sábado, 9 de julho de 2016

BUF118. CAP VI

Mas a tormenta não só não passara, como era a partir daquele momento que adquiria a sua maior violência. Acumulava o seu poder para descarrega-lo com terrível virulência.
Respirava-se a tremenda carga de eletricidade da atmosfera e as lufadas de ar criavam singulares efeitos óticos. As árvores tinham uma espectral fosforescência. Nos currais os animais agitavam-se, inquietos, revolvendo--se e grunhindo ou resfolegando.
As aves, pousadas nos ramos, abriam o bico e arfavam, mas sem emitirem os seus pios, com as penas eriçadas; e os mochos e as corujas encolhiam a cabeça entre as asas e observavam as luzes misteriosas suspensas no ar.
Ted experimentava como que uma trágica ansiedade. Afagava os negros cabelos de Castile e beijava-lhe os lábios, mas tinha a convicção, ao mesmo tempo, de que - ela estava muito longe, de que entre ambos se abria um negro abismo.
— No Alasca — disse — começaremos a viver como se não tivéssemos passado. Ninguém nos perguntará de onde viemos.
— Ted, não é possível o que dizes. A vida não é tao simples, não compreendes? Eu não posso renunciar a esta oportunidade que se proporciona ao meu povo. Oh, compreende-me! É certo que são degenerados e beberrões, mas não têm culpa disso. Tu sabes que não têm culpa.
— Mas não podes aceitar a oferta de meu pai, Castile! Os meus irmãos não consentiriam.
— Terão de resignar-se, Ted.
Castile levantou-se da pele de urso e ajeitou a saia tecida de pelo de cabra selvagem, sobre urdidura de casca de cedro entrançada, que, juntamente com os mocassins bordados e a faixa que lhe cingia a cabeça, constituíam o seu traje de rapariga pele-vermelha.
— Qualquer outra coisa tê-la-ia recusado, Ted; mas essa não. Não posso brincar com o destino do meu povo. Essas terras e esse dinheiro podem conseguir que recuperem a liberdade perdida.
Ted levantou-se tambem.
— Estás louca. Bem sabia o velho qual era o teu ponto fraco. Mas se acreditas, nem que seja só por Um momento, que os meus irmãos e os demais homens brancos da terra consentirão nessa partilha, a porque tens a inteligência ofuscada.
— O meu povo também sabe defender-se — declarou Castile, tomando a atitude das heroínas bíblicas.
Ted compreendeu ser inútil discutir. Aquilo era o pior: o caracter messiânico dos índios que tinham escutado as prédicas dos missionários e se haviam convertido ao cristianismo, mas sem renunciarem as suas superstig5es e costumes.
Castile era diferente, claro, porque cultivara o espirito e lera não só a Bíblia, mas também quantos livros apanhara à mão. De qualquer forma, pensava em «zunhi» e sentia como tal, apesar de ser certo que amava Ted.
Ia a replicar-lhe e a dizer-lhe que se oporia por seu turno, quando a manta que separava o aposento do outro quarto foi afastada violentamente e surgiu diante deles Tagus, com a carabina na mão direita. Era evidente que estivera a escuta. E o que demonstrava a sua extraordinária perícia de seguidor de pistas era que nenhum dos dois jovens se apercebera da sua presença.
Fitou a irmã com raiva e depois Ted.
— És uma traidora que desonras o teu povo dando ouvidos a este branco! — gritou.
— Cala-te, Tagus! — Castile enfrentou-o, furiosa — não sabes o que dizes.
— Julgas que não vi? Havia tempo que suspeitava. E por causa dele vais renunciar ao que te oferece o outro. Pelo menos, se tens de portar-te como uma branca, fá-lo com proveito.
Ted deu um passo para o «zunhi» e descarregou-lhe um murro que o apanhou em cheio no queixo pontiagudo. Tagus saltou para trás e a cabeça chocou-lhe com força com a parede. Inclinou-se imediatamente para diante e Ted bateu-lhe com o outro punho.
— Maldito patife! — bramou. — Quem és tu para falares à tua irmã nesse tom?
Tagus ficara como que aparvalhado; mas Ted conhecia bem as suas artimanhas, pois não fora em vão que haviam lutado em garotos e que o Índio lhe ensinara todos os seus truques. Por isso, quando ele lhe saltou em cima, recebeu-o com outro par de socos, que o atiraram para um canto, definitivamente aturdido. Ted aproximou-se dele e obrigou-o a pôr-se em pé, para esbofeteá-lo com sanha.
— Não tentes atacar-me novamente, ou matar-te-ei. Ouves? — ameaçou-o. — E convence-te de uma vez que a tua irmã a melhor do que tu. Vou ajudá-la nesse plano em que se empenharam, apesar de estar convencido de que não acabará bem.
Largou-o e Tagus caiu de joelhos. E assim ficou, abanando a cabeça, incapaz de coordenar ideias. Ted virou-se então para Castile.
— Isto é uma amostra do que te espera — disse. — Vais sacrificar-te por quem não o merece. E sacrificar a única pessoa que te interessa.
— Ted!
— Deixa-me. Preciso de ir ter com os meus irmãos. Estão à minha espera na povoação. Procurarei convence--los a aceitarem esse casamento... sem dizer-lhes, claro está, a segunda parte.
— E por que nao? Diz-lhes tudo; não os temo.
Ted fitou-a de sobrancelhas franzidas. Decerto era verdade que não os temia; mas porque não conhecia bem os Boyce e os aventureiros estabelecidos em Sulphur Valley, que sonhavam pendurar do cinto todas as cabeleiras dos peles-vermelhas, como se fossem peles de animais selvagens.
Por outro lado, admitia que a tentação de que o velho se servira para vergar Castile aos seus desejos era muito forte. Ela podia deixar-se seduzir pela ideia de reabilitar os seus irmãos de raça, oferecer-lhes nova oportunidade de fugirem do álcool e da miséria que os consumia.
— Isto acabará mal, Castile — confessou. — Não é possível proceder... como tu queres. Vamos enganar o velho, que merecia lhe disséssemos a verdade a nosso respeito. E os teus não apreciarão o teu gesto, antes pensarão que ages no teu próprio interesse. Bem ouviste o teu irmão.
— Não me importo. E quanto a nós, Ted, podemos esperar. Somos novos e o teu pai é velho e está muito doente. Nada de censurável existe em que torne agradável o tempo que lhe resta de vida.
— Não sei, não sei. Estou certo de que desafiamos demasiadas coisas. Os meus irmãos não tolerarão semelhante perda.
— Eles participarão também da herança.
Ted meneou afirmativamente a cabeça.
— Nas mesmas condições dos outros, não? Não é um procedimento honesto, Castile, reconhece-o. Mas, enfim, seguiremos o teu plano.
E sem mais palavras, saiu do aposento. Desceu a escada. Quando chegou ao andar debaixo, hesitou uns segundos. Por fim, aproximou-se do quarto de Hub. Escutou com o ouvido colado à porta, mas não ouviu nada. Bateu então. Após algum tempo de espera, convenceu-se de que o aleijado não queria nada com ele, ou que estava tão ferrado no sono que não ouvia bater.
Encolheu os ombros e saiu definitivamente de casa. Reinava uma calma insólita. O vento cessara por completo. E no céu estendia-se uma espécie de resplendor contínuo, violáceo. A atmosfera era opressiva e podia esperar-se que se produzissem as coisas mais extraordinárias nela.
Ted despediu-se de Dilley, que começara o seu turno, e montou o alazão. Meteu-o a trote, a caminho de Sulphur Valley. E conforme se aproximava da povoação, aumentava o seu pressentimento de uma tragedia iminente.
Descobriu a entrada da povoação o mesmo índio mendigo, entregue a habitual choradeira e prostração. Ao chegar a entrada do «saloon», verificou que la dentro reinava a animação do costume. Deixou-se cair da sela e atou as rédeas a um poste. Depois, penetrou no estabelecimento.
Notou, sem demora, que alguma coisa mudara, embora não soubesse o quê. Mas os irmaos não se encontravam no canto onde os deixara. Dany saiu-lhe ao caminho, apercebeu-se dos olhares que os demais clientes cravavam em si.
O capataz estava preocupado.
— Ted, meu rapaz, quero falar contigo.
— Bern. Por que não falas?
— Vamos um momento até lá fora — propôs Dany, pegando no braço do seu jovem patrão.
No alpendre, os dois homens ficaram frente a frente. Ted julgou notar que Dany o observava atentamente com os seus olhos cinzentos, como se o visse pela primeira vez.
— Ted, ouvimos umas coisas. Roland veio a nossa mesa e contou-nos a intenção de vosso pai a respeito da pele-vermelha. Que sabes a esse respeito? Falaste com o velho?
— Sim. E casam-se.
Estabeleceu-se um significativo silêncio. Depois, Dany suspirou e na penumbra viu-se que cerrava os punhos.
— E é verdade que pensa tornar seus herdeiros os piolhosos índios daqui? Que por sua morte o rancho desaparecerá, ou melhor dizendo, que servirá para que essa turba o invada e o converta de novo num acampamento «zunhi»?
Ted abriu a boca estupefacto. Como teriam sabido daquilo? Mas notou que o capataz esperava a sua resposta. E teve a certeza de que se desencadearia um inferno, quando a desse. Mas que outra coisa poderia fazer?
— Tao certo, Dany, como ser uma loucura de marca maior subir ao alto do Whitney (1) em trajes menores. Mas o velho decidiu assim.
Outra pausa. Ted escutava agora a respiragao agitada do capataz. Teria podido revelar um por um todos os seus pensamentos. E desculpava-o.
— Com mil demónios, Ted, não podes admitir tal coisa!
Nisso residia a provação. Segundo a lógica daqueles homens, deveria juntar-se aos irmãos e opor-se as ideias de Walter Boyce. Em boa justiça, deveria fazê-lo. Mas os seus sentimentos não iam por aquele lado. Os abutres e os chacais podem defender o seu direito de comer came putrefacta, mas não existe nenhuma lei que obrigue a compartilhar os seus gostos.
Ted já tomara partido; não permitiria que amargurassem os últimos dias do velho. E quanto a herança, não tinha interesse nenhum nela, e embora a restituição aos índios lhe parecesse um disparate, se aquele era o desejo de Walter, respeitá-lo-ia.
— Pois enganas-te, Dany. Não me agrada, mas não penso fazer nada para impedi-lo.
As fortes mãos do companheiro agarraram-no pelos braços e o seu bafo bateu-lhe na cara.
— Ted, repito que não podes fazer uma coisa dessas. Os ânimos andam muito exaltados. Essa ovelha ronhosa do Overton agarrou o ensejo pelos cabelos e está a incitar os homens para que evitem o que qualifica de erro monstruoso. Sabes o que vai acontecer?
— Nao. Julgas que se atreveriam a dirigir-se ao velho para obrigá-lo pela força?
— Pior, Ted. Os teus irmãos não transigirão com a situação que lhes criaram. Para eles, a perfeitamente justificado eliminar essa mulher, que consideram ter-se apoderado da vontade do vosso pai por maus processos. E Overton pode oferecer-lhes uma boa oportunidade se organizar uma razia contra os índios das cabanas. Já se falou em deitar-lhes fogo e escalpelá-los.
Aquela era a tragédia que o jovem pressentia. Sentiu-se ferver.
— Pois nesse caso terao de incluir-me na festa, Dany — afirmou. — não aprovo a decisao do meu pai, mas que me esfolem se consentir que o proibam de fazer o que the pareca. Ou que ataquem esses infelizes. Gostaria de saber de que lado. to pords tu.
Não era necessaria a resposta; considerava-a dada. Dany permanecia mais fiel a certos principios do que ao facto de trabalhar para o velho. De certo modo, considerava-se também herdeiro. Não se admirou, pois, que retrocedesse uns passos.
— Ter-me-ás pela frente, Ted — sibilou, e se Ted lho tivesse pedido, naquele mesmo instante teriam dirimido a questão com os revólveres.
— Bom, confiemos que tudo possa arranjar-se — declarou o jovem, mas estava convencido de que não seria assim e de que a situação em breve se tornaria explosiva.
Avançou para o capataz, afastou-o e entrou novamente no «saloon». Reparou naquele momento que Overton falava a um grupo numeroso de homens e que por entre estes circulavam vários criados com jarros de cerveja e garrafas de uísque.
E também distinguiu seu irmão Roland, que acabava de chegar a porta de uma das salas reservadas, onde se costumava jogar forte as cartas ou realizar alguma festa especial. Ao ver Ted, mudou de expressão e dirigiu-se para ele.
— Caramba! Já era tempo de voltares. E quase meia-noite. Esperávamos-te com impaciência.
O jovem apercebeu-se de que sob a irritação do tom e a expressão severa do rosto, Roland ocultava uma grande ansiedade, como se tivesse acendido a mecha de um barril de pólvora e aguardasse que rebentasse.
Os seus olhos, demasiado juntos, observavam com impaciência o que se passava a sua volta e humedecia os lábios com frequência.
— Vem — disse. Estamos aqui dentro reunidos.
Ted foi atrás dele. Ao passar perto do grupo a que perorava Overton, este dedicou-lhe Um frio e vingativo olhar das suas turvas pupilas. Uma frase chegou aos ouvidos do jovem: «São uns malditos que não esperam senão cair sobre nós uma noite qualquer e degolar-nos... Devemos antecipar-nos e obrigá-los a sair da cidade... Esta noite é...»
Um calafrio percorreu a epiderme de Ted. E naquele momento ouviu-se o primeiro trovão da tormenta, que iniciava o segundo «round».
 
(1) O monte mais alto dos Estados Unidos. (N. do A. ) .

sexta-feira, 8 de julho de 2016

BUF118. CAP V

Ao passar pela última casa e iniciar o caminho para o rancho, Ted distinguiu, acocorada num umbral, a figura de um índio enrolado numa manta «navaja» tao suja e rota que mal se distinguia da pele encardida do seu dono.
Devia estar ébrio ou doente, pois murmurava qualquer coisa em voz serena, num tom lamuriento. Ted langou-lhe alguns Mares e o miserável deitou-lhes logo a mão, mas sem mudar de posição nem de lamento.
Ao chegar defronte do edifício do «Sulphur Ranch» os relâmpagos sucediam-se com tanta rapidez, que não tinha dificuldade em ver. De súbito, foi obrigado a fazer parar a montada e a levantar os braços, por ordem de uma voz que vinha do barracão dos trabalhadores.
— Não se mexa ou furo-o! — foi a amável saudação.
— Que tens tu, Dilley? Estarás já tao taranta que nem me reconheces?
Dilley soltou um grito de alegria e surgiu a porta do barracão, seguido de Rudy e de Diboo, o cozinheiro mestiço.
— Raios, rapaz! — exclamou o velho vaqueiro. — Não há dúvida, esta é a noite das grandes surpresas! Quando voltaste?
— Acabo de chegar.
Desmontara e apertava a mão de Dilley, que sacudia a sua com força.
— E os outros? — perguntou Rudy.
— Vêm daqui a bocado, ficaram no «saloon» a molhar a palavra... Mas que aconteceu, Dilley? Para que são todas estas precauções?
— Que o diabo me leve se sei, rapaz! O teu pai mandou-nos vigiar, para vermos se aparecia algum dos teus irmãos. Raios me partam se percebo o que se passa entre eles! O velho é que não quer que o surpreendam. Dentro de casa estão de guarda o encardido do Tagus e o china.
Estava confirmado o que ouvira aos irmãos, na taberna. Afastou-se de Dilley e dos outros e dirigiu-se para casa. A porta estava fechada, assim como as duas janelas que davam para o pátio, e Ted admirou o aspeto tenebroso do lugar a luz de um relâmpago. Era aquele o sepulcro em que seu pai jazia enterrado em vida.
Bateu a porta e esta abriu-se, para dar passagem ao cano de uma espingarda.
— Vamos, Tagus, ou tu, Leng, deixem-me entrar. Sou o Ted e a noite não está boa para ser passada ao relento.
A pesada porta de carvalho abriu-se mais e o cano desapareceu. Ted transpos o limiar escuro e deteve-se, admirado com o silncio total que o envolvia. Não estariam ali os dois vigilantes?
De súbito sentiu que qualquer coisa se lhe apoiava nas costas e um ar fétido lhe soprava junto do pescoço.
— Vamos, Tagus, não sejas parvo — impacientou-se. — Repito que sou Ted Boyce.
Resolveu a situação o facto de a porta do escritório do pai se abrir naquele momento. A luz amarelada iluminou-os e Tagus desviou-se e baixou a espingarda.
— Ted, filho! — exclamou Walter, dirigindo-se a custo para ele.
Abraçaram-se e depois o velho observou o filho com ansiedade.
— Por que voltaste tão depressa? E os rapazes?
— Explico-te já, pai — tranquilizou-o o rapaz. — Dany e os homens ficaram um bocado no «saloon» do povoado. Eu vim a frente... porque quero falar-te, se estas disposto a isso. Ao que parece, não queres receber visitas...
— Entra.
Walter empurrou o filho para o interior do escritório e, antes de fechar a porta, ordenou:
— Vocês continuem de guarda.
Em seguida instalou-se no seu cadeirão, no estrado, e Ted, que o seguiu, verificou que estivera a escrever e que não tinha interesse nenhum em que ele visse de que se tratava, pois atirou um livro empoeirado para cima dos papéis.
— Conta-me como correu a viagem, Ted, e o resultado do negócio. Conseguiste bom comprador para o gado?
— Sim, creio que não terás razões de queixa. Vendi todas as cabeças por um total de cento e trinta mil dólares!
— Eia!
— E olha que perdemos muito gado. Aqui tens o dinheiro.
Tirou uma carteira volumosa e atirou-a para cima da mesa. Walter contemplou-a com uma expressão indefinida. Percebia-se que se travava uma batalha colossal entre o seu espirito de ave de rapina e qualquer decisão que tomara.
Por fim, com um suspiro, desviou os olhos da carteira e fitou-os em Ted.
— Fica com esse dinheiro, rapaz — murmurou.
— Terei ouvido bem? — perguntou o filho, inclinando-se para ele.
— Ouviste. Chegou a hora de seguires o teu caminho, Ted.
— E julgas que sem esse dinheiro não poderei segui-lo?
— Ajudar-te-á, consegue-se tudo mais rapidamente quando se tem uns milhares de dólares.
Ted convenceu-se de que, de facto, o pai não estava bom do juizo.
— Não preciso, velho — afirmou francamente. — Talvez seja parvo, mas a ajuda que me ofereces só pode servir-me como as muletas a um coxo. Tenho algum dinheiro, o suficiente, que poupei do meu salário.
Walter suspirou de novo, mas de maneira diferente. Transformou-se de um homem duro num pobre velho, e Ted acautelou-se.
— Ted, meu filho, pensei sempre que eras o único a compreender-me. Acredita, dou-te o dinheiro de todo o coração, merece-lo. Não és como os imundos coiotes dos teus irmãos.
— Agradeço-te, mas emprega-o em obras pias... se queres penitenciar-te. Que há com os meus irmãos?
— Diabos os levem! Viste-os?
— Estavam no «saloon», e nada contentes contigo, velhote. Roland falou-me de um casamento teu... com Castile. E verdade?
Walter acenou varias vezes com a cabeça, em sinal afirmativo.
— E. Creio que também não aprovarás, mas magoar-me-ias se ficasses contra mim.
Seguiu-se um silêncio, que Ted interrompeu secamente:
— Esse dinheiro era o prego da minha colaboração?
— Não, Ted, não! Palavra que queria dar-te alguma coisa para... Mas sei que tu, mesmo que não gostes, não te oporás...
— Confias demasiado, velhote. Não me oporei se não se tratar de alguma armadilha em que caíste. Tens a certeza de que essa mulher gosta de ti? Não gostará, apenas, do teu dinheiro? Não me digas que, com a tua idade e convertido numa c6pia ma do homem que foste, enlouqueces as moças... mesmo as índias.
Walter ficou calado durante um bom bocado e, por fim, disse com voz cansada:
— Nao, Ted, não gosta de mim. Não é amor o que lhe inspiro, mas compaixão. Queria partir, porque é orgulhosa e não tolera certas situações, e para obrigá-la a ficar e a aceitar-me tive de prometer-lhe que os herdeiros desta propriedade, das terras e do rancho, de toda a minha fortuna, enfim, seriam os homens e mulheres do seu povo... a quem as arrebatei há quarenta anos.
Levantou-se, contemplou o filho com dolorosa ansiedade e acrescentou:
— Não podes opor-te, Ted. E tudo quanto me resta, a companhia para a minha solidão. Tu não, Ted, tu não!
E, arrastando os pés, encaminhou-se para a porta. Hesitou um instante e, por fim, saiu.
Ted ficou cabisbaixo, com a sensação dolorosa de ter roubado a esmola a um mendigo. O assunto era mais sério do que imaginara. Duvidando já de ter o direito de impedir o casamento do pai com Castile, levantou-se e também e foi para o salão. Deixou a porta do escrit6rio aberta e Ode ver os vultos de Tagus e de Leng, que olhavam através da janela com as carabinas aperradas. Contra quem?
Sem pressas, refletindo no que ouvira, dirigiu os seus passos para a porta norte, onde ficava a torre habitada pela India. Tinham-na construído com o objetivo de dominar a vasta extensão que se oferecia daquele lado, nos tempos em que as incursões dos peles-vermelhas eram uma ameaça constante.
Um Bom posto de observação. As antigas bombardeiras, onde se apoiavam as escopetas modelo «Kentucky», tinham agora vidros, e o telhado fora reforçado com chapas de zinco.
Subiu a escada com lentidão e, ao chegar a porta, parou a ver se ouvia alguma coisa. Ia a bater quando a porta se abriu e a sua frente surgiu Castile, que o observava com os grandes olhos brilhantes. Do interior escapava-se um fio de luz.
— Ola, Ted.
Ted fitou-a com ansiedade. Cada vez o caso lhe parecia mais complicado e incompreensível. As intrigas não eram o seu forte. Acercou-se de Castile e prendeu-a pelos ombros. Era um pouco mais baixa do que ele, mas tao direita que parecia dominá-lo. O seu corpo era forte e bem proporcionado, tornando-a um exemplar perfeito da espécie humana.
De seguida atraiu-a ao peito e apertou-a com força, levando-a assim para o interior da torre, onde a beijou com paixão, com fúria. Quando a largou os seus olhos percorreram-lhe o rosto, enquanto as suas mãos lhe acariciavam os ombros.
— Maldita sejas! — exclamou. — Que fizeste durante a minha ausência? Por que endoideceste o velho?
— Ted, tu não sabes...
— Só sei que o encontrei completamente transtornado, que lhe meteste o inferno no peito. Esta noite ouvi Um comentário acerca das mulheres «zunhis», segundo o qual parece que vocês são capazes de endoidecer ate o mais frio dos homens... Que pretendes? Apoderar-te da fortuna do velhote para reabilitares os teus... esses borrachões degenerados, essa vara de porcos famélicos?
— Ted, estas a magoar-me!
O rapaz largou-a. Castile respirou fundo. Apesar da aparente impassibilidade, tinha as faces rubras, Um brilho estranho no olhar e o peito parecia querer rebentar-lhe a pele de gamo da blusa, tao acelerada era a sua respiração.
O interior da torre tinha duas dependências e uma pequena arrecadação. Na primeira, que era onde se encontravam, havia um banco largo coberto de almofadões tecidos no estilo «hopi» e algumas das horríveis mascaras «katcinas», fabricadas pelos indios daquela tribo, assim como esteiras e mantas e uma mesa encostada a parede, cheia de chávenas e garrafas.
Uma porta coberta com uma cortina velha conduzia ao quarto de dormir, cuja cama consistia numa pele de urso estendida num canto.
— Por que não me explicas a situação — perguntou Ted, com dureza. — Qual é o teu propósito?
— Ted, os velhos são como as crianças... Talvez fosse um erro teres partido e de ficar ao meu cuidado... Encaprichou por mim, mas juro-te que não soprei nas suas cinzas para atiçá-las.
— Não? Mas tamBem não sopraste para as apagar. Podias ter-lhe dito o que havia entre nós.
— Odiar-te-ia e não renunciaria a sua ideia. Por outro lado, Ted, custa muito tentar tirar a um homem como o teu pai aquilo que deseja. Repito que é como uma criança... com a diferença de que as crianças têm ainda a juventude e a idade adulta para tentarem realizar os seus desejos e o teu pai sabe que consome as últimas energias. Tenho a certeza de que se partisse aceleraria a morte do teu pai... Tenho tanto a certeza disso como de que esta tempestade passará e o sol voltara a brilhar.
— Mas os meus irmãos não tolerarão semelhante união! E eu? Julgas que tolerarei ver-te transformada em minha madrasta?
Aproximou-se de novo dela e estudou-a com atenção. Compreendia o que o pai sentia, embora estivesse certo de que não poderia comparar-se a intensidade da sua paixão. Era diabolicamente formosa aquela India! Formosa e inteligente, sensata.
Voltou a segurá-la e sentiu-a vibrar sob as mãos.
— Manda ao diabo o velho e os da tua raça — disse com voz rouca. — Se quiser alguém para lhe alegrar os últimos dias, que alugue uma bailarina em Dallas ou Abilene. E esquece-te do teu povo, desses preguiçosos que dariam cabo de tudo quanto lhes dessem em uísque barato e em missangas.
Castile abanou negativamente a cabeça.
— Iris comigo para o Alasca — continuou Ted. — Serás unicamente minha.
A «zunhi» quis libertar-se das suas mãos, mas não conseguiu.
— Não, Ted... Tu não compreendes...
— Manda tudo ao diabo, Castile. Só compreendo que te amo e...
Beijou-a para não falar.
A chuva cessara e ate os trovoes e os relâmpagos pareciam ter-se afastado definitivamente.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

BUF118. CAP IV

Um dos homens que cavalgavam no escuro soltou uma praga e tirou o chapéu, que sacudiu com força, salpicando tudo quanto o rodeava.
— Quando este maldito deserto decide molhar-se... — comentou outro.
— O pior é que continuará seco como sempre. Acontece-lhe o mesmo que a um primo meu, que se embriaga até o uísque lhe sair pelas orelhas e, na manhã seguinte, está outra vez sequioso e volta a beber.
Soaram varias gargalhadas. Os cascos dos cavalos enterravam-se na lama. Eram vinte homens que seguiam o caminho de Amarillo, na direção de Sulphur Valley, os do grupo de Boyce, com Ted Boyce à cabeça.
Ted acelerara o regresso ao lar, por um acto de estratégia com o fim de salvar os dinheiros dos seus peões: aproveitara uma rixa fenomenal num «saloon» de Wichita, onde se encontravam já de regresso da venda do gado.
E ali iam atrás dele, macambúzios, mas com economias. Não o censuravam, pois livrara-os de Um grande apuro com o xerife, que era parente do famoso Bat Masterson, mas pensavam que a vida era muito aborrecida e não lhes desagradaria um pouco mais de diversões.
— Ted — gritou o capataz Dany Roberts, esforçando-se por fazer-se ouvir no meio dos trovões — insistes em sair do rancho para ires para essa terra de ursos com focas que é o Alasca?
— Insisto, Dany.
— E quem se encarregará do rancho quando o teu pai se decidir a deixar de importunar este mundo?
Ted soltou uma gargalhada fresca, pois sentia-se alegre e com tendência para achar o mundo um lugar onde se vivia muito bem... desde que se fosse esperto e não se amargurasse a existência com preocupações tontas.
Uma dessas preocupações parecia-lhe ser sonhar com a fortuna do pai. Bem lhe importava que o velho tivesse muito dinheiro! Se se aguentara tanto tempo na sua companhia fora por ter pena de o ver naquele estado e a debater-se com todos os monstros vingativos que engendrara na sua turbulenta vida passada.
Para Ted, o melhor legado de Walter Boyce era to-lo trazido para aquela encruzilhada do Oeste. Sentia-se com forças e com coragem para meter ombros a qualquer empreendimento, e parecia-lhe magnifico que houvesse tantas terras para conquistar, tantas aventuras para viver.
Mas nem sequer o Oeste, com todas as suas oportunidades, o atraía. Pensava noutras terras, noutros lugares onde a aventura fosse ainda maior; embriagava-se com o mistério, o desconhecido.
— Se o velho alguma vez morrer — observou ao capataz coisa que duvido, os meus irmaos se encarregarao de devorar a hcranga. Eu não lhes disputarei nem um bocadinho.
— E se o velho to deixasse tudo a ti? Já pensaste nisso?
Ted sentiu-se contrariado. Não sabia quais eram as intenções de Dany ao dizer-lhe aquelas coisas. Dany era da sua idade e, de certo modo, compartilhava a sua alegre concepção da vida. Por que se preocupava agora com aquelas coisas?
— Não o fará, descansa. Ou não o conhego, ou tanto se lhe dá que herdemos ou não. Se pudesse, levaria consigo tudo o que tem, para obrigar-nos a começarmos tudo de novo. Eu, pelo menos, é isso que tenciono fazer.
Um grande relâmpago iluminou por instantes o campo. Os cavaleiros soltaram gritos de alegria: a sua direita serpenteava o Sulphur; à sua frente, distinguiam a plataforma rochosa em que assentava a povoação. Esporearam os cavalos naquele último trecho de caminho e, quando chegaram as primeiras cabanas dos índios, tiraram as mantas com que se tinham protegido da chuva e sacudiram-nas com força.
Entraram pela rua principal e detiveram-se defronte do «saloon» «Estrela Solitária». Percebia-se, pelo tilintar de copos e pratos, que estava concorrido.
— Patrão — disse um dos vaqueiros — é cedo para nos deitarmos e tarde para fazer barulho no rancho. Deixa-nos molhar a garganta aqui?
— O quê, ainda queres molhar-te mais, Mart?
Ouviu-se um coro de gargalhadas e Ted sorriu aos seus homens. Tinham-se portado bem naquela viagem e não se haviam revoltado quando lhes falara na necessidade de voltar, arrancando-os aos braços das belas raparigas de Wichita.
— De acordo, rapazes! Procuraremos equilibrar o líquido de fora com o reles uísque que o Overton vende.
Eagle Overton era o dono da baiuca. Um tipo alto, desajeitado, com a cabeça comprida e estreita, a cara larga e comprida, meio calvo, olhos de um negro amarelado e pele macilenta, salpicada de bexigas.
Constava que reunira a maior parte da fortuna a vender álcool aos índios, apesar de no seu sangue correr sangue «navajo». A sua obsessão, que confessava quando emborcava meia dúzia de copos, era o suposto tesouro que os miseráveis sobreviventes «zunhis» tinham escondido.
Quando Ted e os homens do rancho «Sulphur» entraram, Overton conversava num canto onde, em redor de uma mesa, se encontravam sentados os irmãos Boyces, que ali tinham parado após a infrutuosa visita ao velho.
Ted foi o primeiro a vê-los e surpreendeu-se. Recomendou a Dany e aos outros que se acomodassem e pedissem o que quisessem, e dirigiu-se para o lugar onde, naquele momento, Roland batia com os fortes punhos na mesa.
— Eh, irmãos! — chamou, ainda um pouco afastado.
Voltaram-se, sobressaltados, e Roland levantou-se e foi ao seu encontro.
— Ted! — exclamou, satisfeito, abraçando-o com força — Que alegria, rapaz! Palavra, dás-me uma grande alegria!
— O quê? — perguntou Ted, a rir. Seria a primeira vez!
Afastou-o, para ir falar aos outros. Abraçou Sil e apertou, com certa repugnância, a mão gorducha do cunhado Waco. Acenou a Overton, que o observava com frieza, embora um sorriso servil lhe rasgasse o rosto. Decididamente, Ted não tragava aquele individuo, o que demonstrava que a sua natureza continuava a ser normal.
— Por que não me contam o que fazem aqui? Terão, por acaso, tido medo da tempestade e deixado as mulheres em casa, a aguentarem?
De súbito ficou sério e fitou fixamente Roland:
— Ouve Iá, não devias estar com o gado, tentando evitar que não houvesse nenhuma fuga? Mas que se passa, afinal?
Roland sentou-se e indicou-lhe com um gesto que fizesse o mesmo.
— Traz outra garrafa, Overton — ordenou ao mestiço, que se inclinou ligeiramente, sem deixar de sorrir, mas com um brilho mau nos olhos. — Chegaste no momento oportuno, Ted. Com a breca, es o único que pode resolver o assunto!
— Que assunto, Roland? Alguma coisa com o pai?
— Sim. O nosso pai... Escuta, rapaz, o velho tem os miolos virados do avesso. Alguém se aproveitou da tua ausência para armar-lhe uma cilada. Hub apareceu-me no rancho às últimas horas da tarde...
— Hub?
— Sim. Não sei como se arranjou, mas a verdade é que me apareceu em casa e contou o que ouvira. O velho pediu em casamento a piolhosa da India que trata dele!
Ted empalideceu e os irmãos julgaram que isso acontecia por compartilhar dos seus sentimentos. Roland bateu-lhe afetuosamente na mão que abandonara em cima da mesa.
— Fazes ideia do que sentimos? Viemos de la há bocado...
Apontou com o polegar para o norte, e inclinou-se para o irmão, que se refazia lentamente da surpresa.
— O velho não quis ouvir-nos, Ted, e agora compreendemos que foi um erro visitá-lo. Ficou furioso e quer casar-se amanha mesmo. E preciso evita-lo!
Waco falou então, com uma tremura de cólera na voz:
— Foste tu que deitaste tudo a perder! — acusou. — Se me tivesses deixado a mim...
— Ora! — desdenhou o mais velho. — Neste caso a diplomacia não serve para nada. Aquela maldita bruxa sorveu-lhe o juízo e, agora, não há argumento capaz de convence-lo.
— Mas tens a certeza? Bem sabem que o Hub...
— Não te disse que visitámos o pai? Ele confirmou, Ted, disse que tencionava unir-se a essa... pele-vermelha. Se não fosse por coisas!... não há outra solução senão tira-la de lá e obrigá-la a partir para nunca mais voltar.
Overton veio depositar a garrafa diante de Ted, que se apressou a servir-se. O dono do «saloon» observou então:
— Devíamos expulsar todos os índios do povoado, expulsá-los e queimar-lhes as cabanas, que são ninhos de corrupção e de miséria.
Ted fixou o rosto velhaco do mestiço e perguntou-lhe:
— E tu encarregar-te-ias gostosamente dessa tarefa, hem?
Levantou-se e encarou os irmãos:
— Está bem, irei agora mesmo ter com o velho e informar-me do que se passa.
— Pois sim, irmão. Nós esperar-to-emos aqui.
— Por que não deixam o caso para amanhã?
— Conheces o pai, com certeza que decidiu proceder quanto antes. Não podemos permitir que essa pele-vermelha se saia airosamente da esperteza.
Naquele momento Ted apercebeu-se de qualquer coisa, como que um cheiro especial a cobiça. Compreendeu o que se passava com os irmãos e, de súbito, compreendeu também que não tinha nada de comum com eles, que representar os seus interesses equivala a atraiçoar-se a si mesmo.
— Vou informar-me, Roland, mas não tomem esse ato como significativo de estar de acordo com vocês. Se o velho tiver as suas razeies e elas me parecerem aceitáveis, não serei eu quem se oporá ao casamento.
Quase sentiu erguer-se entre ele e os irmaos um muro de hostilidade. Roland levantou-se e fitou-o, irritado.
— Deves estar do nosso lado, Ted, tenho a certeza de que estarás. Não há outros motivos para tal casamento além das intrigas dessa maldita bruxa. O pai está demasiado velho, embora presuma que não, e ela aproveitou-se dessa circunstância.
Overton desatou a rir, com um riso que fazia lembrar o gemer de uma porta com os gonzos ferrugentos.
— As indias «navajo» conhecem segredos amorosos que nenhuma branca se atreveria a empregar — afirmou. — Sao capazes de obrigar um morto a engendrar-lhes filhos!
— Com certeza foi esse o teu caso — replicou Ted.
— O quê?
Overton encolheu-se e as mãos deslizaram-lhe para as coronhas, mas estava demasiado próximo de Ted Boyce para o seu gesto surtir efeito. O jovem levantou a perna direita e descarregou Um formidável pontapé no baixo--ventre do taberneiro.
Sob a «caricia», o mestiço deu um salto para trás e soltou Um uivo de dor. Ao cair encaixou uma direita que lhe -deslocou a larga queixada e o atirou para longe, derrubando varias cadeiras. Ficou caído, dobrado e a sacudir a cabeça, na atitude pouco digna de Um crente maometano com convulsões...
— Adeus, irmãos — despediu-se Ted. — Esperem-me aqui, se quiserem, embora o melhor que fizessem fosse irem dormir para casa.
— Esperar-te-emos — afirmou Roland.
Ted encaminhou-se para onde estavam os seus homens, alguns dos quais se tinham levantado e pareciam querer aproximar-se do local da briga.
— Que foi aquilo, Ted? — perguntou Dany ao seu jovem patrão.
— Nada, uma troca de opini6es. Fiquem aqui, vou ao rancho mas não me demoro. BeBam o que quiserem, pois será por minha conta.
Deixou os vaqueiros com ar desconfiado e saiu sem preocupar-se mais com a sorte de Overton nem com a dos irmãos. Não gostara do que ouvira.
E não lhe agradara por muitos motivos, alguns dos quais só ele conhecia. Talvez fosse tudo uma confusão originada na mente alucinada de Hub, que devia ter interpretado erradamente as frases que ouvira. O facto de os irmãos terem ido visitar o pai com a intenção de lhe imporem a sua opinião, bastaria para que o terrível Boyce os mandasse para o diabo e confirmasse todas as acusações.
Mas não se sentia tranquilo. Ao montar o seu alazão, Ted verificou que o temporal amainara, que chovia pouco e os trovoes soavam agora do lado do deserto. Talvez o assunto que o atormentava se resolvesse do mesmo modo...
Mas, notando o aspeto sombrio do céu, duvidou de que a sua esperança tivesse fundamento.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

BUF118. CAP III

Da sua torre, Castile, a «zunhi», viu os irmãos atravessarem o pátio: Roland à frente, seguido por Sil e Waco e, a fechar a marcha, a arrastar-se lastimosamente, Hub. Grossas gotas de chuva começaram a cair.
A índia viu ainda Roland dizer qualquer coisa ao aleijado e este abanar a cabeça, numa negativa desesperada. Mas o mais velho agarrou-o pelos ombros, com fúria, e levou-o até ao alpendre, cujos degraus o obrigou a subir. Em seguida montaram e afastaram-se.
Hub demorou-se um bom par de minutos, sem se atrever a entrar em casa. Roland ordenara-lhe que ficasse e procurasse descobrir as intenções do velho. O aleijado tentara explicar ao irmão a insensatez do que lhe exigia, pois com certeza Walter dar-lhe-ia tal sova que o deixaria incapaz de espiar ou de fazer fosse o que fosse durante várias semanas. Hub receava, logicamente, que o pai deduzisse ter sido ele o informador do seu desejo de casar--se, e o seu medo era justificado, pois a sua deformidade resultara de um arrebatamento de ira de Walter, que o atirara de uma escada abaixo quando tinha apenas três anos.
Por isso correu, como pôde, para o quarto e nele se trancou. Não se enganou nos seus temores, pois não tardou a ouvir bater furiosamente à porta.
— Abre, verme retorcido — esganiçava-se o pai — que espreitas aos cantos, com medo que te pisem e façam vomitar todo o veneno que encerras!
O aleijado julgava chegada a última hora e batia os dentes, com o corpo coberto de suores frios. Mas as ameaças e as pancadas cessaram e ouviu a voz serena e grave de Castile:
— Que aconteceu, senhor?
— Esse verme, essa lesma imunda! Deve ter-nos ouvido, esta tarde, e foi a correr contar aos irmãos.
— E fez bem. O senhor devia tê-los informado. Deixe em paz o pobre garoto e lembre-se de que ele está assim por sua culpa.
Hub ouvia, aterrado, as palavras duras da índia, esperando a todo instante ouvir rebentar em maldições o autor dos seus dias, e também da sua desgraça. Mas, com grande surpresa sua, a voz de Walter fez-se ouvir, sim, mas suave e acalmada:
— Está bem, Castile. Mas por que te compadeces da sua situação e não da minha? Para bem dele, deves aceitar a minha proposta...
Afastaram-se e no cérebro de Hub operou-se, mais uma vez, o fenómeno insólito em que as palavras e os atos mudavam de valor e de significado. O que acabara de ouvir devia dispô-lo a favor da índia, mas, pelo contrário, aumentou o ódio e o medo que lhe tinha. Parecia--lhe que a atitude da mulher ocultava algum desígnio sinistro.
Dava às suas frases o sentido de que ela o considerava um estorvo à realização dos seus planos, pois estava no rancho e tomara conhecimento das intenções de Walter de fazê-la sua esposa. Com certeza que embruxara o velho com alguns daqueles pós que preparava no quarto e acabaria por matá-lo a ele também...
Esse pensamento deu-lhe forças para permanecer acordado, atento a qualquer acontecimento que se verificasse. Além disso a tempestade atingira o auge e não poderia descansar a ouvir o estrondo dos trovões e o uivo da ventania e a ver o clarão dos relâmpagos que inundavam o quarto.
Atreveu-se, por isso, a sair e a percorrer cautelosamente o corredor que conduzia à sala principal. Ao chegar verificou que havia luz no gabinete do pai e ouviu vozes, entre elas a de Castile.
Arrastou-se ainda com maiores precauções. Mergulhara de novo num dos, seus estados de irrealidade, ao ponto de não sentir o estorvo da perna e de lhe parecer flutuar numa nuvem, o que o impedia, também de ter medo. Era aquele o efeito que lhe produzia, sempre, o choque violento com a realidade.
— Quero que montem vigilância aturada — dizia Walter —; não me fio nessa matilha de velhacos.
— Não devia falar assim dos seus filhos — interveio Castile. — Eles não são velhacos, defendem apenas os seus direitos.
— Direitos? — repetiu Walter, com sarcasmo.
Hub espreitou por uma fresta e viu quem seu pai mandara chamar. Encontravam-se ali Tagus, o «zunhi», um tipo alto, musculoso, de cabelos negros e pómulos salientes, que lhe tornavam mais pequenos os olhos pardos. A irmã também era alta como ele, de corpo flexível e esbelto. Formavam os dois um par soberbo de exemplares da raça índia, fortes, ágeis e formosos. Além deles encontravam-se presentes Rudy, Dilley e o chinês Leng. Rudy e Dilley eram peões, o segundo um septuagenário já cansado e o primeiro um ruivo robusto, há pouco tempo ao serviço do rancho. Walter entregava-lhes, no momento em que Hub espreitou, umas carabinas que tirara de um armário.
-- Direitos? — repetiu. — Não têm nenhuns, Castile. O que único que poderia exigi-los é Ted, e esse bem sabes que não o fará. Os outros fugiram das responsabilidades e do perigo...
— Não terão fugido, antes, dos maus tratos?
Walter fitou a índia com uma expressão indecifrável, mas, como sempre, rendeu-se. A rapariga apoderara-se da sua vontade.
— É possível — confessou, com voz rouca. — Mas isso não os desculpa, Castile. Se fossem homens verdadeiros, ou ela, Nan, uma verdadeira mulher, teriam lutado, teriam procurado a sua vida fora deste rancho e não na cómoda proximidade dos seus postos de vigilância. Estão à espera de que eu morra para caírem em cima de tudo isto e reparti-lo! Mas juro que, para que tal 'não suceda, serei capaz de deitar fogo a todas as minhas propriedades! Eles não sabem...
E desatou a rir, com um riso que correspondia ao autêntico demónio que fora e se consumia agora num montão de ossos e músculos corroídos pela idade e pela doença.
— Não verão nem um cêntimo, Castile! — afirmou, entre gargalhadas. — Esperam herdar, mas terão uma grande surpresa!
— Não é possível que tenha feito semelhante coisa! — exclamou Castile, num tom de verdadeiro susto, enquanto os outros escutavam meio aparvalhados, como se nada entendessem.
— Por que não? Ainda não está em regra, mas estará amanhã, Castile, quando nos casarmos.
— Não pense nisso! — replicou com firmeza a índia. — Nunca consentirei em semelhante casamento, e muito menos nessas condições. Não, senhor, agora menos do que nunca. Deve estar louco, parece querer desafiar todos os poderes do mundo.
— Castile, amanhã casarás comigo — afirmou Walter, num tom novo. — Terás de fazê-lo, com mil raios, ou juro-te que os acontecimentos se precipitarão. Depois da' visita desses... idiotas, não podes recusar. Não compreendes? Estão furiosos e lançar-se-ão contra ti assim que tiverem oportunidade para isso. A única maneira de contê-los é pô-los ante o facto consumado. Tu e eu casados ao amanhecer, e morderão o freio como potros por domar!
Pelos vistos achava tudo aquilo muito divertido, pois voltou a rir-se. No entanto calou-se bruscamente e fitou os olhos maldosos nos servidores.
— Temos de estar vigilantes repetiu. — Conheço o Roland e sei que não hesitaria em atacar à menor oportunidade. Se te apanhasse, Castile... Bem, tu, Ruby, e tu, Dilley, ficarão no dormitório com as carabinas preparadas, ficando um de sentinela enquanto o outro dorme; render-se-ão de duas em duas horas. Se os virem chegar, não lhes cortem o passo, deixem-nos aproximar. Tu, Tagus, e tu, Leng, farão o mesmo, mas aqui dentro. E agora vão-se embora para os vossos postos.
Os homens saíram e Hub coseu-se com a parede, vendo-os afastar-se até à porta principal. Estava mais assustado do que nunca, pois compreendia o significado daquelas medidas. Talvez a visita dos irmãos tivesse sido um grande erro.
Como havia de avisá-los agora? Tagus ou o chinês vê-lo-iam, se tentasse escapar-se...
Ouviu ainda Castile, sempre com a mesma voz comedida e profunda:
— Não me agrada o que faz, senhor, está a dar-lhes razão. Ver-me-ão como uma usurpadora, e é nisso mesmo que deseja transformar-me. Vai tirar-lhes o que lhes pertence...
— Não lhes pertence nada, Castile! — interrompeu-a o velho. — Nunca lhes pertenceu. Quando para aqui vim, há quarenta anos, os únicos habitantes desta terra eram os teus antepassados, é a eles que pertence o rancho e quanto ele contém. É isso que te proponho: se casares comigo, no momento do casamento farei um testamento pelo qual todas as minhas propriedades passarão de novo para o teu povo.
Houve um silêncio significativo. A oferta era, sem dúvida, tentadora.
— O Governo nunca consentiria em tal cedência! — comentou por fim a índia.
— Claro que consentirá! Posso deixar os meus bens a quem me apetecer. Não o farei como imaginas, a uma tribo, repartirei toda a propriedade entre os «zunhis» que atualmente habitam Sulphur Valley. Compreendes agora? Beneficiarei uma quantidade de indivíduos, não um povo, e assim restituirei o que lhes tirei.
Nova pausa. Ao soar de novo, a voz da índia parecia diferente:
— Está bem — declarou. — Se é por esse motivo, acedo... mas com a condição de que os seus filhos também sejam beneficiados pela distribuição. No fim de contas, é o menos que se lhes pode fazer. Assim terão de viver, se quiserem, em pé de igualdade com os meus.
— Aceito.
Hub não quis esperar mais. Agora tinha a certeza de que a traição se consumara, de que haviam sido despojados em favor dos miseráveis «zunhis», que morriam embrutecidos pelo álcool e por toda a espécie de doenças nas cabanas da povoação.
Era horrível, monstruoso, mas acontecera. Hub meteu--se no quarto e fechou-se de novo. A tempestade atingira o auge. Os trovões ribombavam quase em cima do rancho e uma luz vivíssima, que iluminou o quarto como se fosse dia, cegou-o por momentos. Logo a seguir, a chicotada elétrica de um raio estalou a menos de duzentos metros.
A chuva caía torrencialmente, batendo no telhado com ímpeto feroz. Hub via-se impotente, incapaz de fazer fosse o que fosse. Mesmo que conseguisse iludir a vigilância de Tagus e do chino, não chegaria, com semelhante temporal, sequer à povoação.
Desesperado e a chorar de raiva, atirou-se para cima da cama e assistiu ao desfilar lento dos segundos, acompanhados pelo bater da chuva. As forças da natureza debatiam-se num combate colossal, sem que ele pudesse intervir.
Mas, de repente, tudo serenou. A tempestade pareceu ceder, embora por curto prazo, e a chuva tornou-se menos violenta. Então o aleijado saltou da cama e foi abrir a janela. O seu quarto dava para as traseiras da casa.
 Apesar da febre, do medo e da excitação que o consumiam, uma reflexão se lhe impôs: se conseguisse sair por ali e avisar os irmãos, estes poderiam entrar pelo mesmo sítio e evitar o crime que se preparava.
Hub não hesitou. Subiu para o parapeito da janela e sentou-se, a olhar para fora. O céu estava negro como breu, mas a tempestade amainara de facto.
A chuva continuava a cair, mas fraca, e os relâmpagos iluminavam de vez em quando as trevas, mas sem trovões ou, então, muito distantes. O vento passara quase por completo. O aleijado calculou que a terra devia estar fofa, por causa da água, e que a queda, portanto, não o magoaria muito. E saltou.
Torceu a perna doente e teve de morder a mão, até fazer sangue, para não gritar como um danado. Por fim, coxeando mais do que nunca, encaminhou-se para as árvores.
Chegou à alameda encharcado, ofegante, e á sofrer atrozmente daquele membro inútil. Convencido já de que da casa não o veriam, rodeou o bosque para verificar se o cavalo continuava atado junto ao alpendre ou se Tagus o recolhera.
Não estava, o que o obrigava a seguir a pé até à povoação. Aí poderia ir a casa de Waco, ao banco. O empreendimento assustaria qualquer pessoa normal, pois o caminho estava intransitável, e se a cavalo seria perigoso, a pé então nem era bom pensar.
Mas o mais jovem dos Boyces não podia fazer outra coisa senão avançar. E avançou, a chapinhar na lama, a escorregar, transformado numa sopa humana, convencido de que todas as forças do mundo se concitavam para perdê-lo, convertendo, em imaginação, as árvores em grupos de pessoas e as rochas em gigantes que o esperavam.
Para si o mundo inteiro era aquele pedaço de deserto, e Hubert Boyce o único sobrevivente de urna imensa catástrofe, um herói que se afadigava para chegar ao local onde estavam os outros homens e mulheres e salvá-los.

terça-feira, 5 de julho de 2016

BUF118. CAP II

— Como te atreveste a sair com este tempo, Hub? — perguntou Roland, enquanto se servia de cerveja.
Era alto, de membros compridos, ossudo e de carnes secas e morenas. Perfil nobre e fronte baixa, que confirmava a sua estreiteza mental. Distinguira-se no exército confederado, com o posto de capitão, pelo seu arrojo e ferocidade. Hub sabia que amava a esposa e a tratava bem, mas em certas ocasiões, como consequências dos disparates que ela dizia, dava-lhe grandes sovas.
— Trata-se do nosso pai — revelou Hub, por fim.
E contou o que ouvira. O irmão ouviu-o calado e imóvel, com os olhos pequenos e excessivamente juntos do nariz cravados num ponto invisível. Depois estremeceu e olhou o rapaz de tal maneira, que este teve vontade de levantar-se e fugir.
— Tens a certeza do que dizes? Não será nenhuma das tuas malditas fantasias?
— Não, não! Juro que ouvi! Julgas que, se não fosse assim, me atreveria a vir até aqui, com um tempo destes?
— Está bem. Então o caso é grave e não se pode perder tempo. É preciso avisar os outros ainda esta noite. Calvert!
Em poucos segundos Roland mobilizou vários homens e mandou-os chamar os irmãos e cunhados, com ordem para se reunirem em sua casa naquela mesma noite. A tormenta continuava e o vento cheirava agora a humidade, o que indicava que chovia a oeste, no deserto.
Em pouco mais de três quartos de hora chegaram os membros da família Boyce, com exceção de Ted, que fora levar o gado ao Kansas. Reuniram-se na sala principal, Silvestre com a mulher, a loura e angelical Kitty, e Nan com o marido, Waco.
— Tens a certeza de que ouviste isso, rapaz? — perguntou, desconfiado, Sil. — Não o terás inventado?
— Coisas destas não se inventam — interveio Waco.
O cunhado estava encostado à parede, sentado numa velha arca ao lado de Nan, que imitava a posição do marido.
— Se é verdade, o caso é grave — afirmou Sil. — Não procedemos bem ao deixar o pai sozinho, à mercê de qualquer aventureiro ou intrigante, quando saímos todos do seu lado. É velho e está exposto a cometer qualquer loucura.
— Nós não sabemos o que ela respondeu — observou Kitty. — No entanto, convém tomar uma atitude, quanto antes.
Os outros olharam-na com estranheza, como faziam sempre que ouviam a sua voz cortante e acerada, que não condizia com o rosto de querubim. Ainda não tinham conseguido habituar-se.
Todos sabiam que Sil era um sacerdote falhado. Tinha vocação para pastor e desejava evangelizar, mas um conjunto de circunstâncias impedia-o de realizar o seu sonho. Entre essas circunstâncias encontrava-se sua mulher, Kitty, que atravessara a sua vida como um autêntico demónio. Kitty era muito jovem, mas atrás do seu rosto adorável escondia uma vontade férrea, uma decisão inabalável e uma coragem fria, assim como uma dureza de sentimentos proporcional às outras características.
Era ela quem mandava em casa, quem resolvia a conduta a seguir por Sil, o qual lhe obedecia servilmente e a adorava ao ponto de fazer rir quantos o conheciam. No entanto, continuava com os modos e os pensamentos de um padre.
Era gordo, baixo, de mãos e pés pequenos, cara redonda, cabelos louros e olhos intensamente azuis, tão belos que, em pequeno, o escolhiam para figurar em certas festas da escola dominical, vestido de anjo e com umas asas douradas presas nas costas. Era frequente surpreendê-lo em arroubos místicos, com os lábios grossos a tremer em muda oração.
Grande contraste com eles apresentavam o cunhado Waco e a sua irmã Nan, que se pareciam fisicamente. Ambos eram morenos, tinham cabelos negros e gordurosos, feições grosseiras, nas quais sobressaíam o nariz, que parecia um bico carniceiro, os lábios grossos e os olhos bovinos, de olhar húmido e pegajoso. Os seus gestos eram repousados e serenos, e com eles pretendiam demonstrar dignidade, embora muitas vezes fizessem lembrar movimentos de abutres famintos.
Waco era o administrador dos bens dos Boyces — cargo que ocupava já antes do casamento com Nan — e diretor do banco de Sulphur Valley. Constava que era de origem semita, coisa que negava com a boca e confirmava com os atos.
Encontrara em Nau a companheira perfeita, pois era materialista como ele, capaz de reagir apenas em contacto com o ouro, julgando as coisas pelo seu preço e alimentando o corpo de restos e desperdícios. Tinham três filhos parecidos com eles, gordos, lustrosos, amigos já de tocar com as mãozitas em moedas de ouro e de brincar a emprestar dinheiro e a vender objetos.
— Que dizes tu, Roland? — perguntou Sil, e o olhar de todos convergiu para o irmão mais velho.
— É preciso expulsar essa mulher lá de casa! — ripostou o interpelado. — Assim ficará o assunto resolvido.
— Ainda não sabemos se ela aceitou a proposta — insistiu Kitty —, e isso é um pormenor muito importante.
— Importante porquê? Assim evitaríamos, pelo menos, que respondesse.
— Um momento...
Waco levantara a mão direita, com lentidão, mas a solenidade do gesto foi desvirtuada pelo pouco comprimento do braço e pela mão papuda. No entanto todos lhe prestaram atenção, pois não fora inutilmente que os aconselhara durante tanto tempo acerca de todos os assuntos.
— O que propões, Roland, não é uma medida muito conveniente, pois parece que te esqueces do pai. Bastaria uma atitude dessas, para que levasse a mulher à frente de um juiz e se unisse a ela, apesar da nossa oposição. É preciso proceder com astúcia.
A palavra «astúcia» adquiria um significado especial nos beiços grossos de Waco, pois era essa a divindade a que rendia culto... Quase a pronunciava com reverência.
— Que faremos então? — quis saber Sil.
— Iremos visitá-lo' e esta mesma noite. Há tempo que não cumprimos esse dever. De caminho falar-lhe-emos do assunto... ou talvez seja ele que o aborde. Então faremos as considerações que julgarmos justas, pois estou certo de que desistirá da ideia quando compreender o que semelhante ato lhe acarretaria.
A ideia foi aceite e puseram-se todos a caminho, deixando as mulheres em casa.
— Em menos de uma hora irá por aqui um pandemónio observou Roland, ao ver como as nuvens se acastelavam.
À luz lívida dos relâmpagos a planície de Sulphur apresentava um aspeto fantasmagórico, com os carvalhos erguidos no meio dos campos de algodão, ao norte, e os catos a oeste e ao sul. As descargas elétricas sucediam-se agora com intervalos de segundos.
Ao aproximarem-se do rio, ouviram o bramido furioso das águas.
— Com os demónios, podíamos ter deixado a visita para amanhã! — resmungou Sil, que não gostava de cavalgar com bom tempo, quanto mais sob a ameaça iminente da tormenta.
— Parece que não conheces o velho — replicou Roland. — Se se lhe meteu a ideia na cabeça, é capaz de querer pô-la em prática amanhã mesmo.
Desceram ao povoado, cujas ruas estavam desertas, pois erguiam-se nuvens de pó quase de passo em passo e papéis e latas rolavam por todos os lados, e meteram pelo caminho que levava a «Sulphur Ranch».
Mas avistaram a casa afrouxaram instintivamente o passo.
— O velho não vai gostar nada desta visita! — exclamou de novo Sil.
— Claro que não, mas que vá para o diabo! — Roland estava furioso e não o escondia. — Não consentirei que entregue a fazenda àquela bruxa! E quanto a ela...
Não era preciso explicar o que pensava. Os irmãos e Waco olharam-no com apreensão. Desmontaram no pátio e ataram as montadas aos postes. Roland, ao verificar que a porta estava fechada bateu com violência.
— Calma, irmão — recomendou-lhe Waco.
Após alguns segundos de espera e quando o mais velho dos Boyces ia a bater de novo, a pesada porta abriu-se e apareceu o rosto amarelo e enrugado de um chinês que observou os quatro homens com os olhinhos pretos cheios de temor.
— Patlão estai a dolmil — informou.
Roland empurrou-o e atirou-o de cangalhas pelo chão fora.
— Não venhas com histórias, Leng! — ordenou o irritado primogénito. — Sabemos que o velho não se deita a maior parte das noites, e mesmo que o fizesse ainda é muito cedo.
— Por favor, Roland! — suplicou Sil, que entrou ao lado do irmão.
Roland foi direito ao escritório de Walter Boyce. Sil e Waco seguiam-no, pálidos, e atrás deles Hub arrastava a perna enferma, com a mente cheia de adversários que pretendiam agarrá-lo e ameaçavam liquidá-lo.
Quando Roland girou o fecho e empurrou a porta do escritório, o aleijado recuou, como se receasse ver sair de lá um monstro. O pavor que lhe inspirava o autor dos seus dias era superior a qualquer consideração. Mas conseguiu arranjar coragem para meter a cabeça pela porta.
A sala era grande, como todas as da casa, e num canto erguia-se um estrado com um cadeirão e uma mesa.
Havia estantes e cadeiras, uma carpete puída cobria o chão e as janelas tinham cortinas. Na chaminé ardia lenha e «Nemésis», a cadela de Walter, estava estendida junto do calor. Grunhiu surdamente, ao ouvir a entrada dos visitantes, mas os anos impediram-na de mover-se.
Walter lia um livro grosso, com as pernas enroladas numa manta índia e um casaco preto sobre a camisa branca. Em cima da mesa, um candeeiro de petróleo. Um fumo acre enchia o aposento e irritava os olhos.
O velho Boyce era de estatura menos do que mediana, um anão comparado com os filhos, arcaboiço débil, ombros estreitos, pernas e braços delgados, em que a velhice pusera nódulos. Tinha a cabeça grande e a cara gorda há muito sulcada de rugas, vincos profundos que eram um mapa perfeito da sua vida acidentada, gravadas as paixões pelo cinzel da sua potente tenacidade.
A sua tortura consistira sempre em possuir o espírito de um gigante encerrado num corpo miserável, e aos esforços para tentar acomodar um no outro devia e enrugado do rosto. Os anos davam um ar de tragédia à sua luta constante. O homem de vontade férrea e valor indomável, que fundara um exército de gado naquele território, encontrava-se prisioneiro da implacável teia de aranha do tempo.
Levantou a cabeça do livro e cravou os olhos negros nos filhos. Roland adiantou-se, enquanto Sil e Waco permaneciam afastados, olhando à sua volta com desconfiança.
— Que aconteceu? Por que vieram esta noite... todos?
— Há algum tempo que não tínhamos notícias tuas respondeu com dureza o mais velho.
— Deixa-te de hipocrisias! A hora da minha morte deve estar próxima e vocês já a farejaram!
Roland apertou os punhos, com força, e Waco apressou-se a colocar-se ao seu lado e a fazer uma leve inclinação de cabeça. Sil também se aproximou, mas antes que o administrador abrisse a boca Roland disse:
— És injusto, pai. Se não vimos com mais frequência é porque a nossa presença parece desagradar-te.
Walter inclinou-se para diante, com as mãos apoiadas no braço do cadeirão e as veias do pescoço saídas de maneira impressionante. Roland recuou um passo.
— Não te enganas, Roland! Por que raio havia de ter prazer em ver-te? Casaste com uma louca, abandonaste esta casa, e em lugar de ires construir um futuro, como eu fiz, instalaste-te a um par de milhas, com a única preocupação de esperar que eu estique para caíres sobre este rancho como um coiote ávido de carne podre!
— Não, não!
Silvestre decidiu intervir, embora a gaguejar:
— Por que nos recebes sempre assim? Embora não acredites, estimamos-te e interessamo-nos pela tua sorte.
Como se lhe tivesse mordido uma rata assanhada, Walter soergueu-se mais da cadeira e Hub não pôde reprimir um pequeno grito ao vê-lo naquela atitude colérica.
— Cala-te, maldito padreca! És um saco de imundícies, um porco banhado no perfume barato da tua mulher. Que querem vocês? Por que vieram?
Chegara a vez de falar o administrador, cujas banhas tremiam, embora se esforçasse por disfarçá-lo.
— Pai — murmurou —, queríamos falar contigo de... bem, soubemos que pensas...
— Que pensas casar-te com uma maldita pele-vermelha, com uma bruxa repugnante! — berrou Roland, a tremer de cólera. — Não o toleraremos!
Desta vez Walter deixou cair a manta que lhe aquecia as pernas e o seu corpo separou-se toda da cadeira. Adiantou ainda mais a cara, quase até tocar a do primogénito que, por estar fora do estrado, ficava à sua altura.
— Impedi-lo-ás? Fora! Fora da minha casa! — rugiu. — Se dentro de um minuto não tiverem saído todos, mandá-los-ei expulsar a pontapé! Porcos! Desgraçados! Como se atrevem a ser insolentes na minha frente? Casar-me-ei amanhã mesmo, estão a ouvir? Fora, já disse!
«Nemésis» levantou-se e grunhiu coro mais força. De súbito, um trovão formidável fez tremer a casa toda e uma rabanada de vento abriu uma das janelas e fez tremer a luz do candeeiro de petróleo.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

BUF118. CAP I

No horizonte distinguiam-se nuvens de tormenta, negras, túrgidas, empurradas pelo vento, tornadas ainda mais tenebrosas pelos relâmpagos lívidos que de vez em quando as cortavam.
Colunas de pó amarelo formavam fantásticas composições arquitetónicas na vasta solidão do deserto. Arbustos e folhas secas rodopiavam e iam enlaçar-se nas estacas da cerca, e a tabuleta onde se lia «Sulphur Ranch» batia com força, produzindo estalidos secos.
Visto através das colunas de pó, o sol parecia a caveira velha de uma vaca. O fenómeno da fosforescência que se verificava nas estacas e nas copas da alameda de azinheiros demonstrava quanto a atmosfera estava carregada de eletricidade.
Na fundura do vale pelo qual corria o Sulphur Creek, com as suas águas turbulentas cor de ocre, os robles que formavam uma barreira protetora em redor do rancho agitavam-se com um rumor surdo, ameaçador. Apesar deles, a areia invadia o pátio dianteiro e o alpendre com a espessa trepadeira que o cobria quase por completo.
Hub o «Aleijado», o filho mais novo de Walter Boyce, resolveu dar uma volta pelo enorme casarão, contagiado pela excitabilidade do ambiente. Gostava de andar pelas salas amplas, sentindo-se único habitante do desordenado edifício que lhe parecia sempre novo, com cantos inexplorados.
No entanto, não se atrevia a visitar aposentos que lhe inspiravam um temor obscuro: o escritório do pai, por exemplo, e a torre do fundo, habitação da índia «zunhi» que tratava do velho.
Enquanto atravessava os quartos desertos, Hub experimentava a sensação perturbadora de que estavam povoados de personagens irreais e assistia, em imaginação, a reuniões estranhas e ao desenrolar de situações complicadas e sempre iguais.
O seu cérebro exaltado fazia com que tais fantasmas fixassem a atenção na sua pessoa estropiada e começassem por afrontá-la e por rir-se da sua deformidade para acabarem a lamentá-lo e a enaltecê-lo, graças aos feitos extraordinários que cometia.
Tais feitos não eram muito claros, mas resumiam-se mais ou menos em arriscar a vida para salvar a de alguém — precisamente a de quem mais o odiava —, ou em descobrir uma conjura contra os habitantes da povoação vizinha ou, ainda, algum terrível cataclismo. Frequentemente, nos seus devaneios, a compaixão e a admiração dos seus encarniçados perseguidores manifestavam-se sobre o seu cadáver, pois, no seu desejo de se considerar vítima, Hub não recuava ante a própria imolação.
Mas, naquela tarde, o seu passeio conduziu-o à porta, para si sagrada, do escritório do pai. Parou, com o coração a bater violentamente, pois a pesada porta de carvalho estava entreaberta e deixava ouvir as vozes do velho e da maldita feiticeira que tanto medo inspirava ao aleijado.
A curiosidade venceu o medo e o rapaz aproximou-se de um dos lados da entrada. Mal ouviu as primeiras palavras, violento tremor lhe sacudiu o corpo:
— Não podes opor-te, Castile — dizia o velho com a sua voz potente, que fazia supor pertencer a um jovem forte e não a um septuagenário meio paralisado pela arteriosclerose. — Tenho remoído o caso todas estas noites em que a maldita dor do braço não me deixa dormir. Assim pago os teus serviços... Não, não! Sei o que estás a pensar mas enganas-te. A verdade é que gosto de ti. Bem sei que é um amor tardio e que me desespero por a seiva já não percorrer o tronco e as ramas, para gerar novos frutos. Mas é a verdade, com a breca!
— Já pensou no que dirão os seus filhos? — perguntou a voz grave e pastosa da índia. — Jamais concordariam com semelhante ideia...
— Os meus filhos?! — exclamou Walter, com uma gargalhada que parecia um atirar de pedras sobre a sua descendência. — Que têm eles com semelhante assunto? Acaso se lembram de mim?
— No entanto, nesta ocasião lembrar-se-iam — replicou Castile, sem modificar o tom da voz. — Agradeço--lhe a ideia, senhor, mas considero-a uma loucura. Sabe muito bem que estarei sempre ao seu serviço. Sendo assim, para que é precisa tal união?
— Não compreendes, Castile, não compreendes.
Hub desejava fugir, mas, ao mesmo tempo, sentia-se incapaz de mover-se. Os seus sentimentos misturavam-se, produzindo-lhe uma angústia mental indescritível. As palavras seguintes do seu pai foram, no entanto, bastante claras para si:
— Preciso de ti, Castile, não posso suportar a minha solidão. Considero-me morto, como se devesse ter morrido anos atrás, quando a meta da minha vida, a luta, os filhos, se afastaram do alcance das minhas forças. Estou condenado a esperar, dentro da própria sepultura, a morte real, sem poder, sequer, pedir ao inferno que a acelere. Compreendes o que sofro? Quero que compreendas, Cas-tile, pois ajudar-me-ia a abreviar o tempo que me falta... Pensa bem.
O aleijado conseguiu arrancar-se à mórbida fascinação que as palavras do pai lhe causavam e afastar-se. O singular foi que, à medida que se afastava, o que ouvira perdia a realidade e misturava-se às suas fantasias, até transformar-se numa conspiração contra a sua pessoa.
Sem compreender porquê, parecia-lhe que a união da índia com o pai só poderia prejudicá-lo. Naquela tarde, quando Castile entrou no seu quarto para dar-lhe a maçagem na perna, como fazia havia mais de um ano, percorreu-o um frio espantoso, que se lhe alojou no peito. Os enormes olhos de Castile fitaram-no e o seu olhar pareceu-lhe, mais do que nunca, adivinhar os seus pensamentos mais recônditos.
— Devias fazer mais exercício — disse-lhe. — De nada servem as maçagens se não te esforçares por ajudar-te a ti mesmo. Já te disse muitas vezes que nadar te faria bem...
O coração de Hub pareceu voltar-se-lhe ao pensar no que aconteceria se seguisse aquele conselho. Viu-se dentro do tanque, sem poder mover-se, e inclinada para ele, com as mãos estendidas para afogá-lo, Castile...
— Que tens? — perguntou-lhe a índia, assustada com o estranho sobressalto do rapaz, que se levantara com os olhos desorbitados.
— Nada, nada...
A índia observou-o durante um instante e, depois, deixou-o. Mal a viu sair, Hub saltou da cama, correu para a porta e fechou-a à chave. Numa mesita encontrava-se um jarro de água. O rapaz encheu um copo e ia a bebê-la, mas, já a tocar-lhe com os lábios, lembrou-se de que podia estar envenenada e despejou-a para o chão. Passou quase uma hora torturado por uma grande sede e pela visão de ferozes assassinos que, pagos por Castile, tentavam liquidá-lo.
No turbilhão das suas ideias persistia a certeza de que precisava de agir, mas agir de facto, não como acontecia nas suas lucubrações. Tinha de avisar os irmãos, de pô-los ao corrente do que se tramava. Sabia bem qual seria a reação do mais velho, Roland, do segundo, Silvestre, e do seu cunhado, Waco.
Faltava Ted, mas esse fora a Kansas levar gado.
Encharcado em suor, atreveu-se a sair do quarto, resolvido a abandonar o rancho e a fazer qualquer coisa. Arrastando a perna inútil, chegou à sala principal. A luz longínqua dos relâmpagos iluminava, Por breves intervalos, o conteúdo da vasta quadra, filtrando-se pelos vidros sujos das duas janelas.
Conseguiu transpor o corredor e sair para o alpendre, onde uma rabanada de vento quase o atirou ao chão. Olhou as nuvens negras, que se aproximavam. Sobre a sua cabeça brilhavam já as estrelas, a que as súbitas rajadas de vento e de poeira pareciam arrancar reflexos novos.
Hub lançou-se à aventura de atravessar o espaço descoberto. Logrou-o, embora ao encontrar-se sob as árvores julgasse que ia sufocar, tanto lhe batia o coração. O telheiro onde ficava o cavalo dócil e baixo que o capataz Dany adestrara para ele erguia-se perto do barracão dos trabalhadores. Só estavam no rancho cerca de meia dúzia de homens, pois os restantes, incluindo Dany, tinham acompanhado Ted. Entre aqueles contava-se o cozinheiro e o tratador dos cavalos, irmão de Castile, um «zunhi» que costumava olhá-lo com ar trocista quando lhe fazia alguma pergunta acerca dos animais a seu cargo.
Se o descobrisse a tentar sair com o cavalo, iria com certeza avisar Walter. Apesar de assustado até à medula, Hub dirigiu-se para a cavalariça dos puro-sangue, a uns duzentos metros da sua montada mansa. Tagus, o «zunhi», dormia ali, mas Hub queria assegurar-se.
Aproximou-se de uma das janelas, com enorme esforço, e espreitou para dentro da cocheira, onde reinava a mais impenetrável escuridão. Mas teve sorte, pois de mistura com os relinchos dos cavalos ouviu a respiração do pele--vermelha: o seu ressonar era inconfundível.
Com maior rapidez, alcançou o outro telheiro e, na escuridão, localizou o cavalo, que o acolheu com um breve relincho. Hub apressou-se a passar-lhe as mãos pelo pescoço, para que se acalmasse, não se atreveu a pôr--lhe mais do que a cabeçada e trouxe-o para fora.
Nunca o montara em pelo, mas sentiu-se mais confiante quando se encontrou sobre o seu lombo roliço e fofo. Esporeou-o com a perna sã, na direção do povoado.
Sulphur Valley encontrava-se dentro da curva do arroio, numa elevação de terreno, numa espécie de plataforma que sobressaía sobre a corrente de água. Eram umas duzentas casas com paredes de adobe e tetos de palmeira, algumas com coberturas de zinco, e mais abaixo cerca de cem cabanas onde habitavam mestiços e peles--vermelhas.
O rancho de Roland ficava do outro lado do povoado, pelo menos a uma milha de distância, no centro das colinas nuas de Tahoka, e o de Sil ainda mais longe, na região do Lago Amarelo, onde nascia o rio do mesmo nome que ia ligar-se ao Sulphur. Ambos deviam a sua cor à existência de jazigos de enxofre nas proximidades.
Embora em Sulphur Valley vivesse o cunhado Waco, casado com sua irmã Nan, tal não lhe ocorreu e passou pela povoação a galope, agarrando-se desesperadamente ao pescoço do animal, com os cabelos ruivos em desordem.
Havia luzes nalgumas casas e vários indivíduos que se encontravam à porta do «saloon» viram, espantados, surgir o estranho cavaleiro. Seguiram-no vários cães, durante um bocado, a ladrar às pernas do cavalo.
Meia hora depois, ofegante como se tivesse sido ele quem correra, extenuado e com os dentes a bater de medo, chegou ao rancho de Roland. Era um casarão de aspeto feio, todo de madeira e com algumas roseiras entrelaçadas nas colunas do alpendre.
A pouca distância havia vários campos de trigo e vários pomares, que se espaçavam gradualmente e se misturavam com catos, saguaros e ocotillos, para os lados do sul.
No momento em que ia a desmontar, um relâmpago mais forte iluminou a paisagem, contra a sombria garganta de lobo que era, o horizonte. O' aleijado estremeceu e apressou-se a subir os três degraus que conduziam à moradia.
Atendeu-o Calvert, o anão cambaio que fazia o serviço da casa. Parecia um buldogue a andar apoiado nas patas traseiras, com a cabeçorra enorme e os olhinhos negros, de expressão perversa. Hub viu Berta, a cunhada, que cosia sentada junto de um cesto de roupa.
— Roland? — perguntou o rapaz, com voz trémula. Berta levantou-se e foi ao seu encontro.
— Qualquer coisa me dizia que esta noite aconteceriam coisas estranhas — observou, sem modificar a expressão do rosto. — Vimos uma lebre preta...
Hub engoliu em seco. Não gostava da mulher do irmão, tinha-lhe medo porque a sua cabeça não regulava bem. Dizia coisas absurdas que deixavam suspensos os que a ouviam, mas não se podia chamar-lhe louca, pois cumpria os seus deveres de mulher casada e mãe de dois filhos com absoluta normalidade. Dava a impressão, contudo, de que era apenas o seu corpo, já habituado, que executava os gestos quotidianos, enquanto a sua mente se povoava de visões incongruentes, que exprimia de forma brusca, inesperada, com palavras e risos que nada tinham a ver com o que a rodeava.
Era uma mulher alta, forte e loura, com olhos grandes, de um azul claro e frio. Sorriu ao cunhado, mostrando os dentes grandes e brilhantes.
— O Roland não se demora, foi ver o gado. Anda, senta-te nesta cadeira e põe a almofada debaixo da perna. O pai?
Voltou-se para Calvert e ordenou-lhe:
— Vai buscar um jarro de cerveja e um copo.
Hub sentou-se onde lhe fora indicado e observou a mulher do irmão com receio.
— O pai está bem... de saúde — respondeu, contendo as palavras porque lhe faltava ainda o fôlego e porque lhe lembrava o motivo que ali o levara.
— Há dias fui depor flores na sua sepultura declarou Berta, após uma curta pausa, de novo entregue à costura.
— Na sepultura de quem?
O aleijado sentia o coração subir-lhe à boca. Acalmou-o a entrada de Roland, que tapava o rosto com o lenço encarnado húmido, para defender-se da areia levantada pelo vento. Calvert apareceu também, com um jarro e um prato de amendoins descascados, que colocou na mesa do centro.
— Má noite se prepara — comentou o mais velho dos Boyces, que tirou o lenço do rosto e atirou o chapéu preto para um canto. — O gado está inquieto, mas não há tempo para metê-lo nos currais.
Como a confirmar as suas palavras, retumbou ao longe um trovão e pelas janelas entrou a luz de um relâmpago. Berta persignou-se e fez outros sinais estranhos, enquanto o vento soprava com força contra a casa.

domingo, 3 de julho de 2016

BUF118. Ódios de raças


(Coleção Búfalo, nº 118)


O velho rancheiro tinha construído uma razoável fortuna depois de ter espoliado a terra aos índios que habitavam primitivamente aquela zona. Ao chegar ao final da vida, via com desgosto que era um ser abandonado ao qual quase nenhum dos filhos ligava. Uma jovem índia que trabalhava no rancho chamou a sua atenção e então um plano maquiavélico tomou forma na sua mente: e se casasse com ela e deixasse todos os seus bens aos que tinha espoliado, deserdando os que o tinham abandonado?

O conhecimento das suas intenções foi o despertar do ódio adormecido e um conflito sem limites começou a desenhar-se...

J. Tell, com o registo de mais de 15O obras em Portugal, algumas com outro pseudónimo, traz-nos numa descrição do conflito na família e entre brancos e índios num ambiente de tempestade que lhe associa um carácter fantasmagórico...

A capa, não assinada, mostra a mulher índia no momento em que se preparavam para a enforcar e em que era defendida pelo homem que a adorava...
Nos próximos posts, vamos proceder à publicação integral desta obra utilizando a divisão original em capítulos.
 

sábado, 2 de julho de 2016

BUF117. "Apache"

(Coleção Búfalo, nº 117)


Um apache, de nome Jerónimo, revoltou-se contra a exiguidade das reservas que tinham sido atribuídas aos índios e começou a atacar a zona fronteiriça entre o México e Texas. Tanto bastou para que, em outras regiões afastadas daquela, outros índios começassem a praticar actos de vandalismo nalguns casos apoiados oportunisticamente por brancos que queriam aproveitar-se da situação.

Um rancheiro, caracterizado por desenvolver um ódio enorme a todos os índios, resolveu combater esta situação e, quando se apercebeu da razão de fundo da mesma, soube distinguir entre os que tinham uma atitude positiva e os que se dedicavam aos actos de vandalismo. No seu coração deixou de existir ódio o que foi suficiente para lhe permitir desenvolver o amor por uma linda índia criada num rancho vizinho e em relação à qual, em momento anterior, tinha tido uma reacção nada recomendável, ofendendo-a e humilhando-a.

Fred Dennis é um autor com apenas 15 registos em Portugal todos na APR.

A capa, não assinada, retrata um aspecto da luta do rancheiro que odiava apaches contra um branco escondido atrás de uma pedra que conseguiu deixar no local em que se escondia um cadáver de índio para o induzir em erro.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

BUF116. Caçador de fugitivos

 
(Coleção Búfalo, nº 116)


Ruck Brockaw, sargento da polícia rural do Texas, era perito na perseguição a fugitivos a quem apanhava com tremenda eficácia. Na presenta aventura, partiu em perseguição de um evadido da prisão que, na fuga, matou um homem que estava noivo da mulher com quem se relacionava antes de ser preso.
O fugitivo encontrou-se com um ex-presidiário que o convenceu a roubar dinheiro a um bando, empreendendo ambos nova fuga. Brockaw veio a encontrar-se com o bando e juntou-se ao mesmo com o objetivo comum de apanharem os fugitivos, mas sem indicar a sua condição de polícia.
Após a travessia do Deserto Branco, chegados ao México em condições humanas deploráveis, foram desarmados e acolhidos por um mexicano o qual tivera contato com os fugitivos. Ao fim de pouco tempo, os perseguidores rebelam-se contra os mexicanos e tudo acaba em tiroteio, adornado por um romântico enlace entre a filha de Chavez e o polícia rural.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

PAS643. Um homem arrastado

Ed desceu à rua. Desprendeu o cavalo e caminhou em busca de uma pousada, sentindo sobre os ombros a ardente carícia do sol implacável.
E no coração uma opressão estranha.
Nelly...
Por ela cometera o acto mais ridículo da sua vida, ao pretender converter-se num homem honesto... Pobre Mel.
De súbito, aos ouvidos de Ed chegou uma algazarra. Gente que ria ruidosamente, enquanto um cavalo, galopando enlouquecido, arrastava uma estranha carga, irreconhecível devido ao pó que a cobria.
Era um homem.
Um homem arrastado por um cavalo.
Levantava densas nuvens de poeira.
Ed comprimiu os lábios. Não gostava daquilo. Con¬tudo, tinha coisas mais importantes com que preocupar¬-se, pelo que seguiu o seu caminho, enquanto o cavalo continuava a galopar, procurando livrar-se da sua carga.
— Senhor Harriman...
Ed tossiu.
Olhou para a sua esquerda. Era uma rapariga. E fazia-lhe sinais.
Com os olhos fixos naquele rosto juvenil, única parte do corpo da rapariga que estava visível, visto encontrar¬-se oculta numa porta, Ed aproximou-se lentamente dela.
— Senhor Harriman, sou a filha do xerife Gawky. Não posso suportar o que está a acontecer e...
Ed sorriu. Era muito bonita aquela rapariga. Tinha uns olhos enormes; muito negros. E a boca era perfeita sim; lábios rosados, lisos, juvenis.
— Que se passa, pequena? — interrompeu-a Ed.
— Es... estão arrastando o cadáver de seu irmão, mas...   

quarta-feira, 29 de junho de 2016

BUF115. Aqui vai a morte


(Coleção Búfalo, nº 115)


Mel ia casar e mandou recado ao seu irmão, Ed, para se dirigir a Everton, povoação a meio caminho entre Prescot e Phoenix, povoação dominada por pistoleiros e negócios sujos. Mel era detentor do único saloon e casa de jogo onde não se praticava batota e isso atraiu a ira e gula do cacique Hodges que o mandou matar para se apoderar do seu espaço.
À chegada a Everton, Ed deparou-se com o cadáver de Mel e com uma mulher, noiva deste, com quem já estivera relacionado. Compreendeu então a razão do chamamento a que fora submetido e rejeitou a reaproximação que aquela mulher pretendia. Depois, abateu pistoleiro a pistoleiro até vingar a morte de Mel.
Apesar de algum interesse, este livro de Mortimer Cody torna-se enfadonho talvez pelo estilo literário que o mesmo usou. Lido parte dele, compreendeu-se como se iria desenrolar e qual a menina com quem Ed haveria de ser feliz.

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