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sábado, 25 de março de 2017

PAS731. As esporas reveladoras

O homem que saiu da cidade montado num cavalo baio e tomou o caminho a galope, pela estrada das diligências, parecia tudo menos um homem que vencera.
Tinha o olhar pousado no chão, a cabeça caída sobre o peito e as mãos como que sem forças, descansando sobre a crina do animal.
Sabia que Bela procuraria esconder-se em qualquer lugar, que fugiria mal visse uma sombra, pensando que fosse «Lord Diabo» que andasse atrás dela. A sua figura, o seu aspeto geral, visto de noite, era o mesmo. Se ao menos tudo aquilo tivesse ocorrido durante o dia, Bela, oculta, onde quer que
estivesse; podia reconhecê-lo facilmente. Mas não. As trevas envolviam tudo. Ainda que a matassem, julgaria que, era «Lord Diabo» que ia atrás dela.
Burton pensou que talvez não a encontrasse mais. Que aquele triunfo da Lei tinha significado, era evidente, mas em contrapartida, para ele, era a perda das suas mais íntimas ilusões, a perda da única mulher que alguma vez lhe tinha interessado na vida.
Olhava para ambos os lados da estrada, perscrutava com olhos de lince as trevas da noite, mas sabia que não encontraria nada.
Nada!
Uma mulher tinha razão ao ocultar-se debaixo da terra, se pensasse que era «Lord Diabo» quem a perseguia. Bela teria feito o mesmo.
Com voz clara, tentando que ela o reconhecesse pela voz, gritou:
— Bela ! ... Bela !...
Mas só o longo murmúrio do vento na planície lhe respondeu.
Burton puxou as rédeas com raiva, num mudo desespero e então uma bala assobiou a poucas jardas da cabeça.
Tinham atirado quase junto dele, do meio de uns arbustos. Burton calculou que o não tinham querido atingir, porque àquela distância ninguém podia falhar, mas deixou-se cair por terra, à cautela, enquanto puxava» pela arma.
—Não atires. Para que vais gastar as balas se podes matar-me de outro modo?
Burton ficou paralisado perante a visão da mulher que se aproximava dele perante a visão de uma Bela mais bela, mais tentadora, mais apetecível do que nunca.
Ela deixou cair o revólver no chão, enquanto continuava a avançar para ele.
—Bela...
Antes que desse por isso, antes mesmo de poder refletir, de poder dizer uma única palavra, já a tinha nos braços. Já beijava sofregamente os seus lábios, o seu cabelo, os seus olhos...
—Bela... eu iria afirmar que estavas à minha espera... Mas como o sabias? Como?
—Tu pregaste-me muitos sustos e eu quis pregar-te um, Burton. À última hora soube que tu e «Lord Diabo» eram uma e a mesma pessoa.
—E eu que julguei ter feito tudo em segredo! Como descobriste?
—Num único pormenor em que tu nunca mudaste: nas esporas. Produziam exatamente o mesmo som e uma cega nota imediatamente esse detalhe. É claro que agora prefiro notar outras coisas...
Em silêncio continuou a beijá-la apaixonadamente, enquanto não muito longe dali, em Dallas, o juiz ia visitar o carpinteiro a quem tinha encomendado o caixão para Burton, desta vez para o encarregar de unir várias mesas para um grande copo de água.
E pagou tudo do seu bolso, apesar do soldo de um, juiz não dar para grandes aventuras.
Palavra de honra.

sexta-feira, 24 de março de 2017

PAS730. A luz voltou ao teu olhar

O doutor Trent tentou ganhar tempo, a todo o transe.
—Por onde entrou?
— Eu entro por qualquer lado, amigo. Sou um desses indivíduos que sabem trepar pelas paredes. Mas não falemos disso agora. Diga-me, doutor dos infernos, onde está a rapariga?
—Pa... para que a quer?
«Lord Diabo» soltou uma gargalhada.
Se a sua voz fazia calafrios, àquela gargalhada não havia quem resistisse. Pareci provir do Além. Era como se atravessasse a pele e 'a corroesse lentamente. O doutor Trent teve um estremecimento, porque sabia por instinto que não poderia lutar contra aquele poder satânico.
—É urna doente — disse baixinho. — ou ainda pior do que isso, segundo o ponto de vista. Se há algo de humano em si, suplico-lhe...
—A minha humanidade perdi-a há anos —riu «Lord Diabo. — Se visse o meu rosto compreendê-lo-ia. Mas não percamos tempo em conversas inúteis. Leve-me onde ela se encontra ou acabará como acabou Sandor.
O médico compreendeu que não podia resistir.
—Vou levá-lo.
—Vamos. Ia tirar-lhe a venda, não é verdade?
---Como soube?
—Leva na mão um candeeiro com um papel vermelho. Não é difícil calcular o que ia fazer.
— Com efeito... Vou... vou ver qual foi o resultado da operação.
— Que coincidência! Ambos tivemos os mesmos pensamentos.
—Seria horrível para ela se verificasse que a primeira coisa que volta a ver neste mundo é «Lord Diabo».
—Não me verá a mim, mas sim à minha máscara. Vamos!
Levou a mão ao revólver, mas o médico olhava era para a garra. Tremendo, dirigiu-se até ao celeiro, enquanto iluminava o caminho com um candeeiro coberto pelo papel vermelho.
«Lord Diabo» cochichou:
—Nem uma palavra. Pois desde que faça o menor movimento, mato-os a ambos aqui mesmo.
—Nada receie, não a avisarei. Ela própria o verá, por sua desgraça.
O médico entrou no quarto. Bela, que estava sentada na cadeira, muito direita, inquiriu:
—É o senhor, doutor Trent?
—Eu próprio, pequena. Chegou o momento.
—Vem sozinho?
—Claro que venho. Porquê?
— Não sei. Pareceu-me notar...
O médico conseguiu que a sua voz soasse natural ao dizer:
—Que disparate!...
Afastou, para o colocar mais longe, o candeeiro que já iluminava o quarto, quando ele entrara, e deixou somente o do papel vermelho. Depois inclinou-se sobre a jovem.
—Não me ata? —perguntou esta.
Teria sido conveniente, para evitar qualquer movimento brusco, mas o médico sussurrou:
— Não é preciso.
«Lord Diabo» cerrou os punhos.
Tremendo, o doutor Trent foi retirando pouco a, pouco as vendas dos olhos da enferma. Antes de retirar a última, pediu-lhe:
—Por favor, não abra os olhos até que eu diga.
—Sim, doutor.
O rosto dia rapariga estava mais formoso, mais radiante, mais tentador que nunca. Os olhos de «Lord Diabo» brilharam e o doutor Trent verificou isso. Sobreveio-lhe uma náusea invencível, um violento desejo de morrer. Não lhe importaria jogar ali a vida se não tivesse a certeza de que provavelmente Bela morreria também.
—Agora... abra os olhos.
Bela viu as sombras do celeiro e uma mancha vermelha que era o papel do candeeiro. Mais longe viu outra mancha vermelha, mas .a princípio não.. lhe atribuiu importância pois julgou que fosse um papel novo.
Quase um minuto mais tarde, quando as imagens se concretizaram, Bela verificou o que significava aquela segunda mancha vermelha. Os seus lábios afastaram-se num ricto de agonia e soltou um grito de terror.
O médico murmurou:
—Obrigou-me. Juro-lhe que me...
«Lord Diabo» afastou-o com um safanão, atirando-o ao solo. Os seus braços foram ao encontro da cintura da rapariga e a garra conseguiu inclusivamente tocar-lhe.
Mas Bela agora já não estava cega. Agora, embora confusamente, via os objetos e além disso era possuidora de uma espantosa agilidade. Derrubou a cadeira, esquivou-se de «Lord Diabo» e fugiu em direção à porta, enquanto aquele ser satânico se lançava em sua perseguição.
O médico compreendeu que ele ia agarrá-la e atirou aos pés de «Lord Diabo» outra cadeira. Este tropeçou e caiu por terra, enquanto soltava uma praga.
Do solo, «Lord Diabo» olhou para o médico enquanto tocava levemente no colt.
Naqueles olhos, o doutor Trent, leu a sua sentença de morte.
—Não... não... —balbuciou.
«Lord Diabo» deve ter pensado que lhe interessava mais a rapariga. Apesar de ter o revólver já quase empunhado, não chegou a apertar o gatilho.
Pôs-se de pé e disse com voz áspera:
—Arrumaremos o assunto mais tarde.
Saiu depois em perseguição da rapariga.
Mas tinha já perdido uns segundos preciosos e não conseguiu atingi-la antes de chegar à rua. Ali viu que Bela saltava para um dos cavalos que estavam atados aos postes.
«Lord Diabo» soltou uma gargalhada. A jovem no seu nervosismo, esquecera-se de desatar o cavalo. Agora já não podia fazê-lo a menos que descesse.
Mas também os propósitos do monstro se viram frustrados. Naquele momento alguém gritou:
—Foge, rapariga!...
Era um indivíduo barbudo que fez fogo de uma só vez contra a corda tensa que prendia o cavalo. Esta partiu-se e o animal relinchou ao ficar livre, lançando-se num raivoso galope rua abaixo.
O homem que a salvou não perdeu um segundo a pensar no que «Lord Diabo» iria fazer dele. Atirou-se de mergulho para debaixo de um estrado e ali se ocultou como um gato, esquivando o corpo ' às balas.
Desatou outro dos cavalos, sabendo que ninguém se lhe oporia, e lançou-se a galope depois de deixar atrás de si uma cortina protetora de chumbo. As balas não atingiram ninguém porque toda a gente se tinha já protegido.
«Lord Diabo começou a praguejar.
«Lord Diabo» via, como uma mancha cada vez mais distante o corpo da jovem.
Esporeou o cavalo.
O corcel da rapariga era melhor, mas ela não o dirigia com tanta habilidade, e por isso «Lord Diabo» foi ganhando terreno progressivamente. Quando deixaram para trás a última casa de Dallas, os potros estavam separados um do outro apenas umas cem jardas.
Da rua, um indivíduo que fumava um delgadíssimo charuto havano contemplou a perseguição.
Era um indivíduo que trazia os revólveres postos nas fundas ao contrário, e que tinha os lábios contraídos numa expressão trocista... Toda a gente o conhecia no Texas e toda a gente receava enfrentar-se com ele. Nos seus revólveres não teriam cabido as marcas.
Chamava-se Bikanian.
—Parece que o chefe 'se preocupa demasiado com as mulheres — disse sarcasticamente para «Certo» Bill, que estava junto dele. — Está a dar um excelente espetáculo.
— Em lugar de o criticarmos devíamos ir em seu auxílio — disse «Certo», com os dentes cerrados.
—Não é preciso. Essa perseguição não durará mais do que cinco minutos, vais ver.
Com efeito, Bikanian tinha razão.
O cavalo de Bela foi perdendo terreno nas descidas, que é onde mais falta faz um bom cavaleiro e o de «Lord Diabo» quase conseguiu alcançá-la.
Bela perdeu a serenidade e quis excitar p animal, mas foi pior. Só conseguiu que este tropeçasse, caindo ela de costas.
Perdeu o equilíbrio, apesar dos seus denodados esforços e a pancada fez-lhe perder também os sentidos. A última coisa que viu foi a figura satânica de «Lord Diabo» que descia do cavalo para cair sobre ela.
***
Tiros. Muitos tiros. Disparas distantes...
Bela teve a 'sensação de viver um angustioso pesadelo e sentia que «Lord Diabo a perseguia através de uma imensa planície onde soavam aqueles tiros. Quando abriu os olhos, ao recuperar o conhecimento soltou um grito de horror pensando que aquele ser satânico estivesse junto dela. Mas enganara-se.
Quem se encontrava naquele momento ajoelhado junto da rapariga era um homem muito diferente. O sheriff Burton.
Vestia umas calças texanas, camisa à vaqueiro e trazia um lenço vermelho atado ao pescoço. As suas feições estavam cobertas de suor, e olhava com inquietação para a jovem.
Esta abriu muito a boca, sem poder falar, tal foi a sua. surpresa.
—O... senhor?
— Sim por fortuna creio que cheguei a tempo.
—Perseguia-me... «Lord Diabo».
—Eu vi tudo. Vi-os vir e segui-os desde a saída da povoação. Julgava que eu o deixava fazer de si o que' quisesse? Ainda sou o sheriff de Danas.
—Onde... está ele?
—Houve uma troca de tiros e não teve outro remédio se não fugir.
Com efeito, os revólveres do sheriff ainda estavam quentes. Bela notou-o ao tocá-los inadvertidamente.
—Vem. Eu ajudo-te e levantar.
Ela consentiu. Seus olhos ficaram quase juntos e os seu lábios roçaram um pelo outro. Foi um instante. A rapariga estremeceu, enquanto se via retratada no fundo daqueles olhos.
— A operação foi um êxito—disse Burton em voz baixa.
—Sim...
O sheriff soltou -uma gargalhada.
— Sinto-me feliz por nos termos conhecido...
O tom jovial de Burton venceu o retraimento de Bela que soltou uma gargalhada também.
Num instante o clima de terror que se formara à volta de «Lord Diabo» parecia ter-se dissipado por completo e Bela tinha la sensação de ser o que sempre fora: uma rapariga cheia de esperanças a quem a vida ainda podia sorrir.
—És tal e qual como te imaginava, Burton — murmurou.

quinta-feira, 23 de março de 2017

PAS729. A garra do salvador

Sandor viu uma janela iluminada que devia corresponder às traseiras de qualquer hotel.
Na janela recortava-se a silhueta de uma mulher uma mulher que se encontrava só, provavelmente.
Não perdeu um segundo.
Com uma agilidade de felino e contorcendo sabiamente o seu delgado corpo, o facínora foi trepando pela parede de tábuas até chegar à janela. Viam-se ali uma fendas, como se alguém a tivesse arranhado, mas ele não fez caso.
A janela estava fechada.
Sem perder tempo, Sandor partiu os vidros com a culatra do revólver e entrou. Durante uns segundos a sua silhueta recortou-se em frente da luz, mas o sheriff não teve tempo de disparar.
Do solo, Sandor, contemplou a rapariga.
Bom, aquilo é que era um monumento, um portento, qualquer coisa pela qual valia a pena subir não a uma janela, mas se tanto fosse necessário a uma torre.
A rapariga não o via. A rapariga estava cega!
—Ê o senhor... «Lord Diabo»? — Perguntou Bela receosamente.
Saudar engoliu em seco.
De modo que era aquela a rapariga de «Lord Diabo»...
O bandido pôs-se de pé, enquanto olhava para ela ansiosamente.
— É o senhor... «Lord Diabo»? — perguntou Bela outra vez com uma voz temerosa.
Sandor respondeu:
—Não, querida. 
— Então quem é? Também não tem a voz do sheriff...
— É que também não sou o sheriff, beleza. Esse borra botas bastante trabalho tem em procurar salvar a pele.
Houve uma crispação no rosto da rapariga.
—Que foi que lhe fizeram?
—Nada, não te rales. De momento continua vivo, mas não sei se o estará por muito tempo. Como te chamas?
—Bela...
— Formoso nome. E deves ser muito jovem hem? Quantos anos tens?
— Vinte.
—Linda de verdade... Vejo que «Lord Diabo» teve bom gosto.
A rapariga não via a expressão de cobiça do homem, que ia percorrendo uma por uma as linhas do seu corpo. Se ela pudesse ver Sandor, com certeza teria soltado um grito, ao verificar o que ia acontecer. Mas apesar de ser cega compreendia exatamente qual era a sua situação. Por isso retrocedeu pouco a pouco, assustada, até que as suas costas bateram na parede do quarto e não pôde retroceder mais.
Sandor foi avançando com a mesma lentidão, tilintando ás esporas no silêncio do quarto.
—Vem cá, boneca...
—Não... não me toque.
—E por que não? Julgas que há homem que seja capaz de resistir à tentação de ter-te em seus braços?
—Eu grito.
—Grita à vontade. Eu matarei o primeiro que entre por essa porta. E se tu fizeres o gosto à garganta, eu farei o gosto ao gatilho, boneca.
E continuou avançando em direção à rapariga.
Se Saudar fosse um homem de mediana prudência ter-se-ia lembrado imediatamente das advertências de «Certo» Bill: pretender as mulheres que «Lord Diabo» desejava, significava morrer. «Lord Diabo» não lhe perdoaria que tocasse, nem com um dedo, numa das suas mulheres.
Todavia, nesse momento Sandor não se lembrava de nada. Apenas disse para consigo que tinha na sua frente uma das mulheres mais bonitas do Texas e além disso que aquela mulher não podia defender-se. Toda a sua vileza e cobardia veio à tona nesse momento, quando se atirou sobre Bela.
A rapariga caiu e Sandor começou a beijá-la.
— Largue-me! Lar...
Bela não pôde dizer mais nada.
Os lábios de Sandor taparam-lhe a boca..
No entanto ela ouviu aquele estranho ruído. E Sandor também o ouviu. Ouviu o lúgubre ranger de uma garra metálica que ia arranhando a madeira da parede exterior ao subir pela janela.
Endireitou-se bruscamente.
As suas feições vermelhas de excitação um segundo antes, tornaram-se mortalmente pálidas.
O ranger ouvia-se cada vez com mais clareza.
Sandor ouviu também, com surpresa, o ranger dos seus próprios dentes.
«Lord Diabo» estava ali.
Sandor puxou pelo revólver no mesmo instante e, assomando à janela, disparou com raiva para baixo todo o carregador, pensando atingir «Lord Diabo». Todavia este não entrara por aquela janela, mas sim pela contígua, que dava para o quarto vazio. A última coisa que Sandor conseguiu ver foram as suas roupas negras e parte da sua horrível máscara.
Soltou um grito nervoso de terror, enquanto carregava o colt febrilmente e se dispunha a sair para o corredor. Mas não chegou a tempo.
Naquele momento a porta abriu-se.
«Lord Diabo» apareceu no umbral, enquanto as suas esporas tilintavam suavemente. Estava vestido de negro, como de costume e os seus olhos tinham' um brilho satânico através dos orifícios da máscara.
Um colt de calibre 45 descansava na sua mão direita, enquanto a garra da mão esquerda permanecia levantada à altura dos olhos.
Sandro soltou outro grito.
Constatou que não podia disparar, porque «Lord Diabo» seria sempre mais rápido do que ele, ainda para mais tendo ele já o colt na mão. E, passo a passo, retrocedeu, enquanto a satânica aparição avançava da porta para ele.
— Che... Chefe — suplicou. — Eu não queria fazer nada à pequena. Eu.:.
—Tu és um cão que deve morrer.
—O senhor também a quer para...
«Lord Diabo» rui sarcasticamente, enquanto Sandor se apercebia da situação e estremecia de horror.
— Cala-te imbecil —disse «Lord Diabo» sem deixar de avançar paria Sandor. —Devias saber ao que te expunhas atrevendo-te a olhar para uma rapariga sobre a qual eu tinha posto os meus olhos. Vais morrer agora mesmo. E vais morrer... Assim!
Deixou cair a garra sobre a garganta de Sandor, o qual não teve tempo de retroceder para se esquivar da mortal tenaz. Ouviu-se um grito de agonia e, quase no mesmo instante o ruído da queda de. um corpo ao cair pesadamente. Bela teve a sorte de não ver o sangue que foi ensopando tudo, COMO um véu vermelho de pesadelo.
Depois só se ouviu o respirar agitado da rapariga, enquanto «Lord Diabo» limpava a garra às roupas do morto.
Voltou-se para Bela.
— Fez-te algum mal? — perguntou com voz sibilante.
—Não. Mas... tentava fazê-lo.
—Já não tentará mais.
—Está... morto?
—Com certeza. Quando faço alguma coisa, faço-a sempre com perfeição.
—Virá o pessoal do hotel. Virá gente de todos os lados...
Na realidade era isso o que a rapariga queria, mas «Lord Diabo» acabou com as suas esperanças...
— Nesta cidade ninguém se mete com ninguém e muito menos durante a noite. Só aparecerá alguém neste quarto quando estiver bem certo de que não corre perigo algum.
— É que...
— Sim, já sei—disse «Lord Diabo» rindo sinistramente. — Não gostas de dormir com um morto.
—Não gosto de dormir com ninguém.
«Lord Diabo» 'acusou o impacto soltando outra gargalhada.
—Não tenhas medo. Nunca me precipito. Por esta noite poderás dormir tranquila, mas só a morte te livrará de mim. Gosto que as mulheres de quem me agradei se vão fazendo antecipadamente à ideia que serão minhas...
Os lábios de Bela tremeram, embora fizesse um angustioso esforço para se manter serena.
—Como é o senhor?
—Não calculas?
— Não posso calcular sem untes me permitir que os meus dedos o apalpem.
«Lord Diabo» murmurou:
—Aproxima-te...
Bela aproximou-se lentamente, dominando a angústia e o tremor incontrolável dos seus lábios. Sabia que «Lord Diabo» podia fazer dela o que quisesse que ninguém a defenderia. Sabia também: que provavelmente tinha o aspeto de um monstro, mas necessitava de se certificar.
Os dedos roçaram a máscara.
Retiraram-se tremendo.
—Por que traz uma máscara?
—Não gosto que me vejam o rosto.
—Que há debaixo dela?
«Lord Diabo» riu outra vez.
— Quando te beijar tirá-la-ei, descansa.
—Mas... que há debaixo dela?
—Um rosto que não é como 'os outros.
—E as suas mãos?
«Lord Diabo» estendeu-lhe a direita. Ela apalpou-a, como fizera antes quando ele a subiu para o cavalo. Era urna mão forte, dura, nodosa, acostumada aos esforços da pradaria.
—Não, essa não — disse baixinho.
—Qual, então?
—A esquerda.
«Lord Diabo» estendeu-lhe a garra. Houve naquele gesto uma mórbida, uma trágica lentidão. A rapariga apalpou-a e no mesmo instante retirou os seus dedos como se estes tivessem recebido uma descarga elétrica.
—Santo Deus!...
Que aconteceu?
—Isso não é uma mão, não é verdade? Ê uma autêntica garra.
—Muito bem, e depois? Toda a gente sabe que a «Lord Diabo» lhe falta a mão esquerda. Pois bem, é bom que tu o vás sabendo também.
Parecia ter-se irritado, porque a sua voz era cava e mais sibilante que nunca.
Empurrou Bela e esta receou que quisesse fazê-la cair com a mesma intenção de Saudar, mas «Lord Diabo» limitou-se a empurrá-la em direção à porta. Se disse que esperava, esperava mesmo. Introduziu-a no quarto contíguo, para o qual ele tinha entrado e que se encontrava vazio.
Desesperadamente, Bela desejou que o sheriff Burton chegasse e acabasse de uma vez com aquele pesadelo. 'Era tremendo não ter senão trevas diante dos olhos e saber que nessas trevas se movia «Lord Diabo», disposto a saltar sobre ela se assim lhe apetecesse.
Todavia, ouviu os passos do monstro que se afastavam lentamente em direção à porta. A rapariga caiu sobre o leito, soluçando, ao saber que estava perdida.

quarta-feira, 22 de março de 2017

PAS728. Um pedaço de vestido de mulher

Por entre as colinas ardia uma diligência. Indubitavelmente os bandidos mexicanos tinham-na assaltado pouco antes, roubando-a e lançando fogo aos restos. Decerto não encontraria ali nenhum sobrevivente. Mas, por curiosidade, «Lord Diabo» aproximou-se.
A diligência era pequena, das que faziam trajetos curtos e por isso não devia levar mais do que quatro passageiros. De tal se convenceu bem depressa «Lord Diabo», porque três deles estavam meio calcinados entre os destroços.
Tinham sido mortos a tiro e à pancada e a sua agonia não devia ter sido divertida, nem rápida.
«Lord Diabo» contemplou-os com um olhar inexpressivo.
Não havia já neles nada de valor, porque os corpos tinham sido revistados minuciosamente. Por isso limitou-se a voltá-los com o pé, procurando não se. queimar. Depois voltou de novo a montar a cavalo para se afastar dali.
Caminhava lenta e tranquilamente.
Qualquer outro teria ficado a tremer ao pensar que pudessem encontrá-lo ali e culpá-lo daquele assalto. Mas ele não. Não tinha pressa nenhuma. Andou à volta da diligência e então viu qualquer coisa que lhe chamou a atenção.
Um pedaço de vestido de mulher.
Estava preso a uma das portas e tinha sido arrancado ao cair a dona do vestido.
«Lord Diabo» desmontou outra vez e procurou cuidadosamente o cadáver. Mas, apesar de quase ter voltado a diligência de pernas para o ar, não conseguiu encontrá-lo por parte alguma.
Intrigado montou de novo.
Viu, pouco depois, ao longe, sobre a terra cor de ocre, um pequeno ponto que se ia aproximando com muita lentidão.
As trevas envolviam já quase tudo, todavia podia ainda distinguir-se que quele vulto pertencia a unia pessoa que não sabia caminhar em linha recta.
Talvez estivesse ferida.
«Lord Diabo» esporeou levemente o cavalo e este avançou em direção àquele ponto. A uma distancia de cem jardas, «Lord Diabo» pôde constatar que se tratava de uma mulher e além disso, de uma mulher jovem e bonita. Era sem dúvida a que tinha perdido urna tira do vestido, porque o tecido era o mesmo.
Ela viu-o aproximar-se.
As suas feições contraíram-se, caiu de joelhos e soltou um grito de angústia que pareceu estremecer a meia-luz do crepúsculo.
—Não,.. suplicou. —Nã0000!...
Um sorriso distendeu as feições de «Lord Diabo», embora não fosse visível por causa da máscara.
A mulher era diabolicamente bela. Não devia ter mais de vinte anos. Estava vestida com roupas simples, meio rotas, e tal facto permitia admirar a perfeição maravilhosa das linhas do seu corpo.
—Não sou nenhum desses aprendizes de salteador—explicou. «Lord Diabo» com voz melíflua. —Esses não voltarão mais.
Guiando-se pela voz, a rapariga ergueu para ele uns olhos imensamente grandes e estranhamente fixos, tão formosos e quietos como dois brilhantes pedaços de lua.
«Lord Diabo» compreendeu imediatamente.
Era cega.
—Que te aconteceu? — perguntou.
—Não sei... Não posso dizer-lho com exatidão. Ouviram-se alguns tiros e de repente alguém abriu a porta da diligência e arrojou-me para fora... Não consegui evitá-lo...
— Com o que te salvou a vida —a voz de «Lord Diabo» continuava a ser sibilante e áspera, mas ao fim e ao cabo para ela era urna voz humana.
— Aqueles imbecis teriam acabado contigo da mesma maneira. Eram parentes teus as pessoas que viajavam na diligência?
— Mataram-nos?
— De nada serve mentir. Não ficou um vivo.
—Meu Deus!...
«Lord Diabo» desmontou. No silêncio da planície ouviu-se sinistramente o tilintar das suas esporas.
— Eram ou não parentes teus?
— Não... Eu viajava com um amigo de meus pais. Deve ter sido ele que me lançou pela porta fora, para me salvar. Ia a Dallas para... — hesitou. —Para me fazerem uma operação aos olhos. Sou cega.
— Já vi.
— Quem... é o senhor?
— Isso não importa agora. Sou o homem que matou os bandidos que assaltaram a diligência.
— Então... deve ser o sheriff...
«Lord Diabo» soltou uma gargalhada.
—O sherifff... tem graça. Não, rapariga, nada disso. Mas de um modo ou de outro tens de chegar a Dallas. Vamos, sobe para o meu cavalo.
Ela aproximou-se.

terça-feira, 21 de março de 2017

PAS727. Reencontro em Dallas

O homem que galopava através da planície parecia querer chegar a Dallas como uma flecha.
Montava um magnífico corcel, uma bela estampa, mas que não era de cor viva. A sela também era vulgar, o que parecia indicar que o cavaleiro não queria que a sua montada chamasse demasiado a atenção.
Em contrapartida, ele sim.
Segurava as rédeas com a mão direita, em vez de o fazer com a esquerda, como é natural a todos os que montam, para ter a destra livre e poder empunhar o revólver.
Mas este cavaleiro lá tinha os seus motivos.
A sua mão esquerda consistia numa série de peças metálicas articuladas, formando uma verdadeira garra.
As suas feições estavam completamente cobertas por uma máscara vermelha que só deixava ver dois buracos, um para a boca e outro para os olhos. 
À  luz mortiça da planície, e sob o sol que já começava a esconder-se, aquele homem, parecia uma autêntica visão de pesadelo.
Estava a meia jornada de Dallas, e contava chegar à cidade durante a noite.

segunda-feira, 20 de março de 2017

RB006. Lord Diabo

(Coleção Rio Bravo, nº 6)
 
 
«Lord» Diabo…
Uma visão que causava repugnância e medo. Um homem com uma máscara que lhe tapava parte da cara deformada e com uma garra que lha substituía a mão esquerda.
Do cárcere marcou o reencontro do seu bando para a cidade de Dallas.
E todos para ali se dirigiram cruzando o seu destino com uma cega que procurava alguém que lhe devolvesse a vista.
Kane traz-nos mais uma novela em que o inesperado se revela no homem capaz de destruir a sua própria quadrilha. Eis algumas passagens


Outras passagens

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