sábado, 12 de março de 2016

PAS598. Convite para dançar

Irresistivelmente atraído pelo buliçoso ambiente, Neumann esqueceu-se, por momentos, do assunto que ali levara e sentindo um frémito de entusiasmo percorre -lhe todo o corpo, e que os seus pés começavam a pular-lhe para a dança, procurou com os olhos uma moça galante para seu par.
Katie Parkington.
Era de presumir que ela estivesse na festa. Encontrava-se ali toda a gente. Nem um único habitante de Valongo ou dos arredores faltaria a uma festa da Câmara,
Katie!
Descobriu-a finalmente rindo num grupo de lindas raparigas, entre as quais a sua deslumbrante beleza sobressaia de forma extraordinária.
Katie Parkington também já o lobrigara a ele.
Para melhor dizer, desde que o forasteiro dera entrada no baile, Katie nem por um momento o perdera de vista. Apesar disso, quando se apercebeu de que Neumann a tinha descoberto e se dirigia ao seu encontro, fez de contas que o não tinha visto e procurou fazer-se desentendida...
Ao chegar junto do grupo das raparigas, Neumann descobriu-se, sorrindo timidamente.
— Muito boas noites — disse ele com um delicado acento de cortesia. — Como passa de saúde a menina Parkington?
Katie voltou-se, entre curiosa e surpreendida.
 — Como vê...
Adam Neumann sentiu-se parvo; estupidamente parvo.
Os olhos de todas as raparigas presentes estavam travados nele e os de Katie Parkington brilhavam com requintada malícia.
— Passo bem, senhor... como disse que é o seu nome ?
A pergunta tornou-o ainda mais nervoso do que já se encontrava.
Por fim, conseguiu dizer:
– Neumann. Adam Neumann.
 — Muito bem, senhor Neumann. Que o trouxe por aqui ?
— Bem... vim... vim apenas pedir desculpas pelo meu procedimento de ontem.
O trabalho que teve para dizer aquilo sem que a língua lie lhe entaramelasse... Só ele é que o sabia.
Katie sorriu-se. Sorriu-se com aquele riso feiticeiro que unicamente as mulheres bonitas sabem dirigir aos homens de quem gostam.
— Não era necessário. Não me apresentou as suas desculpas, ontem mesmo?
— Bem. Pensei... que estivesse ainda aborrecida comigo.
— Aborrecida! Porquê? Não foi o senhor, depois disso, tão amável?
Neumann não respondeu. Limitou-se a olhar imbecil-mente para a jovem como se não a tivesse diante de si.
Katie trocou um olhar com as suas amigas, algumas das quais se riram discretamente.
— Bem sei que fui muito rude e violento mas não me foi possível evitá-lo — sussurrou Neumann, como se estivesse falando consigo mesmo. — Fi-la cair, e...
Katie aproximou-se ainda mais do forasteiro e audaciosamente, colocou-lhe uma das suas delicadas mãos sobre um braço.
— Oiça, senhor Neumann: não será melhor que o senhor se esqueça de tudo isso e trate de se divertir? Não gosta do baile ?
Estava tão próxima dele que se sentiu embriagado com o perfume que dela se evolava.
— Como... como diz?...
— Estava convencida que tinha vindo aqui para se divertir, ou estarei enganada?
Neumann amaldiçoava-se mil vezes pelo seu acanhamento. Era verdadeiramente espantoso o que os olhos de uma mulher bonita podiam fazer a um homem. Ele que nunca vacilara diante de nada... nem diante de ninguém...
Mordeu os lábios. Se ao menos lhe fosse possível dizer «adeus» e escapulir-se para longe daquela endiabradamente lindíssima mulher!...
Não. Não queria ir-se embora. Na verdade estava ansioso para a convidar a dançar; por senti-la entre os seus braços... nem que fosse apenas um instante e dizer--lhe que...
Os seus olhos encontraram-se.
Katie deixou de sorrir. O olhar do forasteiro tornara-se repentinamente firme, sereno e perturbadoramente varonil. Percorreu toda a sua silhueta com os olhos ávidos desde o gracioso chapelinho até à extremidade dos elegantes sapatinhos, de um modo que fez estremecer e bater descompassadamente o pequenino coração da jovem.
— Pelo que vejo, também veio divertir-se, não é verdade, menina Katie?
Katie teve um instante de hesitação.
— Pois vim... Porque pergunta isso?
— É seu hábito andar acompanhada de um grupo de amigas com intriguinhas e bisbilhotices?
— Insolente!!
— Não seria preferível que se entretivessem apenas a dançar e a tornar a festa mais alegre, com esse belo palminho de cara que Deus lhes deu?
Katie olhou para Neumann com infinita surpresa.
— Afinal o senhor é tão grosseiro como qualquer pacóvio da província!
Neumann sorriu-se.
— Que outra coisa esperava de mim?
— Esperava simplesmente que fosse... um homem!
— Perdão! Um momento! Se não se tratasse de quem se trata, acredite que viria a lamentar ter dito o que disse. Como se trata de uma mulher... e, sobretudo, de uma mulher bonita, farei de contas que não ouvi nada...
Amedrontada perante o olhar daquele homem, Katie recuou, refugiando-se entre as suas amigas que, por sua vez, não estavam a achar a conversa divertida. Sentiam-se verdadeiramente desconcertadas pela súbita transformação operada naquele forasteiro que, em escassos segundos, pareceu agigantar-se de forma inverosímil.
Katie, entretanto, tratou de recuperar a serenidade.
— Oiça: se está convencido de que tem muita graça...
Neumann voltou a sorrir-se.
— Não olhe para mim dessa maneira. A única coisa que eu pretendo é que venha dançar comigo.
Katie purpureou-se.
— Como? Quer que eu...
— Sim.
Tentou recuar um passo mas Neumann deteve-a por um braço.
— Não vai dizer-me que não, não é verdade?...
— Mas...
— É verdade que vai dançar comigo, não é ? — disse aquelas palavras de uma forma tão estranha e ao mesmo tempo tão persuasiva...
Levantou rapidamente o braço livre, enlaçou-a pela cintura e atraiu-a a si, cravando os seus olhos ardentes nos olhos dela.
— Vamos?...
Todas as mulheres têm um limite de resistência.
Katie... era mulher.
— S…i…m..
 

sexta-feira, 11 de março de 2016

PAS597. A timidez do moscardo

A noite começava a cair.
Adam Neumann contemplou o céu e o horizonte. Dentro de alguns instantes seria noite cerrada. A noite descia de modo muito estranho no Novo México. Nem um simples crepúsculo. Que diferença das noites do Texas!
Deu um profundo suspiro: Texas!
Bendito Deus! O belo e selvagem espetáculo do pôr-do-sol no Texas!...
As luzes acabavam de ser acesas em toda a cidade.
Músicas para todos os gostos faziam-se ouvir nos pianos de todos os concorridos estabelecimentos que enchiam aquela rua. Apesar de ser ainda bastante cedo, vaqueiros começavam já a divertir-se à grande.
Grande número de homens circulava pelas ruas, dirigindo-se para os «saloons» e casas de jogo.
Estranhando grandemente não ter visto Tommy, o forasteiro encaminhou-se vagarosamente para o «Casino dos Ganadeiros» cujo alpendre, iluminado por grandes lanternas de metal, o tornava inconfundível.
O gerente do hotel informara-o de que a mais importante das casas de jogo de toda a cidade era, sem dúvida, «Casino dos Ganadeiros». Segundo lhe dissera, qualquer pessoa que soubesse manejar as cartas, podia enriquecer facilmente, durante uma noite.
Adam Neumann desceu a rua pelo lado esquerdo. Tocando-lhe com o cotovelo, uma mulher surgida de uma das azinhagas transversais desatou a rir-se para ele.
O forasteiro esboçou um frio sorriso e atravessou a rua, afastando-se da pobre rapariga que se apressou a regressar ao seu cubículo.
Uma escassa dezena de metros o separava agora do «Casino dos Ganadeiros», cujas janelas se encontravam todas abertas. O interior da casa regurgitava de gente. A voz do «croupier» gritava nesse momento:
— Par e vermelho! Façam o seu jogo!
Ao seu lado, junto do passeio e em frente de um armazém contíguo ao casino, estacionava uma elegante carruagem em cuja boleia dormitava um mexicano.
Subitamente, alguém que, sem dúvida, estava com muita pressa, saiu do armazém como um furacão. Adam Neumann mal teve tempo de se aperceber do que se passava. Quando pretendeu consegui-lo, o apressado cliente do armazém chocou com ele com tal violência que o obrigou a recuar um passo, cambaleando.
Ouviu-se um grito no meio de toda aquela confusão e um «oh!», vivo e estridente, seguido do baque surdo de qualquer coisa que caía nas tábuas do passeio.
Neumann, que levara instintivamente a mão à coronha do revólver, apressou-se a retirá-la como envergonhado, ficando-se a olhar para a pessoa que acabar de tropeçar com ele e que jazia agora estatelada no solo, no meio de um amontoado de pacotes, de saquinhos e d urna graciosa e bonita chapeleira.
— Bruto! Selvagem!
Poucas vezes, durante toda a sua vida, ouvira palavra mais agressivas da boca de uma mulher.
E que mulher!
Absorto, completamente aparvalhado com aquela beleza feminina, Neumann quedou-se imóvel, contemplando boquiaberto aquela rapariga encantadora que, a despeito do forte encontrão que lhe dera, se encontrava ali estendida no passeio.
— Não tem olhos nessa cara?... Ao menos podia ter pedido desculpa.
Fora a deliciosa voz da jovem que soltou aqueles desabafos, depois de esperar algum tempo que lhe estendessem a mão.
Adam Neumann franziu as fartas sobrancelhas e olho com a maior firmeza para a jovem, sem arredar um passo nem despregar os lábios.
Que maravilhosa criatura!!
Que feições tão delicadas e atraentes!!
E que olhos!!
Como seria possível descrever aqueles olhos grandes e luminosos que estavam cravados nos seus?
Seria fácil compará-los com dois belos lagos sombreados pela verde folhagem dos abetos; com a cálida serenidade de urna noite primaveril; com... com...
A jovem apenas exclamou:
— Bruto!
Levantou-se sem qualquer auxilio, colocou o pequenino chapéu na cabeça e, depois de sacudir a barra da saia, começou a apanhar apressadamente os volumes espalhados.
Concluída a tarefa, endireitou-se com a maior dignidade e encaminhou-se para a carruagem onde o velho mexicano continuava dormitando.
— Eh, lá! Espere um instante.
Neumann alcançou a jovem numa passada.
Detendo-se bruscamente, mediu o homem de alto a baixo com a maior altivez.
— Olhe que se esquece disto... deste volume... -- balbuciou Neumann, estendendo-lhe a chapeleira.
Descobriu-se um tanto atabalhoadamente, acrescentando com a maior timidez:
— Peço que me perdoe... fui um pouco rude. Eu...
Não lhe foi possível continuar. Fez-se-lhe um autêntico nó na garganta, como se estivesse engasgado com uma noz.
A formosa jovem amenizou a expressão do rosto. Alguma coisa devia ter adivinhado no fundo dos olhos daquele afogueado rosto porque um leve sorriso lhe aflorou aos lábios.
— Até que enfim! Cheguei a convencer-me de que perdera a fala!
Disse aquilo com uma naturalidade tal que a atrapalhação de Neumann subiu de ponto.
Abriu os lábios mas não foi capaz de exteriorizar as palavras que estava dizendo a si próprio. Não pôde fazer mais do que engolir em seco.
— Bem! Se não for demasiado incómodo, cavalheiro, poderia colocar-me esse volume junto dos outros?
Neumann conseguiu desempenhar-se tremulamente da incumbência, balbuciando:
— Há-de perdoar-me aquele estúpido encontrão. Não sei como...
O sorriso da jovem tornou-se mais aberto. Mais cordial e mais condescendente.
— Talvez a culpa tivesse sido toda minha... — e lançando-lhe um olhar que lhe penetrou até ao mais íntimo do coração, subiu agilmente para a carruagem depois de ter colocado os embrulhos na parte de trás.
Dirigindo-se ao cocheiro, disse a jovem quase num sussurro:
— Vês aquele homem?
O mexicano dirigiu a Neumann um olhar agressivo, ao mesmo tempo que lançava mão do velho pistolão que trazia na cinta.
— Acaso lhe faltou ao respeito?
— Nem por sombras. Sabes, porventura, quem ele seja?
O velho cuspiu a bola de tabaco que estava mascando e respondeu:
— Não faço a mínima ideia. Porquê?
— Deve tratar-se de algum forasteiro.
— Ou talvez de um qualquer desses vaqueiros...
— Não tem aspeto disso.
— Talvez seja algum rufião.
— Também não me parece.
— O melhor é não se fiar no aspeto dos homens...
— Ê um homem.., muito gentil.
— Como? Que é que disse? — O velho olhou para a jovem em ar de censura.
A jovem soltou um riso cristalino.
— Pronto, Pancho! Vamos para casa.
— Sim, menina.
Muito tempo depois de a carruagem ter desaparecido, ainda Adam Neumann permanecia imóvel à beira do passeio, virando-se e revirando o chapéu entre as mãos.
Estava como extasiado, hipnotizado pela beleza daquela lindíssima rapariga. Jamais conhecera mulher que se lhe pudesse comparar.
— Chama-se Katie Parkington. A rainha do Vado.
Neumann voltou-se, sobressaltado, ao ouvir pronunciar aquelas palavras junto de si. Era Tommy.
Ah! És tu? Diz-me cá, grande patife, onde diabo é que tens estado metido?
O gaiato sorriu-se, piscando os olhos ironicamente.
— Tenho andado por aí. Nunca me convenci de que pudesse precisar de mim.
Neumann puxou-lhe por uma orelha com toda a força.
— Maroto!
Mas, logo, sorrindo, sussurrou em tom confidencial:
— Sabes, deveras, quem ela é?
— Nem mais nem menos do que a filha de Stefan Parkington. Um homem muito rico a quem pertencem todas as pastagens ao sul do vale e de todos os demais que existem desde aqui até às montanhas. Além desta filha tem também um rapaz, de nome John que anda sempre metido em sarilhos.
— Não há dúvida nenhuma. És um autêntico livro aberto, meu caro Tommy.
— Eu já tinha dito que podia ser-lhe muito útil, senhor Neumann — disse Tommy, sorrindo-se e acrescentando: — Sabe? A menina Katie ainda não tem noivo embora tenha muitos pretendentes.
— É muito natural.
— O pai dela corre com os moscardos para longe. Ainda nenhum lhe pareceu suficientemente bom para ela.
— Faz ele muito bem.
-- Não sei se faz — disse o mancebo. — Uma menina tão linda como ela é, merece ter um belo rapaz para defender as suas cores no «Rodeo»...
— Que queres dizer com isso?
— Quero dizer que é uma pena não ter aparecido até agora quem entre nos concursos a bater-se em defesa de tão linda donzela.
— Como é que isso é possível? Quer dizer: é costume ir um «cow-boy» ao «Rodeo», defender as cores da bandeira de uma senhora?
— Já se vê que é esse o costume. Mas só é permitido fazê-lo ao seu próprio noivo.
— Só assim?
— Bem; também pode ser feito pelo seu pretendente, se ela o aceitar para seu campeão.
— Ah!
Andando e conversando acabaram por chegar à porta do «Casino dos Ganadeiros».
Olhando de través para o seu interlocutor, Tommy, perguntou:
— Pensa solicitar a honra de defender as cores da menina Katie, senhor Neumann?
Iludindo a pergunta formulada, Neumann objetou:
— Nem um pio. Agora vou ali dentro ver se arrisco algum dinheiro ao póquer.
— Pois que seja muito feliz, senhor Neumann.
— Ao jogo?
— As duas coisas, senhor Neumann, às duas coisas...
 

quinta-feira, 10 de março de 2016

ARZ104. A redenção do bandido

 
(Coleção Arizona, nº 104)
 
 
Chegou sózinho à cidade à procura de alguém. Em breve, todos viram que era pessoa muito especial de quem era perigoso ser inimigo. Foi-se afirmando com uma presença cada vez mais forte perante os homens e perante... ela.
Até que um dia...
"Eram cinco homens. Cinco cavaleiros mal trajados, barbudos, cobertos de pó de longa caminhada... e todos bem armados. Um estremecimento percorreu os habitantes da cidade que, abrigados à sombra dos alpendres ou através das reixas(?) das janelas contemplavam a entrada da estranha comitiva. Juntamente com aqueles homens cavalgava também a morte...". - conta S. Max.
O certo é que todos se conheciam. E tiveram a má ideia de atacar aquela que agora representava muito para ele. Não consentiu. Opôs-se de armas na mão e caiu com o corpo varado de balas, mas conseguindo salvar a mulher que amava, redimindo-se assim da sua existência como bandido.
Anthony S. Max, 11 obras registadas em Portugal, traz-nos um livro com os habituais ingredientes do Oeste mas com algumas características diferentes: o bandido que se regenera salvando a mulher dos seus sonhos.
A capa, assinada por um M. Angel para nós desconhecido, mostra um pormenor de tiroteio.

quarta-feira, 9 de março de 2016

ARZ103. Era um valente

 
(Coleção Arizona, nº 103)
 
 
Um jovem regressa a casa, depois de dez anos de ausência, supondo ir encontrar o pai em boa situação. A pouco e pouco apercebe-se que está enganado. O rancho que conhecera é um monte de destroços e o pai tinha desaparecido.
A sua missão tornou-se então encontrar o pai e devolver ao rancho o brilho que este tinha tido, mas havia alguém na vizinhança que não estava interessado nas suas ações. Assim acabou por ter de empregar a força e o reencontro com o pai foi em moldes que, no final da novela, alguém pôde afirmar: «Era um valente».

terça-feira, 8 de março de 2016

ARZ102. Marcada a fogo

(Coleção Arizona, nº 102). Capa e texto indisponíveis

PAS596. O olhar do potro branco

O «rancho» de Jack Dean ficava a cerca de meia hora de Phonex. Quando ali soubessem o que se passava e se dispusessem a enviar socorros, já ele se encontraria são e salvo a muitas léguas de distância. No dia seguinte não restaria nada mais do que um montão de madeira carbonizada.
Enquanto a sua imaginação discorria sobre este e outros motivos, ia gravando com a ponta do arame em brasa o nome de Nandy Leick no pedaço de madeira. Dentro dos currais, transformados num enorme braseiro, era infernal o alvoroço das reses envolvidas pelas chamas, acicatadas pelo calor a asfixiadas pelo fumo. Cá fora, as searas lambidas pelas labaredas mais faziam lembrar um vasto oceano de fogo. Tinha escurecido por completo. O pedaço de madeira com o nome de Nandy marcado a fogo pendia do galho da mesma árvore onde prendera o cavalo.
Montou novamente a cavalo e olhou para os estábulos ainda não completamente atingidos pela vaga das chamas. Os animais, no meio da confusão gerada, faziam esforços espantosos para rebentar com a vedação. Era muito possível que rebentassem a porta antes que o fogo a atingisse.
Swater sorriu-se silenciosamente. Afagou a coronha da sua espingarda «Spencer» que sobressaia do longo coldre suspenso da sela e puxou pelo revólver. Deu uma esporada ao cavalo e dirigiu-se para a porta do curral que, com a violência dos coices dos cavalos e das vacas, rangia fragorosamente acabando por se abrir de par em par.
Arredou-se para um dos lados, a cerca de uns quinze metros e de revólver em punho. Os animais lançaram-se loucamente numa correria desordenada, em busca da liberdade. Não eram muitos. Uma dezena de cavalos e uma meia dúzia de vacas e de bois.
Começou a disparar freneticamente, derrubando cavalos e bois que, uma vez estirados no solo, dificultavam a marcha dos restantes, agitando desvairadamente os chifres que rasgavam profundamente as entranhas dos demais. Uma carnificina. O último cavalo acabou por cair varado por uma bala, engrossado o monte dos mortos e dos feridos.
Swater pegou na espingarda e desatou a dar os golpes de misericórdia nas reses feridas que foram caindo, uma por uma, definitivamente.
Swater saltou uma gargalhada. Dava por concluído o seu trabalho: a casa do «rancho» completamente destruída; o gado morto a tiro, a seara transformada num mar de fogo e, para remate da obra, um nome marcado a fogo como assinatura simbólica do autor da memorável façanha.
Subitamente, porém, alguma coisa de insólito se passou. A cabeça inquieta de um potro, com os olhos brilhantes e espantados pelo estampido dos tiros, surgia de dentro do estábulo. Os olhos de Swater fixaram-se no «jovem» cavalo, com a ânsia do caçador que julga concluída uma caçada e vê surgir, inesperadamente, uma nova presa.
Como se fosse um raio, um cavalinho branco saiu de dentro do estábulo em direção ao local onde se amontoavam as reses mortas e, com um salto assombroso, de uma agilidade felina, galgou o montão de cadáveres, continuando a fuga para o campo, enquanto a espingarda de Swater disparava um tiro para as nuvens.
Deu de esporas à montada e lançou-se em sua perseguição. Viu a sua esbelta silhueta surgir acima do campo iluminado pelas chamas e disparou sem o atingir. Perseguiu-o com redobrado entusiasmo, através da margem poupada pelo incêndio e ergueu novamente a espingarda no momento em que o cavalo, inexplicavelmente, acabava de estacar e, perdendo o sentido da primitiva orientação, parecia querer regressar ao ponto de partida.
Apontou à cabeça do animal, curvou o dedo sobre o gatilho e apercebeu-se de que o tiro disparado fora seguido de uma segunda explosão. Ante os seus olhos espantados acabava de surgir um outro cavaleiro como que expelido pela terra, na cola do cavalo branco, ao tempo que um «Colt» luzidio relampejava na sua mão direita.
Swater sentiu o impacto da bala no tórax o que, não suficientemente refeito da surpresa e também por virtude da dor recebida, o obrigou a largar da mão a espingarda que empunhava. Curvou-se rapidamente sobre a sela, mergulhando a um dos lados do pescoço do cavalo, prevenido como estava de que o cavaleiro esporeava a montada lançando-se vertiginosamente na sua direção. Nem chegou a dar conta de como começou a debandada a coberto das sombras da noite e fugindo a «unhas de cavalo», ao mesmo tempo que sentia no peito a presença da bala que o massacrava a cada movimento, a cada upa do cavalo, a cada salto que dava para se desviar de um obstáculo, em cada curva, em cada elevação de terreno, como se dentro do seu tórax se encontrasse algum rato que o estivesse devorando fincando-lhe os dentes nas entranhas.
Conseguiu reagir às dores que o afligiam e dirigiu-se para a cabana onde deixara Nandy Leick ferido, no dia anterior, e aguardando, ansiosamente, o seu regresso. Ali, dizia de si para consigo, encontraria a indispensável ajuda e amparo para continuar a defender-se. Perdera a espingarda durante a luta, e o revólver jazia abandonado no fundo do, coldre completamente vazio e sem possibilidade de voltar a utilizá-lo.
Atrás de si, numa perseguição implacável, continuava um cavaleiro completamente desconhecido para ele mas que uma voz interior lhe dizia ser o dono do «rancho» incendiado, o tal filho de Charles Dean, de que Nandy Leick lhe falara.

segunda-feira, 7 de março de 2016

PAS595. Planos de vingança

Fez estacar o cavalo e apeou-se com penoso esforço. O braço pendia-lhe inerte ao longo do corpo, mostrando a manga encharcada e a mão inteiramente tingida de vermelho. Teve de apoiar-se na sela antes de se dirigir para a cabana. Deu um tropeção e se não tosse o recurso do braço estendido para diante, ter-se-ia estatelado antes de chegar à porta.
Nandy Leick amaldiçoou mentalmente o filho de Charles Dean, bradando em altas vozes, cheio de dor e de cólera:
— Swater! Swater! Abre! Sou eu... Nandy Leick!
Ouviram-se uns passos precipitados e o barulho de um banco derrubado. Abriu-se a porta e apareceu o rosto de um homem contemplando o recém-chegado com espanto. Estendeu os braços e auxiliou o homem a penetrar na cabana.
— Com os diabos, Nandy. Chegaram-te a valer! Entra...
Levou-o até ao divã, onde ficou estendido, observando seguidamente o ferimento. Nandy perguntou quase num gemido:
— Terei osso quebrado?
— Não! A bala penetrou na carne e ficou aí alojada. Dentro de algumas semanas estarás são como um pero.
Limpou e desinfetou convenientemente a ferida a que fez o necessário penso, perguntando, enquanto lhe suspendia um lenço ao pescoço:
— Quem te fez a «partida», Nandy? Foi por acaso Lester Olner?
Nandy abanou negativamente a cabeça. O homem, entretanto insistiu na pergunta, manifestando uma intensa curiosidade nos seus olhos acobreados.
— Não. Lesber Olner e eu ainda não ajustámos as contas. É possível até que não voltemos a encontrar-nos. Foi outro. Um desconhecido. Um autêntico novato no manejo das armas... mas derrubou Sharto e Kirsey Logan. Eu consegui escapulir-me a unhas de cavalo, apenas com este ferimento. Foi o filho de Charles Dean. Ouviste já falar nele?
— Charles Dean? Esse homem não esteve preso durante muitos anos?
— Esteve mas já saiu e agora está a apodrecer. Meti-lhe algumas balas no peito e nas costas para que mordesse o pó. Fomos generosamente pagos e tudo correu pelo melhor. Calhou aparecer o filho na ocasião e deparar-se-lhe o pai quase a exalar o último suspiro. Deliberou vir ao nosso encontro e o resto já tu sabes tão bem como eu.
— E que pensas fazer agora?
— Vingar-me. Ninguém se gaba de ferir Nandy, impunemente

domingo, 6 de março de 2016

PAS594. Assim começa a vida dum pistoleiro

Jack Dean encontrava-se ainda na mesma posição, sentado na cadeira, quando Barton apareceu. Levantou-se de um salto, arredando a cadeira para o lado com o pé. Desceu do tablado para o meio da calçada, sem despregar a boca. A sua mão direita parecia adejar sobre a coronha do «Colt» que sobressaía da pistoleira, como uma ameaça permanente.
— - Que pretendes daqui, Jack Dean?
Deu um passo em frente e quando saiu a resposta, já, os seus olhos tinham descortinado a vaga silhueta de Corwer junto da janela e mover-se um par de sapatos de cada um dos lados dos batentes da porta de entrada. Sem que os seus olhos deixassem um instante sequer de olhar para a mão de Barton que pendia ao lado do revólver que trazia suspenso do cinto, Jack Dean disse:
— Enviastes três pistoleiros a Thomsone, para assassinar meu pai. Conseguiram-no. Cheguei demasiado tarde para impedi-lo, mas dois dos pistoleiros não voltarão mais a disparar. O mais jovem conseguiu fugir apesar de ferido mas não lhe darei tréguas. Persegui-lo-ei sem descanso para lhe pedir contas da morte de meu pai. E foi para também vos pedir contas a todos quatro que aqui me encontro. Cairão um por um diante do meu revólver, cobardes assassinos. O primeiro serás já tu, Barton. Puxa pela arma e dispara.
Barton mastigou urna insolência, gritando surdamente:
— Mandar-te-emos fazer companhia a teu pai.
Ainda não tinha terminado a frase e já a sua mão empunhava o «Colt», retirado com impressionante celeridade do coldre, mas também já a mão do jovem exibia o revólver donde saíam faíscas de fogo e de chumbo. Arrojando-se ao solo e, mudando constantemente de posição, continuou disparando na direção do seu inimigo. Barton pôde ver-lhe nitidamente a figura, ao tempo que a primeira bala lhe atravessava a garganta e um jato de sangue ardente lhe golfava do interior. Recuou dois passos, abriu os braços e ficou-se estatelado no soalho do «saloon», deixando a descoberto a figura de Lambert quando se preparava para disparar. Outra bala foi perfurar a testa de Lambert que abriu desmedidamente os olhos provocando urna reação de pavor em Stone ao vê-lo cambalear como um palhaço, tropeçar e deixar-se cair sobre Barton cujo corpo se desviou por virtude do choque, indo finalmente atravessar a porta cujos batentes ficaram a abrir e a fechar desordenadamente.
Foi naquele preciso momento que os olhos atónitos de Stone Clippe viram com impressionante nitidez o cano do «Colt» de Jack Dean que o visava com implacável firmeza. Viu-o endireitar-se urna vez mais e relampejar o fogacho, ao mesmo tempo que a boca se lhe abria num gesto de horror. Stone Clippe deixou escapar um gemido abafado, enquanto a bala lhe penetrava no meio da cabeça empurrando-o brutalmente para trás, com o crânio desfeito. A violência do choque da nuca contra o solo fez esparrinhar a massa encefálica em todas as direções.
No mesmo instante os vidros da janela ficaram feitos em estilhas por dois motivos sucessivos e diferentes. O primeiro foi a quebra provocada pela bala e o segundo pela queda da parte superior do corpo de Corwer que, com a testa atravessada, se despenhava com todo o seu peso sobre as vidraças que ficaram feitas em fanicos, enquanto metade do corpo lhe pendia do peitoril para o exterior. Não estava, porém, ainda morto como os seus companheiros. Absolutamente imóvel como se encontrava, pôde ainda entreabrir os olhos e ver como Jack Dean, sempre de revólver em punho, atravessava lentamente a calçada e galgava os três degraus do «saloon». A voz de Corwer chamou-o quase num gemido.
Parou e contemplou-o com a maior atenção. Tinha o rosto completamente coberto de sangue da testa para baixo, correndo-lhe um fio vermelho da cabeça até à ponta do queixo, de onde caía sonoramente em gotas no soalho.
— Dean...!
Aproximou-se com a maior indiferença.
— Que desejas?
— Venceste-nos a todos. Vingaste bem teu pai. Mas...
— Mas... quê?
— Ficas amaldiçoado. O sangue pede sangue. Já não conseguirás ser mais do que um pistoleiro. Serás... apenas um pistoleiro. Um... pistoleiro.
Não pôde dizer mais nada. Mas, antes de morrer, tinha largado ainda a baba venenosa. Deixou pender a cabeça que ficou balanceando durante alguns segundos, acabando por se imobilizar. Um grosso jorro de sangue começou a brotar do buraco aberto pela bala encharcando o solo por completo.
Jack Dean reagiu contra o vaticínio, dizendo com íntima convicção:
— Não! Não serei nunca um pistoleiro. Matei para me vingar de todos aqueles que deram a morte àquele que me deu a vida. Ainda falta um. Esse também acabará por pagar o seu cobarde assassínio. Depois... voltarei para o «rancho». Arrojarei as armas e voltarei a pegar no arado. Não serei um pistoleiro. A minha arma será unicamente o arado.
Uma voz pausada e serena dirigiu-lhe as seguintes palavras, sem qualquer censura ou azedume pelo que acabava de ocorrer:
— Nunca mais te deixarão, Dean. Desde este instante tens o teu nome ligado a todos os teus atos. Vingaste teu pai, eliminando todos aqueles que intervieram na sua inerte. Ninguém te lançará em rosto o teu desforço; mas a rapidez do teu revólver vai ser uma constante tentação para outros homens que desejarão defrontar-se contigo para te arrebatar a glória da habilidade por ti demonstrada no manejo do «Colt», apesar de tu próprio nunca te envaideceres com isso. Por todas as partes por onde passes sair-te-ão ao encontro para se medirem contigo e tu não poderás negar-te, sob pena de te apelidarem de cobarde. E então, para poderes viver, terás de ir matando quantos te saiam ao caminho. Foi toda a vida esta a sina dos pistoleiros. Mau destino, Jack Dean!
Jack Dean não respondeu. Ficou um tanto pensativo, repôs lentamente a arma no coldre e dirigiu-se para o lugar onde se encontrava o cavalo. Montou e só depois, quando se preparava para partir, disse com voz firme:
— Cumpri a minha obrigação para com a memória de meu pai. O que vier a seguir não será por culpa minha. Tudo farei para que nunca se diga que Jack Dean é um pistoleiro cobarde.
Deu de esporas ao cavalo e iniciou a marcha com o cavalo a passo, a cabeça levantada e a testa franzida, absorto nos seus pensamentos. Caminhou pelo meio da rua principal de Simpson com destino à terra livre e indómita da pradaria.
O homem idoso e cheio de cãs que lhe havia dirigido a palavra, comentou:
— Seja como for e quer queira quer não queira, começou neste momento a vida de pistoleiro de Jack Dean.

sábado, 5 de março de 2016

PAS593. O homem do revólver sem balas

Jack recolheu o revólver e examinou-o. Um homem a seu lado, explicou:
— Estava desarmado. Obrigaram-no a bater-se a força. Só se decidiu quando se recusaram a deixá-lo avistar--se com a sua pessoa. Foi então que um homem que fazia parte do grupo lhe atirou esse revólver para que se defendesse. Apanhou-o no ar mas nem sequer lhe deram tempo para disparar. Os outros foram mais rápidos. •
Jack Dean fez girar o tambor do «Colt» que apanhara do solo. Murmurou qualquer coisa entre dentes e exibindo o revólver que tinha entre mãos, esclareceu o homem que lhe dera a informação:
— Deram-lhe uma arma para se defender mas nunca poderia tê-lo feito. O tambor estava vazio.
Meteu o revólver entre a camisa e o cinto e percorreu com o olhar os quatro homens que o rodeavam.
-- Para onde se dirigiram esses três tipos?
Depois de olharem uns para os outros, disse um deles:
— Para o «saloon» lá de cima. Foram tomar umas bebidas.
Outro dos presentes, apontando para o lugar indicado, exclamou:
— Aí os tem. São aqueles três que acabam de sair do «saloon».
Jack Dean acariciou a coronha do seu revólver que sobressaía do coldre e avançou para eles em passo moderado pelo meio da calçada deserta.
Os três homens dirigiam-se para os cavalos quando se aperceberam da presença de Jack; pararam e dirigiram-se também, sem pressas,-na sua direção. Foi Nandy Leick quem, sem retardar o passo, perguntou, com a certeza antecipada da resposta que ia receber:
— Quem és tu e que é que tu pretendes?
Parou um instante e respondeu:
— Chamo-me Jack Dean e venho cobrar o preço da morte de meu pai, com a vida de cada um de vós.
Puxou pelo revólver, segurando-o pelo cano e perguntou:
— Qual de vós foi o canalha e o cobarde que entregou este «Colt» vazio a meu pai?
Nandy Leick sorriu-se levemente, olhando para Sharto, o tipo atarracado. Os três homens cobriam totalmente a rua. Sharto no meio dos outros dois e à sua esquerda, Kirsey Logan, o silencioso, cuspindo para o lado com desprezo. Eram três pistoleiros rápidos e temidos pela ligeireza com que empunhavam 'as armas, contra um jovem desconhecido, cego de fúria, segundo parecia, para vingar a morte de seu pai. Sharto, pelo menos, assim o pensou, quado, semicerrando as pálpebras, estendeu o beiço inferior, respondendo:
— Fui eu mesmo. Porquê? Há alguma novidade?
O revólver sem balas deu duas voltas no ar e foi cair a um palmo de umas das botas de Sharto. O filho de Charles Dean vaticinou:
— Pega nessa arma que vais morrer com ela na mão, miserável.
A mão de Sharto, rápida como uma flecha, sacou a arma do coldre com uma fúria demoníaca e apertou o gatilho. A detonação, porém, não se produziu. Só então, tanto ele como os seus companheiros, se aperceberam de que o filho de Charles Dean era ainda mais temível que seu próprio pai nos seus heroicos tempos.
Soaram três detonações e todas elas produzidas pelo revólver de Jack.
O revólver de Sharto saltou-lhe da mão, empurrado pelo chumbo da bala. Kirsey Logan, à sua esquerda, soltou uma espécie de gemido muito parecido com o grito das aves noturnas, assim como que o rugido de um coiote que morre com o sangue a sufocar-lhe a garganta. Rodou sobre si mesmo, ficando estirado numa postura grotesca e trágica. A sua direita, Nandy Leick, soltando uma exclamação de dor, deixou pender o braço já sem arma, enquanto com a mão livre procurava amparar o braço ferido. Louco de terror e fazendo um alarido espantoso conseguiu, após voltas e reviravoltas, enfiar-se numa porta aberta de uma casa próxima. Enquanto procurava fugir, o revólver de Jack voltou a disparar, no instante preciso em que Nandy Leyck desaparecia no interior, indo a bala cravar-se na ombreira da porta. Tudo se passou com a mesma rapidez com que se passa da vida para a morte.
Ouviu-se o ruído característico de vidros partidos a troca de algumas palavras e... o silêncio. A pausa foi breve; ouviu-se o barulho dos cascos de um cavalo que se afastava rapidamente. Leick fugia.
Sharto ficara só perante o perigo que, de perto, o ameaçava. De um lado, o cadáver do seu cúmplice, e do outro a mão de Jack Dean armada de um «Colt».
O seu rosto rubicundo adquiriu uma cor cinzenta enquanto, na sua frente, de pernas abertas e com a arma assestada na sua direção se encontrava o jovem, implacável.
Tudo se passara em poucos minutos e, em menos tempo ainda, iria, talvez, acabar-lhe a vida, pensava Sharto de si para consigo. Baixou os olhos e viu, a cerca de dois metros, dois revólveres caídos no solo: o seu e o que lhe tinha sido atirado por Dean uns minutos antes. A voz deste fez-se ouvir, ameaçadora:
— O facto de o teu companheiro se ter escapado, não tem importância. Por mais que o seu cavalo corra, não corre tanto como a minha sede de vingança. Quem é ele? Como se chama?
Sharto hesitou. Precisava de ganhar tempo para se apoderar do revólver. Disse, com ar carrancudo:
-- Chama-se Nandy Leick em toda a parte.
— Não o esquecerei. Mas necessito de saber mais coisas. Porque assassinaram meu pai? Confessa ou faço-te saltar os miolos.
Sharto olhou novamente para os dois revólveres e deu um passo para a direita a fim de se aproximar da arma e apoderar-se dela no momento oportuno. Uma vez com ela na mão a situação mudar-se-ia absolutamente a seu favor. Conhecia muitas maneiras de se desfazer de outro homem armado. Sharto mediu mentalmente a distância que mediava entre ele e as duas armas caídas no chão. A mais próxima era • aquela que ele tinha empunhado Momentos antes. Tinha a absoluta certeza. Bastaria deixar-se cair de lado, apoderar-se dela e disparar rapidamente, ao mesmo tempo que se rebolaria sobre si próprio como se fosse uma serpente.
Jack, porém, parecia que lia no seu pensamento. Insistiu:
--- Fala! Não estou disposto a esperar.
Segurou mais nervosamente o «Colt» que se empinou ao estampido das duas explosões que se seguiram. Os olhos de Sharto ergueram-se do chão, não sem sobressalto, e volveram-se para o seu inimigo. Mas, prontamente voltou a olhar para o solo onde as armas se encontravam quase ao seu alcance.
A voz insistente de Jack voltou a ouvir-se, enquanto o terror se ia apoderando de Sharto:
— Ou falas, ou a última bala deste «Colt» te entra pelo meio da testa.
Sharto olhou novamente para as armas que tinha a seus pés e para a que Dean empunhava. Não pôde resistir mais:
— Não dispares! Eu confesso! É verdade, fomos assalariados para matar teu pai. Foram quatro homens de Phonex. Um chama-se Stone Clippe. Os outros andam sempre com ele. Neste momento aguardam o nosso regresso para saber notícias da morte de Charles Dean.
O cano do revólver continuava ameaçador, apontado à cabeça de Suharto.
— Diz-me os seus nomes; Stone Clippe já eu conheço de sobra. Venham os outros nomes.
Sharto proferiu-os de um jato:
— Lambert, Corwer, Barton.
— Muito bem. Sei perfeitamente quem eles são e a culpa que lhes cabe por meu pai ter passado quinze anos atrás das grades, por uma patifaria que eles próprios praticaram. Não contentes com isso, mandaram assassiná-lo.
Houve uma breve pausa. O cano do «Colt» mantinha-se apontado à cabeça de Sharto que continuava a espreitar os dois revólveres que se encontravam perto de si.
— O tempo urge. Suponho que Nandy Leick se dirigirá para Simpson a fim de se pôr em contacto com os que largaram a massa. Estou com pressa, e mais pressa tenho ainda de despachar-te a ti.
Sharto perdeu o pouco aprumo que ainda lhe restava. Ganiu uma súplica cobarde:
— Não me mates! Não!
-- És um cobarde que não és digno da vida.
Mostrou as mãos abertas:
— Estou desarmado!
— Também meu pai o estava... e tu puseste-lhe nas mãos um revólver sem balas, sabendo que o mandavas direito para a morte. Deveria fazer-te o mesmo mas não o faço. Não sou um assassino. Faço justiça a meu pai. Deixarei que a sorte escolha o teu destino. Apanha um desses revólveres. Podes apanhá-lo, apontar-mo e disparares contra mim se tiveres coragem.
Sharto cravou os olhos nas duas armas caídas. Algumas gotas de suor lhe deslizaram pela fronte, Os olhos iam de uma arma para outra, observando-as minuciosamente, a fim de descobrir qual a que lhe convinha. Eram iguais como duas gotas de água. Por fim, pareceu descobri-lo e identificá-lo.
— Estás ou não estás decidido a pegar num dos «Colts»? É a única oportunidade que te ofereço para te não matar desarmado como se foras uma fera do mato.
Rugiu de maneira feroz:
— Sim! Vou matar-te com aconteceu a teu pai, Dean. Estou pronto! Quando quiseres...
A voz do jovem interrompeu-se, bruscamente:
— Agora!
Sharto encolheu-se. Estendeu a mão, pegando sem vacilar no revólver que identificara. Os cinco dedos da sua mão colaram-se à coronha da arma como se fossem outras tantas sanguessugas. Rodou o tarso rapidamente sem sequer se levantar do chão, visou a cabeça do jovem e apertou o gatilho. O estalido seco do percutor tomou, dentro da sua cabeça, as proporções de uma detonação horrível que ia crescendo cada vez mais até se desvanecer em espantosa negridão. Apertou mais uma vez o gatilho ao mesmo tempo que a detonação realmente ouvida mergulhava todo o seu ser nas trevas precursoras do nada. Abriu desmesuradamente os olhos que lhe saltaram das órbitas e que uma cortina de sangue, jorrando do buraco aberto no meio da testa lhe velou completamente, como um sudário sangrento, único sudário, aliás, de que era digna a vida do pistoleiro assassino.
Todo o seu corpo se encolheu como um novelo a poucos passos de distância do outro «gun-men» que em vida e nas más obras se chamara Kirsey Logan. Ainda, no seu último segundo de raciocínio, o erro da escolha da arma o fez repetir mentalmente, um sem número de vezes: «Erraste Sharto! O «Colt» era o outro. Maldito rapaz?»
Nem viu nem ouviu nada mais; nem sequer ouviu Jack Dean quando, gratificando generosamente um homem da rua, lhe disse:
— Peço que deem sepultura ao corpo de meu pai. Não posso esperar porque tenho de ajustar umas contas com os verdadeiros assassinos, antes que esse miserável pistoleiro Nandy Leick os ponha de sobreaviso.
Também já não ouviu o fulminante galope do cavalo do jovem através do verdejante prado, enquanto este dizia de si para si:
— Tenho tempo de chegar a Simpson. Nandy Leick tornou certamente, por um atalho mas, como está ferido, não poderá correr tanto como desejaria.
Jack Dean perdeu-se na distância. Os cascos do seu cavalo faziam lembrar o rataplã de um tambor ao percutir a planície calcada e lisa.

sexta-feira, 4 de março de 2016

PAS592. Reencontro no momento da morte

Estava encostado ao balcão tomando uma bebida, quando o homem de rosto duro e corpo atarracado empurrou os dois batentes da porta e, com passo lento, se dirigiu para ele.
— Falo com Charles Dean?
O homem pousou o copo no tampo do balcão, voltou a cabeça e começou a contemplar o recém-vindo por cima do ombro, sem abrir a boca. Esteve quase para negar. Depois de quinze longos anos aquele nome voltava a ouvir-se dentro de um «saloon», como uma pergunta vulgar feita muitas outras vezes naquele mesmo tom. Uma pergunta que equivalia a um repto, a um desafio em que a voz do «Colt» é que ditava o vencedor. Mas, isso ficava já para trás, sepultado no passado, de onde não deveria voltar a ressurgir.
Não se deu ao trabalho de responder, como se a pergunta fosse dirigida a um desconhecido. Voltou a cara ficando-se a olhar para o espelho corrido colocado atrás do balcão, junto da estante repleta de garrafas. Enquanto contemplava a sua própria imagem refletida no espelho, ouviu novamente a voz do homem que repetia a pergunta no mesmo tom indiferente e meio fatigado:
— Falo com Charles Dean?
Via o rosto dele reproduzido no espelho. Não podia haver dúvida: era Charles Dean. Com a diferença, apenas, de que, agora, não era mais do que o espectro do pistoleiro de outros tempos. Estava ali, sim, mas tinha mais quinze anos de idade. A mesma cara de antes, mas mais chupada, mais enrugada. O bigode mais farto, semeado de branco e com as pontas caídas nas extremidades. A testa sulcada de rugas e o sobrolho franzido, revelando as suas múltiplas preocupações. Um pouco derreado dos ombros, alto e seco como um ramo de árvore sem vegetação. Estava ali refletido o seu rosto, ensombrado pelos mais desencontrados pensamentos, na superfície polida do espelho. E ouviu então, mesmo junto da face, as palavras que o homem fizera a pergunta ia proferindo, ao mesmo tempo que o bafejava com o seu hálito quente:
-- Fui encarregado de vir avisá-lo de que é esperado lá fora, dois homens que querem matá-lo.
A notícia sacudiu-o de alto a baixo, como se tivesse recebido uma pancada, à traição, pelas costas. Voltou-se e encarou bem de frente a cara do homem que lhe falava; uma cara torva, sem expressão, plena de baixeza, com um olhar que acabou por desviar dos olhos do seu interlocutor.
Perguntou com a maior calma:
— Dois homens esperam que eu saia para me matarem?
— Dizem que saia, a menos que seja um cobarde.
Os homens que se encontravam próximo do balcão voltaram-se, fixando Charles Dean com grande atenção e afastaram-se deixando-o isolado e com uma enorme clareira à sua volta. Dean ficou no centro, pensativo e carrancudo.
«Não queriam deixá-lo viver em paz. O passado não tinha morrido ainda, nem após os quinze anos de isolamento no presídio. A sua vida de pistoleiro ia ressuscitar na hora em que voltasse a empunhar o «Colt», respondendo ao desafio do primeiro louco que lhe saísse ao caminho. Mais um morto a juntar à lista do passado e mais uma história a acrescentar à vida de Charles Dean.»
Levou automaticamente a mão ao lugar do cinturão onde trazia habitualmente o coldre e não o encontrou. Não quisera munir-se de qualquer arma. Desejava regressar à vida com as mãos purificadas pela longa ausência; renegara o «Colt» por completo, sentindo-se totalmente aliviado por não ter já de suportar o peso do ferro homicida; de não ser portador daquele cacho de uvas cujos bagos de fogo e de chumbo eram sempre mensageiros da morte.
Nenhum dos presentes seria capaz de adivinhar o pensamento do ex-pistoleiro. Mostrava-se pálido, macilento, ante o homem atarracado, cabisbaixo e com as mãos pendentes ao longo do corpo. A pergunta que lhe dirigira aquele tipo sinistro estalou como uma bofetada que lhe fez erguer o rosto e enfrentar a realidade da situação:
— Não será o senhor um cobarde? Disse-lhe que o esperam para o matar.
Dean deu uma palmada na coxa dizendo, sem alterar o tom de voz:
— Não! Não sou um cobarde, mas não trago armas comigo. Quem são esses dois homens?
— Um chama-se Kirsey Logan e o outro Nandy Leick; tem apenas vinte e dois anos e é capaz de cortar o pavio de uma vela, com uma bala, a dez metros de distância. Há ainda um outro, de nome Sharto, bastante parecido comigo mas que, presentemente, não se encontra junto deles.
Charles Dean replicou sem qualquer rancor:
— Não conheço nenhum deles. Nada lhes fiz nem Cies me fizeram a mim. Não compreendo porque é que querem matar-me.
— O melhor que tem a fazer é sair e perguntar-lhes. Se não tem revólver, posso ceder-lhe o meu. Tome.
— Obrigado. Não penso bater-me. A minha vida de pistoleiro terminou há quinze anos.
— Como' queira. Não creio que os convença, mas o melhor é ir saindo, para que não pensem que tudo isso é cobardia.
Todos o viram dirigir-se para a porta e abri-la. Correram para as janelas laterais, de onde puderam ver os dois homens postados em frente do «saloon» mas no lado oposto da rua. Charles Dean parou, com a jaqueta desapertada, deixando ver que não era portador de qualquer arma e com os braços pendentes ao longo do corpo. Atravessou o piso e desceu os dois degraus que dava para a calçada. O cavalo que deixara preso pela arreata moveu a cabeça dando um breve relincho, tendo-o o ex-pistoleiro- acariciado ligeiramente. Parou e quedou-se especado, olhando para os dois pistoleiros que, com a cabeça inclinada e um sorriso torvo o contemplavam com o olhar brilhante de ironia. O sol arrancava reflexos dos adornos metálicos dos cintos e dos «Colts» que emergiam dos coldres. Bastava que dessem dois passos em frente e que disparassem para que as balas o ferissem ou, mesmo, o matassem.
O mais jovem dos dois deveria ser Nandy Leick. Vestia todo de negro: calças, camisa e até o próprio chapéu. A grossa fivela metálica reluzia com brilho intenso, estabelecendo um flagrante contraste com a negridão do vestuário. Debaixo da aba do chapéu, escondia-se um riso doirado. Na mão direita, cujo polegar descansava na fivela do cinturão, brilhava um grosso anel de ouro, enfiado no dedo maior. Tudo no seu possuidor era falso, inclusivamente a pedra do anel que rebrilhava intensamente à luz do sol.
A seu lado, afastado apenas alguns passos, estava Kirsey Logan, o autêntico reverso de uma medalha: sujo e por barbear; mãos enormes e cobertas de cabelos, a testa estreita e contraída. Os seus amplos sacões, ligados às pernas por meio de correias, faziam lembrar as asas de um morcego.
O silêncio foi interrompido pelo mais jovem, num tom calmo e ao mesmo tempo sardónico:
— Olá... Charles Dean. Viemos aqui só para o matar.
Nenhum deles, entretanto, fez o menor gesto para levar a cabo a ameaça. Ficaram-se estáticos, na mesma posição, com os olhos cravados nele como lâminas aceradas, vigiando todos os seus movimentos.
Dean estendeu os braços, mostrando as palmas das mãos abertas e vazias, dizendo simplesmente:
— Não vos conheço de parte alguma. Nada tenho contra vós, nem creio que vós algo tenhais contra mim. Deixei de ser pistoleiro. Sou apenas um homem que saiu do presídio e procura esquecer.
Houve uma ligeira pausa durante a qual os dois pistoleiros trocaram 'um olhar de inteligência. Quando voltaram a olhá-lo, Nandy perguntou em ar de troça:
— Tens medo de morrer, Dean? Quem havia de dizê-lo...
— A morte não me mete medo. Parei aqui, em Tohmsone, somente para aguardar a chegada de meu filho. Não me interessa continuar a ser um pistoleiro. Passei quinze anos no presídio por um crime que não cometi. Isso, porém, já não conta. A única coisa que me interessa é ficar ao lado de meu filho. Também não tenho qualquer prazer em liquidar-vos. Se fazeis questão em matar-me, deixai ao menos que eu veja o meu filho. Não quereria morrer sem vê-lo. Depois... se não houver mais remédio...
Nandy retomou a palavra. Divertia-se cruelmente com aquilo que ele supunha ser medo do homem:
— Não podemos fazer-te a vontade, Dean, nem podemos esperar. Bem sabes que no nosso ofício sempre se tem muita pressa. Faz-se o trabalho e o cavalo se encarrega de pôr terreno de intermédio, se tanto for preciso. Pagaram-nos para te liquidar... e temos de cumprir, mas damos-te a oportunidade de te defenderes.
— Não tenho armas e, além disso não quero disparar contra vocês nem contra quem quer que seja. Quero apenas reunir-me a meu filho. Deixem-me abraçá-lo. Há uma quantidade de anos que o não vejo. A última vez que o vi foi quando foi ao presídio visitar-me.
Nandy abanou vagarosa e negativamente a cabeça.
— Não, Dean. Não verás o teu filho. Teríamos, talvez, de lutar depois, contra ele. Assim, uma vez liquidada a tua pessoa, fica o trabalho acabado. E a verdade é que não me agrada nem quero falar mais. Faz-me sede. E agora, vamos a acabar com isto rapidamente, para ir tomar umas bebidas no «saloon» lá de cima antes de me safar de Thomsone.
Dean levantou-se e falou. As suas palavras estalaram como uma bofetada no rosto do bandido mais jovem:
— Não passas de um canalha Nandy Leick. Nunca te tinha visto na minha vida e quando eu andava a cavalo por todas as povoações do Oste selvagem, ainda te não tinham desmamado. Mas, do que não há dúvida é que te deram muito mau leite a beber, para que, em tão verdes anos, tenhas já tanta maldade. Está bem! Prefiro defrontar-me contigo e com esse que te acompanha, para não deixar a tarefa a meu filho. Mas não tenho armas. Passa-me um dos teus revólveres e eu te ensinarei como se maneja um «Colt».
Nandy sorriu-se com um prazer doentio:
— Não, Dean. Os meus «Colts» são unicamente para meu uso, mas esse homem que está ai à tua ilharga certamente te dispensará o seu.
Dean voltou-se. Estava ali, com efeito, um homem, encostado a um dos pilares do alpendre do «saloon». Era o mesmo homem que entrara no estabelecimento a dar--lhe o aviso respeitante aos pistoleiros que o aguardavam. O homem pegou no «Colt» e atirou-o a Dean, acompanhando o gesto da seguinte frase:
— Aí tem, Charles Dean! Defenda-se!
A arma volteou no ar e foi encaixar-se na palma da mão do ex-pistoleiro. Sentiu o contacto e o peso do metal, a dureza impecável e a força latente, destrutiva e aniquiladora da vida humana. De novo, como em anos já distantes, os seus dedos se crisparam na coronha da arma e o dedo indicador se dobrou com raiva sobre o gatilho, visando instantaneamente os seus dois inimigos.
Estes já tinham as armas empunhadas. No mesmo instante que Dean premia o gatilho, ouviram-se as detonações dos dois «Colts». Quatro tiros, quatro balas que lhe penetraram em diferentes partes do corpo, enquanto o assombro e a raiva impotente se lhe estampavam no rosto ao verificar que o revólver que empunhava estava descarregado e sem bala alguma no tambor.
Os tiros haviam cessado e apesar de ter as balas no corpo continuava de pé. Girou lentamente sobre si mesmo, largando da mão a arma inútil que se enterrou na poeira, ficou uma fração de segundo olhando acusadoramente para o indivíduo que lhe cedera o revólver vazio:
— Cobar...de!
Soou então o último tiro. A bala entrou-lhe junto de um ombro, derrubando-o sobre a poeira onde bateu com a cara, ficando de braços e pernas abertas, completamente imóvel.
Uma voz disse:
— Charles Dean está despachado. Vamos ao «saloon» lá de cima. De tanto falar tenho a boca a saber-me a trapos.
As botas afastaram-se. Fora a voz de Nandy Leick que falara mas Dean mal o ouvia. Ouvia apenas o deslizar lento e quente do seu sangue brotando das feridas abertas na sua carne. Uma humidade tépida ia-o mergulhando num indefinível letargo... e, nas trevas da sua mente ouvia cada vez mais próximo e mais nítido o galope surdo de um cavalo que se aproximava. E logo a seguir, a estacada, uma pausa e um grito:
— Pai! Quem foi que te atacou? Quem? Quem?
Encheu-se-lhe o peito de alegria ao ouvir aquela voz. Era o grito rebelde do sangue, clamando pelo mesmo sangue. Abriu os olhos e sentiu a sensação de se contemplar a si próprio. Era exatamente a sua cara de há vinte anos; o mesmo brilho no olhar; o mesmo poder e a mesma força nas mãos que se crispavam na sua carne rasgada e sangrenta. Nada lhe doía já na presença de seu filho, ao ouvir a sua voz bramindo de raiva. A raiva do filho, despertada pelo mal feito a seu pai, enchia-o de orgulho e de ventura, uma ventura que podia considerar-se compensada pelas balas que lhe tiraram a vida.
— Pai! Quem foi? Dize-me quem foi...
Abriu a boca num penoso esforço, dizendo quase num sopro:
— Não tentes vingar-me, filho. Deixa-os. O sangue pede sangue e a cólera chama a cólera. Não passam de uns assassinos... nada tinham contra mim. Pagaram-lhes para me matarem. Tinha a cabeça a prémio. A profissão deles é matar. Não penses em vingar-me, Jack. Não quero que venhas a ser um pistoleiro.
Ficou-se a olhar para o filho que murmurava em voz sombria:
— Não posso obedecer-te, pai. Irei até aonde for preciso à procura deles. Ainda que me matem. Maldezir-me-ia a mim próprio toda a vida, se o não fizesse. Será feita justiça. Depois... voltarei à charrua. Não serei um pistoleiro.
Ainda pôde contemplar as suas feições durante mais uns segundos. Era igualzinho a si. Seu filho! Aquela promessa solene era o grito do sangue. Charles Dean antes de expirar, ainda sentiu o calor do sangue invadir-lhe todo o corpo como se fosse uma bandeira desfraldado, ao vento; a rajada violenta da paixão e da luta. Seu filho falou como ele teria ambicionado. O seu peito encheu-se de orgulho por aquele filho que o não renegava e oferecia a sua vida em holocausto à de seu pai.
— Bem hajas, filho. Sou completamente... feliz -- inclinou a cabeça, ficando com a face encostada à palma da mão de Jack Dean, aberta e encharcada de sangue.

quinta-feira, 3 de março de 2016

ARZ101. O filho do pistoleiro

 
(Coleção Arizona, nº 101)
 
 
Um pistoleiro foi preso injustamente e condenado a vinte anos de prisão, conhecendo os indivíduos que o tinham acusado falsamente. Ao fim de quinze anos, devido ao seu bom comportamento, saiu e deu a conhecer a decisão de não pretender qualquer satisfação daqueles. No entanto, estes não se sentiram seguros e organizaram-se para o abater, contratando um indivíduo ultra traiçoeiro. Assim, sem armas, foi desafiado para um duelo e, quando lhe deram um colt para as mãos, este estava vazio pelo que foi facilmente vencido. Morreu nas mãos do filho que entretanto o viera esperar. O pacifismo deste jovem foi imediatamente quebrado. Um a um, os assassinos do seu pai foram sendo mortos, restando o traiçoeiro atrás referido. Este manteve as suas qualidades e abateu os próprios amigos para se apoderar do seu dinheiro. Em determinado momento, havia várias pessoas que o procuravam pelos mais diversos motivos, todos a quererem vingar-se dele. Até que o encontro final se deu e o filho do pistoleiro pôde finalmente encontrar a paz que desejava nos braços de uma menina que o acompanhou na sua vingança.
Este foi o único livro de Peter Kenn que encontrámos registado no país. No entanto, em Espanha, o autor que usa este pseudónimo, Juan LLarch Loid, aparece ligado a uma biografia de Luther King, a novelas de ficção científica e a vários guiões para banda desenhada.
A capa, não assinada, mostra um momento em que o filho do pistoleiro, sem armas, desafiava um dos seus adversários...

quarta-feira, 2 de março de 2016

PAS591. O código dos pistoleiros

Tiger sentou-se a uma mesa encostada à parede. De costas para esta, teria de frente todos os seus possíveis inimigos. Alguém devia ter avisado o mais velho dos Porter, porque decorridos poucos minutos Peter disse-lhe em voz baixa:
— Cuidado, Tiger! Mike vem para aqui.
Toda a gente lhe abria caminho. Muitos aproximaram-se da porta, prontos a fugir assim que começassem os tiros. Jack continuou sentado, com ar displicente, a ver aproximar-se o seu adversário, embora disposto a antecipar-se-lhe e a ser o primeiro a disparar. Mas Mike não trazia intenções ofensivas.
— Queria conhecê-lo, Jack. Nem todos os dias se encontra um homem capaz de meter duas balas no corpo de Jerry Porter.
Tiger pusera-se em pé e fitava, um tanto surpreendido, o seu adversário. Julgando adivinhar as suas intenções, redarguiu:
— Se julga que disparei com vantagem, estou disposto a demonstrar-lhe...
— Não se precipite, amigo. Eu não disse tal coisa. Sei que o duelo foi completamente legal. Jerry teve pouca sorte naquela altura, mais nada.
— Mas se você o quer vingar...
— Fá-lo-ia, se Jerry tivesse morrido. Mas felizmente está vivo. É a ele que compete desforrar-se. Não me per-doaria se pretendesse antecipar-me. Dentro de duas semanas, quando estiver curado, ele o procurará. Tem a certeza de que então não se repetirá o sucedido.
As palavras e a atitude de Mike correspondiam por inteiro ao código moral que regulava o procedimento dos pistoleiros de Nevada.
Admiravam-se e respeitavam-se uns aos outros. Se a ocasião chegava, procuravam matar-se, mas sem nunca recorrerem a processos censuráveis. Enfrentavam o adversário e ofereciam-lhe as mesmas vantagens que tinham.
Todos os presentes escutaram, satisfeitos, o diálogo. Os «gun-men» consideravam-se uma espécie de novos cavaleiros andantes e o direito ao repto do ofendido devia ser respeitado por todos.
Houve murmúrios de admiração, que se acentuaram quando Tiger Jack respondeu no mesmo tom ponderado e calmo que empregara o seu interlocutor:
— Jerry poderá encontrar-me quando quiser.
No momento em que os dois rivais se separaram, toda a gente admirava a sua decisão e nobreza. Era muito provável que, mais dia, menos dia, se cosessem mutuamente a tiro, mas se o fizessem seria com respeito das normas tacitamente admitidas por todos.

terça-feira, 1 de março de 2016

PAS590. Um dia salvarás a filha do teu inimigo

Anoitecia e Tiger Jack decidiu retirar-se para descansar. Viera desde Ausburn na diligência e estava cansado da viagem.
Henderson e Brand acompanharam-no até à casa onde se hospedara. De repente, quando passavam perto do «Silver Hall», chamou-lhes a atenção um grupo de curiosos parados junto da porta.
Abriram caminho até se colocarem na primeira fila. O que Tiger viu então fez-lhe ferver o sangue nas veias.
Uma rapariga, nova e bonita, de cabelo louro e encaracolado, grandes olhos azuis e figura esbelta e harmoniosa, lutava para se soltar das mãos de um indivíduo corpulento e bem vestido, que pretendia arrastá-la à força para dentro do «saloon». Colérica e envergonhada ao mesmo tempo, a rapariga protestava:
— Deixe-me, deixe-me de uma vez!
-- Não, pequena. Disse-te que entres e tens de entrar. Trata-se de tomar qualquer coisa comigo. Queres desfeitear-me?
O indivíduo estava bêbedo, indubitavelmente. De contrário, jamais se teria atrevido a proceder daquela forma com uma mulher. Mas houve uma coisa que indignou ainda mais Tiger Jack.
Vinte homens presenciavam a cena; vinte homens viam ofender uma rapariga e todos pareciam achar muito divertido o espetáculo, que sublinhavam com gracejos e gargalhadas.
Sem se poder conter, deu um passo em frente. Henderson segurou-o por um braço:
— Calma, rapaz! Que vai fazer? ´
— Pôr fim a esta vergonha.
— Conhece a rapariga? — perguntou-lhe Henderson, sem perder a serenidade.
— Não.
— Então, siga o seu caminho. Não vê o que fazem os outros? Pois imite-os. O homem chama-se Jerry Porter e tem mais mortos do que anos.
Mas Jack já não o escutava. Soltara-se-lhe das mãos e avançava com firme resolução ao encontro do chamado Jerry.
Lisonjeado pelos risos e aplausos dos espectadores, o mais novo dos Porter estava prestes a conseguir o que pretendia.
A jovem não conseguia fugir-lhe das mãos e em poucos minutos seria obrigada a entrar no «saloon».
Não queria, evidentemente, fazer-lhe mal; apenas obrigá-la a beber na sua companhia e divertir-se com a sua vergonha e o seu rubor. De súbito, reparou que um indivíduo corpulento lhe impedia a passagem, enquanto lhe ordenava:
— Deixa essa rapariga, Jerry.
Porter ficou a olhar para ele, surpreendido. Incomodava-o que aquele desconhecido o tratasse pelo seu nome próprio; mais ainda, que se metesse no que não lhe dizia respeito, mas, sobretudo, o tom de autoridade que empregava. Replicou bruscamente:
— Tira-te do caminho ou...
-- Já te disse que a largues.
— E eu farei o que me parecer.
Jack não se incomodou a falar mais. As suas duas mãos caíram sobre os ombros do mais novo dos Porter.
Sem esforço aparente, mas empregando uma força irresistível, obrigou-o a afastar-se uns passos da jovem. Os dois homens ficaram frente a frente.
Nos olhos de Jerry brilhava uma cólera homicida. Tão furioso estava, que por um segundo não pensou sequer nos revólveres. Queria castigar a ofensa sofrida com as suas próprias mãos.
-- Toma, imbecil!
Atirou o punho direito contra a cara de Jack. Um rápido, golpe de cintura do seu adversário fez que o soco se perdesse no vácuo.
Tiger replicou de forma semelhante, e Jerry sentiu uma pancada violenta, que o fez cambalear até ir bater na ombreira da porta.
Recompôs-se imediatamente e pretendeu tirar o revólver que trazia à cintura. Não o conseguiu.
O seu adversário segurou-lhe o braço direito e torceu--lho com tal violência que não só o revólver lhe fugiu dos dedos, como também ele próprio rolou pelo solo e foi parar a uns passos de distância.
Quando conseguiu pôr-se em pé, viu Tiger Jack com um sorriso de desprezo no rosto e um revólver em cada mão. Em tom desabrido, advertiu-o:
— Não faças tolices, Jerry. Vai-te embora imediatamente ou terei de te meter uma bala na cabeça.
O mais novo dos Porter fitou-o um instante em silêncio. Depois, aceitou com ar provocante a derrota:
— Está bem, amigo. Desta vez, ganhaste. Da próxima não te darei tantas vantagens. Creio que a tua vida não será muito longa.
— Também tu não chegarás a velho se voltares a cruzar-te no meu caminho.
Jerry Porter afastou-se sem virar a cabeça. No grupo de curiosos havia surpresa e comentários de muito diversa índole. Jack virou-se para eles:
— Se algum de vocês tem alguma coisa a objetar, está a tempo de o fazer.
Todos guardaram silêncio. A rapariga começara a andar, confusa e envergonhada pelo sucedido, em direção oposta à que tomara Jerry. Jack ia a segui-la, quando Henderson lhe falou em voz baixa:
— Endoideceu? Por que se meteu com um Porter? Não sabe que acabarão por o matar?
— Já viu que posso ser eu quem o mate a ele.
-- Isso foi o que me pareceu pior. Depois de enfrentar um Porter, devia matá-lo. Ofendê-lo e deixá-lo vivo é pior que pisar descalço uma serpente venenosa.
Jack encolheu os ombros. Abandonou os amigos e correu atrás da rapariga. Quando chegou junto dela, disse-lhe:
— Quer que a acompanhe aonde vai, para impedir que se metam consigo?
— Encantada, senhor. Perdoe não lhe ter agradecido a sua atitude, mas estava tão envergonhada...
Tinha uma voz suave e cristalina. Jack não pôde evitar um ligeiro estremecimento. Vista com maior calma, era ainda mais bonita do que ao princípio lhe parecera.
Mas não era apenas uma beleza. Os seus olhos azuis, límpidos, tinham uma expressão ingénua.
Instintivamente, Jack adivinhou que era por completo diferente de quantas mulheres vira nas suas andanças pelo Oeste. Eta uma mulher digna, capaz de tornar feliz qualquer homem de bem.
— Vivo num rancho a dez milhas de Virgínia City. Tive de vir à cidade fazer algumas compras. Jimmy ficou no carro e eu tive a pouca sorte de encontrar aquele indivíduo... Se não fosse o senhor...
Jack quis tirar toda a importância à sua intervenção. Chegaram, a pé, ao ponto em que Jimmy esperava a jovem.
Jimmy era um homem de certa idade, de aspeto aberto e franco. Sobressaltou-se um pouco ao ver a rapariga em companhia de um desconhecido. A jovem sossegou-o. Depois disse-lhe:
— Prepara o carro para nos irmos embora.
Enquanto Jimmy cumpria a ordem, a jovem despediu-se do seu inesperado salvador:
— Se algum dia quiser visitar-nos, o meu pai terá prazer em o conhecer. Sou Jane Austin e...
O rosto de Tiger Jack sofreu urna súbita mutação. Com voz surda, inquiriu:
— Então o seu pai chama-se...
— Moses Austin. Mas por que faz essa cara? Depois de hesitar um segundo, Jack respondeu com toda a clareza:
— Se soubesse que era sua filha, não teria intervindo. Agora lamento-o, mas já é tarde...
— Por que diz isso? — perguntou surpreendida e sobressaltada Jane.
— Porque o seu pai, Moses Austin, fez que enforcassem o meu, há quinze anos. Jurei não descansar enquanto o não vingar. Diga-lhe isto. E diga-lhe também que Tiger Jack jamais faltou a nenhum dos seus juramentos.

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