sexta-feira, 4 de março de 2016

PAS592. Reencontro no momento da morte

Estava encostado ao balcão tomando uma bebida, quando o homem de rosto duro e corpo atarracado empurrou os dois batentes da porta e, com passo lento, se dirigiu para ele.
— Falo com Charles Dean?
O homem pousou o copo no tampo do balcão, voltou a cabeça e começou a contemplar o recém-vindo por cima do ombro, sem abrir a boca. Esteve quase para negar. Depois de quinze longos anos aquele nome voltava a ouvir-se dentro de um «saloon», como uma pergunta vulgar feita muitas outras vezes naquele mesmo tom. Uma pergunta que equivalia a um repto, a um desafio em que a voz do «Colt» é que ditava o vencedor. Mas, isso ficava já para trás, sepultado no passado, de onde não deveria voltar a ressurgir.
Não se deu ao trabalho de responder, como se a pergunta fosse dirigida a um desconhecido. Voltou a cara ficando-se a olhar para o espelho corrido colocado atrás do balcão, junto da estante repleta de garrafas. Enquanto contemplava a sua própria imagem refletida no espelho, ouviu novamente a voz do homem que repetia a pergunta no mesmo tom indiferente e meio fatigado:
— Falo com Charles Dean?
Via o rosto dele reproduzido no espelho. Não podia haver dúvida: era Charles Dean. Com a diferença, apenas, de que, agora, não era mais do que o espectro do pistoleiro de outros tempos. Estava ali, sim, mas tinha mais quinze anos de idade. A mesma cara de antes, mas mais chupada, mais enrugada. O bigode mais farto, semeado de branco e com as pontas caídas nas extremidades. A testa sulcada de rugas e o sobrolho franzido, revelando as suas múltiplas preocupações. Um pouco derreado dos ombros, alto e seco como um ramo de árvore sem vegetação. Estava ali refletido o seu rosto, ensombrado pelos mais desencontrados pensamentos, na superfície polida do espelho. E ouviu então, mesmo junto da face, as palavras que o homem fizera a pergunta ia proferindo, ao mesmo tempo que o bafejava com o seu hálito quente:
-- Fui encarregado de vir avisá-lo de que é esperado lá fora, dois homens que querem matá-lo.
A notícia sacudiu-o de alto a baixo, como se tivesse recebido uma pancada, à traição, pelas costas. Voltou-se e encarou bem de frente a cara do homem que lhe falava; uma cara torva, sem expressão, plena de baixeza, com um olhar que acabou por desviar dos olhos do seu interlocutor.
Perguntou com a maior calma:
— Dois homens esperam que eu saia para me matarem?
— Dizem que saia, a menos que seja um cobarde.
Os homens que se encontravam próximo do balcão voltaram-se, fixando Charles Dean com grande atenção e afastaram-se deixando-o isolado e com uma enorme clareira à sua volta. Dean ficou no centro, pensativo e carrancudo.
«Não queriam deixá-lo viver em paz. O passado não tinha morrido ainda, nem após os quinze anos de isolamento no presídio. A sua vida de pistoleiro ia ressuscitar na hora em que voltasse a empunhar o «Colt», respondendo ao desafio do primeiro louco que lhe saísse ao caminho. Mais um morto a juntar à lista do passado e mais uma história a acrescentar à vida de Charles Dean.»
Levou automaticamente a mão ao lugar do cinturão onde trazia habitualmente o coldre e não o encontrou. Não quisera munir-se de qualquer arma. Desejava regressar à vida com as mãos purificadas pela longa ausência; renegara o «Colt» por completo, sentindo-se totalmente aliviado por não ter já de suportar o peso do ferro homicida; de não ser portador daquele cacho de uvas cujos bagos de fogo e de chumbo eram sempre mensageiros da morte.
Nenhum dos presentes seria capaz de adivinhar o pensamento do ex-pistoleiro. Mostrava-se pálido, macilento, ante o homem atarracado, cabisbaixo e com as mãos pendentes ao longo do corpo. A pergunta que lhe dirigira aquele tipo sinistro estalou como uma bofetada que lhe fez erguer o rosto e enfrentar a realidade da situação:
— Não será o senhor um cobarde? Disse-lhe que o esperam para o matar.
Dean deu uma palmada na coxa dizendo, sem alterar o tom de voz:
— Não! Não sou um cobarde, mas não trago armas comigo. Quem são esses dois homens?
— Um chama-se Kirsey Logan e o outro Nandy Leick; tem apenas vinte e dois anos e é capaz de cortar o pavio de uma vela, com uma bala, a dez metros de distância. Há ainda um outro, de nome Sharto, bastante parecido comigo mas que, presentemente, não se encontra junto deles.
Charles Dean replicou sem qualquer rancor:
— Não conheço nenhum deles. Nada lhes fiz nem Cies me fizeram a mim. Não compreendo porque é que querem matar-me.
— O melhor que tem a fazer é sair e perguntar-lhes. Se não tem revólver, posso ceder-lhe o meu. Tome.
— Obrigado. Não penso bater-me. A minha vida de pistoleiro terminou há quinze anos.
— Como' queira. Não creio que os convença, mas o melhor é ir saindo, para que não pensem que tudo isso é cobardia.
Todos o viram dirigir-se para a porta e abri-la. Correram para as janelas laterais, de onde puderam ver os dois homens postados em frente do «saloon» mas no lado oposto da rua. Charles Dean parou, com a jaqueta desapertada, deixando ver que não era portador de qualquer arma e com os braços pendentes ao longo do corpo. Atravessou o piso e desceu os dois degraus que dava para a calçada. O cavalo que deixara preso pela arreata moveu a cabeça dando um breve relincho, tendo-o o ex-pistoleiro- acariciado ligeiramente. Parou e quedou-se especado, olhando para os dois pistoleiros que, com a cabeça inclinada e um sorriso torvo o contemplavam com o olhar brilhante de ironia. O sol arrancava reflexos dos adornos metálicos dos cintos e dos «Colts» que emergiam dos coldres. Bastava que dessem dois passos em frente e que disparassem para que as balas o ferissem ou, mesmo, o matassem.
O mais jovem dos dois deveria ser Nandy Leick. Vestia todo de negro: calças, camisa e até o próprio chapéu. A grossa fivela metálica reluzia com brilho intenso, estabelecendo um flagrante contraste com a negridão do vestuário. Debaixo da aba do chapéu, escondia-se um riso doirado. Na mão direita, cujo polegar descansava na fivela do cinturão, brilhava um grosso anel de ouro, enfiado no dedo maior. Tudo no seu possuidor era falso, inclusivamente a pedra do anel que rebrilhava intensamente à luz do sol.
A seu lado, afastado apenas alguns passos, estava Kirsey Logan, o autêntico reverso de uma medalha: sujo e por barbear; mãos enormes e cobertas de cabelos, a testa estreita e contraída. Os seus amplos sacões, ligados às pernas por meio de correias, faziam lembrar as asas de um morcego.
O silêncio foi interrompido pelo mais jovem, num tom calmo e ao mesmo tempo sardónico:
— Olá... Charles Dean. Viemos aqui só para o matar.
Nenhum deles, entretanto, fez o menor gesto para levar a cabo a ameaça. Ficaram-se estáticos, na mesma posição, com os olhos cravados nele como lâminas aceradas, vigiando todos os seus movimentos.
Dean estendeu os braços, mostrando as palmas das mãos abertas e vazias, dizendo simplesmente:
— Não vos conheço de parte alguma. Nada tenho contra vós, nem creio que vós algo tenhais contra mim. Deixei de ser pistoleiro. Sou apenas um homem que saiu do presídio e procura esquecer.
Houve uma ligeira pausa durante a qual os dois pistoleiros trocaram 'um olhar de inteligência. Quando voltaram a olhá-lo, Nandy perguntou em ar de troça:
— Tens medo de morrer, Dean? Quem havia de dizê-lo...
— A morte não me mete medo. Parei aqui, em Tohmsone, somente para aguardar a chegada de meu filho. Não me interessa continuar a ser um pistoleiro. Passei quinze anos no presídio por um crime que não cometi. Isso, porém, já não conta. A única coisa que me interessa é ficar ao lado de meu filho. Também não tenho qualquer prazer em liquidar-vos. Se fazeis questão em matar-me, deixai ao menos que eu veja o meu filho. Não quereria morrer sem vê-lo. Depois... se não houver mais remédio...
Nandy retomou a palavra. Divertia-se cruelmente com aquilo que ele supunha ser medo do homem:
— Não podemos fazer-te a vontade, Dean, nem podemos esperar. Bem sabes que no nosso ofício sempre se tem muita pressa. Faz-se o trabalho e o cavalo se encarrega de pôr terreno de intermédio, se tanto for preciso. Pagaram-nos para te liquidar... e temos de cumprir, mas damos-te a oportunidade de te defenderes.
— Não tenho armas e, além disso não quero disparar contra vocês nem contra quem quer que seja. Quero apenas reunir-me a meu filho. Deixem-me abraçá-lo. Há uma quantidade de anos que o não vejo. A última vez que o vi foi quando foi ao presídio visitar-me.
Nandy abanou vagarosa e negativamente a cabeça.
— Não, Dean. Não verás o teu filho. Teríamos, talvez, de lutar depois, contra ele. Assim, uma vez liquidada a tua pessoa, fica o trabalho acabado. E a verdade é que não me agrada nem quero falar mais. Faz-me sede. E agora, vamos a acabar com isto rapidamente, para ir tomar umas bebidas no «saloon» lá de cima antes de me safar de Thomsone.
Dean levantou-se e falou. As suas palavras estalaram como uma bofetada no rosto do bandido mais jovem:
— Não passas de um canalha Nandy Leick. Nunca te tinha visto na minha vida e quando eu andava a cavalo por todas as povoações do Oste selvagem, ainda te não tinham desmamado. Mas, do que não há dúvida é que te deram muito mau leite a beber, para que, em tão verdes anos, tenhas já tanta maldade. Está bem! Prefiro defrontar-me contigo e com esse que te acompanha, para não deixar a tarefa a meu filho. Mas não tenho armas. Passa-me um dos teus revólveres e eu te ensinarei como se maneja um «Colt».
Nandy sorriu-se com um prazer doentio:
— Não, Dean. Os meus «Colts» são unicamente para meu uso, mas esse homem que está ai à tua ilharga certamente te dispensará o seu.
Dean voltou-se. Estava ali, com efeito, um homem, encostado a um dos pilares do alpendre do «saloon». Era o mesmo homem que entrara no estabelecimento a dar--lhe o aviso respeitante aos pistoleiros que o aguardavam. O homem pegou no «Colt» e atirou-o a Dean, acompanhando o gesto da seguinte frase:
— Aí tem, Charles Dean! Defenda-se!
A arma volteou no ar e foi encaixar-se na palma da mão do ex-pistoleiro. Sentiu o contacto e o peso do metal, a dureza impecável e a força latente, destrutiva e aniquiladora da vida humana. De novo, como em anos já distantes, os seus dedos se crisparam na coronha da arma e o dedo indicador se dobrou com raiva sobre o gatilho, visando instantaneamente os seus dois inimigos.
Estes já tinham as armas empunhadas. No mesmo instante que Dean premia o gatilho, ouviram-se as detonações dos dois «Colts». Quatro tiros, quatro balas que lhe penetraram em diferentes partes do corpo, enquanto o assombro e a raiva impotente se lhe estampavam no rosto ao verificar que o revólver que empunhava estava descarregado e sem bala alguma no tambor.
Os tiros haviam cessado e apesar de ter as balas no corpo continuava de pé. Girou lentamente sobre si mesmo, largando da mão a arma inútil que se enterrou na poeira, ficou uma fração de segundo olhando acusadoramente para o indivíduo que lhe cedera o revólver vazio:
— Cobar...de!
Soou então o último tiro. A bala entrou-lhe junto de um ombro, derrubando-o sobre a poeira onde bateu com a cara, ficando de braços e pernas abertas, completamente imóvel.
Uma voz disse:
— Charles Dean está despachado. Vamos ao «saloon» lá de cima. De tanto falar tenho a boca a saber-me a trapos.
As botas afastaram-se. Fora a voz de Nandy Leick que falara mas Dean mal o ouvia. Ouvia apenas o deslizar lento e quente do seu sangue brotando das feridas abertas na sua carne. Uma humidade tépida ia-o mergulhando num indefinível letargo... e, nas trevas da sua mente ouvia cada vez mais próximo e mais nítido o galope surdo de um cavalo que se aproximava. E logo a seguir, a estacada, uma pausa e um grito:
— Pai! Quem foi que te atacou? Quem? Quem?
Encheu-se-lhe o peito de alegria ao ouvir aquela voz. Era o grito rebelde do sangue, clamando pelo mesmo sangue. Abriu os olhos e sentiu a sensação de se contemplar a si próprio. Era exatamente a sua cara de há vinte anos; o mesmo brilho no olhar; o mesmo poder e a mesma força nas mãos que se crispavam na sua carne rasgada e sangrenta. Nada lhe doía já na presença de seu filho, ao ouvir a sua voz bramindo de raiva. A raiva do filho, despertada pelo mal feito a seu pai, enchia-o de orgulho e de ventura, uma ventura que podia considerar-se compensada pelas balas que lhe tiraram a vida.
— Pai! Quem foi? Dize-me quem foi...
Abriu a boca num penoso esforço, dizendo quase num sopro:
— Não tentes vingar-me, filho. Deixa-os. O sangue pede sangue e a cólera chama a cólera. Não passam de uns assassinos... nada tinham contra mim. Pagaram-lhes para me matarem. Tinha a cabeça a prémio. A profissão deles é matar. Não penses em vingar-me, Jack. Não quero que venhas a ser um pistoleiro.
Ficou-se a olhar para o filho que murmurava em voz sombria:
— Não posso obedecer-te, pai. Irei até aonde for preciso à procura deles. Ainda que me matem. Maldezir-me-ia a mim próprio toda a vida, se o não fizesse. Será feita justiça. Depois... voltarei à charrua. Não serei um pistoleiro.
Ainda pôde contemplar as suas feições durante mais uns segundos. Era igualzinho a si. Seu filho! Aquela promessa solene era o grito do sangue. Charles Dean antes de expirar, ainda sentiu o calor do sangue invadir-lhe todo o corpo como se fosse uma bandeira desfraldado, ao vento; a rajada violenta da paixão e da luta. Seu filho falou como ele teria ambicionado. O seu peito encheu-se de orgulho por aquele filho que o não renegava e oferecia a sua vida em holocausto à de seu pai.
— Bem hajas, filho. Sou completamente... feliz -- inclinou a cabeça, ficando com a face encostada à palma da mão de Jack Dean, aberta e encharcada de sangue.

quinta-feira, 3 de março de 2016

ARZ101. O filho do pistoleiro

 
(Coleção Arizona, nº 101)
 
 
Um pistoleiro foi preso injustamente e condenado a vinte anos de prisão, conhecendo os indivíduos que o tinham acusado falsamente. Ao fim de quinze anos, devido ao seu bom comportamento, saiu e deu a conhecer a decisão de não pretender qualquer satisfação daqueles. No entanto, estes não se sentiram seguros e organizaram-se para o abater, contratando um indivíduo ultra traiçoeiro. Assim, sem armas, foi desafiado para um duelo e, quando lhe deram um colt para as mãos, este estava vazio pelo que foi facilmente vencido. Morreu nas mãos do filho que entretanto o viera esperar. O pacifismo deste jovem foi imediatamente quebrado. Um a um, os assassinos do seu pai foram sendo mortos, restando o traiçoeiro atrás referido. Este manteve as suas qualidades e abateu os próprios amigos para se apoderar do seu dinheiro. Em determinado momento, havia várias pessoas que o procuravam pelos mais diversos motivos, todos a quererem vingar-se dele. Até que o encontro final se deu e o filho do pistoleiro pôde finalmente encontrar a paz que desejava nos braços de uma menina que o acompanhou na sua vingança.
Este foi o único livro de Peter Kenn que encontrámos registado no país. No entanto, em Espanha, o autor que usa este pseudónimo, Juan LLarch Loid, aparece ligado a uma biografia de Luther King, a novelas de ficção científica e a vários guiões para banda desenhada.
A capa, não assinada, mostra um momento em que o filho do pistoleiro, sem armas, desafiava um dos seus adversários...

quarta-feira, 2 de março de 2016

PAS591. O código dos pistoleiros

Tiger sentou-se a uma mesa encostada à parede. De costas para esta, teria de frente todos os seus possíveis inimigos. Alguém devia ter avisado o mais velho dos Porter, porque decorridos poucos minutos Peter disse-lhe em voz baixa:
— Cuidado, Tiger! Mike vem para aqui.
Toda a gente lhe abria caminho. Muitos aproximaram-se da porta, prontos a fugir assim que começassem os tiros. Jack continuou sentado, com ar displicente, a ver aproximar-se o seu adversário, embora disposto a antecipar-se-lhe e a ser o primeiro a disparar. Mas Mike não trazia intenções ofensivas.
— Queria conhecê-lo, Jack. Nem todos os dias se encontra um homem capaz de meter duas balas no corpo de Jerry Porter.
Tiger pusera-se em pé e fitava, um tanto surpreendido, o seu adversário. Julgando adivinhar as suas intenções, redarguiu:
— Se julga que disparei com vantagem, estou disposto a demonstrar-lhe...
— Não se precipite, amigo. Eu não disse tal coisa. Sei que o duelo foi completamente legal. Jerry teve pouca sorte naquela altura, mais nada.
— Mas se você o quer vingar...
— Fá-lo-ia, se Jerry tivesse morrido. Mas felizmente está vivo. É a ele que compete desforrar-se. Não me per-doaria se pretendesse antecipar-me. Dentro de duas semanas, quando estiver curado, ele o procurará. Tem a certeza de que então não se repetirá o sucedido.
As palavras e a atitude de Mike correspondiam por inteiro ao código moral que regulava o procedimento dos pistoleiros de Nevada.
Admiravam-se e respeitavam-se uns aos outros. Se a ocasião chegava, procuravam matar-se, mas sem nunca recorrerem a processos censuráveis. Enfrentavam o adversário e ofereciam-lhe as mesmas vantagens que tinham.
Todos os presentes escutaram, satisfeitos, o diálogo. Os «gun-men» consideravam-se uma espécie de novos cavaleiros andantes e o direito ao repto do ofendido devia ser respeitado por todos.
Houve murmúrios de admiração, que se acentuaram quando Tiger Jack respondeu no mesmo tom ponderado e calmo que empregara o seu interlocutor:
— Jerry poderá encontrar-me quando quiser.
No momento em que os dois rivais se separaram, toda a gente admirava a sua decisão e nobreza. Era muito provável que, mais dia, menos dia, se cosessem mutuamente a tiro, mas se o fizessem seria com respeito das normas tacitamente admitidas por todos.

terça-feira, 1 de março de 2016

PAS590. Um dia salvarás a filha do teu inimigo

Anoitecia e Tiger Jack decidiu retirar-se para descansar. Viera desde Ausburn na diligência e estava cansado da viagem.
Henderson e Brand acompanharam-no até à casa onde se hospedara. De repente, quando passavam perto do «Silver Hall», chamou-lhes a atenção um grupo de curiosos parados junto da porta.
Abriram caminho até se colocarem na primeira fila. O que Tiger viu então fez-lhe ferver o sangue nas veias.
Uma rapariga, nova e bonita, de cabelo louro e encaracolado, grandes olhos azuis e figura esbelta e harmoniosa, lutava para se soltar das mãos de um indivíduo corpulento e bem vestido, que pretendia arrastá-la à força para dentro do «saloon». Colérica e envergonhada ao mesmo tempo, a rapariga protestava:
— Deixe-me, deixe-me de uma vez!
-- Não, pequena. Disse-te que entres e tens de entrar. Trata-se de tomar qualquer coisa comigo. Queres desfeitear-me?
O indivíduo estava bêbedo, indubitavelmente. De contrário, jamais se teria atrevido a proceder daquela forma com uma mulher. Mas houve uma coisa que indignou ainda mais Tiger Jack.
Vinte homens presenciavam a cena; vinte homens viam ofender uma rapariga e todos pareciam achar muito divertido o espetáculo, que sublinhavam com gracejos e gargalhadas.
Sem se poder conter, deu um passo em frente. Henderson segurou-o por um braço:
— Calma, rapaz! Que vai fazer? ´
— Pôr fim a esta vergonha.
— Conhece a rapariga? — perguntou-lhe Henderson, sem perder a serenidade.
— Não.
— Então, siga o seu caminho. Não vê o que fazem os outros? Pois imite-os. O homem chama-se Jerry Porter e tem mais mortos do que anos.
Mas Jack já não o escutava. Soltara-se-lhe das mãos e avançava com firme resolução ao encontro do chamado Jerry.
Lisonjeado pelos risos e aplausos dos espectadores, o mais novo dos Porter estava prestes a conseguir o que pretendia.
A jovem não conseguia fugir-lhe das mãos e em poucos minutos seria obrigada a entrar no «saloon».
Não queria, evidentemente, fazer-lhe mal; apenas obrigá-la a beber na sua companhia e divertir-se com a sua vergonha e o seu rubor. De súbito, reparou que um indivíduo corpulento lhe impedia a passagem, enquanto lhe ordenava:
— Deixa essa rapariga, Jerry.
Porter ficou a olhar para ele, surpreendido. Incomodava-o que aquele desconhecido o tratasse pelo seu nome próprio; mais ainda, que se metesse no que não lhe dizia respeito, mas, sobretudo, o tom de autoridade que empregava. Replicou bruscamente:
— Tira-te do caminho ou...
-- Já te disse que a largues.
— E eu farei o que me parecer.
Jack não se incomodou a falar mais. As suas duas mãos caíram sobre os ombros do mais novo dos Porter.
Sem esforço aparente, mas empregando uma força irresistível, obrigou-o a afastar-se uns passos da jovem. Os dois homens ficaram frente a frente.
Nos olhos de Jerry brilhava uma cólera homicida. Tão furioso estava, que por um segundo não pensou sequer nos revólveres. Queria castigar a ofensa sofrida com as suas próprias mãos.
-- Toma, imbecil!
Atirou o punho direito contra a cara de Jack. Um rápido, golpe de cintura do seu adversário fez que o soco se perdesse no vácuo.
Tiger replicou de forma semelhante, e Jerry sentiu uma pancada violenta, que o fez cambalear até ir bater na ombreira da porta.
Recompôs-se imediatamente e pretendeu tirar o revólver que trazia à cintura. Não o conseguiu.
O seu adversário segurou-lhe o braço direito e torceu--lho com tal violência que não só o revólver lhe fugiu dos dedos, como também ele próprio rolou pelo solo e foi parar a uns passos de distância.
Quando conseguiu pôr-se em pé, viu Tiger Jack com um sorriso de desprezo no rosto e um revólver em cada mão. Em tom desabrido, advertiu-o:
— Não faças tolices, Jerry. Vai-te embora imediatamente ou terei de te meter uma bala na cabeça.
O mais novo dos Porter fitou-o um instante em silêncio. Depois, aceitou com ar provocante a derrota:
— Está bem, amigo. Desta vez, ganhaste. Da próxima não te darei tantas vantagens. Creio que a tua vida não será muito longa.
— Também tu não chegarás a velho se voltares a cruzar-te no meu caminho.
Jerry Porter afastou-se sem virar a cabeça. No grupo de curiosos havia surpresa e comentários de muito diversa índole. Jack virou-se para eles:
— Se algum de vocês tem alguma coisa a objetar, está a tempo de o fazer.
Todos guardaram silêncio. A rapariga começara a andar, confusa e envergonhada pelo sucedido, em direção oposta à que tomara Jerry. Jack ia a segui-la, quando Henderson lhe falou em voz baixa:
— Endoideceu? Por que se meteu com um Porter? Não sabe que acabarão por o matar?
— Já viu que posso ser eu quem o mate a ele.
-- Isso foi o que me pareceu pior. Depois de enfrentar um Porter, devia matá-lo. Ofendê-lo e deixá-lo vivo é pior que pisar descalço uma serpente venenosa.
Jack encolheu os ombros. Abandonou os amigos e correu atrás da rapariga. Quando chegou junto dela, disse-lhe:
— Quer que a acompanhe aonde vai, para impedir que se metam consigo?
— Encantada, senhor. Perdoe não lhe ter agradecido a sua atitude, mas estava tão envergonhada...
Tinha uma voz suave e cristalina. Jack não pôde evitar um ligeiro estremecimento. Vista com maior calma, era ainda mais bonita do que ao princípio lhe parecera.
Mas não era apenas uma beleza. Os seus olhos azuis, límpidos, tinham uma expressão ingénua.
Instintivamente, Jack adivinhou que era por completo diferente de quantas mulheres vira nas suas andanças pelo Oeste. Eta uma mulher digna, capaz de tornar feliz qualquer homem de bem.
— Vivo num rancho a dez milhas de Virgínia City. Tive de vir à cidade fazer algumas compras. Jimmy ficou no carro e eu tive a pouca sorte de encontrar aquele indivíduo... Se não fosse o senhor...
Jack quis tirar toda a importância à sua intervenção. Chegaram, a pé, ao ponto em que Jimmy esperava a jovem.
Jimmy era um homem de certa idade, de aspeto aberto e franco. Sobressaltou-se um pouco ao ver a rapariga em companhia de um desconhecido. A jovem sossegou-o. Depois disse-lhe:
— Prepara o carro para nos irmos embora.
Enquanto Jimmy cumpria a ordem, a jovem despediu-se do seu inesperado salvador:
— Se algum dia quiser visitar-nos, o meu pai terá prazer em o conhecer. Sou Jane Austin e...
O rosto de Tiger Jack sofreu urna súbita mutação. Com voz surda, inquiriu:
— Então o seu pai chama-se...
— Moses Austin. Mas por que faz essa cara? Depois de hesitar um segundo, Jack respondeu com toda a clareza:
— Se soubesse que era sua filha, não teria intervindo. Agora lamento-o, mas já é tarde...
— Por que diz isso? — perguntou surpreendida e sobressaltada Jane.
— Porque o seu pai, Moses Austin, fez que enforcassem o meu, há quinze anos. Jurei não descansar enquanto o não vingar. Diga-lhe isto. E diga-lhe também que Tiger Jack jamais faltou a nenhum dos seus juramentos.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PAS589. Mulheres do Oeste selvagem

Em Nevada, como na Califórnia, como em todo o Far-West, as mulheres, e especialmente as mulheres brancas, constituíam uma insignificante minoria.
A população das zonas mineiras crescera desmedidamente no espaço de poucos anos. Mas era, essencialmente, população masculina: homens duros, aventureiros perigosos que procuravam enriquecer a todo o custo, mesmo a tiro.
Num ambiente primitivo, bárbaro e selvagem, toda a gente procurava viver só, sem laços femininos que prendessem, sem lágrimas que pusessem freio à sua audácia.
Por outro lado, eram poucas as mulheres que se atreviam a viver ali, numa sociedade em que o revólver constituía a lei suprema.
Estavam na proporção de uma para cinquenta, em relação aos homens. E pela sua própria escassez, precisamente, era lógico que os homens lhes dispensassem todo o género de considerações.
A maioria das mulheres que se atreviam a partir para o Oeste em busca de fortuna tinham pouco de recomendáveis. No entanto, o simples facto de serem mulheres conferia-lhes uma situação elevada na sociedade.
E ninguém que se prezasse se atrevia a levantar a mão contra elas. A sua palavra era aceite como verdade indiscutível nos poucos julgamentos que se efetuavam.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PAS588. Arrogância de pistoleiro

De súbito, cruzaram-se com um indivíduo alto, forte, de meia-idade, ataviado com uma comprida sobrecasaca de bom corte e com as calças metidas em botas altas de montar. As pessoas afastavam-se, respeitosamente, à sua passagem e o indivíduo passava com ar indiferente, com as mãos metidas nas algibeiras das calças.
Henderson tirou o chapéu ao passar por ele, obtendo por resposta um displicente aceno de cabeça.
— Quem é? — inquiriu Jack, curioso e surpreendido.
— Mike Porter, o mais velho dos irmãos. Um tipo prodigioso, com mais de quinze mortos às costas. Como esse há poucos!
Havia uma clara admiração nas suas palavras. Jack fitou-o, atónito. Tinha na consciência tantos inimigos defuntos como os que pudesse ter aquele Mike Porter, mas não achava que isso fosse coisa que um homem devesse alardear nem que lhe granjeasse o respeito e a veneração das gentes.
— Aqui não temos muito bom conceito do que ainda não foi capaz de matar um homem. Suponho que você já o fez, não?
— Pode estar tranquilo, «mister» Henderson. Fi-lo várias vezes e espero fazê-lo outras tantas, antes que apareça quem mo faça a mim,
— Assim espero. Mas procure não se meter com os Porter...
Jack quis saber quem eram aqueles famosos irmãos. Henderson deu-lhe, com prazer, toda a espécie de explicações.
Havia dois anos que se tinham apresentado em Virgínia City. Então, eram quatro irmãos e, vinham de Nebrasca. Chegaram, como tantos outros milhares, atraídos pela prata. Procuraram encontrar um filão e perderam vários meses a percorrer inutilmente a região. Por fim, um dia, inesperadamente, encontraram-no na boca dos seus revólveres.
Os quatro irmãos tiveram uma zaragata, estando um pouco bebidos, à saída de um dos numerosos «saloons» da cidade. A luta adquirira características de epopeia.
Contra eles combateram doze homens, entre os quais estavam seis ou sete dos mais famosos pistoleiros. O tiroteio prolongara-se durante mais de meia hora, no meio da rua.
O fim fora a morte de um dos irmãos e vários ferimentos, de maior ou menos gravidade, para os outros três.
Mas, em contrapartida, todos os seus adversários ficaram em condições de serem transportados para o cemitério, sem demoras inúteis.
Os irmãos Porter viram-se imediatamente rodeados de uma extraordinária auréola. Durante quinze dias não se falara noutra coisa, em Virgínia City, a não ser na extraordinária pontaria e na coragem sem limites que lhes dera a vitória.
A fama de todos os «gun-men» locais ofuscara-se diante da deles. Ninguém era capaz de competir com aqueles homens.
Sam Galloway, ao mesmo tempo presidente da Câmara de Virgínia City e dono do maior dos seus «saloons», convidara-os para se encarregarem da vigilância do «Silver Hall».
Aceitaram. Depressa tiveram a seu cargo não só o «Silver», mas também metade dos «saloons» da cidade.
Protegidos por eles, pagando-lhes uma avultada «contribuição», os proprietários podiam considerar-se seguros. Ninguém se atrevia a levantar a voz onde estivessem os Porter. E quem o tentava não tinha muito tempo para se arrepender da sua loucura.
Foram vários os pistoleiros que, ansiosos de fama, ousaram enfrentar qualquer dos irmãos. Todos morreram com as botas calçadas.
Os Porter não só manejavam com rapidez e eficiência os revólveres, como também atuavam com habilidade e astúcia.
Obedeciam cegamente ao irmão mais velho, cabeça dirigente do grupo. Nos momentos de perigo, eram ferreamente unidos. Ninguém podia com eles.
— São um cérebro e seis revólveres. E contra isso é muito difícil lutar.
Tiger Jack não tinha inconveniente em admitir isso. Mas que pensavam as autoridades? O xerife tolerava que aqueles indivíduos fizessem o que quisessem nos seus domínios?
As explicações de «mister» Henderson foram um tanto confusas.
O presidente da Câmara, Sam Galloway, estava a seu lado; o juiz de paz, Jesse Boling, parecia resignado e não falava, com medo de que lhe metessem uma bala na cabeça. Quanto ao xerife...
— Pat é um homem valente e ousado. De boa vontade acabaria com os Porter. Até agora, não encontrou oportunidade para isso; é mais fácil que a encontrem os Porter para acabar com ele.
O xerife, Pat Wilberdox, estava havia três meses em Virgínia City. Não simpatizava pouco nem muito com o reinado dos famosos irmãos.
Devido ao assassínio de um pobre diabo, a quem meteram várias onças de chumbo no corpo, chegara a prender, por poucas horas, John Porter, o segundo dos irmãos.
Mas meia hora depois tinham-se apresentado vinte pessoas que afirmaram ter assistido ao caso. Todas coincidiam em que o morto agredira John e este tivera de o matar em legítima defesa.
Pat tivera de pôr em liberdade o preso e até de sofrer uma reprimenda do próprio presidente da Câmara:
— Nomeámo-lo xerife para que protegesse as pessoas decentes e não os indesejáveis.
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

POL108. Seis marcas no revólver

(Coleção Pólvora, nº 108)
 
Um pérfido bandido, apelidado de «Pleasant Harry, ostentava 5 marcas no revólver, respeitantes à morte de outros tantos Rurais do Texas. Ele deslocava-se entre o Texas e o México e colaborava com um conjunto de bandoleiros mexicanos que operavam dos dois lados.
O corpo de Rurais do Texas, incomodado com as proezas de Harry, encarregou dois guardas de procederem à sua prisão ou abate. E assim Tom Mandel e Lucas Purcell tentam integrar-se no conjunto de bandoleiros para terem melhor acesso ao famoso bandido e não permitirem que o mesmo faça a sexta marca no revólver.
A verdade é que a quadrilha mexicana recebe armas de um traficante, um respeitável rancheiro de El Paso o qual acaba por se cruzar com os dois rurais. Para complicar a situação, William Ransom, assim se chama o traficante, é pai de uma jovem que impressiona significativamente, pela sua beleza, Tom Mandell.
A novela decorre em ritmo satisfatório, denotando a perícia do autor

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