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terça-feira, 30 de agosto de 2016

PAS668. Reabilitação

Depois que a calma, ou coisa parecida, se restabeleceu no rancho Ensenada, Wilmore insistiu repetidas vezes com Ramirez para que os acompanhasse a Erva Boa, que era o ponto a que se destinava. O rapaz recusou-se obstinadamente, sem esclarecer a causa da negativa, pois não queria, agora que ficava livre da, esteira da sua história de aventuras, voltar a comprometer-se aos olhos do seu novo amigo, ainda que fosse por um incidente de que não era responsável.
— Não insistas, papá — interveio Luísa, despeitada, interpretando a atitude de Ramirez como coisa pessoal. — Ele sabe o que faz. Se não quer vir connosco, lá terá as suas razões.
O rapaz mordeu os lábios. Luísa voltou a cabeça, e Wilmore, que não era alheio à corrente de simpatia que unia os dois jovens, sorriu levemente.
— De acordo, Ramirez, mas já sabe que tem aqui um amigo, que fará por si tudo quanto seja possível, sempre que dependa de mim, claro. Há coisas que...
Olhou Villarreal e Nacho que se encontravam atrás de Ramirez, e com um gesto indicou os dois jovens. Nacho, com o braço e o peito ligados, soltou uma gargalhada. Finalmente, pai e filha afastaram-se a galope, a caminho de Erva Boa. Ramirez viu-os partir, em silêncio, sem fazer caso dos gracejos dos amigos..
— No fim de tudo isto, não chegámos a saber quanto leva aquele homem no cinturão....
Ramirez separou-se deles, pois não estava com disposição para brincar. Foi andando até aos currais e quedou-se junto de um pilar onde um dos bandidos encontrara a morte. Sentou-se ali perto, maldizendo a fatalidade que o fazia perder Luísa Davis.
A habilidade e boa intenção de Wilmore haviam conseguido o mais difícil. Apagar o passado de «Perigoso». Mas em Erva Boa ainda tinham vontade de pendurar Joe Stickwell por um delito que não havia cometido.
O galopar de um cavalo arrancou-o aos seus pouco agradáveis pensamentos, surpreendendo-o, por quanto eram raros os visitantes de Ensenada. Um cavaleiro aproximava-se veloz, em direção ao rancho. Passou por ele, e quando ia já a entrar no pátio, retrocedeu, trotando até junto dele. Ramirez reconheceu o cavaleiro, imediatamente. Era um rapaz de Erva Boa, que morava perto da casa de sua mãe. Sem saber porquê, sobressaltou-se. Que nova complicação surgiria agora? Na povoação, só sua mãe sabia onde ele se ocultava. Ter-lhe-ia sucedido alguma coisa?
O rapaz desceu do cavalo e começou excitado:
— Olá, Ramirez! Sempre dei uma estafa! Julguei que o cavalo rebentava!
— Que se passa? Quem te mandou aqui? — inquirou Ramirez, inquieto.
— Toma. É uma mensagem da tua mãe. O velho Troy falou, Ramirez! O xerife obrigou-o a despejar tudo! Agora, toda a gente do povoado quer linchá-lo, mas o xerife Tindall requisitou tropas aos ianques! Lê!
Ramirez recebeu o papel. As letras bailavam-lhe em frente dos olhos, mas conseguiu inteirar-se do conteúdo. A senhora Stickwell comunicava-lhe simplesmente que Peter, apertado pelo xerife, havia confessado a verdade do incidente que ocasionou a morte de seu filho. Que ele podia voltar para Erva Boa, onde Tindall o esperava para o reintegrar do seu lugar.
O rapaz ficou deslumbrado. Tinha suficiente sensatez para compreender que a Providência o favorecia extraordinariamente, permitindo-lhe desviar-se de um fim para que, logicamente, se encaminhava. Não pensou mais e gritou ao rapaz:
— Vai ao rancho e pede a Nacho Salazar que te dê outro cavalo! Eu levo o teu!
O outro ainda quis objetar, mas já era tarde. De um salto, Ramirez firmou-se na sela e tomando as rédeas, lançou o animal a um galope desenfreado. O cavalo, mesmo cansado, pareceu compreender a importância do esforço que se lhe exigia e obedeceu.
Desceu a colina como um furacão, agitando o chapéu no ar e gritando para incitar o cavalo. E assim foi correndo, até que distinguiu ao longe a silhueta inconfundível de dois cavaleiros. Redobrou os gritos como um índio amalucado.
Antes que os gritos lhe chegassem aos ouvidos, Luisa Davis pressentiu a presença de Ramirez. Esticou as rédeas e deteve o cavalo.
— Espera, papá. Ele vem aí.
— Ele quem? — inquiriu Wilmore, sem compreender.
— «Ele». Quem havia de ser? Essa pergunta nem parece tua!
— Ah! Pois claro! Só podia ser «ele». Compreendo. Tinha-me esquecido de que não existe outro homem na Terra.
Ramirez alcançou-os a galope, contendo o animal, que ergueu as patas relinchando. Disse simplesmente:
— Mudei de ideias. Precisa de um colaborador, senhor Wilmore?
— Tem a certeza de que essa pergunta deve fazer-ma a mim? -- inquiriu o político, sorrindo. — Claro que me interessa a sua colaboração. Tenho muito trabalho a fazer na Califórnia, e ninguém melhor para se estabelecer uma boa organização neste país que um homem metade mexicano e metade ianque, como você. Mas, perguntemos a Luísa, que também faz parte do grupo. Aceitamos a oferta de José Ramirez?
A rapariga baixou os olhos um pouco ruborizada e respondeu:
— Naturalmente... «Nós» precisamos dele...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

PAS667. Uma mensagem para o traiçoeiro ajudante de xerife

O rancho de Porfirio Ensenade acolheu uma vez mais os três homens. Nacho dedicava-se a procurar pelos corredores a linda Estrela, e Ramirez, depois de dar conta a Ensenada de sua última digressão, foi procurar Ascensão.
— Escuta, Ascensão. Conheces, em Erva Boa, Peter Troy?
— Claro que conheço.— o índio sorriu abertamente. — O senhor deu-lhe um correctivo o mês passado, mas ele anda outra vez a perseguir-nos.
— Bom. Quero que ele receba um aviso meu. É um pouco arriscado. Atreves-te a ir a Erva Boa e deixá-lo em sua casa? Não está vigiada, e ele ande por fora rodo o dia. Vê se consegues entrar dentro do quarto e deixar sobre a cama o que te vou dar.
— É fácil patrão. Ascensão pode fazer isso.
— Vem comigo.
Entrou no, seu quarto e num pedaço de papel escreveu umas linhas. Depois tirou uma coisa do bolso da jaqueta. Olhou com atenção e embrulhou no papel.. Depois, amarrou-lhe um fio.
— Toma. Tem cuidado. Ninguém deve saber.
Ascensão, lisonjeado pela confiança, desapareceu. Abandonou o rancho, em silêncio, e pouco, depois galopava para Erva Boa, montado num ruão de má raça. Chegou ao povoado onde a sua presença passava despercebida, e numa taberna informou-se do domicílio do primeiro ajudante do xerife Tindall. Ramirez escolhera bem o emissário. Ascensão entrou de noite no quarto de Troy, quando este tentava, esquecer num «bar» a dor causada pela morte do filho, e o escasso remorso que poderia apoquentá-lo pelo destino de José Ramirez. Quando voltou para casa, encontrou sobre a cama um pequeno invólucro, que desembrulhou intrigado. Tomou entre os dedos um projétil 44.
— Algum engraçadinho! — resmungou.
Só então, viu o que estava escrito no papel. Aproximou-o da luz do candeeiro, e leu:
«Ainda me restam cinca balas das que escondeste, Peter. Se tens consciência conta a verdade do que se passou. Esperarei até que sómente me reste ume bala. Será a que destino para acabar contigo>.
Peter estremeceu. Havia muito tempo que se perguntava onde se teria escondido José Ramirez. Agora sabia que ele estava perto. Instintivamente, levantou-se para fechar a porta. Aquela mensagem encheu-o de ódio e rancor, convencido de que a morte do seu filho o absolvia, de certo modo, da sua torpeza. Por isso, se enfureceu com a pretensão do rapaz. Se houvesse sabido antes que Ramirez e «Perigoso», para o qual tinha um aviso na secretária do xerife, pondo a sua vida a prémio, eram uma e a mesma pessoa, talvez ele agora, não se permitisse tais bravatas.
— Que venha esse mestiço buscar-me! Desta vez não me surpreenderá tão facilmente!

domingo, 28 de agosto de 2016

PAS666. De ajudante de xerife a assaltante de diligências

Seis semanas haviam decorrido desde que fora pelos ares o depósito de pólvora de Monterrey. Sobre um pico dos Montes Tehechpi, viam-se três cavaleiros imóveis, como se formassem parte da dura paisagem. Pareciam contemplar a grande superfície morta do Deserto Mojave, que se estendia até aos Montes São Bernardino. Não falavam. O do meio tinha a aba do chapéu descida sobre a fronte. Os dos lados não necessitavam dessa precauçâo porque a imensa roda dos seus chapéus projetava sombra suficiente.
— Já lá vêm! — exclamou Nacho Salazar, apontando da direção Este.
Ramirez assentiu. Uma pequena nuvem de pó aproximava-se pela planura. Fez um sinal aos dois companheiros, e os três subiram os lenços com o desembaraço de quem já havia 'executado aquele movimento muitas vezes. Esperaram ainda um pouco e quando julgaram chegado o momento, lançaram-se na descensão, deixando resvalar os cavalos pelo declive. Era unia maneira rápida e excitante de encurtar distâncias.
A diligência de Las Vegas avançava, arrastada briosamente per duas parelhas de cavalos frescos, mudados havia apenas umas horas numa estalagem de Inyokern. Os três mascarados ocultaram-se atrás de duas rochas até que Ramirez ordenou:
— Vamos! Preguemos-lhe um bom susto!
Bateram com as palmas das mãos no pescoço dos cavalos e romperam numa carreira desordenada. Nacho e Villiarreal começaram .a soltar gritos estridentes; como se estivessem- num «rodeo» de Tijuana, e disparando, os revólveres para o ar.
.A aparição idos três cavaleiros surpreendeu desagradavelmente o cocheiro, que se apressou a soltar as rédeas para deitar a mão à espingarda. Mas logo pensou que não era fácil acertar naqueles três vultos móveis, e fustigou os cavalos para que adquirissem maior velocidade no andamento.
Ramirez vinha à cabeça. Inclinou-se para um lado e disparou o seu «Colt»!...Parecia incrível que pudesse fazer pontaria naquelas condições. Não obstante, o condutor da diligência largou o chicote e dobrou-se, tentando firmar-se no assento, com uma bala no' ombro. Os cavados estacaram ajudados por Nacho que lhes segurou as rédeas.
A diligência dava a impressão de ir vazia. Ninguém assomou nem pretendeu defender-se. Ramirez e os seus companheiros aproximaram-se calmamente. Vilarreal desceu do cavalo e dirigiu-se à portinhola, que abriu, e, sem o menor receio de receber uma bala na cabeça, espreitou para dentro. Examinou, com atenção as seis pessoas que se encolhiam no assento, e depois anunciou fiara fora:
-- Todos ianques, chefe! — soltou uma gargalhada. — Conquistadores!
Ramirez engatilhou o revólver.
— Bem. Que desçam um por um.
O primeiro a aparecer foi um sujeito gordo, que pretendia mostrar altivez. Villarreal, trocista, saudou-o com uma grande vénia. Depois, desceu o rapaz magro, que olhava para todos horrorizado, e ainda um vendedor charlatão, que ria, dizendo chistes. A este seguiram-se dois homens de idade, dois pesquisadores de fortuna que mereceram certa atenção dos assaltantes. Villarreal esperou um pouco e tornando a espreitar para dentro de diligência disse:
— Vamos, princesa! Um pouco de ar fresco vai fazer-lhe bem! Quer que a ajude?
O oferecimento fez que o último dos passageiros se apressasse a descer. Ramirez e Nacho ficaram surpreendidos. Era uma mulher. Uma mulher jovem, verdadeiramente encantadora de rosto perfeito e feições delicadas, um produto da mais requintada civilização do Este, que resultava deliciosamente deslocado no deserto de Mojave. Vestia com simplicidade e apertava os lábios, denotando decisão e firmeza de carácter.
— Se houvesse apenas um homem nesta, diligência, não se ririam tão comodamente de nós! — disse ela, relanceando o olhar pelos companheiros de viagem. — Podem começar a despojar-nos do que trazemos.
Ramirez mostrou-se um pouco apático a partir daquele momento. Havia conhecido muitas mulheres, mas aquela desconcertava-o. Nacho murmurou a seu lado.
— Uma preciosidade! Realmente, é uma pena deixá-la aqui abandonada!
— Não sejas cínico, Nacho. E Estrela?
Salazar embatucou e desceu o lenço.
O mexicano empurrou os viajantes com o cano do seu revólver e todos se apressaram a obedecer. Quando ficaram agrupados junto às rochas, Nacho desceu da sua montada. Com uma navalha cortou os arreios dos cavalos, que se afastaram devagar para se deterem um pouco mais longe. Depois, ordenou, a dois dos passageiros que descessem o cocheiro e pousaram-no no chão. O homem havia desmaiado. Agora, só restava largar fogo à carruagem. Villarreal efetuou esse trabalho com verdadeiro entusiasmo. A madeira ressequida da diligência era um esplêndido combustível, e com o carro arderam também as bagagens dos passageiros.
— Seguramente, a menina trazia bonitos vestidos —disse Ramirez acercando-se da rapariga e contemplando-a com admiração. — Teria feito, melhor em os exibir na sua terra. Aqui, na Califórnia., a vida não é muito cómoda, sobretudo para os ianques.
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— Você é o «Perigoso», não é verdade? --- perguntou ela.
— Assim me chamam os amigos: Suponho que não quererá dizer-me o seu nome.
Nacho aproximou-se. Trazia na mão um pedaço de coiro caído da diligência. Era a asa duma maleta, à qual eslava preso um cantão. Leu em voz alta:
-- Luisa Davis, de Virgínia. Bonito nome!
Lançou-a ao fogo e montou seu cavalo, advertindo:
— Vamos, rapaz. As chamas podem atrair algum curioso.
«Perigoso» separou-se do grupo. Villarreal vigiava os cinco homens cuidadosamente, visto que todos estavam armados. O jovem que fora ajudante do xerife em Erva Boa levou a mão à aba do chapéu.
— Lamento muito o que acontece, menina Davis. Terão de caminhar bastante até que encontrem a primeira povoação. Com um pouco de sorte talvez o consigam sem apanharem alguma insolação. Assim terão oportunidade de conhecer uma das zonas mais interessantes da Califórnia. — Olhou os homens— Os senhores foram muito prudentes. Se eu levasse por companheira de viagem uma mulher como esta, não haveria ninguém que pusesse obstáculos. Mas é melhor estar vivo que heroicamente morto. Nisso têm razão.
— Você não, passa dum bandido, «Perigoso»! Mas acabará na forca sem a menor heroicidade!— gritou Luísa Davis com rancor. —.Os seus próprios amigos acabarão por odiá-lo! Pode estar certo disso! Há muitos como você no Oeste! Não tenha pretensões da herói É um bandoleiro e nada mais! Sim, um bandoleiro! 
Ramirez esteve tentado a dar uma, lição àquela ferazinha, mas não o fez. Nacho e Villarreal esperavam, vigiando o grupo que tinham imobilizado sob as suas armas. Cruzou o seu olhar com o da jovem e estremeceu. Pela primeira vez, baixou a cabeça, sem poder explicar o desassossego que o invadiu. Deu meia volta ao cavalo e afastou-se a trote.
— Nada de gracinhas, senhores! Guardem as suas forças para o caminho! E, se encontrarem uma ou outra caveira, não desanimem! — gritou-lhes Nacho.
Espantaram os cavalos da diligência. e afastara-se. Então, soaram tiros dos valentes passageiros, que se perderam sem atingir ninguém.
Treparam por um carreiro arenoso. Ramirez voltou-se para olhar o grupo e murmurou:
— A rapariga não resistirá... Talvez devêssemos...
— Não sejas agora tão sensível! — disse Villarreal. —Se algum deles tem coragem é ela. Demais, não passam de suínos ianques!

sábado, 27 de agosto de 2016

PAS665. Uma arma sem balas para o ajudante do xerife

Joe Stickwell esperava que os seus serviços fossem necessários, indolentemente recostado num cadeirão de verga, arrancando com a navalha as folhas a um pedaço de cana verde. Os, outros ajudantes deambulavam pelo povoado, indiferentes ao intenso calor que parecia abrasar tudo.
O velho Peter Troy, o primeiro ajudante do xerife Tindall, sentado à sua mesa de trabalho, olhava o rapaz de relance.
— Falei de ti com Tindall, rapaz — anunciou sem voltar a cabeça. — Já sabes que vou deixar isto...
Joe pôs-se um pouco; nervoso. Fechou a navalha com mais força.
— Ah... — foi tudo o que lhe ocorreu dizer.
—Está decidido a que ocupes o meu lugar. Disse-mo ele. Que te parece?
O rapaz agitou-se inquieto. Captava a ironia que se ocultava sob a amabilidade de Troy. O velho ressumava amargura e despeito. Andava havia umas semanas a intrigar Tindall para que desse o seu lugar ao seu próprio filha, um garoto inexperiente, mas o xerife recusara-se redondamente.
— Não sei nada a esse respeito. O assunto é com ele.
Peter inclinou a cabeça. O jovem Troy assomou à porta e o pai saudou-o com um gesto.
— Não há nada para mim, pai?
— Não, põe-te a andar! — Calou-se, e em seguida continuou, como se falasse para si próprio: — Alguns têm mais sorte...
Joe fez-se desentendido e dedicou-se à sua tarefa até que o próprio Tindall entrou na secretaria. Era um homem forte, de rosto congestionado. Falou aos gritos como sempre fazia:
— Ocupa-te 'disto., Peter! Um bêbado fechou-se na cavalariça do Vacarro e ameaça queimar tudo! É aquele bruto do Mesa! Está a defender-se a tiros! Há que arrancá-lo de lá, de qualquer maneira, nem que seja à força de chumbo! Correndo!
E Tindall desapareceu no mesmo instante. Peter esboçou um sorriso. Conhecia bem o Mesa. Era um louco perigoso, que, embriagado, se convertia numa autêntica fera. Era preciso arriscar a pele para o enfrentar. Três ou quatro homens poderiam conseguir alguma coisa com menos risco, mas, para um só, representava pouco menos que uma morte certa.
Joe levantou a cabeça, estranhando o silêncio que se seguiu às ordens de Tindall. O velho disse com calma:
— Isto é coisa tua, rapaz. Vai buscá-lo. Tens uma boa oportunidade para mostrares o que vales. Tindall diz que és um prodígio. Suponho que deves estar desejoso de o demonstrar.
O rapaz levantou-se, aborrecido com a atitude do velho, que apenas tinha por única desculpa o amor ao filho. Dirigiu-se à parede e retirou o seu cinturão com um só «Colt», negro e polido. Acercou-se de Troy, e postando-se em frente dele, procedeu com toda a calma ao exame do conteúdo do tambor, fazendo-o girar com o dedo polegar.
— Vou imediatamente, chefe. Se por acaso me demorar muito, pode mandar alguém recolher o meu cadáver. Os outros ajudantes devem estar muito ocupados no «bar»... mas encontrarão um momento livre.
Meteu a arma no coldre e deixou o pesado conjunto sobre a mesa. A cavalariça ficava atrás do edifício. Sem olhar Peter, saiu em busca do seu cavalo.
Troy ficou só e os seus olhos rodeados de pequenas rugas fecharam-se. Tinha ao alcance da mão o revólver do rapaz. Podia dizer-se que a vida de Joe Stickwell dependia daquela arma bem cuidada. Se o mexicano fosse abatido ,por Mesa, Tindall teria de dar o lugar a seu filho...
Já os seus dedos tocavam a coronha quando, arrependido da sua ideia, retirou a mão apressadamente. À entrada da porta ouviu o riso do seu filho, e, então, não hesitou mais. Retirou, o «Colt» do coldre e, com a maior rapidez, esvaziou o tambor, ficando com seis projéteis na mão. Só teve tempo para repor a arma no seu lugar e apertar o punho para esconder a prova da sua canalhice. Joe entrou e, sem se deter, pegou no cinturão e ajustou-o às ancas rapidamente.
— Boa sorte, rapaz! — desejou Peter, corando um pouco.
— Ora, ora! Suponho que você, para chegar ao posto que ocupa, deve ter roído ossos mais duros. Não é assim?
As passadas enérgicas do jovem afastaram-se e em seguida ouviu-se o bater da porta ao fechar-se. Foi então que Peter Troy abriu os dedos, quedando-se a mirar as seis balas que retirara do carregador. Murmurou:
— Isto é pior que disparar a um homem pelas costas! Mesa vai matá-lo com toda a impunidade.
Esteve tentado a correr atrás de Joe para o prevenir de que estava desarmado. O primeiro ajudante tinha na sua história muitos feitos de abnegação e valentia, e nunca julgou que fosse capaz de planear um assassínio repugnante comi tanta frialdade.
Levantou-se repentinamente e resolveu sair para tomar um pouco de ar, embora fizesse um calor abrasador. Além disso, queria estar na primeira fila quando chegasse a notícia do sucedido. Era preciso desviar os comentários para onde lhe convinha. Examinaria o revólver e diria:
— «É possível? Ele tinha a arma descarregada! Esqueceu-se de encher o tambor!».
Passou pelo corredor e foi colocar-se à porta. Então, abriu muito os olhos, surpreendido, incapaz de compreender. Todo o sangue lhe subiu ao rosto, e por fim, conseguiu perguntar ao homem que naquele momento saía do gabinete do xerife:
— Que fazes aqui? E Mesa? Não foste buscá-lo?
Joe Stickwell sorriu-lhe satisfeito. O velho temeu que a sua patifaria houvesse sido descoberta e Joe o tivesse ido acusar a Tindall. Levou a mão à cintura, na prevenção de qualquer contingência. O rapaz respondeu:
-- Não. O xerife chamou-me quando eu me retirava Para me consultar sobre umas coisas. Por isso, não fui à cavalariça do Vacarro...
Peter tranquilizou-se, e quase se alegrou de que o rapaz não tivesse comparecido à sua entrevista com a morte. Fingiu-se aborrecido e resmungou de mau modo:
— Muito bem! E, entretanto, o bêbado que incendeie a povoação! O que teria Tindall para…
O sorriso de Joe ampliou-se mais ao interromper o homem:
— Não se preocupe, Peter. Aquele louco já deve ter sido posto a bom recato. Tindall mandou lá o seu filho... O rapaz ia entusiasmado. É de boa têmpera!
Joe dizia isto de boa fé, e por isso ficou bastante surpreendido ao ver a expressão crispada de Peter Troy, que exclamou furioso:
— Tom? Diabos o levem! Mas se ele nem sequer levava uma arma! Deixou a dele na secretária!
— Não, Peter. O rapaz vai bem armado. Pana não perder tempo dei-lhe o meu «Colt»... Mas... que tem você? Peter! Responda! Que se passa?

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

BIS111. Traição Fatal

 
(Coleção Bisonte, nº 111)
 
A ação desta novela passa-se no Estado da Califórnia num momento em que esta ainda não tinha sido integrada na União e em que eram conflituosas as relações entre aqueles que pretendiam a sua ligação ao México, a sua consolidação como estado independente e a sua integração nesse espaço mais vasto.
Esse formidável conflito levou a que um respeitável mexicano (Ensenada) reunisse um conjunto de homens com o objetivo de criar os maiores problemas aos «Ianques».
Joe Stickwell, um homem de sangue mexicano e descendente de uma irlandesa foi vítima de formidável traição por um companheiro que era ajudante do xerife de Erva Boa. Este, num momento em que ele fora mobilizado para dar caça a um malfeitor, retirou as balas da pistola que ele iria utilizar, procurando que a ação não lhe saísse bem de forma a ver-se livre dele. Mas um imprevisto de última hora acabou por fazer com que o seu próprio filho fosse encarregado dessa tarefa, acabando o mesmo por levar a arma que ele tinha descarregado.
A morte do jovem foi impossível de uma explicação e todas as suspeitas recaíram sobre Stickwell o qual teve de fugir e acabou por se integrar no grupo de Ensenada sem perder a vontade de esclarecer o que se tinha passado. As balas que o traiçoeiro ajudante de xerife tinha retirado da arma foram-lhe sendo enviadas uma a uma com mensagens incitando-o a dizer a verdade. A última bala seria a que o levaria para o paraíso.
Cesar Torre aparece aqui numa fase muito produtiva da sua carreira com uma novela muito interessante, um bom retrato do conflito que naqueles anos dividia a Califórnia.

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