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sábado, 2 de abril de 2016

PAS611. Senhor da vida e da morte

Ulisses Morgan, fiel ao seu programa, começou a passear na rua principal de Mesilla. O dono duma taberna correu pressuroso a convidá-lo. Ulisses tinha-lhe curado a esposa de uma doença que a fazia sofrer pavorosamente, e o pobre homem desfazia-se em gratidão.
— Doutor, desta vez tem de ser! Fico zangado com o senhor se não aceita urna bebida!
— Bem sabe que eu não bebo, Powell. É necessário que as minhas mãos não tremam.
— Oh! As suas mãos são milagrosas! O senhor seria capaz de salvar um moribundo, ainda que tivesse despejado um barril!
Morgan sorriu, entrando com o homem na taberna. Imediatamente se formou um círculo em redor dele. Toda aquela gente o adorava. Morgan começou a pensar no que aconteceria se eles soubessem das suas atividades noturnas.
«Estou convencido de que as admitiriam. Eles não ignoram que eu tenho o direito de matar. A sociedade está em dívida para comigo. Deve-me muito mais vidas do que aquelas que eu sacrifico».

sexta-feira, 1 de abril de 2016

PAS610. Pombas mensageiras da morte

Ulisses Morgan, mais elegante e atraente do que nunca, vestido de luto pesado, fazia adejar as suas brancas mãos, enquanto murmurava em tom pesaroso:
— Foi uma coisa terrível! Eu, que tantas vidas tenho salvado, nada pude fazer por ela. Impotente perante a morte, tive de ficar a contemplá-la, perdidas as esperanças de a ver novamente ao meu lado. Como a vida é dura!
Maria Bustillo sentia os olhos marejados de lágrimas ao escutá-lo. Acabavam de regressar do funeral de Helena. A rua estava pejada de gente que aguardava a oportunidade de expressar ao doutor Morgan quanto sentiam o golpe que o destino lhe vibrara.
— Não desanime, senhor doutor. Ainda tem o seu filho para o consolar.
— Pobre criança! Que passo fazer por ele; eu, um homem sozinho e sempre atarefado? Para que a desgraça seja completa, você parte, Maria, e...
— Não posso ficar, senhor doutor.
— E porque não? Por recear o que as más-línguas possam começar a dizer? Isso é uma rematada tolice, Maria. O meu filho precisa de si. Eu próprio sentirei a sua falta, se agora nos abandona. Não se preocupe com o que possam dizer. De futuro, passarei a dormir no consultório. Não quero voltar a ficar no quarto de casal, onde tudo me recorda Helena.
A rapariga estava hesitante. Como resistir a uma súplica do doutor Morgan, que sempre se mostrara tão bom?
— Posso... experimentar. Na verdade, antes de morrer, a senhora pediu-me que tomasse conta do filho.
— Não disse mais nada? — perguntou Morgan com mal dissimulada ansiedade.
— Nada mais. Morreu a pensar no filho... e no senhor — mentiu a jovem.
Morgan soltou um suspiro de alívio, e saiu de casa. Cá fora teve de apertar a mão às inúmeras pessoas que o esperavam para lhe apresentar condolências. Quando se conseguiu libertar, dirigiu-se diretamente para casa de Flamma. Este também ¡á havia sido enterrado sem que ninguém se tivesse preocupado com a sua morte.
Quando .o doutor manifestara desejo de ficar com as pombas que haviam pertencido ao falecido, responderam-lhe:
— Fique com as pombas, a casa, e o resto, se houver algum resto.
Morgan entrou na casa, lançando um olhar divertido para a cama de Flamma onde ainda se viam manchas de sangue. Tal como esperava, havia uma pomba revoluteando à entrada do pombal. Agarrou-a facilmente e tirou-lhe o anel que trazia numa das patas. Deste, extraiu um papel que dizia:
«Questão resolvida. — C.»
— E bem resolvida — comentou doutor para consigo.
As suas mãos crisparam-se sem que tivesse consciência disso. Quando os seus dedos se abriram de novo, a pobre pomba que trouxera a mensagem caiu inerte no chão, reduzida a um simples monte de penas sem vida.

quinta-feira, 31 de março de 2016

PAS609. O destino dos que sabem demais

— Minha senhora! O doutor está a dizer-lhe adeus. Não lhe quer corresponder?
Maria Bustillo, a jovem mexicana, fitava Helena Morgan, admirada. Com um suspiro, Helena virou-se para trás e agitou a mão. Enquadrado no umbral da porta estava Ulisses Morgan que, muito risonho, lhe acenou em sinal de despedida. Helena virou-se novamente para a frente e ficou a olhar para o filho que estava ao colo de Maria, procurando agarrar as rédeas, pois era a mexicana quem conduzia o carro.
— Vamos? Não percamos mais tempo. Quero chegar a Santa Fé quanto antes.
— Não percebo como o senhor doutor a deixa partir com o menino, sem arranjar uma escolta para nos acompanhar. Santa Fé fica muito longe!
— Nada receies, Maria. Viajaremos apenas de dia.
— Qualquer pessoa diria que a senhora não sente pena de se separar do seu marido!
Helena sentiu-se corar. Com modos bruscos, cortou:
— Basta de comentários, Maria. Se não queres conduzir, eu seguro nas rédeas.
Maria Bustillo agitou as rédeas, incitando os cavalos. Não percebia nada do que se estava a passar. E, para consigo, comentou:
«É mais que certo que se zangaram. Isto, embora se tenham esforçado por aparentar que nada se passou»,
Resolveu não se preocupar mais com o assunto, permitiu ao pequeno Cris apoderar-se das extremidades das rédeas. O menino ria satisfeitíssimo, ao mesmo tempo que sua mãe começava a chorar silenciosamente. Maria achou que o melhor era fingir que não via.
Pouco a pouco, Helena foi readquirindo a calma. Começou então a falar com Maria acerca do que se lhes ia deparando pelo caminho, ou ainda sobre Santa Fé e a casa de seus pais, onde havia passado a mocidade.
Estavam a atravessar um terreno montanhoso, coberto de pó. De repente, surgiram três cavaleiros que pareciam ter brotado do solo. Apareceram pela frente, vindos da parte inferior da montanha. Maria, que foi a primeira a vê-los, soltou um grito que fez que a senhora Morgan emudecesse no meio da frase que estava a pronunciar.
— Minha senhora! — exclamou alarmada a rapariga mexicana. — Repare! Estão mascarados. Isto é um assalto!
Um dos cavaleiros destacou-se um pouco mais do grupo e, a pleno galope, disparou na direção do veículo, fazendo silvar um projétil por cima da cabeça das duas mulheres. A detonação assustou o cavalo que, valendo-se do facto de as rédeas irem quase soltas, deu um forte esticão.
Maria Bustillo era uma rapariga decidida e que não se intimidava facilmente. Pondo-se de pé, puxou violentamente por uma das rédeas, obrigando o cavalo a rodopiar sobre si próprio e a lançar-se de novo sobre o caminho que acabavam de percorrer. Porém, a manobra havia sido muito tardia. Os três cavaleiros, rindo com um som abafado devido aos sujos lenços que traziam sobre o rosto, rodearam o carro. Um deles lançou a mão ao freio do cavalo, obrigando o animal a deter-se.
— Eis o tipo de mulher que me agrada! Morena e com vistosa aparência! — gritou um dos bandidos aproximando-se de Maria e quase lhe encostando o cano do revólver ao peito.
— Pois vocês não são o tipo de homens por quem eu sinta simpatias. Cobardes e ladrões que se dedicam a assaltar mulheres, sempre me enojaram! E agora, saiam da frente. Esta senhora é a esposa do doutor Ulisses Morgan! Espero que não se atrevam a deter--nos!
Maria não parecia nada impressionada pelo revólver que lhe continuava apontado. Os homens riram, divertidos.
— Entregue essa bolsa, senhora. Talvez contenha alguns valores que nos façam arranjo.
Terrivelmente pálida, Helena Morgan estendeu a bolsa perdida. O conteúdo desta foi logo espalhado no solo. O homem apoderou-se do dinheiro, deixando o resto. Outro dos bandidos estava a passar revista à cesta onde levavam as roupas. O pequeno Cris começou a chorar. Notava-se que reinava um certo nervosismo entre os três cavaleiros.
— Vamos embora! O melhor é não falarem a ninguém deste encontro, minhas beldades. Somos uns cavalheiros e, por isso, as deixamos partir sem mais exigências. Têm de concordar que não nos era possível demonstrar maior dignidade, tanto mais tratando-se de duas belezas como vós!
O que estava a fazer este discurso mantinha o seu revólver apontado às duas mulheres. Maria não parara de os insultar, ora em inglês, ora em espanhol. A senhora Morgan, apertando muito o filho conta si, mantinha-se imóvel. Apesar disso, o homem que empunhava o revólver, dirigindo-se a ela, gritou:
— Não faça isso, senhora! De que está à procura?
Helena Morgan olhou-o espantada, ao mesmo tempo que sentia algo embater-lhe no peito. O ruído do tiro coincidiu com o grito de Maria.:O cavalo que puxava o carro, assustado, partiu 'a galope, obrigando a rapariga, a cair para trás sobre o assento. Ainda ouviu o bandido a dizer:
— A...maldita procurava tirar um revólver! Tive de abatê-la!
Com muito custo, Maria conseguiu dominar o cavalo e obrigá-lo a parar. Tentou descobrir os cavaleiros, mas estes já haviam desaparecido. Muito ao longe, divisavam-se as suas silhuetas. Tinham abandonado o ter: reno.
— Senhora Morgan! Que loucura foi essa? Parece impossível!
Helena Morgan, muito inclinada para a frente, continuava agarrada ao filho. Maria puxou Cris para si. Ao ver o sangue que brotava por entre os dedos enclavinhados que Helena mantinha sobre o peito, a rapariga ia desfalecendo.
— Eu não tinha qualquer arma, Maria. Nem seque me mexi. Esse homem.... estava de tal modo assustado…
— Meu Deus! Eu bem disse que esta viagem era muito arriscada! Como se sente, minha senhora?
— Bem, Maria... Peço-lhe um favor. O menino... Não volte para Mesilla... Não o leve para junto do pai...
— Não mostre rancor numa altura destas, minha senhora! Já sei que se zangaram, mas não se queira vingar assim! E agora, deixe-me ver o que posso fazer. Talvez que...
— Não o leve para Mesilla, Maria! Não o leve! Trate você dele... Eu...
De repente, tombou no fundo da carruagem. A rapariga tentou segurá-la, mas não o conseguiu. Ao levantar-lhe a cabeça, Maria soltou um grito abafado.
Cris chorava aos pés de sua mãe. A senhora Morgan acabava de falecer. Maria, com os olhos rasos de lágrimas, não sabia que fazer. Estendeu o corpo da morta na parte de trás do carro e cobriu-o com urna manta. Depois, decidiu-se a regressar a Mesilla, pois ignorava a razão por que Helena pedira para ela afastar o seu filho de Ulisses Morgan.

quarta-feira, 30 de março de 2016

BIS107. Mãos traidoras


(Coleção Bisonte, nº 107)


«Nas suas longas viagens pelas montanhas, os pesquisadores de ouro não costumavam usar os cavalos como meio de locomoção. Os cavalos não só caíam com muita frequência, como se negavam em absoluto a passar pelos estreitos e escarpados caminhos que os solitários (mineiros tinham de percorrer para alcançar os ribeiros onde por vezes apareciam os tão desejados «coloors». Por isso davam a preferência a resignados burros que carregavam com o material necessário para ias explorações, indo eles a pé e à frente dos animais.
Nunca houvera um pesquisador tão otimista que se lembrasse de levar consigo um saco destinado a armazenar o ouro que viesse a encontrar, isto porque nenhum deles acreditava muito que essa possibilidade se viesse a verificar.
Quando a sorte bafejava um desses homens, competia ao asno transportar a fortuna que o dono tinha encontrado. E, nessa altura, lá vinha o pobre bicho ajoujado ao peso duma carga pessimamente distribuída por tudo que servisse para transportar o valioso metal: sacos de víveres, bacias de lavar minerais, peneiras de passar a areia, latas de conserva, o que calhava.»
É neste contexto, que Cesar Torre nos descreve a vida dupla de um médico que se dedicava a salvar a vida das pessoas, granjeando por isso elevada simpatia coletiva, mas que se dedicava a organizar assaltos aos desprotegidos pesquisadores ao ter conhecimento que estes transportavam algo através da troca de mensagens transportadas por pombos. As  mãos que salvavam eram também mãos traiçoeiras…
Um dia a sua atividade foi descoberta ela mulher que se tentou afastar, tendo sido sujeita a violento assalto e abatida. E o tempo foi passando, pensando o médico passar impune pelos seus crimes, até que alguém chegou à cidade e tudo se modificou.
 

 

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