sexta-feira, 13 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
quarta-feira, 11 de maio de 2016
PAS628. Ódio sob o pó das recordações
— A culpa deste ódio! Todos o sabem! — comentou Red Haley, pausadamente —. Nem sequer posso culpar Ray de ter-me levado de casa. Fui com ele porque o admirava. Ray costumava refugiar-se, de vez em quando, na cabana que minha mãe e eu tínhamos nas cercanias de uma povoação. Quando decidi partir com ele, arranquei-lhe a promessa de que nunca voltaríamos ali. A fazê-lo, iria eu sozinho, para evitar que a minha mãe e os meus conterrâneos me vissem misturado com a sua gente. Era essa a contradição que torturava o meu espírito de rapaz. Admirava a vida de Ray, e, ao mesmo tempo, envergonhava-me dela... Outro silêncio. Tossiu, como se o pó das recordações removidas lhe tivesse penetrado na garganta. Parecia que não ia continuar. E já Mady, presa àquelas considerações, se dispunha a pedir-lhe que prosseguisse, quando Red fez, de novo, ouvir as suas palavras frias.
— Uma vez, Ray e eu livrámos um homem de um grave apuro. Uns vaqueiros tinham-no surpreendido a cortar uma vedação, e ele debatia-se desesperadamente para escapar das mãos deles. Mas eram muitos a atacá-lo, e estava bem à vista como a cena ia acabar. «Ali temos um tipo em maus lençóis — disse Ray —. Sinto uma predileção especial por recrutar gente desta!». Foi a primeira vez que o vi salvar um condenado à morte. Depois, fê-lo muitas outras vezes. Julgava que, assim, assegurava nos seus homens uma fidelidade de cão.
— Esse primeiro condenado que viste... era o meu irmão? — inquiriu Mady, visivelmente comovida.
— Não importa quem era!
— Não receies ferir-me. Ele próprio mo confessou ontem à noite. É daí que parte tudo. William nunca quis esquecer o que devia a ti e a Ray. E foi por isso que, quando um dia, se foi refugiar com Ray numa cabana, e ouviu dos lábios de uma pobre velha as verdades mais amargas, sentiu, pela primeira vez, o peso dessa dívida. Ray, enfurecido, esbofeteou a mulher, e William, desesperado, nada mais pôde fazer que puxar Ray e levá-lo dali. A velha foi até à porta e, com os olhos inundados de lágrimas, dirigiu-lhes palavras ásperas e amaldiçoou-os. Muita gente os observara, mas ninguém se atreveu a intervir. William e Ray montaram a cavalo e fugiram.
Fez-se novo silêncio. Red cofiava com os dedos as crinas do cavalo.
— Eu sei isso tudo — disse Hailey, serenamente — Quando estive na povoação, havia já seis meses que a «velha» tinha morrido. Mas o olhar com que todos os meus conterrâneos me acolheram foi talvez mais expressivo do que o que a «velha» me poderia ter dito. Nessa altura, eu ainda admirava Ray. Limitei-me a perguntar-lhe por que não havia cumprido a sua promessa de não ir a casa de minha mãe. Respondeu-me que fora ideia de William. Acabavam de ter um encontro com os representantes da lei, e Ray estava gravemente ferido. Foi nessa altura que perdeu a mão. William lembrara-se de se esconder ali, porque pensava que a «velha», devido ao parentesco que a ligava a mim, era a única pessoa em quem podiam confiar. Ray afirmou-me que estava meio desfalecido, e que tudo se passara quase sem ele se aperceber...
— E tu acreditaste sempre nele! — interrompeu Moly, secamente, com uma atitude quase agressiva.
— Eu nunca acreditei em nada! Ter-me-ia, sido fácil matar Ray. Tanto mais que só podia servir-se da mão esquerda. Mas decidi esperar. Verifiquei que ele alimentava contra teu irmão um fervoroso ódio, que havia de persegui-lo incansavelmente. Mas o teu irmão desaparecia como o fumo. Ninguém conseguia pôr-lhe vista em cima...
— Fugia, porque tinha a sua dívida para com Ray. E também para contigo, porque te julgava ligado a ele. William contou-me que, quando fugiram da povoação, logo que se encontraram num local solitário, pararam os cavalos. Conservaram-se calados, por uns momentos. Foi Ray quem falou primeiro: «William, podes dizer a Red que eu castiguei a sua mãe, por se intrometer na minha vida e na dele». O meu irmão limitou-se a responder: «Nada direi a Red. Se algum dia ele te procurar para te procurar para te matar, será por sua conta!». Durante algum, William pensou que se produzisse em ti a mesma mudança que se produzira nele. Depois, acabou por pensar que já não tinhas emenda.
— Como vês, parece que se enganou — replicou Red, com ironia —. O governador não hesitou em conceder-me o título de bom cidadão. Não creio que William o tenha conseguido, com os seus cinco anos a lavrar terras...
Agora era Mady quem parecia não ter pressa.
— Nunca te preocupaste em pensar porque Ray odeia o meu irmão desta maneira?
— Não é difícil encontrar o motivo. Foi William quem abriu o caminho aos desertores.
— Não disfarces, Red! Tu sabes o verdadeiro motivo. Pudeste averiguar que Ray te mentiu quando disse que William o levou para tua casa meio desfalecido. Ray não estava ferido!
— Bem… E depois? — inquiriu Red num tom quase indiferente.
— William prometeu não te dizer nada. Mas alguma coisa se passou quando ele interferiu em defesa da tua mãe. Ao ver a atitude brutal de Ray, ameaçou-o com o revólver. Ray não hesitou um segundo e puxou a sua arma. Mas não chegou a disparar. Nunca mais tornaria a disparar com essa mão…
E, depois de breve pausa, acrescentou:
— A mão que agrediu a tua mãe…
terça-feira, 10 de maio de 2016
BIS036.1 Sob o signo do ódio
«Sob o signo do ódio» é uma trama complexa acerca do relacionamento entre três homens, William, Red e Ray que tinham tido um percurso comum, no passado, no campo do crime. William escapou-se e tentou iniciar nova vida num local em que ninguém o conhecesse, mas um dia um estranho aviso soou à porta de sua casa e, com a esposa à espera de um filho, teve de se preparar para enfrentar o passado. Este concretizou-se no aparecimento dos outros companheiros embora em campos opostos.
Vamos deixar uma passagem deste livro para se compreender a razão do ódio que ligava aqueles três homens. Eis um livro do senhor Rolcest um pouco menos aborrecido que outros por que passámos.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
PAS627. O drama de uma vida
Mirtha, desconfiada, olhou bem Hatter a ver se descobria no seu rosto, qualquer indício de que Ronald o tivesse mandado ali. Mas o ar bonacheirão, Inocente e simpático, do velho gordo, fez que se dissipassem aquelas nuvens duvidosas. — Foi precisamente há uma semana que ele aqui esteve a falar comigo e... a nossa conversa não foi das mais agradáveis.
— Que me diz? — perguntou agora o secretário, como se o espantasse muito aquela declaração.
— Falámos muito duramente um ao outro.
— Oh! Aquele homem é doido! Então ele descompõe a senhora sem mais nem menos? Às vezes chego a pensar que ele já não tem salvação possível. Pobre senhor Bradley! Tem a vida arruinada.
Mirtha dominou a custo a sua imensa curiosidade por saber qual o drama que envolvia a vida de Ronald.
Depois de hesitar um pouco, resolveu perguntar:
— Mas... o que é que lhe sucedeu?
— Sofreu muito, muito!
— Refere-se a essa tragédia íntima que mencionou há pouco?
— O quê? Mas eu falei-lhe disso?
— Sim... falou...
— Sou um papagaio incorrigível. Mas... não faz mal. A senhora é merecedora de toda a espécie de confidências. Visto que o seu pai e o do meu chefe foram muito amigos e que o senhor Bradley lhe tem especial amizade, talvez a senhora queira ajudar-me a afastá-lo do caminho que o conduz à morte.
— Ajudá-lo?
— Por que não? Merece-o bem! Pois vou cantar-lhe a história em poucas palavras.
Bebeu devagar o resto da cerveja, aumentando assim o interesse da jovem rancheira.
— Desde muito novo que o senhor Bradley tinha um amigo a quem queria como a um irmão. Chamava-se George Borah. Juntos sofreram muitas privações e juntos gozaram algumas alegrias. Separaram-se um dia e cada qual seguiu seu rumo. Mais tarde voltaram a encontrar-se e George já havia casado. Margery, a mulher deste, era uma das mais belas mulheres que vi até hoje. O senhor Bradley, infelizmente, enamorou-se dela.
Parou para acender um cigarro. Mirtha quase não respirava.
— Quando o meu chefe descobriu que a amava perdidamente era já tarde. Apesar de tudo, o seu cavalheirismo, o seu carinho pelo amigo, a sua nobreza de carácter, foram barreiras fortes e poderosas contra tão desgraçada paixão. Ronald preferia morrer a trair o seu melhor amigo. Nunca disse a Margery o que sentia nem lho mostrou jamais. George, porém, descobriu o inferno em que a ardia a alma e o coração do seu companheiro.
Voltou a calar-se. A jovem, sem se poder conter mais, disse-lhe:
— Continue, por favor.
— Interessa-lhe?
— Claro!
— Bem... Certa noite aziaga, Borah, ciumento até à loucura, acusou o senhor Bradley de traidor, insultando-o e querendo, até, matá-lo. Meu amo obrigou-o a largar a arma e, para não mentir ao melhor amigo da sua vida, disse: «Não nego que estou apaixonado por Margery, mas ela ignora-o e eu, porque te quero como irmão e porque a considero muito digna e honesta, nunca ousaria trair-te. A tua mulher é para mim sagrada». George deixou-o, mas a sua alma ardia de ciúme e de loucura. Horas mais tarde assassinava a esposa inocente.
— Oh!
— A Justiça foi inflexível. Condenou-o a morrer na forca e a sentença cumpriu-se.
Novo silêncio. A rapariga estava emocionada e não sabia que dizer. Danny tinha os olhos húmidos e a voz tremia-lhe. Naqueles momentos não representava; ao recordar tão angustiosos acontecimentos, o secretário de Ronald comovia-se profundamente e as lágrimas atropelavam-se-lhe na garganta. Acrescentou, procurando acalmar-se:
— Receei que o senhor Bradley perdesse a razão. Os que o estimavam em vão lhe diziam que o culpado não fora ele. Mas considerava-se responsável pela tragédia e não se resignava por ter perdido um amigo tão querido e a mulher tão nobremente amada. Queria esquecer e para isso lançou-se nas empresas mais arriscadas, sem dúvida, na esperança de encontrar depressa a morte. Mas a «dama negra» não quis nada com ele e sempre o salvou. Poucos homens terão corrido tantos perigos saindo ileso de todos eles. O tempo foi passando e a chaga aberta no coração do senhor Bradley já não está a sangrar. O mundo, porém, não tem encantos para ele e só procura a aventura e o perigo como um meio de distração para a sua alma vazia. As grandes riquezas que possui, as suas relações com as personalidades mais destacadas do país são, para ele, uma carga difícil de suportar. Enfim... esta é a história crua que eu queria contar-lhe e espero que com, ela a senhora modifique bastante a sua opinião acerca do senhor Bradley. Em meio das suas loucuras, o meu chefe tem semeado o bem às mãos cheias.
Mirtha estava profundamente emocionada e a sua dureza habitual desaparecera para dar lugar a uma doçura triste que a tornava mais bela!
— Como é que o senhor Bradley se lembrou de voltar aqui? — decidiu perguntar.
— Soube que o irmão não seguia raminho muito reto quis ser-lhe útil. Anda a enfrentar a morte, mas por mais que se lhe diga, não há meio de se convencer a sair daqui.
Mudou de tom enquanto se erguia da ladeira onde estivera sentado.
— E agora é que me vou embora. Já é muito tarde.
— Volte sempre que lhe aprouver.
— Obrigado. Aceito o seu oferecimento. Significará para mim um motivo de desabafo.
Hatter despediu-se e saiu finalmente.
domingo, 8 de maio de 2016
PAS626. Não mais quero ouvir a palavra «cobarde»
O desejo de Ronald era estar só e vaguear pelas ruas, ao acaso. Já tarde regressou à pensão onde um criado lhe entregou uma carta de Hatter. — Hatter? Mas... onde está ele?
— Ah! Não sabe? Foi-se embora.
Ronald apressou-se a ler a folhita.
«Adeus, senhor Bradlley. Você está farto de cobardes e eu não posso deixar de ser como sou. De qualquer modo, neste momento, considero-me um valente, pois é difícil separamo-nos. Não quero, no entanto, que se irrite mais por minha causa. Deseja-lhe muita sorte,
Danny Hatter
Amachucou o papel, deitou-o ao chão e pediu que lhe arranjassem o cavalo.
Pelo caminho soube para onde se dirigia Danny e correndo o mais que podia quis ver se conseguia apanhá-lo.
Depois de várias horas de galope desenfreado, Bradley conseguiu finalmente ver Hatter. Naquele momento preciso, o gordo subia para a carruagem de um comboio que o levaria à terra donde viera.
Ronald chegou ainda a tempo de o puxar pelas abas do casaco, rasgando logo uma.
— Senhor!... — exclamou Hatter, gratamente surpreendido.
— Venha daí, seu paspalho!
— Não posso. O comboio vai partir...
— E acha que ele dará pela sua falta?
— Mas eu não consigo que a minha barriga passe para outro lado...
E esforçava-se por conseguir o seu propósito.
— Que barbaridade! Fazem as portinhas para famintos e não se lembram dos bem nutridos!
Ronald, como pôde, lá o ajudou a sair do comboio, exatamente no momento em que a máquina apitava para partir.
O secretário de Ronald ficara em estado lastimoso. De casaco rasgado, cabelos em desalinho, a suar por todos os poros, Danny dava vontade de rir aos que tinham presenciado a cena.
— Com que então, senhor Hatter, é assim que você estima os seus amigos?
— Pois claro. Não quero ser testemunha da sua morte e muito menos ouvir da sua boca a palavra «cobarde» no tom mais desdenhoso que se pode conceber.
— Lamento tê-lo ofendido, meu velho, mas acho que não tem melhor prova do muito que eu o estimo do que o facto de o ter vindo buscar. Esqueça as minhas palavras e voltemos a Buck Springs.
— Mas...
— Onde deixou o «Veloz»?
— Entreguei-o ao chefe da estação para que ele o enviasse depois ao senhor.
— Vamos buscá-lo.
Danny, embora fingindo pouco entusiasmo, sentia-se profundamente emocionado com a atitude de Ronald.
De súbito, deteve-se.
— Meu Deus, a minha mala!
— Que aconteceu?
— Foi no comboio. Entrou primeiro do que eu.
— Não se preocupe. Vamos tentar que a recolham e deixe o resto por minha conta.
Meia hora volvida, Ronald aparecia com um grande embrulho debaixo do braço. Eram roupas para Danny. O nosso homem experimentou várias, forçou casacos, mas nada. Não cabia dentro delas e finalmente, depois de tanto trabalho, teve de voltar em mangas de camisa.
A meio do caminho, Hatter perguntou:
— Diga-me, senhor Bradley: isto significa que você está disposto a não lutar mais nem a brincar com a morte como tem feito até aqui?
Ronald respondeu em tom emocionado:
— Não, Danny. A minha atitude explica-se desta maneira: se você me estima como a um filho, eu quero-lhe como se fosse meu pai e a minha solidão, se você me abandona, será absoluta e desesperada. Não sei onde me levará tal desespero e, por isso mesmo, lhe peço que fique. Acha que é suficiente a explicação?
Hatter não pôde responder. Tinha um nó na garganta que não deixava sair mais palavras e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas.
Danny Hatter
Amachucou o papel, deitou-o ao chão e pediu que lhe arranjassem o cavalo.
Pelo caminho soube para onde se dirigia Danny e correndo o mais que podia quis ver se conseguia apanhá-lo.
Depois de várias horas de galope desenfreado, Bradley conseguiu finalmente ver Hatter. Naquele momento preciso, o gordo subia para a carruagem de um comboio que o levaria à terra donde viera.
Ronald chegou ainda a tempo de o puxar pelas abas do casaco, rasgando logo uma.
— Senhor!... — exclamou Hatter, gratamente surpreendido.
— Venha daí, seu paspalho!
— Não posso. O comboio vai partir...
— E acha que ele dará pela sua falta?
— Mas eu não consigo que a minha barriga passe para outro lado...
E esforçava-se por conseguir o seu propósito.
— Que barbaridade! Fazem as portinhas para famintos e não se lembram dos bem nutridos!
Ronald, como pôde, lá o ajudou a sair do comboio, exatamente no momento em que a máquina apitava para partir.
O secretário de Ronald ficara em estado lastimoso. De casaco rasgado, cabelos em desalinho, a suar por todos os poros, Danny dava vontade de rir aos que tinham presenciado a cena.
— Com que então, senhor Hatter, é assim que você estima os seus amigos?
— Pois claro. Não quero ser testemunha da sua morte e muito menos ouvir da sua boca a palavra «cobarde» no tom mais desdenhoso que se pode conceber.
— Lamento tê-lo ofendido, meu velho, mas acho que não tem melhor prova do muito que eu o estimo do que o facto de o ter vindo buscar. Esqueça as minhas palavras e voltemos a Buck Springs.
— Mas...
— Onde deixou o «Veloz»?
— Entreguei-o ao chefe da estação para que ele o enviasse depois ao senhor.
— Vamos buscá-lo.
Danny, embora fingindo pouco entusiasmo, sentia-se profundamente emocionado com a atitude de Ronald.
De súbito, deteve-se.
— Meu Deus, a minha mala!
— Que aconteceu?
— Foi no comboio. Entrou primeiro do que eu.
— Não se preocupe. Vamos tentar que a recolham e deixe o resto por minha conta.
Meia hora volvida, Ronald aparecia com um grande embrulho debaixo do braço. Eram roupas para Danny. O nosso homem experimentou várias, forçou casacos, mas nada. Não cabia dentro delas e finalmente, depois de tanto trabalho, teve de voltar em mangas de camisa.
A meio do caminho, Hatter perguntou:
— Diga-me, senhor Bradley: isto significa que você está disposto a não lutar mais nem a brincar com a morte como tem feito até aqui?
Ronald respondeu em tom emocionado:
— Não, Danny. A minha atitude explica-se desta maneira: se você me estima como a um filho, eu quero-lhe como se fosse meu pai e a minha solidão, se você me abandona, será absoluta e desesperada. Não sei onde me levará tal desespero e, por isso mesmo, lhe peço que fique. Acha que é suficiente a explicação?
Hatter não pôde responder. Tinha um nó na garganta que não deixava sair mais palavras e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas.
sábado, 7 de maio de 2016
PAS625. Cavalgada para a morte
Montou de um salto. Hatter, porém, não o conseguiu tão facilmente porque «Veloz» era um cavalo manhoso. Não se habituara ainda ao peso exagerado do seu dono e sempre que este queria montá-lo havia primeiro uma espécie de baile com «Veloz» aos pulos e Danny desfazendo-se em suor e em pragas atrás dele. — Maldito sejas, «Veloz»! — gritou este, ameaçando-o com o punho.
«Veloz» recuou e aos estirões procurava tirar as rédeas das mãos de Hatter. O público ria a bandeiras despregadas e, por fim, o secretário lá conseguiu acomodar-se na sela.
Empreenderam a marcha, seguidos de muitos olhares e, sem saber porquê, Ronald tomou o caminho que conduzia ao rancho «Verde». Uma força estranha o impelia para aqueles lugares onde, na sua Infância, brincara e dera largas à sua alegria de criança.
E enquanto Hatter resmungava numa algaraviada sem fim, Ronald contemplava extasiado a paisagem maravilhosa que se abria à sua frente. E pela sua mente iam passando, num desfile saudoso, certas cenas e factos da sua meninice.
Danny, percebendo que o seu chefe não ia a ligar-lhe nenhuma, resolveu calar-se mas, por fim, já farto de tão prolongado silêncio, perguntou:
— Pode saber-se para onde vamos?
— Para a morte — respondeu o jovem, como se tivesse despertado dum largo sonho.
Hatter estremeceu todo e o «Veloz» relinchou iracundo.
Ronald riu à gargalhada ao ver o efeito da sua frase.
— Não se apoquente. A minha resposta foi apenas um pouco de filosofia e nada mais. De facto, nós viemos ao mundo apenas para caminhar para a morte. Foi a isso que me referi.
— Uff! Enfim, respiro! Mas, por favor, deixe em sossego a filosofia!
Ronald ia responder quando um facto imprevisto o obrigou a parar. A pequena distância, uma criança loira e linda deixava cair flores nas águas do caudaloso rio.
— Que foi? — quis saber Hiatter, ao vê-lo parado.
— Não o emociona aquele quadro?
— Sim, é digno do pincel dum artista.
Continuaram, muito devagar, o caminho até que a pequenita deu com os olhos neles. Belos olhos azuis os daquela criança!
— Boas tardes, senhor Bradley! — disse, agitando um dos bracitos.
O rapaz ficou estupefacto. Desmontou e aproximou-se dela.
— Conheces-me?
— Claro que sim! Estava no rancho «Verde» quando você vingou a morte do pobre capataz
— Ah! Caramba!
— Chamo-me Vivian Bettham e sou afilhada de Mirtha.
— Mas... estás muito distanciada do rancho. Não tens medo de andar sozinha por aqui?
— Não. Foi aqui que meu pai caiu para sempre e todos os dias venho a este lugar deitar flores no rio para que as águas as levem até onde está o meu pai.
Ronald e Hatter impressionaram-se profundamente com aquela declaração tão cheia de deliciosa ingenuidade.
— A alma do teu pai ficará muito contente ao ver o teu carinho.
A pequenita alegrou-se:
— Verdade? Penso nisso a todo o momento. Nisso... e também em crescer para matar Frederik Jens, o assassino de meu pai. Verá!
Ronald acariciou-a com ternura e foi-lhe dizendo:
— Antes que tu sejas uma senhora, pode ser que o teu desejo se cumpra. Até lá sucederão tantas coisas! E tu, Vivian, queres contar-me o que sabes sobre esse crime?
— Pois conto. Já o ouvi centenas de vezes, embora a madrinha não goste que eu oiça.
E contou com pormenores tudo quanto ouvira e sabia acerca daquela morte inglória, causada pelo chefe dos pistoleiros às ordens de Petelbow.
Bradley não fez comentário algum. Limitou-se a afagar a pequenita e a colher um punhado de rosas silvestres que deixou cair no rio.
— São para teu pai — disse, quase num murmúrio.
Danny perguntou:
— Não te importas que eu lhe ofereça também flores?
Vivian sorriu-lhes com doçura e apenas pôde pronunciar: «Obrigada!».
sexta-feira, 6 de maio de 2016
BIS034.1 O aventureiro louco
Ronald Bradley chegou a Buck Springs acompanhado pelo seu secretário, Danny Hatter, depois de uma longa ausência durante a qual correra mundo e fizera fortuna. Tinha como objetivo esclarecer algo que tinha ouvido em relação ao seu irmão que parecia ter enveredado pelo caminho do crime associando-se a um cacique da terra, Petelbow.
A realidade veio a mostrar que Sims Bradley não era flor que se cheirasse, sendo inclusivamente detentor de uma hipoteca sobre um rancho da formosa Mirtha a quem pretendia levar à ruína para esta aceitar propostas indecorosas do cacique.
Ronald decide-se a enfrentar este mundo minado por interesses pouco recomendáveis. E ei-lo, na companhia de Danny, qual um Sancho Pança, a lutar pela justiça com os objetivos de libertar a formosa Mirtha e conquistar o seu coração.
Raf Segrram tem aqui uma narrativa simples, escorreita, por vezes cheia de histórias encravadas no enredo principal, pelo que o «O aventureiro louco» merece ser lido por inteiro.
A realidade veio a mostrar que Sims Bradley não era flor que se cheirasse, sendo inclusivamente detentor de uma hipoteca sobre um rancho da formosa Mirtha a quem pretendia levar à ruína para esta aceitar propostas indecorosas do cacique.
Ronald decide-se a enfrentar este mundo minado por interesses pouco recomendáveis. E ei-lo, na companhia de Danny, qual um Sancho Pança, a lutar pela justiça com os objetivos de libertar a formosa Mirtha e conquistar o seu coração.
Raf Segrram tem aqui uma narrativa simples, escorreita, por vezes cheia de histórias encravadas no enredo principal, pelo que o «O aventureiro louco» merece ser lido por inteiro.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
terça-feira, 3 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
domingo, 1 de maio de 2016
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