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quinta-feira, 16 de março de 2017

PAS726. É impossível resistir à mulher de vermelho

Estrella e Sidney sentaram-se numa mesa relativamente afastada. Ele encomendou um esplêndido jantar e vinhos da Califórnia. Não tinha muito dinheiro, pois durante aquele ano à procura de Estrella só conseguira economizar uma parte do que lhe pagavam como explorador do Exército, mas decidiu gastar tudo naquela noite. Só queria deixar um pouco para o enterro de Estrella.
Sim, queria fazer-lhe um enterro digno. Ela pareceu adivinhar os seus pensamentos.
—Comprar-me-ás flores — disse num sussurro. — Quero muitas flores vermelhas, Sidney, sobre o meu vestido vermelho.
— Comprar-tas-ei.
Comeram e beberam em silêncio. Ele evitava olhá-la, mas de vez em quando notava sobre a pele o contacto quente dos seus olhos.
Era um contacto que lhe causava prazer e ao mesmo tempo lhe fazia mal.
—Que idade tens, Estrella?
—Vinte e quatro.
—Não és uma criança...
—Bem vês que não.
—Onde nasceste?
—Em Richmond, Virgínia. Mas advirto-te, Sidney, que quantas menos coisas me perguntares, melhor. Não se deve procurar saber nada da mulher que se vai enviar para o caixão.
—Ê para dizer qualquer coisa. Não queres que jantemos absolutamente calados, pois não? Com que então nasceste em Richmond, Virgínia... és por acaso uma aristocrata do Sul?
—Sim.
Sidney ficou surpreendido por aquela resposta, porque foi dada com uma seriedade absoluta.
— Que se passou com a tua família?
—Morreu... Os nortistas mataram-na. Vi o cadáver do meu irmão decompor-se, porque me encerraram vários dias com ele num quarto, enquanto os assaltantes se embebedavam. Depois, quando já não tinha forças, fui tirada dali e ultrajaram-me.
Sidney apertou os lábios, que formaram uma linha espantosamente recta.
—Não é possível.
—Porquê?
—O exército Nortista estava sujeito a uma disciplina. Os seus soldados não violavam as mulheres nem as encerravam com os cadáveres. E se o faziam, eram fuzilados. Eu vi passar pelas armas alguns, a toda a gente sabia ao que estava exposta, se ultrajasse uma mulher. O que me contas é inventado.
—Não, Sidney.
—Não?
—O nosso caso era especial. Demos alojamento a uns sabotadores condenados à morte. Então os nortistas enviaram uma patrulha e castigaram-nos da forma mais cruel.
—De qualquer modo não tinham direito a fazer isso contigo. 'Como se chamava o tipo que comandava essa patrulha?
—Era um capitão chamado Gordon.
— Gordon... Recordá-lo-ei.
—Não te preocupes. Aquilo já passou. Desde então parece-me que passaram séculos.
Sidney bebeu dois copos de vinho seguidos, tentando aturdir-se, mas era impossível. Estava cada vez mais sereno.
Apesar de não lhe convir escutai- a rapariga, precisava saber, saber...
—Por que te ias casar com meu irmão John? Contaste-lhe o que se passara? Disseste-lhe que tinhas sido ultrajada?
—Sim, mas não lhe contei as circunstâncias.
—E ele insistiu em casar-se?
—Eu agradava-lhe muito. Estava enamorado de mim.
— Mas tu não o estavas. Por que ias casar-te?
— Porque queria matá-lo.
Sidney estremeceu. As suas mãos abriram-se e fecharam-se.
—Querias matá-lo?
—Sim.
— Porquê?
—O teu irmão John vivia no Sul e fingia ser um amigo dos confederados, mas na realidade era um dos mais hábeis espiões com que contava o governo de Abraham Lincoln.
— Isso é verdade — disse Sidney. — Eu sabia-o.
— Foi ele quem seguiu passo a passo as atividades da minha família, quem nos denunciou e quem pediu que se enviasse uma patrulha para acabar connosco. Essa patrulha, comandada por Gordon, infiltrou-se em território sulista, muito próximo da frente e já te expliquei o que aconteceu. A John, que no fim da guerra se tornara rico com os transportes do rio Alabama, nunca expliquei a verdade. Mas dei-lhe o meu nome, embora o tivesse - feito compreender com meias palavras que nada tinha que ver com os Kurzon que ele denunciara. Um homem menos transtornado teria suspeitas, mas John nunca as sentiu. Necessitava acreditar em mim porque estava enamorado. Com todas as suas forças queria tornar-me sua. Quando lhe cravei duas balas nas costas, sentiu a maior surpresa da sua vida.
—Por que o fizeste?
—Já to disse: por vingança.
O rosto de Sidney ficou tenso.
—Mentes!
—Porquê?
— Se o tivesses matado por vingança, não te terias incomodado em roubar-lhe vinte mil dólares.
Ela sorriu, inexpressiva e sem o olhar, como se estivessem a cem milhas de distância.
—Vinte mil dólares foi o que John cobrou por ter averiguado onde ficava a base dos sabotadores que todas as noites se infiltravam nas linhas nortistas, assassinando e semeando o terror. Eu não queria que esse dinheiro continuasse em seu poder, nem depois de morta. Mas não acabei. Sabes o que fiz com ele?
—Não me interessa.
— Enviei-o aos hospitais do Sul. Posso prová-lo.
Sidney mordeu o lábio inferior, nervosamente: sabia que ela estava a dizer a verdade.
—Não quero que me expliques mais nada. Nem mais uma palavra, compreendes? Não me importa se és inocente ou culpada, se tinhas os teus motivos para matar John. Tu -assassinaste-o e vais pagar. Jurei que o vingaria.
Ela sussurrou:
—Não te pedi perdão. Só te disse que tenho medo da morte e queria que me eliminasses estando a dormir.
Os dois olharam-se fixamente nos olhos, com uma estranha expressão. As suas feições estavam tensas.
Por isso, porque estavam a olhar um para o outro, não notaram que alguém se aproximava da mesa.
—Que par de tontos. Quer beber um copo comigo, menina.
Sidney levantou a cabeça e olhou para o intruso. Era um tipo alto, forte e algo gordo, muito bem vestido. Devia ter uns trinta anos. A camisa tinha desenhos estampados e as iniciais «J. D.» bordadas. Não havia dúvidas de que se tratava de John Dickensen.
Para reforçar esta impressão viu o encarregado do hotel que, apoiado na porta, tremia espasmodicamente.
—Não vai um copo? — perguntou Dickensen pela segunda vez.
Como Estrella não lhe respondia, agarrou-a por um braço e pô-la em pé, violentamente.
—Tu beberás comigo, rapariga. E esta noite vamos divertir-nos muito.
Sidney, sem se mover, disse:
— Largue-a.
—Largo-a? — o pistoleiro riu-se. —Ninguém em Abilene diria semelhante tolice. Você quer jogar a pele, amigo. Sabe quem eu sou?
—Claro que sim. Leva as iniciais gravadas na coleira e no açaimo. É um cão chamado Dickensen.
O pistoleiro empalideceu.
—Chamou-me cão?
—Sim. E saia daqui antes que me comece a aborrecer deveras e lhe pise o rabo.
O rosto de Dickensen estava completamente branco. Assombrava-o a tranquilidade de Sidney, que não se levantara da mesa e nem sequer o olhava.
—É, a sua rapariga?
—Ainda não lhe pus a marca da minha ganadaria, mas estou a acompanhá-la e isso basta. Quer sair daqui de uma vez para sempre?
—Irei com ela.
Sidney estava enraivecido e com os nervos prestes a rebentar. Desde que começara a falar com Estrella sentia-se violento e necessitava descarregar aquela violência em alguém. De modo que se pôs em pé de um salto, agarrou Dickensen pelas bandas e atirou-o violentamente contra uma das mesas.
Dickensen desfez a mesa ao cair e ia a sacar o revólver, mas Sidney ajudou-o com um pontapé e a arma saltou pelos ares. Ao ver-se desarmado, Dickensen rugiu.
Não lhe serviu de nada.
Sidney destroçou-lhe o nariz com dois terríveis murros, rasgou-lhe a camisa, partiu-lhe a boca com uma palmada de revés, arrancou-lhe as sobrancelhas com dois golpes cruzados e partiu-lhe os dentes com um último murro na boca.
Dickensen, habituado a atuar com o apoio dos seus homens, não pôde resistir àquele aluvião. Simplesmente, teve medo e pôs-se a gritar. Como Sidney, ainda tinha um revólver, tentou desesperadamente chegar até à porta. Sidney esfregou as mãos, dando por concluída a questão depois de castigar brutalmente Dickensen.
Mas de repente este voltou-se. Julgou que o seu inimigo estava distraído. Tentou abraçá-lo e arrancar-lhe o revólver.
Sidney deu pela manobra e foi muito rápido. Espantosamente rápido.
Quando Dickensen chegou junto dele, Sidney já tinha agarrado urna garrafa pelo gargalo, partindo o resto contra uma mesa. As arestas da garrafa brilharam como agudos punhais, e ele cravou-as no rosto do inimigo. Dickensen lançou um horrível grito de dor; enquanto levava as mãos à cara, convertida numa máscara de sangue.
Gritando, caindo e levantando-se, chegou até à porta e desapareceu na noite.
Estrella Kurzon estava mortalmente pálida.
—Bem — sussurrou Sidney—, creio que estragámos o jantar a toda a gente. Desculpem, senhores. Vamos, rapariga.
Dirigiram-se para a escada do hotel, passando. pela porta onde estava o encarregado. Este tremia. como se fossem enforcá-lo.
—Não sabe o que procurou... —balbuciou.—. Ser inimigo de Dickensen é terrível... Adverti-o…
—Cale-se, cobarde!
Subiram ao quarto. Estrella tremia. Toda a sua carne, o seu corpo, palpitava de maneira obcecante.
Quando Sidney fechou a porta, voltou-se para ele.
— Sidney…
— O que há?
— Devíamos ter trazido uma garrafa. Não estou bêbeda.
—Nem eu.
—Sidney...
Os seus lábios estavam entreabertos.
Foi ela que se lançou sobre ele. Foi ela quem o beijou na boca.

quarta-feira, 15 de março de 2017

PAS725. Mata-me enquanto durmo

Sidney perguntou, martelando as palavras:
—Chamas-te Estrella Kurzon?
—Sim.
A voz da mulher era ligeiramente suave, trocista e falava com o quente acento do Sul.
Sidney acariciou o coldre.
— Ias casar-te em Alabama com um homem chamado John Barton?
—Sim.
—Cravaste-lhe duas balas pelas costas?
—Sim.
A mulher respondia firmemente, sem vacilar, enviando-lhe até ao fundo da pele o olhar dos seus olhos negros.
—Estás a reconhecer o teu delito—disse Sidney sem deixar de acariciar o revólver. —Nunca supus tantas facilidades.
—Digo sempre a verdade.
—Sempre? Disseste a verdade a John quando asseguraste que o amavas antes de lhe descarregares um revólver nas costas?
—Essa foi a única mentira da minha vida.
—E não foi nada má. Posso saber, pelo menos, por que o mataste?
—Não.
A negativa da mulher surpreendeu Sidney.
—Confessaste o teu crime e agora não queres dizer isso? Advirto-te que o resultado vai ser o mesmo. Pergunto-o por simples curiosidade.
—Não o digo. E vou fazer uma pergunta. Quem és tu?
—O único irmão de John.
—John tinha aspeto de cavalheiro e pelo contrário tu tens aspeto de malandro.
— É que eu sou um malandro.
— Não te dedicaste aos negócios como ele?
—O meu negócio consistiu em ser explorador, durante a guerra e depois dela. Um prato de feijões e 'Uma chávena de café por dia, forragem para o cavalo, um gole de rum antes de cada caminhada e dez dólares por mês para convidar uma rapariga. Já vez que com isso não pude 'economizar muito. Se fosses outra, deixaria que cuspisses sobre mim. Mas tu não o farás.
—Por que não?
— Persegui-te durante doze meses para te matar.
Os lábios da mulher tremeram por um instante.
—Não viste que estou defendida?
—Esses dois canalhas já estavam contigo, pelos vistos, quando mataste John. E então?
—Seguramente eles matar-te-ão.
--Por quê não experimentamos?
Foi naquele instante, ao saber que iam falar os revólveres, quando os três homens olharam em redor. Estavam sós na planície, próximo de Abilene, e sabiam que ninguém viria interromper o duelo. Ao fundo, a umas duas milhas, distinguiam-se os telhados poeirentos da cidade, e ao norte, a umas quatro milhas, chegava uma manada, da qual só se via a imensa nuvem de pó. Nada mais. O desafio ia ser, por assim dizer, cómodo. E ia ser de morte.
Os dois homens que acompanhavam Estrella Kurzon arquearam lentamente os braços.
Sidney também.
Durante uns intermináveis segundos, sob o sol de Agosto, os três contiveram a respiração. Não se ouvia nada, nem o compasso dos seus corações. Os revólveres brilhavam. Estrella disse:
—Eu darei o sinal.
—Está bem.
Esperou ainda uns dez segundos, pensando que Sidney se poria nervoso e gritou:
—Agora!
Três revólveres brilharam à luz. Sidney apertou os lábios, encolhendo-se, como os índios lhe tinham ensinado a fazer no Arizona, sob as flechas do inimigo, e disparou duas vezes, carregando a arma com frenético movimento da mão esquerda. O homem que primeiro levantara o revólver, fez um estranho movimento ao ficar com o queixo atravessado e caiu para trás, levando o revólver à boca, como se fosse engoli-lo. Na realidade foi una movi- , -mento instintivo da sua mão para chegar até à ferida. Mas Sidney não teve tempo de o contemplar.
O outro disparou quase ao mesmo tempo e a bala arrancou-lhe o chapéu.
A bala de Sidney já ia a caminho.
Alcançou o inimigo no peito, muito perto do coração e fê-lo dobrar-se lentamente. Caiu de joelhos, ia a disparar outra vez, ante o olhar impassível de Sidney, e de repente caiu de bruços sobre o pó, lançando, o seu último suspiro.
Sidney baixou o revólver lentamente. Os seus olhos encontraram os da mulher.
E notou que a mulher de vestido vermelho tinha um olho negro, que parecia trespassá-lo, e que os seios, sob o vestido, palpitavam como -uma chama.
Estrella balbuciou:
—Esta bem, conseguiste o que querias. Já me tens sozinha numa planície onde ninguém poderá ajudar-me, desarmada e tendo tu um revólver na mão. Não 'perdeste o tempo durante os doze meses, no fim de contas. Dispara.
—Não vou fazê-lo como pensas. Os teus homens tiveram que largar as armas e um deles só disparou uma bala. Portanto podes escolher qualquer, na certeza de que encontrarás chumbo. Agarra o que quiseres.
—Para quê?
— Para defenderes a tua vida. Não sabes manejá-lo?
—Não.
—Mas foste muito hábil para matar John.
— Disparei-lhe sobre as costas. Aquilo foi muito simples. E agora não conseguiria pôr o revólver em linha de tiro antes que tu me crivasses.
—Vou dar-te vantagens. Tu podes ser uma víbora, mas não um pistoleiro profissional como eu. Terei o revólver no coldre e só o sacarei quando tiveres o teu na mão.
— Não, Sidney.
O rapaz sentiu uma estranha emoção pel¢ facto de ela se recordar do seu nome.
— Queres morrer como uma cadela?
—Não quero que me mates aqui, Sidney.
Ele olhou-a, desconcertado.
—Como?...
—Não quero que me pisem as manadas ou me devorem pela noite os animais da planície. Eu não sou mais do que uma cobarde, Sidney e a morte. dá-me horror. Talvez nunca tenhas vista um cadáver em decomposição. Eu vi um: o do meu irmão.
Sidney apertou os lábios.
—O que for dos nossos corpos depois da morte, não é assunto nosso. E assim acontecerá, mate-te onde te matar.
—Fá-lo em Abilene.
—A que propósito vem esse pedido tão absurdo? Pretendes enganar-me como enganaste John?
Ela mostrou-lhe as mãos vazias.
—Como posso 'enganar-te? Que armas tenho?
—Pretendes ganhar tempo.
—Para quê?
— Em Abilene podes ter algum amigo ou podes encontrá-lo. Estamos a perder um tempo que tu necessitas para outra coisa. Reza.
— Faz-me um favor, Sidney. Já te disse que tenho horror à morte.
Ele voltou a passar a língua pelos lábios, dando conta e que os tinha espantosamente secos. Notou também que o olhar dos olhas negros penetrava até ao ais fundo de si mesmo. John tinha sido um homem esperto e, todavia, jazia agora com duas balas na costas, apodrecendo num caixão no quente Alabama Certamente Estrella olhou-o com aqueles mesmos lhos, doces e apaixonantes, antes de o matar.
Mas, apesar de tudo, não apertou o gatilho.
— Que espécie de favor me vais pedir?
— Que Me mates sem que eu dê por isso. Que me mates enquanto eu estiver adormecida.
—Isso é uma estupidez.
—Crês que toda a gente é capaz de olhar a morte cara a cara, Sidney?
— As víboras não.
Ela respirava angustiosamente. Via-se com clareza que tinha medo.
— Que estou a pedir-te? — sussurrou. — Perseguiste-me durante um ano, e agora já me tens. Não posso escapar. Quando esta noite me atravessares a cabeça num quarto de hotel, poderás, pelo menos, fazê-lo sem te arrependeres.
—Atravessar-te a cabeça... num quarto de hotel?
—Tomamos o mesmo quarto e inscrever-nos-emos como o senhor e a senhora Barton.
Sideny notou que se lhe toldava a mente por um instante. Conhecia de sobra qual era o jogo dessa mulher, esse jogo tão velho como o mundo conduzir o homem como um cão, despertando ele os instintos adormecidos. Compreendia tudo isso e não o podia evitar. Recordou aquela vez, já longínqua, em que através de uma janela tinha visto aquela mulher a despir-se.
Não, não podia ser.
Se a escutasse agora, se a olhasse outra. vez, cairia nas suas malhas.
Ia a apertar o gatilho. Ela caiu de joelhos.
E então Sidney notou que lhe tremia p. mão, que pela primeira vez era incapaz de disparar.

terça-feira, 14 de março de 2017

PAS724. No encalce da mulher de vermelho

A busca começara no Novo México, onde abundavam os jogadores profissionais e as mulheres bonitas. Sidney pensara que uma mulher que acaba de roubar vinte mil dólares deve ter interesse em tomar quanto antes um dos navios que levam a Nova Orleans ou a Tampa, na Flórida, donde é fácil desaparecer.
Mas a mulher do vestido vermelho não tomara nenhum navio. Sidney perdera a sua pista até que o dono de um hotel assegurou ter-lhe dado alojamento por uma noite.
—Eram uma mulher e dois homens. Eles com pinta de pistoleiros profissionais, porque usavam os coldres baixos e vestiam de uma maneira que aqui já não se usa. Pareciam condutores de mana- das daqueles que há mais a Oeste. Mas ela... diabos, ela era uma senhora! Levava um vestido vermelho bastante estragado e saiu a comprar outro. Parecia sentir um fraco por essa cor. Era morena, com os olhos negros. O tipo de mexicana ardente... Juro--lhe que ,naquela noite não pude dormir. Se a minha mulher chega a adivinhar-me os pensamentos, mata-me.
Matar... matar... Era essa a ideia que se instalara no cérebro de Sidney. Matar a mulher do vestido vermelho.
O hoteleiro disse-lhe que tinham tomado uma diligência para o Oeste, e ele seguiu a sua pista através do Mississipi. Perdeu-a várias vezes e voltou a encontrá-la, porque todos aqueles territórios eram um caos depois da guerra. Durante meses julgou ter aquela mulher ao seu alcance e ela fugiu--lhe. Uma vez chegou a vê-la.
Ela estava num quarto de hotel, despindo-se em frente da janela, e ele contemplava-a do telhado de uma casa fronteira. Podia tê-la matado, mas repugnou-lhe a ideia de exterminar alguém assim, sem dar a cara. Viu a roupa interior da mulher e obcecou-se. Pensou que era a mulher mais diabolicamente formosa que vira na sua vida. Naquele momento, um bêbedo 'disparou da rua contra ele. Seguiu-se um tiroteio, Sidney foi detido pelo «sheriff», e quando no dia seguinte quis seguir de novo o rastro da mulher, já esta tinha desaparecido.
Mas agora a cavalgada acabara.
Agora estavam os três em Abilene, Texas, onde se mata e morre.

segunda-feira, 13 de março de 2017

PAS723. Um casamento gorado

Tudo acontecera meses antes, em Agosto de 1865. Sidney Barton era o abandonado da família. Explorador infatigável no Oeste, recebera um dia o convite de seu irmão John para que assistisse ao seu casamento. E dirigira-se a Tuscalosa, no Alabama, onde estava a velha casa da família.
Mas ali não encontrara ninguém.
Bem, «ninguém», não.
Tinha encontrado o seu irmão John, agonizando por causa de duas balas nas costas.
John ainda pudera falar. Pudera dizer-lhe coisas importantes antes dos seus olhos se fecharem para sempre.
—Foi ela... Estrella Kurzon... ia casar-se comigo. Quando estávamos a sós disparou dois tiros pelas costas...
—Mas porquê? Porquê?
—Não... não sei.
Sidney Barton lembra-se de que tivera um gesto de angústia e passara a língua pelos lábios secos.
—John... Tu tinhas sorte nos negócios. Ê o dono da frota mais importante da rio Alabama... Os teus barcos transportam algodão de Montgomery até ao golfo do México e aos países do Sul. Fê-lo para te roubar? Que diabos pretendia?
—Levou... vinte mil dólares... Sidney.
—Então já tens o motivo.
—Não é isso...
—Juro-te que não te entendo, John. Engana-te, crava-te duas balas nas costas, leva vinte mil dólares, e ainda garantes que não o fez para te roubar?
—Podia ter levado... muito mais.
—Talvez não tivesse ocasião.
—Teve. Podia ter feito o que quisesse. Na vida dessa mulher há algo mais... Mas nunca me tinham enganado de uma maneira tão miserável. Dizia que me amava, Sidney... E disparou sobre mim a sangue frio... Jura-me... que me vingarás.
Os olhos de John fechavam-se. Sidney compreendeu que não podia perder muito tempo.
—Como se chama?
—Já to disse. Estrella Kurzon.
—Como é ela? Lembra-te que nunca a vi.
—É... muito bonita... Morena, com os olhos negros e tipo de mulher ardente, mexicana... Não está bem que eu diga isso... agora que vou morrer... Mas enlouquecia-me. Tu seguir-lhe-ás bem a pista, porque por onde passa todos os homens se fixam nela... quase sempre leva um vestido vermelho... e acompanham-na dois homens.
Todos estes dados tinham ficado cravados na mente de Sidney Barton.
Os olhos negros, o tipo de mulher ardente, o vestido vermelho... E os dois pistoleiros que a acompanhavam para a proteger.
Depois destas palavras teve que fechar os olhos do seu irmão.
John morrera.
Lá fora zumbiam as moscas e fazia um calor espantoso.
Tal como agora, um ano depois...

domingo, 12 de março de 2017

RB002. Canção para os mortos

(Coleção Rio Bravo, nº 2)
 
 
«Chamava-se Barton e tinha que matar uma mulher.
«Durante mais de um ano, durante doze a treze meses intermináveis, perseguira-a desde os terrenos algodoeiros de Alabama às planícies do Mississipi, e daí aos lagos da Louisiana e aos caminhos poeirentos do Texas, onde abundavam os pistoleiros. Agora tinha-a na sua frente. Estava em frente dele, com o seu diabólico vestido vermelho, empunhando um revólver e com um homem de cada lado. Dois pistoleiros a soldo dispostos a defendê-la.
«Fazia um calor horrível.
«Barton sabia que ali era necessário viver ou morrer.
«Estava-se em Abilene, Texas, num dia de Agosto de 1866. »
Assim começou Silver Kane esta «Canção para os mortos». Trata-se de uma novela no melhor estilo do autor o qual esteve muito presente nesta fase inicial da Coleção Rio Bravo. Para o ilustrar, iremoa apresentar algumas passagens que nos mostram que a relação de Barton com a bela mulher vestida de vermelho nunca foi pacífica nem bem definida...


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