demais. E os «demais» — os homens de Dodge faziam tudo por ela e dançavam ao som dos seus extravagantes caprichos.
Quando passeou os bonitos olhos pelo animado «saloon» e descobriu aquele homem, não pôde reprimir uma sensação de excitação e prazer.
«Bem parecido, forte e... parece triste», pensou Belle. E sorriu, encantada. — «Talvez seja um destes ganadeiros que não sabem o que fazer e desaproveitam o tempo. Se for tímido... brincarei um pouco com ele.»
E Belle, embaraçada pela sua própria auréola de mulher irresistível, rodeou as mesas e dirigiu-se para o «vaqueiro».
Quando chegou diante dele, disse:
-- Boas noites.
O outro continuou a contemplar o tampo da mesa e não moveu urna pestana.
Belle, boquiaberta, pensou que aquele indivíduo estava surdo. E optou por se sentar defronte dele.
— A que me convidas?
—  A que desapareças.
A rapariga corou como se acabasse de ser esbofeteada.
Levantou-se de um salto, pondo as mãos na cintura.
— Alguém já viu uma coisa destas? — gritou com voz esganiçada. Havia falado alto de propósito, para chamar a atenção. Alguns dos seus admiradores acudiriam e ela gritaria ainda mais. Então ...aquele grosseirão receberia a maior tareia da sua vida. — Quem julgas tu que és?
O outro continuou sem levantar a cabeça.
Belle Smith olhou à sua volta e comprovou que várias caras conhecidas já se haviam fixado nela.
— Desprezar-me deste modo! 7E um insulto!
— Quem te insultou, Belle? — interrogou urna voz escandalizada.
Um homem corpulento surgiu a seu lado. Parecia disposto a muitas coisas e s6 esperava uma oportunidade para o demonstrar a Belle.
A rapariga estendeu o braço.
— Este! — apontou. — Foi este cão!
Então, sim. Então, lentamente, a cabeça do «vaqueiro»... ergueu-se.
«Frisco» contemplou com as suas pupilas claras e frias a rapariga e o seu espontâneo defensor.
A cor fugiu das faces da jovem. Nunca havia visto uns olhos semelhantes. Sentiu-se desnudada, débil e humilhada.
Os homens do «saloon» haviam interrompido as suas diversões e contemplavam a cena com curiosidade.
— O que te disse ele? — perguntou o companheiro de Belle.
— Nada, Tom.
— Disse-lhe que desaparecesse! — informou-o «Frisco». -- Tu... podes fazer o mesmo.
O outro conteve a respiração.
— Creio que não vou sair sem...
Uma voz interrompeu-o.
— Quieto, Tom. Nada de exibições neste momento.
Um homem, vestido com roupas caras, aproximou-se da mesa. Cobria-se com um chapéu de excelente feltro e de copa mole, e segurava entre os dentes um volumoso charuto. — Não há motivo para te zangares com «Frisco».
As pupilas deste desviaram-se para ele... e contraíram-se impercetivelmente.
— Permites que me sente, «Prisco»?
— O que tiver a dizer será recebido de igual forma se ficar de pé.
— Eh, «Frisco»! Não me fales dessa maneira! — riu o outro. — Sou Rufus Altrop! Não te lembras de mim?
O pistoleiro quase não deslocou os lábios ao dizer:
— É precisamente por isso.
O outro voltou-se e fez um sinal aos empregados do «saloon».
— Trazei-me uísque!
Um clarão de alarme atravessou as pupilas de «Frisco».
— Não, Altrop! Sabe que não!
— Que tolice estás a dizer, rapaz?
Deixaram uma garrafa e copos sobre a mesa.
«Frisco» contemplou aquela garrafa como se ela o fascinasse.
— Para ti, «Frisco». Não... não te alteres. Festejemos o encontro...
Tom e Belle aproximaram duas cadeiras.
— Visto que todos somos amigos...
A mesa voou pelos ares. Enquanto dava voltas pelo solo e gritava aterrorizada, Belle apenas viu um homem de cujos flancos brotavam, ininterruptamente, vários fogachos.
Tom caia com a fronte manchada de sangue.
Mas «Frisco», não se ocupou dele.
Rufus Altrop, com o peito destroçado, retrocedia, empurrado por uma chuva de chumbo. E, quando tombou no solo... as balas continuaram a perfurar-lhe o corpo... até que se escutou o ruído característico dos percutores a baterem em seco.
Após o estrondo das armas, brotou um silêncio sepulcral. A atmosfera cheirava intensamente a pólvora queimada. O fumo irritava todas as gargantas.
Belle Smith contemplou «Frisco», que recarregava as armas, e levantou-se. Sentia uns desejos insuportáveis de se esconder e chorar, mas quando quis partir a voz do pistoleiro conteve-a:
— Não te movas!
Passou por cima do cadáver de Tom e aproximou-se do balcão.
Pegou nela e andou até se colocar diante de Belle. Com a mão, segurou-lhe as faces e obrigou-a a fitá-lo.
— Vamos, toca a andar lá para cima.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

PAS650. O xerife frente ao pistoleiro

— Odeio as serpentes! — disse Chuck.
— De que espécie? — perguntou uma voz, tranquilamente.
Chuck olhou de soslaio.
E viu-o.
O homem que havia falado era alto, magro, com voz de entoação irónica, sorriso pouco acentuado e olhos semicerrados. Vestia descuidadamente uma camisa de flanela vermelha, colete de couro e calças pretas; os tacões das suas botas eram espantosamente finos e as esporas de prata resultavam enormes, de bordos afiados; cobria-se com um chapéu cinzento de copa baixa e, pendentes dos estreitos quadris, assomavam dos coldres as coronhas de dois «Colt-Lightining» (1) calibre 38.
Ao observar os coldres daquele homem, Chuck reparou-lhe nas mãos e leu escrito nelas uma inquietante mensagem.
Eram umas mãos grandes, viris, nervosas, mas de pele fina, cuidada, delicada, limpa ...Os longos dedos pareciam seres elásticos e sensíveis. Só os polegares mostravam uma... suspeitosa deformidade.
Cumberlan sentiu tremer o músculo do queixo.
Debaixo da unha, a carne estava achatada e calejada como o bico de um pato.
O xerife compreendia melhor do que ninguém o que aquele calo nos polegares significava; só o mostravam os pistoleiros — os escassos pistoleiros — cujo «Colt» carecia de gatilho, estando sempre a arma montada; bastava puxar o percutor para trás e soltá-lo. Não se precisava de apertar o gatilho... e ganhava-se uma fração de segundo preciosa; sobretudo, quando dela dependia a vida.
— Você disse que odiava as serpentes, xerife — falou o homem. — Todos... todos, compreende?, sentimos ódio contra alguma coisa... ou contra alguém.
O rosto de Cumberlan tornou-se inexpressivo.
Olhou-o nos olhos, mas, mentalmente, continuou a ver aquela deformidade na polpa dos dedos... que representava um exercício ininterrupto ao longo dos anos.
Achava-se perante um dos pistoleiros denominados «pistoleiros assassinos», pois a sua cintilante rapidez em matar não era conseguida nem imitada pelos mais velozes atiradores.
E a deformação... aparecia em ambos os polegares. Uma... em cada mão.
Um «Flat-Thumb» (2) ambidextro!
Aquele indivíduo possuía tanta habilidade numa mão como na outra. Um pistoleiro... perfeito.
— Porque se olham desse modo ? — exclamou Bellamy. — Parecem... parecem duas feras à espreita!
Um som abafado estremeceu os assistentes.
O pistoleiro ria.
«Frisco» ria poucas vezes. Só quando a tensão dos nervos lhe fazia mal ao espirito... porque, por sua vez, «Frisco» havia observado detidamente Cumberlan... e sentiu pelo xerife um estranho sentimento de atracão e repulsa. Teve a certeza de se achar diante de um igual, diante de um matador, diante de outro que vivia e dormia com o revólver... E isso causou-lhe certa angústia. Algo chocou no seu interior; duas ondas de pensamentos, chegando de direções opostas...
Era o único momento da sua existência em que se sentia inseguro... Inseguro ante aqueles olhos frios, cinzentos, metálicos; ante aquela boca... aquele rosto de traços excessivamente duros.
Tinha diante de si o «seu» adversário. Não houvera outro antes; não haveria outro depois. Mas aquele longo momento passou e as feições de «Frisco» crisparam-se estranhamente.
E o rosto de Cumberlan experimentou uma reação idêntica.
O que teria sacudido a alma de ambos os homens?
«Virtuosa» Seam apenas soube que sentia uma grande angústia, e quando «Frisco», sem acrescentar palavra alguma, rodeou Chuck, passou a seu lado e entrou no «saloon», teve necessidade de se apoiar em «Doe» Bellamy, sem conseguir explicar porquê.
Mas o médico, com os olhos fixos nas esporas de Cumberlan, resolveu com umas palavras o motivo do seu temor:
— São iguais. Separa-os... uma estrela.
Chuck já se encontrava no outro passeio; dobrava a esquina... «Virtuosa» seguiu-o com o olhar.
— Bendita seja essa estrela, «Doc».
(1) «Colt-Lightning» — «Colt» — relâmpago (N. do T.).
(2) «Flat-Thumb», nome dado aos pistoleiros que utilizavam o revólver da maneira indicada. (N. do A.). <Flat-Thumb» —‘Polegar achatado». (N. do T.).

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ARZ113. Morreu o pistoleiro

(Coleção Arizona, nº 113)
 
Um congressista está para chegar a Dodge City e na sua comitiva segue um rancheiro sem escrúpulos que concebeu uma receção sangrenta para se livrar dele e dominar a região.
Do plano elaborado faz parte a execução do xerife, um antigo presidiário que não tem hesitações para defender a lei. Mas um encontro entre este xerife e o pistoleiro que elaborou o plano de ataque acabou por mudar a relação de forças conduzindo a novela para a regeneração do homem mau.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ARZ112. A sua última bala


(Coleção Arizona, nº 112)
 
Um rapaz transforma-se em alcoólico após a morte da mulher amada a sequência da invasão das instalações do rancho onde vivia. Os primos tomam conta do rancho e desenvolvem-no deixando o familiar entregue àquele triste destino.
Um médico chega à cidade onde se instala e resolve libertar o jovem Kerwin daquela dependência.
Mas há alguém que não vê aquela ação com bons olhos e o médico começa a sentir as ameaças por aquilo que ela representa de perigoso para alguém. Quem se sentia incomodado? Os primos que aspiravam a manter o desenvolvimento do rancho? Algum falso amigo por obrigação que não pudesse cumprir?
Eis um livro pouco movimentado, mas interessante que nos deixa permanentemente perante o mistério da morte de Kay, a noiva de Kerwin o qual acabou por ser esclarecido graças à ação do médico, podendo este libertar-se da dor e do vício pois acabou por fazer justiça.

ARZ111. O inferno do ódio


(Coleção Arizona, nº 111).

terça-feira, 2 de agosto de 2016

PAS649. Chegada oportuna do amor

O galope de um cavalo tinha cortado em seco o impulso dos vaqueiros que, recompostos, da impressão causada nos seus espíritos pelos acontecimentos terríveis, se lançaram sobre Jimmy disposto a acabar com ele. Abrindo caminho, Nelly Travers, que acudia à povoação após ele, compreendeu o que se passava.
Antes que a pudessem impedir, tinha-se arrojado do cavalo sobre o corpo de Jimmy, beijando-lhe os lábios frios, o rosto, e chorando sobre ele ao julgá-lo morto.
A jovem, levada por um impulso incontível, levantou-se, enfrentando os vaqueiros.
Os seus olhos chamejavam e os soluços sacudiam o seu peito.
Parecia muda de dor e de fúria, o espírito da vingança. Não conseguia articular uma só palavra, mas os seus olhos falavam por ela, amaldiçoando terrivelmente.
Dan Mack tentou aproximar-se dela. A jovem repeliu-o com um gesto violento. O seu corpo guardava, guardaria até à sua última gota de sangue, o corpo amado. Os vaqueiros calaram-se, respeitando a sua dor.
De súbito, Nelly levou as mãos à boca, tendo visto os corpos ensanguentados dos bandidos. Os seus soluços cessaram e balbuciou:
— O «Cavaleiro Negro», Searles, o «Cavaleiro Negro».
O velho rancheiro, compreendendo pelo estremecimento de Nelly e pelas suas palavras a verdade, reagiu, lançando-se para o texano.
— Vive, Nelly, vive! — exclamou.
A jovem afogou um grito na garganta e ajoelhou Junto de Jimmy.
Segundos depois, o seu ouvido, colado ao peito heroico ouvia o bater do coração de Jimmy.
Vários vaqueiros, mudos, envergonhados, levantaram o ferido, levando-o através da multidão, que abria alas.
Os olhos cheios de lágrimas de Nelly contemplavam a desolação do povoado, sobre o qual brilhava a manhã.
As mãos dela procuraram as de Jimmy, de quem não se afastou um passo.
A multidão seguia-os, e atrás deles, o cavalo do texano e o que ela usara para chegar a tempo de salvá-lo, o de Wah.
No coração de Nelly Travers a emoção punha um mundo de sentimentos e de amor. Por cima da tragédia espantosa, os seus lábios sorriram, pressentindo a felicidade.
E não se equivocava. As feridas de Jimmy «Zaragateiro», se bem que numerosas e de gravidade, não foram suficientes para matá-lo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

PAS648. O fim do Cavaleiro da Noite

Empunhando os revólveres, os cinco bandidos formavam um leque, em cujo vértice estava Jimmy, inalterável, tão imóvel, que parecia uma imagem estampada no vazio pelo resplendor das chamas.
Era uma cena de terrível intensidade, de tanto dramatismo, que parecia ultrapassar o real.
Os cinco bandidos avançavam lentamente, passo a passo, com as feições crispadas ante a serenidade do inimigo.
— Searles! — falou Jimmy, pronunciando as palavras entre os dentes. — Searles! — repetiu. — Ante os mortos que nos rodeiam, ante os homens que podem ainda morrer, acuso-te de seres o «Cavaleiro Negro»!
Antes que a última sílaba se perdesse no ar, falaram as armas. A cena ficou envolta pelo fumo da pólvora.
Ao mesmo tempo que os secos estampidos, rasgarem o ar gritos e maldições; depois, nada; um silêncio pesado, as asas negras da morte pousando na terra.
Cem pares de olhos olharam, como que hipnotizados, a tragédia. Jimmy tinha caldo, segundo parecido crivado de balas, e erguia-se sobre os joelhos.
Três bandidos, Carl, Hartlhey e Stanley, jaziam no solo, mortos, de boca para cima, com as testas atravessadas por balas.
Coberto de sangue, horroroso na sua atitude de besta que repugnava à vista, Searles lutava contra o negro manto da morte que tapava já os seus olhos.
Doe, alcançado em cheio no ventre, revolvia-se no solo, uivando
Nem um só dos espectadores se moveu, fixos na luta. Fazendo um esforço sobre-humano,
Jimmy recarregou os tambores das suas armas.
Conseguiu-o tateando os revólveres, ajudado pela sua grande experiência, enquanto o seu corpo se estremecia, sacudido violentamente pela dor.
Os seus olhos inundados de sangue, viram o rosto de Nelly, sorrindo-lhe na distância, animando-o.
Conseguiu levantar-se ainda mais.
Em frente dele, horrível, bramindo sacudido pelos últimos arrancos da sua ferocidade, o «Cavaleiro Negro» levantava o «Colt» e procurava-o, afastando as trevas que o cegavam com a mão esquerda, que era já uma garra impotente e enclavinhada.
As armas de Jimmy despejaram o seu mortal fogo, regando o corpo do bandido, que se paralisou no ar, para dobrar-se •convulsivamente, morto.
Jimmy tentou recarregar de novo, mas não o conseguiu. Os seus joelhos, subitamente leves, inexistentes, enterraram-se no vazio, arrastando-o para a morte.
Riscas vermelhas de fogo atravessavam-lhe o cérebro, e todo o seu corpo, coberto de sangue, ia ficando pesado como chumbo.
O valente texano, cumprida a sua vingança, dobrou-se sobre si mesmo, deixando de lutar.
Mas não tinha perdido os sentidos. Vagamente, confusamente, ouviu gritos à sua volta, muitos passos.
Conseguiu entreabrir os olhos e viu, envoltas em névoa, fantasmagóricas, muitas pernas que o cercavam, negras bocas de revólver que apontavam para ele. Algumas palavras soltas, irreais, chegaram ao seu cérebro.
— É o «Cavaleiro Negro»... Acabem com ele... Acabem com ele.
Então compreendeu o que se passava: morto Searles, continuavam a pensar que era ele o «Cavaleiro Negro».
Lutou para libertar-se do vazio que o prendia, da imobilidade absoluta que o vencia, e conseguiu apenas enterrara-se mais, como se estivesse preso num pântano.
Viu que uma bota lhe pisava a cara, sem o sentir, e ouviu, longe, muito longe, um estampido que abria na sua carne quase insensível uma marca silenciosa, um escorrer lento.
Tudo o que o rodeava voltou a emudecer. As pernas retrocediam. Ouvia o galope de um cavalo? Não; era silêncio, tudo silêncio.
Os incêndios aumentavam ante os seus olhos, um resplendor enorme, enchendo as suas pupilas, queimando--lhe a respiração débil, cada vez mais débil.
Sim; eram incêndios..., uma cascata de ouro, uma cabeleira. Beijavam-no beijava-o Nelly, distante e presente; Nelly.

domingo, 31 de julho de 2016

PAS647. A ansiosa espera pelo Cavaleiro da Noite

Velozmente, rompendo o silêncio com o golpear dos seus cascos, os sete cavalos atravessavam Silvered Valley (1).
Eram os «Cavaleiros da Noite», negros na escuridão sem lua, sinistros como a própria noite, portadores da ignomínia, quando não da morte.
Desciam dos contrafortes da montanha que fechava como uma cadeia purpúrea, o vale.
Sombras de uma realidade horrenda, demónios à solta, ávidos de sangue e de extermínio.
A sua passagem, nos ranchos e no povoado que atravessaram como centelhas, semeando uma chuva de chispas no sol endurecido, ficava marcada uma senda de terror.
Só quando caia a noite saiam da sua guarida ignorada, mas eles eram a Lei, uma Lei caprichosa e maldita, imposta à força de sangue e de fogo.
Silvered Valiey tinha lutado de início denodadamente contra a onda de crimes perpetrados pelos malfeitores, mas pouco a pouco, caldos os seus melhores homens, aterrados os outros, arruinados e saqueados os rancheiros, teve que dobrar-se à vontade dos misteriosos cavaleiros.
Nunca ninguém os tinha visto senão de noite, com os rostos cobertos por lenços até aos olhos, entre uma cortina de chumbo.
Os corcéis, esporeados sem piedade, deitando espuma pelas bocas, húmidos de sangue os flancos incessantemente feridos pelas esporas de aço, corriam separados, formando um círculo.

sábado, 30 de julho de 2016

POL120. O cavaleiro da noite

(Coleção Pólvora, nº 120)


Um homem é maltratado por uma série de rufiões que o deixam à beira da morte, mas, escapando por milagre, resolve voltar ao local da agressão e vingar-se. Trata-se de Jimmy, «o zaragateiro», designação que diz bem da força do indivíduo.
Jimmy entra em contato com uma jovem cuja habitação foi vandalizada e saqueada pelo mesmo grupo de indivíduos, apelidados de «Cavaleiros da Noite». Ao ver seu pai morrer às mãos deles a rapariga fugiu não sem antes o pai lhe confiar a identidade do chefe do bando. Conhecendo a sua história, Jimmy resolve ajudá-la. E tudo chega a bom porto, embora o nosso herói acabe por ser confundido com o Cavaleiro da Noite e pago por isso mais uma vez recebendo balas que procuravam matá-lo.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

PAS646. A última missão do cavaleiro ferido (4)

Bastaram uns segundos para que o tenente Olson se encontrasse junto da sentinela e de Macleed. Encontrou o homem de vigia bastante agitado, apontando com o braço estendido para a planície que se abria, interminável, diante do pequeno forte.
— Um cavalo e um cavaleiro, senhor! — anunciou. — E repare em todos esses abutres.
O oficial compreendeu num abrir e fechar de olhos a situação difícil daquele desgraçado, a quem apenas a força da montada aproximava do forte. Voltando-se ao mesmo tempo que empunhava o apito que trazia sempre num dos bolsos, Mith levou-o aos lábios e emitiu um silvo prolongado que, momentos depois, o corneteiro repetia junto dos barracões que havia ao lado da cozinha.
Abriram-se as portas e os homens saíram em tropel. Segundos depois, corriam para as cavalariças, de onde não tardaram a surgir já a cavalo, enquanto a sentinela da outra torre havia descido para abrir a dupla porta que havia entre os postos de observação.
Macleed, entretanto, abandonara o alto da torre mal soara o apito de Olson e segurava sua montada e a do seu superior pela brida.
De um salto, Olson montou e esporeou o animal, que saiu lançado como uma flecha em direção àquele ponto que se destacava sobre a planície e cuja situação se podia ver perfeitamente graças aos abutres que, decididos agora a tudo, o rodeavam.
Efetivamente, um dos abutres havia-se lançado por fim sobre a cabeça do animal, desferindo-lhe uma furiosa bicada. O animal encabritara-se e, como consequência, o corpo do cavaleiro deslizava da sela para o solo, onde jazia agora estendido com os braços em cruz, olhando para um sol que já não podia ver.
Lançando grasnidos selvagens, o resto dos abutres preparou-se para se precipitar sobre o corpo do homem, já que o animal, ferido na cabeça, abanando o pescoço e escoiceando o ar, se afastava espantado, correndo a toda a velocidade para o forte, onde, segundo a sua intuição lhe dizia, se encontrava a única salvação possível naquele caso.
Dando-se conta do que estava a suceder, Olson, sem deixar de galopar, voltou-se para os seus homens e ergueu o braço direito.
Seis carabinas dispararam ao mesmo tempo.
Três dos abutres tombaram pesadamente no solo, movendo as imensas asas como se se despedissem da vida. Os outros, assustados, afastaram-se do corpo do homem, a quem já estavam dispostos a dar as definitivas e fulgurantes bicadas que lhe teriam desfeito a cabeça num abrir e fechar de olhos.
Felizmente, o tenente e os seus homens acabavam de chegar.
Disparando raivosamente contra o resto dos abutres os batedores, sob as ordens do oficial, encarregaram-se de recolher o corpo inanimado do homem e colocaram-no com sumo cuidado sobre um dos cavalos. Segundos depois, voltavam a toda a velocidade para o forte, onde o doutor Walter poderia prestar-lhe assistência imediata.
Donald recuperou o cavalo ferido na cabeça e levou-o para a cavalariça, onde o tratou com carinho, limpando--lhe o suor e preparando-lhe uma ração de feno após ter feito dessedentar-se numa tina repleta de água transparente.
Entretanto, na enfermaria, o doutor Walter, pertencendo também ao Corpo de batedores do Texas, encontrava-se a limpar as feridas do corpo desnudado do homem. A seu lado, o tenente Olson e o sargento Macleed observavam espantados aqueles enormes e graves ferimentos que, a seus olhos, tal como aos do médico, não ofereciam possibilidade alguma de se recuperar aquela vida humana.
O ferido gemeu debilmente.
— Doutor...
Walter moveu a cabeça para o oficial.
— Que deseja, senhor?
— Este homem não viverá muito. Por que não damos um pouco de uísque? Ele tem de falar, doutor!
— Compreendo-o.
Foi o sargento quem aproximou o cantil dos lábios do ferido, cuja cabeça havia sido soerguida pelo médico. Os lábios estavam gretados, trémulos, quase arroxeados. Mas aquele infeliz bebeu um par de golos de uísque, tossindo ao princípio, cuspindo depois quando a primeira reação à violenta bebida se produziu e, finalmente, engolindo com tranquilidade e vagar. E não tardou a surgir-lhe na face um tom levemente rosado.
Abriu os olhos.
Durante uns instantes o seu olhar pareceu concentrar-se num ponto infinito, em algo que nenhum dos presentes podia compreender. Depois, pouco a pouco, à medida que os seus olhos adquiriam um brilho mais vivo, moveu a cabeça e, ao ver o rosto do tenente, do médico e do sargento, esboçou um ténue e triste sorriso que mais pareceu uma careta que outra coisa.
Foi só nessa altura que Olson o identificou.
— Você é o senhor Samuelson, não é verdade? — inquiriu, aproximando o rosto do ferido.
— Sim... — respondeu o outro com um fio de voz.
— Que aconteceu?
Um estremecimento percorreu o corpo do moribundo. Por um momento o tenente receou que aquele fosse o sinal evidente da morte que se apoderava a pouco e pouco do corpo do ancião. Mas dominando o terror que devia ainda intimidá-lo, o ferido lançou um novo e profundo suspiro, dizendo depois com voz débil, dificilmente audível:
— Foi... horrível... senhor...
— Acalme-se — interveio o médico, que tinha a mão direita apoiada no lado esquerdo do peito do ferido, percebendo assim melhor do que os outros a irregularidade das pulsações daquele coração que estava quase a parar para sempre.
— Foi horrível... — repetiu o velho. — Atacaram-nos... tenente...
— Quem?
— Os índios...
Mith franziu o sobrolho.
— Que índios? — insistiu, olhando o ferido com fi-xidez.
— Não sei... Eu não os conheço...
O sargento interveio, aproximando-se por sua vez do moribundo.
— Por favor, senhor Samuelson. Não responda por agora. Escute-me. Bastará mover a cabeça afirmativa ou negativa. Compreende?
Samuelson fez um gesto afirmativo.
— Eram índios?
A cabeça do ancião moveu-se em sinal afirmativo.
— Usavam um lenço amarrado à volta da cabeça?
O moribundo voltou a dizer que sim, mas cada vez com maior dificuldade.
— De que cor?
Os lábios do velho moveram-se, mas nenhum som lhe saiu da boca. Finalmente, compreendendo que havia formulado uma pergunta de maneira equívoca, o sargento apressou-se a inquirir:
— Vermelho?
Samuelson negou com a cabeça.
— Amarelo?
Uma nova negativa.
— Azul?
Samuelson, desta vez, disse que sim com a cabeça.
O sargento lançou um rugido, voltando-se depois para o oficial.
— São os «chiricaguas» de Jimeno, senhor. Não há a menor dúvida. Sempre usaram um lenço azul na cabeça.
Para se distinguirem dos «apaches chiricaguas» de Jerónimo, os índios de Jimeno, os mesmos que tantos problemas lhes haviam levantado no Inverno anterior, amarravam a testa com um lenço de intensa cor azul; já não havia qualquer dúvida quanto à identidade dos atacantes de New Ville.
Foi a vez do tenente interrogar o ferido:
— Há mais sobreviventes?
Por momentos o moribundo deu a impressão de que não responderia. Mas fazendo um supremo esforço, o último, moveu a cabeça, tristemente, de um lado para o outro. Depois, lançando um grito rouco, que lhe saiu do mais fundo do seu peito, tentou erguer-se, apoiando os braços na cama onde jazia. Abriu os olhos desmesuradamente, ao mesmo tempo que estes adquiriam uma cor vítrea que não deixava margem para quaisquer esperanças. Depois, com a boca aberta, como se quisesse respirar todo o ar que já não podia entrar nos seus pulmões, permaneceu um par de segundos naquela estranha e trágica posição. Caiu finalmente para trás e, inclinando a cabeça para o lado direito, ficou imóvel para sempre.
A mão do médico continuava pousada sobre o tórax do ancião.
— Morreu — anunciou.
Olson olhou o pobre velho com simpatia. O seu corpo desnudado mostrava bem que apesar de a idade continuava a ser um homem forte, que viveria muitos anos se a morte não o atingisse de modo tão violento. Uma vida ceifada sem proveito algum... Como outras que, tal como dissera antes de morrer, haviam sido destruídas para sempre naquela terra onde a erva, inclusive sob um sol de fogo, era alta e se movia como o dorso imenso de um animal gigantesco.
— Maldito Jimeno; — resmungou o sargento.

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